Marx, Engels e a escrita da História

Página escrita por Marx, parte dos manuscritos de A ideologia alemã. Imagem: Wikimedia Commons

Por Michel Goulart da Silva

Em meados de 1846, Karl Marx e Friedrich Engels concluíram a escrita de uma versão do manuscrito de livro que ficou sem publicação durante vida dos autores. O texto, que chegou ao público de forma tardia e bastante fragmentária, conhecido como A ideologia alemã, acabou sendo considerado, por seus autores, uma forma de sistematizar a compreensão da realidade que vinham desenvolvendo. Marx, anos depois, explicou o objetivo dessa obra, que seria o de 

“[…] salientar o contraste de nossa maneira de ver com a ideologia da filosofia alemã, visando, de fato, acertar as contas com a nossa antiga consciência filosófica. O propósito se realizou sob a forma de uma crítica da filosofia pós-hegeliana. O manuscrito [A ideologia alemã], dois grossos volumes em oitavo, já se encontrava há muito tempo em mãos do editor na Westphalia, quando nos advertiram que uma mudança de circunstância criava obstáculos à impressão. Abandonamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos, tanto mais a gosto quanto já havíamos alcançado nosso fim principal, que era nos esclarecer”.1

O livro A ideologia alemã, que viria a ser publicado apenas em 1932, tem como sua parte mais conhecida aquela dedicada a criticar Ludwig Feuerbach. Encontram-se nessa parte passagens famosas, como a discussão sobre a base material da sociedade e sua influência sobre a formação de ideias. Está nessa parte também a discussão sobre como essa base material impacta na produção da vida das pessoas e na organização da sociedade. Dessas concepções se desdobra uma compreensão não apenas de História como, também, de historiografia, ou seja, apresentam uma forma marxista de escarar a escrita da História. 

Embora não seja exaustivamente discutido no livro, é possível apreender alguns importantes aspectos dessa concepção. Seguindo o método de exposição que seria consagrado por Marx em O capital, os fundadores do materialismo histórico apontam a forma como aparece a história: 

“A história nada mais é do que o suceder-se de gerações distintas, em que cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças de produção a ela transmitidas pelas gerações anteriores; portanto, por um lado ela continua a atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições, o que então pode ser especulativamente distorcido, ao converter-se a história posterior na finalidade da anterior”.2 

Para Marx e Engels, conforme explicado posteriormente, o central passava por delimitar a diferença de sua concepção com aquela expressa pelos hegelianos. Como parte dessa polêmica, procuram se diferenciar de uma compreensão idealista da história: 

“[…] essa transformação da história em história mundial não é um mero ato abstrato da ‘autoconsciência’, do espírito mundial ou de outro fantasma metafísico qualquer, mas sim uma ação plenamente material, empiricamente verificável, uma ação da qual cada indivíduo fornece a prova, na medida em que anda e para, come, bebe e se veste”.3 

Embora na atualidade possa parecer óbvio, depois do desenvolvimento e consolidação da História como ciência, Marx e Engels, em sua época, precisaram destacar que esta é uma construção humana e que sua compreensão está na forma como as pessoas produzem a sua vida, e não em suas ideias. Esses elementos são relacionados ao processo de exploração do trabalho pelas classes dominantes: 

“No desenvolvimento das forças produtivas advém uma fase em que surgem forças produtivas e meios de intercâmbio que, no marco das relações existentes, causam somente malefícios e não são mais forças de produção, mas forças de destruição (maquinaria e dinheiro) – e, ligada a isso, surge uma classe que tem de suportar todos os fardos da sociedade sem desfrutar de suas vantagens e que, expulsa da sociedade, é forçada à mais decidida oposição a todas as outras classes; uma classe que configura a maioria dos membros da sociedade e da qual emana a consciência da necessidade de uma revolução radical, a consciência comunista, que também pode se formar, naturalmente, entre as outras classes, graças à percepção da situação dessa classe”.4

Os autores estão chamando a atenção para o fato de que a história não é um suceder progressivo de um desenvolvimento linear, mas um processo de crises e transformações, em que da própria sociedade surge os elementos que a destruirão. Essa forma dialética de compreender o processo histórico coloca em seu centro as classes exploradas, que são o sujeito histórico que pode derrubar aquela sociedade e superar a estagnação das forças produtivas. 

