- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Na Teoria Estética de Adorno, o feio não é ausência de beleza, mas protesto contra a harmonia falsa da sociedade administrada, e a dissonância, o lugar onde a arte revela o horror que o belo insiste em ocultar
1.
Na Teoria Estética de Theodor Adorno está concentrada as proposições filosóficas do autor acerca da arte, suas transformações e relações para com a sociedade. Conectada a um longo percurso intelectual, que remonta à Dialética do Esclarecimento, a Teoria Estética se apresenta como obra de maturidade e acabamento deste percurso. Indissociável é a ligação existente entre esta brochura e o livro Dialética Negativa, também escrito durante a maturidade intelectual de Theodor Adorno. O que podemos encontrar em sua Teoria Estética é a aplicação e a atualização das teses presentes em sua Dialética Negativa.
Em Dialética Negativa, Theodor Adorno elabora sua posição crítica diante da dialética hegeliana (e marxista). Esta crítica está centrada na negação e rejeição das categorias de ‘identidade’, ‘unidade’ e ‘totalidade’, que para o autor, ao apontarem um momento acabado e fechado do movimento dialético estariam em contradição irreconciliável com o princípio dialético do movimento; para o filósofo a dialética, na verdade, tende é movimento e “ não tende para a identidade na diferença de cada objeto em relação a seu conceito; ela antes coloca o idêntico sob suspeita” (Adorno, 2009, pág. 127).
Além deste aspecto, Theodor Adorno aponta que a dialética herdada da tradição hegeliana enfatizou a negação da negação enquanto positividade e ao fazer isto a dialética sempre chega em seu momento acabado e fechado; o momento da negação se equivale ao momento da identidade neste esquema e assim “o princípio antidialético conquista sua supremacia no ponto mais íntimo da dialética” (Adorno, 2009, pág. 137). De modo mais abstrato, a crítica de Adorno se volta contra o próprio Conceito ao entender que ele é o produto fechado de um movimento que em tese deveria ser aberto.
A crítica filosófica ao sistema hegeliano e sua respectiva dialética coaduna em especial com sua Dialética do Esclarecimento. Nesta, Theodor Adorno já aponta a posição central do burguês, “sujeito lógico do esclarecimento” enquanto um administrador e os demais indivíduos enquanto ‘administrados’ (Adorno, 2014, pág. 112) . Em consequência, o mundo burguês seria um mundo administrado; este seria um mundo em que as formas sociais reificadas, concernentes à técnica e a divisão do trabalho do capitalismo industrial, se tornaram dominantes sobre os homens e sua liberdade.
A Dialética Negativa dialoga com a Dialética do Esclarecimento ao apontar que o sistema filosófico da dialética hegeliana teria engessado o movimento dialético, o que acabou por reproduzir a reificação no nível filosófico; este sistema ao propor um conceito acabado em si mesmo reforçou o ‘véu ideológico’ do mundo administrado. A concepção de uma sociedade administrada, em que o homem é desumanizado, está conectada ao entendimento de que o Conceito – composto por determinações tais como ‘unidade’, positivo’, identidade’ e ‘totalidade’ – é ele já em si mesmo a expressão filosófica da reificação de tal sociedade.
2.
Toda a crítica ao sistema filosófico hegeliano e à sociedade administrada, presentes tanto na Dialética do Esclarecimento, quanto na Dialética Negativa, irão aparecer na Teoria Estética. É através da categoria da ‘negação’ que Theodor Adorno irá elaborar suas análises acerca das transformações intra e extra-estéticas.
Se suas reflexões anteriores irão se voltar como protesto contra o amoldamento do homem diante do mundo e da filosofia diante do conceito, na Teoria Estética ele irá se voltar contra a arte que se amolda e serve para amoldar; à arte que está circunscrita ao circuito do mundo administrado. O autor irá propor um giro completo nas concepções estéticas; giro esse que irá desembocar na categoria oposta ao conceito do belo: a categoria do feio.
Se no período classicista o conceito do belo foi norteador de toda a produção artística e da reflexão estética, assim não procede na arte nova. No advento da sociedade administrada, em que reina a dominação, a arte, como pensada por Adorno, assume caráter de negação e se põe contraposta à sociedade. Ao assumir a arte como polo oposto à sociedade, Theodor Adorno argumenta que ela deve se orientar para além do conceito do belo e tomar como orientação o polo oposto de tal conceito: o conceito do feio.
