O PowerPoint da GloboNews



Por JALDES MENESES*

Ao trocar a verificação dos fatos pela gestão de impactos subjetivos, o jornalismo tradicional converte o debate público em um simulacro que pavimenta o caminho para o autoritarismo

1.

A extrema direita venceu a estrutura do discurso majoritário na mídia tradicional brasileira, cujo principal empenho não é a verdade possível desentranhada dos acontecimentos, mas a descrição do impacto no “cidadão comum” das “narrativas” da guerra política em torno desses acontecimentos. Mídias e extrema direita seguem o mesmo padrão. A diferença, quando existe, é meramente tonal: uma modula o escândalo com a gravata do comentarista isento; a outra o faz com o dedo em riste do militante digital.

Quem cunhou o termo “narrativa” (ou metanarrativa) foi o filósofo francês Jean-François Lyotard, lá nos idos de 1979, num dos textos matrizes de nascimento do pastiche filosófico pós-moderno, originalmente uma conferência encomendada ao Conselho de Reitores das Universidades do Canadá Francês, sobre as “novas condições do saber” em um tempo de mudança de época — da modernidade e do modernismo ao pós-moderno e ao pós-modernismo.[1]

Que metas narrativas Jean-François Lyotard considerava superadas nos novos tempos pós-modernos? O que Lyotard diagnosticava era uma interessada e nada ingênua “falência”, uma exaustão dos grandes relatos/narrativas unificadores da modernidade – o progresso, a razão, a revolução –, especialmente das “grandes narrativas” do marxismo e do Iluminismo, seguidas do idealismo alemão hegeliano.

Essas narrativas são consideradas superadas porque, para Jean-François Lyotard, fragmentaram-se em jogos de linguagem locais e pequenas narrativas (parcialmente inspirado em Ludwig Wittgenstein e na pragmática da linguagem). Acrescento a essa referência o Max Weber de A ciência como vocação,[2] para quem, no dilema da modernidade de apelar sempre ao profeta ou às estruturas sem rosto, resta o consolo do conforto íntimo dos pequenos grupos, sem pretensão de verdade universal ou sentido totalizante da história.

Jean-François Lyotard – que foi mais um pós-moderno da celebração do que um pós-moderno crítico – não se preocupou em deslindar a especialidade da metanarrativa do fascismo. Ao contrário do marxismo ou do liberalismo, cuja origem se dá no século XIX, o fascismo é uma forma política que surgiu no período entre guerras do século XX – o fascismo histórico.

Na época do pós-guerra, tratava-se de um assunto fora do radar das modas intelectuais, embora persistisse em pequenos círculos de vanguarda. Continuou havendo quem pressentisse o perigo. É o caso do cineasta e escritor neomarxista Pier Paolo Pasolini, que profetizou a latência de um “novo poder” ou “novo fascismo” – certamente a inspiração para a radicalidade do roteiro do filme Os 120 Dias de Sodoma, uma alegoria do caos e da liberação da energia negativa sadomasoquista que acompanhou os últimos dias da República Social Italiana (ou República de Salò), regime fascista nos estertores da Segunda Guerra Mundial.[3]

2.

Houve também autores pós-estruturalistas, como Michel Foucault, que abordou, no famoso prefácio de O Anti-Édipo, a possibilidade de uma “vida não fascista”, referindo-se a uma “arte de viver contrária a todas as formas de fascismo”. A vivência, e não a política, surge como antídoto ao fascismo. Essas críticas eram sintoma de que as regulações do antigo Estado de Bem-Estar Social estavam se exaurindo pelo neoliberalismo, contraparte filosófica da “crise fiscal do Estado” ou da “crise de legitimação do capitalismo tardio”.[4]

No cerne de tudo, havia um tipo social emergente nesse sistema de desregulações: alguém que Hannah Arendt, com muita soberba, chamava de “ralé”,[5] que nada mais é que o “indivíduo-mônada” do jovem Marx em A questão judaica.[6] Em suma, o indivíduo não organizado – desregulado pelo capitalismo de plataformas – na sociedade civil do século XXI transforma-se em presa fácil para o discurso do líder, do novo fascista, de Donald Trump a Jair Bolsonaro.

Antonio Gramsci levantou nos famosos Cadernos do carcére a importância da sociedade civil nos Estados de capitalismo “ocidental”, intuições que foram adaptadas pela esquerda do século passado para o Estado de bem-estar social e para o Estado ampliado pelas organizações civis. É preciso hoje resgatar essa questão em seus termos originais, ou seja, a emergência e a persistência do fascismo. O indivíduo “solto no mundo”, desregulamentado e desorganizado, é a presa das narrativas do fascismo ecoadas pelas mídias e redes sociais.