Por outro lado, a conformação dessa estrutura material se expressa também em aspectos como a política, a cultura, as ideias, entre outros aspectos bastante destacados em análises feitas sobre A ideologia alemã. O Estado, em especial, se mostra um elemento importante no debate sobre a História: 

“[…] as condições sob as quais determinadas forças de produção podem ser utilizadas são as condições da dominação de uma determinada classe da sociedade, cujo poder social, derivado de sua riqueza, tem sua expressão prático-idealista na forma de Estado existente em cada caso; é essa a razão pela qual toda luta revolucionária dirige-se contra uma classe que até então dominou”.5

Chega-se, dessa forma, a uma síntese sobre a compreensão materialista histórica: 

“Essa concepção da história consiste, portanto, em desenvolver o processo real de produção a partir da produção material da vida imediata e em conceber a forma de intercâmbio conectada a esse modo de produção e por ele engendrada, quer dizer, a sociedade civil em seus diferentes estágios, como o fundamento de toda a história, tanto a apresentando em sua ação como Estado como explicando a partir dela o conjunto das diferentes criações teóricas e formas da consciência – religião, filosofia, moral etc. etc. – e em seguir o seu processo de nascimento a partir dessas criações, o que então torna possível, naturalmente, que a coisa seja apresentada em sua totalidade (assim como a ação recíproca entre esses diferentes aspectos).  Ela não tem necessidade, como na concepção idealista da história, de procurar uma categoria em cada período, mas sim de permanecer constantemente sobre o solo da história real; não de explicar a práxis partindo da ideia, mas de explicar as formações ideais a partir da práxis material e chegar, com isso, ao resultado de que todas as formas e [todos os] produtos da consciência não podem ser dissolvidos por obra da crítica espiritual”.6 

Marx e Engels diferenciam-se, portanto, da concepção idealista existente entre seus contemporâneos. Sua concepção mostra que a história,  

“[…] em cada um dos seus estágios encontra-se um resultado material, uma soma de forças de produção, uma relação historicamente estabelecida com a natureza e que os indivíduos estabelecem uns com os outros; relação que cada geração recebe da geração passada, uma massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que, embora seja, por um lado, modificada pela nova geração, por outro lado prescreve a esta última suas próprias condições de vida e lhe confere um desenvolvimento determinado, um caráter especial – que, portanto, as circunstâncias fazem os homens, assim como os homens fazem as circunstâncias”.7 

Delimitada sua compreensão de história, Marx e Engels procuram expressar um balanço do que se desenvolveu até aquele momento. Os autores destacam as características idealistas dessa historiografia, afirmando: 

“Toda concepção histórica existente até então ou tem deixado completamente desconsiderada essa base real da história, ou a tem considerado apenas como algo acessório, fora de toda e qualquer conexão com o fluxo histórico. A história deve, por isso, ser sempre escrita segundo um padrão situado fora dela; a produção real da vida aparece como algo pré-histórico, enquanto o elemento histórico aparece como algo separado da vida comum, como algo extra e supraterreno. Com isso, a relação dos homens com a natureza é excluída da história, o que engendra a oposição entre natureza e história. Daí que tal concepção veja na história apenas ações políticas dos príncipes e dos Estados, lutas religiosas e simplesmente teoréticas e, especialmente, que ela tenha de compartilhar, em cada época histórica, da ilusão dessa época”.8

Marx e Engels criticam duas expressões da historiografia. Por um lado, rejeitam a história escrita como uma expressão de pensamento e das ideias e que busca demonstrar uma espécie de desenvolvimento linear do “espírito”. Marx e Engels, ao criticar a filosofia hegeliana e a historiografia que dela se desdobra, apontam que essa é uma perspectiva “para a qual não se trata de interesses reais, nem mesmo políticos, mas apenas de pensamentos puros”.9 Essa é uma concepção idealista da história, em que esta se explica por fora da realidade construída pelo ser humano concreto.  