A estética filosófica clássica, em especial Hegel, para Theodor Adorno restringiu o belo da diversidade e da vida, organizando-a, integrando-a na totalidade; a arte e o próprio belo perdem efetividade ao serem destituídos dos seus momentos particulares de negação. A integração da arte e do belo na totalidade mortificou os seus momentos e sua dinâmica. Na rede de tais argumentos, Theodor Adorno (2011, p. 88) conclui que “a totalidade absorve finalmente a tensão e se conforma com a ideologia” e “por causa do belo não há mais belo: o belo deixou de existir”. O belo passou a servir para a dominação na organização do todo.
Nos aspectos positivos da arte reside o aprazimento diante da barbárie, segundo Theodor Adorno. A arte autônoma, associal por essência por não se permitir ser engessada na organização, não deve se contentar com o belo e o prazer advindo dele. Esta arte deve buscar sua inspiração e satisfação nos elementos negativos que residem em si mesmo; a postura de deleite, típica da estética kantiana, é uma “injustiça para com os mortos, a dor acumulada e muda” (Adorno, 2011, pág. 69).
Para Theodor Adorno, o feio é aquilo que se encontra não organizado, posto fora da organização reificadora da dominação. Nas palavras do autor “a interdição do feio tornou-se do que não é constituído hic et nunc […] do bruto” (Adorno, 2011, pág. 77). É na arte moderna, contraposta à sociedade administrada, que faz surgir toda a importância do feio. O seu espaço na arte se daria enquanto protesto, do surgimento do novo contra a harmonia que nega a tensão das contradições e assim se põe como falsidade. Pois ainda “no feio capitula a lei formal como impotente” (Adorno, 2011, pág. 78).
3.
Theodor Adorno considera que a fealdade, em muitos casos, remete a destruição e a violência, mas não como fruição diante da barbárie, mas como horror diante das forças anti-humanas da dominação. Theodor Adorno percebe a contradição na revolta da consciência burguesa contra a fealdade: “A fealdade da paisagem transtornada pela indústria diz respeito a uma relação, a dominação visível da natureza, onde a natureza vira para os homens a fachada do não-dominado. Aquela indignação insere-se na ideologia da dominação” (Adorno, 2011, pág. 79).
Na sua defesa do feio enquanto categoria estética relevante, Theodor Adorno afirma que esta categoria surgiu historicamente como parte das lutas antifeudais. Quando os oprimidos e estigmatizados da sociedade feudal puseram-se a fazer arte, o feio se pôs como conceito: “O motivo da admissão do feio foi antifeudal: os camponeses tornaram-se capazes de arte” (Adorno, 2011, pág. 81). Na acepção daqueles que dominam a vida social em determinada sociedade e produzem suas normas e juízos estéticos, aqueles que buscam transformá-la e se dispõe como revolucionários são tidos como vulgares.
Como seres vulgares, resta na sua arte surgir apenas o repugnante e grotesco. Mas para Theodor Adorno, este ‘repugnante’ é a exteriorização da própria fealdade da sociedade, não posta nos oprimidos, mas na própria logicidade da dominação social. Por isso que para ele “a arte deve transformar em seu próprio afazer o que é ostracizado enquanto feio, já não para integrar, atenuar ou reconciliar […] mas para, no feio, enunciar o mundo que o cria” (Adorno, 2011, pág. 81 e 82). O feio se põe como invólucro da denúncia da dominação e o “testemunho do que tal dominação reprime e nega” (Adorno, 2011, pág. 82).
Theodor Adorno critica a estética do belo por esta impor a beleza como único motivo estético sério. Enquanto no conceito de belo reside o aprazimento e o deleite, na fealdade estaria posto apenas o sofrimento. Adorno (2011, p. 82) acidamente assinala a hipocrisia ideológica dos apologetas do belo: “os apologetas do estado de coisas existente nada de mais forte sabem contrapor a não ser que esse estado de coisas é já suficientemente feio e que, portanto, a arte deve votar-se à simples beleza”.
Mas o sofrimento e a crueldade na arte não são um elemento exterior a ela e ao belo. Na verdade, o “cruel é um elemento da sua auto-reflexão crítica” (Adorno, 2011, pág. 84); a forma artística amputa tudo que é sua matéria, pois seleciona aquilo que entra ou não no quadro, além de dispor da matéria alterando-a. Na visão do autor aqui estudado, o pecado original da arte é que ela oprime aquilo que ela elabora e bem-sucedidas são aquelas obras que preservam para a forma algo daquilo que elas violentam (Adorno, 2011, pág. 83). Sendo assim, em toda obra de arte, apesar da insistência em obnubilar o feio em detrimento do belo, ele sempre está lá: “mesmo dos objetos aparentemente mais neutros, que a arte se esforçava por eternizar como belos, irradia […] algo de duro, de inassimilável: de feio” (Adorno, 2011, pág. 84).
4.
Por tal que a dissonância aparece em Theodor Adorno como um dos mais relevantes elementos modernos da arte. Para ele, na dissonância o sensível é atraído irresistivelmente, mesmo que para a sensação da dor. Para o autor, a dissonância não seria apenas o momento ilógico destruidor da tonalidade, mas antes aquele que “mostra de maneira articulada, embora complexa, a relação dos sons nela presentes, ao invés de adquirir a unidade mediante um conjunto ‘homogêneo’” (Adorno, 1974, pág. 53); a dissonância é a forma musical em que os diversos momentos particulares não são homogeneizados e destruídos no todo da totalidade.
A relação da dissonância com o feio é nítida: a dissonância expõe a contradição da harmonia que nega a contradição que a engendra, assim como a fealdade faz diante da sociedade feia. Diz Theodor Adorno (2011, p. 77): “Dissonância é o termo técnico para a recepção através da arte que tanto a estética como a ingenuidade chamam feio”.
Visto o feio, o cruel e a dissonância enquanto negações interiores do belo, do aprazimento e da harmonia, a arte aparece como negação. Esta negação não está posta apenas em si mesma como um todo, mas com o todo que lhe é exterior: “o aspecto associal da arte é a negação determinada da sociedade determinada” (Adorno, 2011, pág. 340). Assim sendo, a arte autônoma, contraditória em si e em contradição com a sociedade que a engendrou habilita um vislumbre de um mundo para além da desumanização.
Porém essas possibilidades estão imersas no contraditório: “A arte, no século esclarecido que ela provoca, permanece fiel à Aufklärung. O que nela aparece já não é ideal e harmonia; o seu carácter de resolução só tem lugar no contraditório e no dissonante” (Adorno, 2011, pág. 133).
Tanto a arte autônoma que pode se vincular a funções ideológicas ao se transmutar em produto para o consumo de massas via indústria cultural, a arte nova também é capaz de expor as contradições da sociedade administrada. Citemos: “Se é verdade que a racionalidade subjetiva fim-meio, enquanto particular e fundamentalmente irracional, precisa de medíocres enclaves irracionais e como tal também prepara a arte, esta é, apesar de tudo, a verdade sobre a sociedade por, nos seus produtos autênticos, a irracionalidade da constituição racional do mundo se voltar para o exterior” (Adorno, 2011, pág. 134).
A presença da negação na arte aparece empiricamente, para Theodor Adorno, na iminência da dissonância na música nova, dodecafônica, em especial de Arnold Schoenberg. A negação deveria tender para o desconforto, para a dor, o horror e a crueldade como vimos. O deleite e o aprazimento, típicos da estética filosófica clássica, aparecem para Theodor Adorno como reificação diante do mundo administrado sob a égide da dominação. A arte de massas, prospectada pela indústria cultural, estaria saturada do caráter positivo; ou seja, afirmativo da dominação. Apenas uma arte negativa poderia, consequentemente, desvelar o horror da humanidade e apontar para a emancipação.
Sendo assim, é consequente que a arte de caráter afirmativo e baseada exclusivamente no conceito do belo é reificadora da ordem social. A arte nova enquanto negação da arte – e negação do belo por meio do conceito do feio – se torna negação da dominação; no socialmente feio, diz Theodor Adorno, são libertados poderosos valores estéticos. E justamente esta negação em forma de arte possibilita o vislumbre de um horizonte emancipado para além da sociedade administrada.
*Vinícius dos Santos Junqueira é mestrando em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Referência

Theodor W. Adorno. Teoria estética. Lisboa, Edições 70, 2008, 556 págs. [https://amzn.to/4tNa1lB]
Bibliografia
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Editora Zahar: Rio de Janeiro, 2014.
ADORNO, Theodor W. Dialética Negativa. Editora Zahar: Rio de Janeiro, 2009.
ADORNO, Theodor W. Filosofia da Nova Música. Editora Perspectiva: São Paulo, 1974.
"A leitura ilumina o espírito".
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário
12