Muitos já observaram que o confronto entre os EUA e o Irã tem sido acompanhado por uma retórica religiosa inflamatória.
O presidente Trump orou ostensivamente pelo sucesso da ação militar junto com líderes religiosos convidados à Casa Branca, e o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, exibiu uma tatuagem com a frase "Deus vult!" ("Deus o quer!", um lema que remonta às Cruzadas) e orou publicamente: "Que cada tiro acerte o alvo na luta contra os inimigos da justiça e de nossa grande nação... Conceda-lhes [às forças armadas dos EUA] sabedoria em cada decisão, fortaleza nas provações que virão, unidade inabalável e força esmagadora na luta contra aqueles que não merecem misericórdia."
Autoridades militares americanas reclamaram que alguns de seus comandantes estão declarando abertamente que a guerra com o Irã é um plano divino para apressar a segunda vinda de Cristo. Nem todos os cristãos ocidentais aprovam essa retórica. O Papa Leão XIV declarou que Deus não ouve as orações daqueles cujas "mãos estão cheias de sangue": "Este é o nosso Deus: Jesus, o Rei da Paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra... Ele não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita."
Em resposta, Trump declarou que não precisava de um pontífice que se opusesse às suas políticas. Quase simultaneamente, publicou uma imagem de si mesmo como o messias nas redes sociais, embora a tenha apagado posteriormente, explicando que a "imagem do médico" havia sido mal interpretada.
Mas de onde vem esse desejo de declarar Deus seu aliado militar? Comentaristas apontam para as peculiaridades de certos ramos do protestantismo americano, mas, infelizmente, o problema é muito mais amplo.
O nacionalismo religioso é um fenômeno relativamente antigo. Ele proclama que esta nação em particular foi escolhida exclusivamente por Deus, que seus interesses são também os interesses de Deus e que seus inimigos são (coincidentemente) os inimigos de Deus. E os inimigos de Deus, naturalmente, "não merecem misericórdia". Isso acontece com muitos — durante a Segunda Guerra Mundial, os Ustaše croatas se declararam defensores fervorosos do catolicismo, enquanto a Guarda de Ferro romena se declarou defensora fervorosa do cristianismo ortodoxo.
As tentativas de usar o nome de Deus em propaganda não são novidade — em tempos de conflito militar (e até mesmo político), as pessoas usam todos os recursos à sua disposição, e a religião é vista como um desses recursos. Lembramos dos cartazes da Primeira Guerra Mundial, que retratavam Cristo liderando os guerreiros de um ou outro exército europeu para a batalha, enquanto os soberanos beligerantes oravam piedosamente pela vitória.
A tentação de incluir o Senhor Deus entre nós permanece sempre forte — e as pessoas sucumbem a ela facilmente. Mas o que isso significa hoje?
Os secularistas temem que tais políticos sejam fanáticos desvairados, prontos para incendiar o mundo inteiro por suas visões místicas. De fato, a luta por interesses nacionais, recursos e influência não é uma questão sagrada. Em última análise, as partes avaliam seus recursos e capacidades, benefícios e custos, e concluem uma paz negociada.
Mas a batalha sagrada entre os filhos da luz e os filhos das trevas não pode terminar com um acordo. Quando um político declara que está enfrentando o mal cósmico, que Deus pessoalmente lhe confiou para esmagar, isso cria um sistema de coordenadas completamente diferente, no qual qualquer tratado é uma traição a tudo o que é sagrado. O Arcanjo Miguel, líder dos exércitos celestiais, não pode fazer as pazes com Satanás por meio de concessões. O Armagedom deve terminar com o fim do mundo, não com mais uma divisão de esferas de influência. Portanto, quando políticos se apresentam como guerreiros da luz, guerreiros do bem, o público secular reage com certo nervosismo.
O público religioso também se perde facilmente aqui, mas por um motivo diferente. Os crentes tendem a ver esse tipo de religiosidade nos políticos como manipulação cínica, e não como fanatismo.
A impostura religiosa não é novidade; qualquer pessoa interessada na vida espiritual conhece a existência tanto de entusiastas fervorosos, convencidos de serem "instrumentos da verdade transcendental", quanto de cínicos frios que fingem tal fervor para manipular as pessoas. Os crentes logo começam a reconhecer a invocação de Deus como uma tentativa de manipulação: "Você acredita em Deus? Excelente! Agora vamos lhe explicar o que esse seu Deus quer de você. Ele quer exatamente o que nós queremos."
O mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7) aplica-se não apenas ao uso desrespeitoso do nome de Deus, mas também (principalmente) ao seu uso egoísta – quando uma pessoa usa o nome de Deus para seus próprios fins pessoais, financeiros, políticos ou outros.
Quando políticos que não compartilham essa atitude reverente em relação às coisas sagradas tentam explorá-las para fins político-militares atuais ("e nos apropriaremos do nome de Jesus para propaganda militar"), isso pode provocar não entusiasmo, mas repulsa entre os fiéis sinceros. "Quem são vocês para me dizer o que Deus quer de mim?" Assim, na tentativa de reforçar sua própria credibilidade, os políticos podem miná-la. Uma abordagem muito mais razoável, produtiva e piedosa seria manter as decisões políticas separadas das religiosas.
Existem exemplos notáveis disso na cultura de língua inglesa. Por exemplo, C.S. Lewis escreveu em seu livro "Amor": "O bom do antigo patriotismo era que, embora inspirasse os homens a feitos heroicos, ele sabia qual era o seu lugar. Sabia que era um sentimento, nada mais, e que as guerras podiam ser gloriosas sem pretender ser sagradas."
Deus é o Criador de todo o universo e de todos os povos. Deus ama a todos e busca o bem e a salvação de todos. Ele não pode ser "privatizado" ou apresentado como uma divindade privada a serviço de interesses nacionais. Quando políticos tentam fazer isso, às vezes parece assustador, mas, na maioria das vezes, soa insuportavelmente falso.
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