Quatro décadas depois, o conceito de narrativa continuou em voga – não obstante seu recuo e esgotamento no campo da filosofia profissional. Ele transbordou para o que podemos chamar, convencionalmente, de uma “filosofia do cotidiano ou do senso comum”. Os tempos fizeram a festa, nos anos 1980-1990, do “fim da história”.

Essa época foi suplantada pelos novos tempos do “fim do fim da história”, especialmente depois da crise de 2008. Curiosamente, a ideia de metanarrativa manteve-se resiliente. Dos salões da cultura filosófica da elite universitária, o termo saltou e foi capturado pelo repertório da extrema direita e do novo fascismo, e daí pulou para a banalidade imbecilizadora das mídias brasileiras – sinalizando que nele havia, mais que uma boutade erudita, veias vivas do novo “espírito do tempo” prenunciado pelas redes sociais, às quais as mídias tradicionais buscam se adequar.

3.

Diga-se, logo, que o insuportável predomínio das narrativas linguísticas, no sentido que Jean-François Lyotard prenunciava prevalecer na pós-modernidade, e não das antigas metanarrativas da modernidade, vem a ser uma característica típica das mídias tradicionais brasileiras. Procuro acompanhar, o mais que posso, as mídias estrangeiras, que padecem de outros graves problemas – e inclusive deste –, mas lá ainda há focos de resistência que desapareceram aqui. Há, na imprensa internacional, bolsões onde a primazia do acontecimento ainda não foi inteiramente substituída pela primazia da reação ao acontecimento. No Brasil, esse processo parece ter se completado de forma avassaladora.

Pratica-se, assim, uma espécie de epistemologia derivada, de segunda mão, cujo conhecimento nunca se reporta diretamente ao conhecimento do objeto, mas à especulação dos impactos das narrativas de um pseudobjeto subjetivo – a cena política – na mente desse sujeito fictício, o “cidadão comum”, construído pelas pesquisas contratadas que visam o aprimoramento desse discurso.

Houve um interregno nessa epistemologia: o processo eleitoral de 2022. É importante ressaltar que a GloboNews foi contra a política negacionista de Jair Jair Bolsonaro na pandemia e, até certo ponto, permitiu uma cobertura simpática à eleição de Lula 3, com o viés de mimetizar o discurso político de personagens como Armínio Fraga, Pedro Malan e Fernando Henrique Cardoso, que declararam voto em Lula 3 a partir de ideia de uma “frente ampla” contra o bolsonarismo. Assim, a emissora passou a veicular em seus programas a “virtuosidade” dessa ideia. Essa conjuntura, porém, já vai longe: agora a adesão à metanarrativa esboçada neste texto é total.

Passada a eleição e o primeiro ano de governo, a emissora chegou à conclusão, a partir de pesquisas qualitativas contratadas, de que vinha perdendo espaço junto a um tipo de espectador conservador moral e politicamente, e que seus programas e comentaristas tinham feição “de esquerda” ou “progressista”. Por isso, comenta-se que foi demitida a jornalista Daniela Lima.

A circularidade desse procedimento é total e, por isso mesmo, paralisante. Estabelece-se um jogo empático. Cria-se um “cidadão comum”, um tabula rasa atomizado como uma entidade supostamente apartada das elites, dotado de um senso de realidade jamais crítico e puramente reflexo. Em seguida, ela reporta como esse mesmo “cidadão comum” estaria reagindo aos últimos lances da guerra política – reação que, não raro, coincide exatamente com a pauta que a própria mídia elegeu. Estabelece-se um jogo de reciprocidades.

O boneco de ventríloquo fala, e o ventríloquo anota a fala do boneco como se fosse a voz das ruas. A operação é tão bem-sucedida que se torna invisível para quem a executa. Até parece que estou vendo e ouvindo o Gerson Camarotti ou a Ana Flor.

4.

Essa epistemologia de segunda mão tem consequências políticas profundas. Ao abandonar o exame da primariedade dos acontecimentos – isto é, daquilo que efetivamente ocorreu no mundo, com data, local e autoria –, o jornalismo abdica de sua função mínima de estabelecimento de um solo comum de realidade. O que resta é um mercado de versões, onde cada grupo político oferta a sua “narrativa” e a mídia se limita a aferir qual delas gerou mais engajamento, mais indignação ou mais identificação no tal “homem comum”.

