Milei é mais trumpista do que o próprio Trump.

O presidente argentino Javier Milei em uma foto de arquivo. Foto da AFP.

"Ser mais católico que o Papa" é uma expressão antiga e irônica que remonta aos debates turbulentos da Contrarreforma no século XVI. Surgiu no contexto das intensas lutas religiosas entre católicos e protestantes para criticar pejorativamente os fiéis que demonstravam um entusiasmo excessivo, servil e, muitas vezes, oportunista pelo Papa e pelas autoridades eclesiásticas romanas. 

A frase retratava os ultracatólicos ou bajuladores que, em seu afã de demonstrar uma devoção superior, adotavam posições ainda mais rigorosas, intolerantes ou aduladoras do que as do próprio Papa, chegando ao ponto de constranger ou incomodar a própria Cúria Romana com seu zelo excessivo. 

Com o tempo, a expressão transcendeu a esfera estritamente religiosa e tornou-se popular na linguagem cotidiana para se referir a qualquer pessoa que defenda uma causa, uma figura de autoridade ou uma instituição com um fanatismo maior do que o demonstrado pela autoridade ou instituição em questão.

Durante a Restauração Francesa, que começou em 1814 após a derrota final de Napoleão, a expressão "plus royaliste que le roi " (mais monarquista que o rei) ganhou popularidade. Essa frase surgiu em um clima de intensa tensão política para se referir, em tom irônico, aos ultramonarquistas que demonstravam uma devoção exagerada e radical à coroa, superando em muito a postura do próprio monarca. Esses grupos, compostos principalmente por aristocratas exilados, clérigos tradicionalistas e defensores ferrenhos do Antigo Regime, exigiam um retorno completo ao absolutismo, a recuperação integral das propriedades expropriadas e medidas severas contra qualquer vestígio de liberalismo. 

Seu fervor desenfreado frequentemente ultrapassava as posturas prudentes e conciliatórias que os próprios reis eram obrigados a manter para governar uma França ainda imersa em ideias revolucionárias. Ao longo dos anos, a expressão se espalhou para além da França e passou a ser usada para descrever alguém que defende qualquer causa ou autoridade com um zelo e uma intransigência que superam os da própria causa ou autoridade que alega apoiar.

É uma expressão depreciativa. 

Nestes tempos turbulentos, em que o passado e a história parecem determinados a invadir o presente com força, uma figura se destaca como um presidente mais trumpista do que o próprio Donald Trump, com todos os paradoxos que isso acarreta. Embora a competição esteja longe de terminar, o argentino Javier Milei ocupa claramente o primeiro lugar neste ranking de fervor. Ser mais trumpista do que o próprio Trump — embora muitos libertários se recusem a admitir — é, em essência, um exercício ridículo. Implica abraçar uma versão hiperbólica e caricatural do trumpismo, levando suas características mais estridentes a extremos que seriam inaceitáveis ​​até mesmo dentro das fileiras republicanas.

Estes não são tempos normais; a política internacional está em um de seus momentos mais intensos dos últimos anos. Em meio à escalada das tensões no Oriente Médio, o político argentino de extrema-direita Javier Milei afirmou, há alguns dias, em entrevista a um veículo de imprensa espanhol, que Donald Trump é “o melhor presidente da história dos Estados Unidos”.

Nem mesmo Benjamin Netanyahu é tão favorável a Trump quanto Javier Milei. E o primeiro-ministro israelense é o principal aliado internacional do governo Trump. O argentino não hesita em ultrapassar qualquer um que fale bem do presidente americano. 

A defesa dos valores ocidentais, parafraseando Milei, tem dois grandes representantes: primeiro, claro, o presidente Trump, e depois Benjamin Netanyahu. Aliás, o libertário argentino aproveitou a entrevista para mencionar que Bibi , como seu homólogo israelense é conhecido entre seus amigos mais próximos, é uma das pessoas mais inteligentes que ele já conheceu e “um amigo muito querido”.

Mas, não querendo ficar aquém, Javier Milei acrescentou que Donald Trump “deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz várias vezes pela luta que trava ao lado de Israel contra o estado terrorista do Irã, ou pelo que fez na Venezuela”. Não é segredo que o presidente americano almejava receber esse prêmio. E sim, ele acabou recebendo, mas como um presente, depois que a política venezuelana de extrema-direita María Corina Machado o “presenteou” a ele numa tentativa de ganhar a simpatia do presidente, que não havia endossado nenhuma de suas propostas anti-chavistas para a Venezuela. Milei, também sobre essa questão, precisa demonstrar seu inabalável trumpismo. 

Enquanto o número de mortos pelos bombardeios chega às centenas e os preços do petróleo sobem diariamente devido ao clima de guerra, Javier Milei não mede palavras, afirmando: “Tenho enorme admiração por ele; ele foi responsável por pôr fim a oito conflitos armados, com tudo o que isso implica em termos de salvar vidas humanas”. Esse é o triste papel que o presidente da Argentina escolheu: ser mais trumpista do que o próprio Trump.

*Analista Internacional 

@ValeQinaya


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