O nordestino não ensina o caminho, ele vai com quem está perdido



Nonato Menezes

Os europeus veem latinos, africanos e asiáticos como inferiores. Muita gente do sul do Brasil, a maioria descendente de europeus, vê os nordestinos como inferiores. Isso vale para algumas culturas e certas religiões que veem o outro como pior ou como raça inferior. Esse comportamento denota mistura de ignorância e pavor diante do mundo, pois não percebem o mais básico em tudo que existe em nosso planeta, a diversidade. Do micro ao macro, é a diferença que define “o todo”.

Não tenho nada contra brasileiro ou brasileira que mora no sul, no sudeste ou em outra região qualquer, nada, nada. Acho estranho quando leio ou ouço alguém dizer que estado “a” ou cidade “b” são melhores que outros. Se há algo que melhor define nosso país é a diversidade. Não o ser melhor ou o pior. Mas as diferenças existem, tanto física quanto mental e social, isso é natural e muito bom.

As montanhas de Minas são espetaculares. Dirigir entre elas para quem não é da região é assustador, mas de uma beleza impa. Nas estradas do Mato Groso seu olhar cansa querendo chegar ao infinito. Assim é o Brasil, cheio de diferenças, plural em tudo.

Em 2010, pela primeira vez estive em Salvador, de carro. Era uma tarde de sexta-feira, entre 16 e 17 horas. Cheguei ao bairro que queria, mas entrei na rua errada e sem saída. Rua estreita, tumultuada, com carros e pessoas ocupando todo o asfalto. Meio ansioso, não observei bem o ambiente, mas vi mesas e cadeiras com muita gente bebendo, cantando e tocando nos dois lados da rua.

Aprendi cedo que o melhor a fazer quando se sentir perdido é parar e perguntar. Foi o que fiz. Mesmo em um carro com placa de fora, baixei o vidro e perguntei a um negro alto que se aproximou meio cambaleando e com olhos vermelhos.

Me diga por onde sair, para chegar na rua tal, perguntei a ele.

“Meu irmão, disse o rapaz, faz a curva aí, porque esta rua não tem saída. Tá vendo aquele sinal lá de onde você veio? É lá! Vire à esquerda que você vai chegar nesse endereço que você quer”.

Tomou a pouse de guarda de trânsito, fazendo gesto de pare para um veículo que se aproximava, até que concluí a manobra. Agradeci e retornei. Minutos depois cheguei aonde precisa chegar.

O que que ficou de recordação para mim foi a simplicidade do gesto, ainda que o autor não parecesse nada sóbrio.

Três anos antes estive num pequeno povoado à beira mar, também na Bahia.

Já estava escuro e o enderenço disponível não tinha rua, número etc. Eu tinha apenas um nome como referência: “Bar do Chicão”.

Saí do asfalto, sem saber se iria em frente, se à esquerda ou se à direita, melhor foi parar e, por sorte, apareceu um senhor que foi logo perguntando:

- “Para onde você vai?”

Ao “Bar do Chicão”, respondi.

Ele disse. Vá em frente, entre na terceira rua à direita, depois na segunda à esquerda. Aí você vai avistar a placa: “Bar do Chicão”.

Agradeci, dei boa noite e saí.

Errei a segunda entrada e algumas casas depois me deparei novamente com o senhor que havia me orientado, que percebendo que eu estava perdido, levantou a mão em sinal de pare. Parei. Ele perguntou: posso ir até lá com você? Claro, eu disse, entre aí. Três a quatro minutos depois cheguei, não ao “Bar do Chicão”, mas na casa onde eu tinha que ficar.

Agradeci-o e dei boa noite pela segunda vez.

O terceiro momento foi em Fortaleza, em 2011. Numa manhã saí para comprar umas guloseimas que o hotel não oferecia. Perguntei na recepção sobre um mercado próximo. Saí e em uma quadra depois encontrei um moço parado na esquina recostado à sua bicicleta. Perguntei-lhe onde era o mercado. Ele apontou a direção e perguntou se eu demoraria. Eu disse que não, seria apenas o tempo de fazer a compra e voltar. Para minha surpresa, ele retirou da carteira uma cédula de R$ 5,00 e pediu que comprasse uma garrafa de água para ele.

Até o mercado fui pensando naquele gesto inusitado. Um cidadão que nunca havia visto antes, me confiou aquele valor com uma simplicidade desconcertante. Algo visto somente com parentes ou amigos, jamais com estranho.

Como a água custava centavos àquela época, inclui o valor à minha compra e voltei. Entreguei-lhe a garrafa d’água e lhe devolvi a mesma cédula que havia me passado. Ele me perguntou se eu não havia pago. Eu disse que sim, que estava tudo certo. Ele me agradeceu, dei-lhe bom dia e desci a rua.

Já se passaram mais de quinze anos e aqueles momentos estão vivos em minha mente como se aconteceram ontem.

Em momento algum tive medo, não desconfiei e, talvez, pelo que percebi, a recíproca tenha sido verdadeira. Mas o que marcou mesmo foi a simplicidade dos gestos das pessoas desconhecidas. Gestos que só se manifestam nos espíritos onde o medo, a suspeita, a esperteza e a desonestidade ainda não afogaram os acenos de humanidade.


"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187


Comentários

  1. A honestidade ainda é um tesouro. o Nordeste Brasileiro.Vivi tudo isso e muito me sensibilizou.

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  2. A honestidade ainda é um tesouro. o Nordeste Brasileiro.Vivi tudo isso e muito me sensibilizou.

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