Marx e Engels também criticam uma forma de encarar a história como uma mera descrição das formas mais aparentes, em especial associada a figuras públicas, a governos e ao Estado. Marx e Engels apontam na direção de Bruno Bauer, criticando 

“[…] seu objetivo de escrever uma história do passado para fazer resplandecer com a maior intensidade a glória de um personagem não histórico e de suas fantasias, corresponde, pois, que não seja citado nenhum dos verdadeiros acontecimentos históricos, nem mesmo as intervenções verdadeiramente históricas da política na história, e que, em seu lugar, nos seja oferecida uma narração que não se baseia em estudos, mas sim em construções artificiais e em intrigas literárias”.10

Essa concepção criticada por Marx e Engels acabou ganhando força no processo de desenvolvimento  da História. Os Estados nacionais em consolidação no final do século XIX, como Alemanha e Itália, contribuíram no fortalecimento dessa concepção, em sua busca por constituir uma história “oficial”. São desdobramentos dessa concepção a chamada “história historizante” ou “história episódica”, segundo a qual 

“[…] a missão do historiador consistiria em estabelecer – a partir dos documentos – os ‘fatos históricos’, coordená-los e, finalmente, expô-los coerentemente. Os ‘fatos históricos” seriam aqueles fatos singulares, individuais, que ‘não se repetem’; o historiador deveria reconhecê-los todos, objetivamente, sem optar entre eles. Seriam encarados como a matéria da história, que já existiria latente nos documentos, antes de historiador ocupa-se destes”.11 

Marx e Engels, ao negar a história como um progresso do “espírito” e como a ação de “grandes homens”, destacavam as contradições da sociedade, cuja base está na exploração do trabalho e na luta de classes. Em sua obra, destacam que, “de acordo com nossa concepção, portanto, todas as colisões na história têm sua origem na contradição entre as forças produtivas e a forma de intercâmbio”.12 Parte-se da realidade material para escrever a história, e não de ideias preconcebidas nem da propaganda ideológica dos contemporâneos. Segundo Marx e Engels, “quanto à história dos homens, será preciso examiná-la, pois quase toda a ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida dessa história ou a uma abstração total dela. A ideologia, ela mesma, é apenas um dos lados dessa história”.13

Portanto, ao realizar uma das primeiras sistematizações de suas ideias, Marx e Engels esboçaram, dentro de sua compreensão, também indicações de escrita da História. Para tanto, negaram as compreensões idealistas, fossem aquelas que vissem a história como um processo linear, fossem aquelas que se limitassem à descrição superficial de processos políticos. Com isso, apontaram para uma forma inovadora não apenas de compreender como de escrever a História, enquanto processo marcado pela luta de classes. 

***
Michel Goulart da Silva é doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e servidor técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).

Nota editorial

Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).

Notas

  1. MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 49. ↩︎
  2. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 40. ↩︎
  3. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 40. ↩︎
  4. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 41-2. ↩︎
  5. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 42. ↩︎
  6. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 42-3 ↩︎
  7. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 43. ↩︎
  8. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 43-4. ↩︎
  9. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 44.  ↩︎
  10. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 45-6. ↩︎
  11. CARDOSO, Ciro Flamarion; BRIGNOLI, Héctor Pérez. Os métodos da história. 6ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 2002, p. 21-2. ↩︎
  12. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 61-2. ↩︎
  13. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 87, nota de rodapé. ↩︎

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