Viajei para Cuba em um comboio de ajuda humanitária e testemunhei em primeira mão os efeitos da política dos EUA: apagões, dificuldades totalmente evitáveis e um país inteiro submetido à pressão de seu gigante vizinho. (Yuri Cortez / AFP via Getty Images)
TRADUÇÃO: NATALIA LÓPEZ
Como cubano-americano que viajou recentemente em um comboio de ajuda humanitária, testemunhei as dificuldades diárias causadas pelas sanções. Os Estados Unidos devem suspender esse bloqueio devastador.
No último fim de semana de março, viajei para Cuba no comboio Nuestra América com uma delegação de cubano-americanos para entregar ajuda e demonstrar solidariedade aos nossos irmãos e irmãs cubanos num momento em que o embargo energético liderado pelos EUA está a mergulhar a ilha numa crise cada vez mais profunda. Entregámos material médico essencial ao Hospital Hermanos Ameijeiras, um dos hospitais mais importantes de Cuba, onde médicos e enfermeiros continuam a fazer milagres com recursos cada vez mais escassos. Entregámos alimentos diretamente a famílias no Parque Maceo, onde a escassez tornou até as necessidades básicas difíceis de obter. E fizemos parceria com ativistas LGBTQ para distribuir a ajuda.
São esses momentos de conexão e cuidado que ficam na memória. Mas a realidade que os torna necessários também permanece. Durante nossa viagem, testemunhamos a ilha mergulhar na escuridão após um colapso da rede elétrica. Nossos amigos e familiares ficaram sem eletricidade, sem ar-condicionado, sem qualquer alívio do calor. O silêncio que se seguiu foi impressionante. Nos obrigou a confrontar a magnitude da crise, que nenhuma estatística ou manchete consegue capturar completamente. É assim que a escassez se manifesta na prática.
De fora, é fácil reduzir a situação de Cuba à mesma velha política, um debate entre ideologia e governança. Mas, na prática, o quadro é muito mais humano e complexo. Conversamos com cubanos de todo o espectro político. Muitos foram francos e até críticos do governo. Mas todas as conversas compartilharam um fio condutor: um compromisso inabalável com a soberania e a independência. Independentemente das diferenças políticas, havia um amplo consenso de que a crise atual é causada, em grande parte, pela pressão externa imposta pelos Estados Unidos. Os cubanos querem poder decidir seu próprio futuro sem serem sufocados nesse processo.
Essa perspectiva muitas vezes está ausente das conversas nos Estados Unidos. Como cubano-americanos, ocupamos uma posição única e, por vezes, desconfortável nessa dinâmica. Muitos de nós crescemos em comunidades onde retornar a Cuba ainda é visto como tabu, até mesmo como uma traição. Esse estigma, enraizado em décadas de dor e deslocamento, continua a moldar a forma como nos relacionamos com a ilha e uns com os outros.
Mas é precisamente por causa dessa história que este momento exige algo diferente de nós. Dizem-nos que a política dos EUA em relação a Cuba reflete a vontade dos cubano-americanos, uma afirmação repetida tantas vezes que é tomada como certa. Mas isso obscurece uma realidade mais complexa. Há milhões de cubano-americanos neste país, e não somos um bloco monolítico. Cada vez mais, muitos de nós rejeitamos a noção de que as políticas de isolamento e pressão econômica nos representam. Nesta jornada, essa contradição tornou-se impossível de ignorar.
A crise em Cuba não se resume à falta de combustível, embora isso por si só seja devastador. Ela abrange tudo o que se segue. Quando o combustível é escasso, o transporte fica mais lento ou para. Os alimentos não podem ser distribuídos de forma eficiente. Os hospitais lutam para manter o funcionamento. O lixo não é coletado. Os efeitos se acumulam, impactando todos os aspectos da vida cotidiana. O que à distância pode parecer uma disfunção, muitas vezes, numa análise mais atenta, revela-se resultado de limitações materiais.
E, no entanto, mesmo em meio a esses desafios, algo profundamente comovente persiste. O tecido social de Cuba permanece forte. Há um profundo senso de responsabilidade coletiva, um compromisso com o cuidado que se manifesta de maneiras pequenas, mas significativas: vizinhos compartilhando comida, comunidades organizando apoio, artistas e ativistas criando espaços de alegria diante das dificuldades.
Esta é a Cuba que muitas vezes é ignorada: não uma caricatura, não um tema de conversa fiada, mas uma sociedade viva e pulsante que enfrenta imensos desafios enquanto se agarra à sua humanidade. Nada disso significa ignorar os problemas internos de Cuba. Como qualquer país, Cuba enfrenta sérios problemas políticos e econômicos. Esses debates pertencem ao próprio povo cubano e já estão acontecendo.
Mas o que muitas vezes é excluído do discurso americano é o papel que a própria política americana desempenha na formação das condições em que esses debates ocorrem. Uma política que restringe o acesso a combustíveis, limita as importações e penaliza a participação econômica não cria as condições para a abertura ou a reforma. Ela cria escassez. Ela cria dificuldades. Ela reduz o espaço no qual as pessoas podem imaginar e construir alternativas.
Se o objetivo é um futuro melhor para Cuba, essa abordagem não é apenas ineficaz, mas contraproducente. Já vislumbramos outro caminho antes. Períodos de interação limitada entre os Estados Unidos e Cuba, ainda que incompleta, levaram ao aumento da atividade econômica, a um maior intercâmbio e a uma sensação de possibilidade na ilha. Esses momentos sugerem que uma relação diferente não só é possível, como também benéfica. O que falta é a vontade política para buscá-la.
Partimos desta viagem com profunda tristeza pela situação em Cuba. É impossível não sentir isso depois de testemunhar a realidade diária que tantos estão vivenciando. Mas também partimos com um renovado senso de propósito. As políticas que contribuem para esta crise não são inevitáveis. São escolhas. E como americanos — especialmente como cubano-americanos — temos a responsabilidade de questioná-las. Isso começa com a honestidade, mesmo quando ela complica narrativas familiares. Significa rejeitar a noção de que crueldade e privação são ferramentas aceitáveis de política externa. E significa insistir em uma visão das relações EUA-Cuba baseada no diálogo, no respeito e na prosperidade mútua.
Por muito tempo, as vozes mais influentes na formulação dessa política não representaram todo o espectro da nossa comunidade. Isso está começando a mudar. Cada vez mais, estamos levantando nossas vozes, nos organizando e dizendo claramente: não em nosso nome. O futuro de Cuba deve ser determinado pelos cubanos. Nosso papel não é ditar esse futuro, mas sim remover as barreiras que o impedem de se desenvolver em seus próprios termos.
DANNY VALDESMembro dos Socialistas Democráticos da América na cidade de Nova Iorque.
"A leitura ilumina o espírito".
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