A verdade deixa de ser uma busca, ainda que imperfeita, para se tornar um derivativo da popularidade. Nesse ambiente, a mentira bem contada – ou mal contada, mas repetida à exaustão – adquire o mesmo estatuto do fato verificado. Pior: adquire até mais valor, pois a mentira espetaculosa produz mais impacto, e é o impacto que a mídia aprendeu a medir e a vender.

É um discurso totalmente circular, que autoriza o vale-tudo, como, por exemplo, a banalização da violência e da transgressão dos limites da lei comum nos discursos. Assim, são plenamente aceitas atitudes como a calúnia – pois é disso que se trata quando Flávio Bolsonaro “denuncia” Lula como traficante de drogas e armas. Diz-se que “é do jogo”.

Note-se a arquitetura do disparate: uma acusação sem prova alguma, desprovida de qualquer lastro na realidade primária dos acontecimentos, é veiculada como “narrativa” de um campo político. A mídia, fiel à sua epistemologia de segunda mão, não pergunta “isso aconteceu?”, mas sim “qual o impacto dessa declaração no cidadão comum?”. A pergunta correta é sonegada; a pergunta errada é respondida com tabelas, gráficos e análises de comentaristas que, eles também, já se renderam à lógica da circularidade. Lembram-se do famoso e falacioso PowerPoint do Banco Master? O crime de calúnia se dissolve no ácido da metanarrativa.

Por isso – e este é o truque da GloboNews e das demais mídias –, o efeito do discurso de seus comentaristas é tão insuportavelmente plano e repetitivo. Não há ali pensamento se formando em tempo real, não há a fricção do intelecto contra a aspereza do real. Há apenas a administração burocrática do impacto, a gestão dos danos colaterais de uma guerra de narrativas da qual eles próprios são, ao mesmo tempo, cronistas e combatentes.

O telespectador que busca compreender o país é brindado com uma espécie de boletim meteorológico da opinião pública: “A pressão atmosférica da rejeição subiu dois pontos no Sudeste; a frente fria do descontentamento se desloca para o Centro-Oeste.” Sobre os acontecimentos que geraram essa pressão, silêncio ou, no máximo, um resumo apressado antes do intervalo comercial.

Não é por acaso que a origem de Donald Trump é a cultura de massas, pois só dela pode sair o Adolf Hitler do século XXI. Donald Trump não é uma aberração do sistema político americano que o antecedeu; ele é a realização mais acabada de uma lógica midiática que já operava há décadas. Antes de ser candidato, Donald Trump era um personagem de reality show, um emblema da cultura de massas que confunde autenticidade com performance e verdade com audiência. Quando essa lógica migra do entretenimento para a política, o que se obtém é um líder que não precisa governar sobre fatos – basta-lhe governar sobre narrativas.[5]

A mídia tradicional brasileira, ao abraçar a epistemologia derivada do discurso, digamos assim, de segunda mão, está pavimentando, pela segunda vez, o caminho para o seu próprio Donald Trump tropical. Está, no fundo, treinando o “cidadão comum” para aceitar que a realidade é apenas mais uma opinião entre tantas outras, e que a mais ruidosa delas merece o microfone. Contra isso, só há um antídoto: a obstinação pelo acontecimento primário, pela verdade desentranhada, por mais incômoda e por menos “impactante” que ela seja.[6]

*Jaldes Meneses é professor titular do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Notas


[1] LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021.

[2] WEBER, Max. A ciência como vocação. In: Metodologia das ciências sociais. São Paulo: Cortez/Unicamp, 1992. v. 2, p. 453.

Considero este texto, uma palestra de 1919, um dos primeiros que anuncia uma espécie de “sensibilidade” pós-moderna no que tange aos “grandes relatos”, quando o autor diz, por exemplo: “Hoje em dia, só nos pequenos círculos comunitários, no contato homem a homem, em pianíssimo, se encontra algo que poderia corresponder ao pneuma profético que mantinha as comunidades antigas e as mantinha solidárias”.

[3] PASOLINI, Pier Paolo. Escritos corsários. São Paulo: Ed. 34, 2020.

[4] FOUCAULT, Michel. Preface in: Gilles Deleuze e Félix Guattari. Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia, New York, Viking Press, 1977, pp. 11-14.

[5] ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010.


"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários