O presidente da Síria enfrenta dificuldades com seu novo papel como representante de Washington. E água engarrafada.

© Foto: Domínio público

Martin Jay

Para onde está caminhando esse casamento por conveniência?

Para muitos, a visão do presidente sírio em sua turnê mundial para se encontrar com líderes ocidentais será perturbadora. Afinal, trata-se de um terrorista cujo legado é arrepiante. Quem pode esquecer as decapitações de jornalistas estrangeiros e trabalhadores humanitários, ou daqueles que foram queimados vivos em jaulas? E há também a icônica foto dele segurando duas cabeças decepadas.

Na verdade, a infame foto não era de Mohamed Al Jolani, mas sim de um jihadista australiano que acabou sendo morto na guerra, porém seu passado como líder da Al Nusra, um grupo dissidente do ISIS, não pode ser refutado ou apagado dos arquivos da internet.

Jolani, ou como prefere ser chamado atualmente, Al-Sharaa, foi o líder do grupo terrorista extremista mais brutal dos últimos tempos, um fato que não será esquecido facilmente. No entanto, seu reconhecimento atual de ser um líder com quem o Ocidente pode trabalhar serve como um lembrete de que os EUA, o Reino Unido, a França e outros países estão dispostos a financiar e apoiar terroristas no Oriente Médio, contanto que estes se submetam à hegemonia ocidental. O velho ditado "ele pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta" se aplica aqui, e a visita a Londres e Washington reforça a ideia de que Al-Sharaa continuará presente por um bom tempo após sua transformação pela CIA.

Al-Sharaa tem, sem dúvida, um histórico como jihadista, e pode-se argumentar que ele é uma criação das estratégias fracassadas dos EUA na região, após a invasão americana do Iraque em 2003.

Quando isso aconteceu, ele se juntou à Al Qaeda e depois ao grupo Estado Islâmico (EI). Após o início da guerra civil síria em 2011, ele fundou a Frente Al-Nusra, um grupo que por um tempo esteve ligado à Al Qaeda.

Em 2017, a Al-Sharaa uniu forças com outros movimentos islamistas para formar a HTS, que tomou o controle de parte da província de Idlib, no norte da Síria, e foi acusada de cometer abusos brutais contra dissidentes. Consequentemente, o Departamento de Estado dos EUA classificou a HTS como uma organização terrorista até recentemente, quando finalmente foi removida da lista negra do departamento.

Mas quem é ele e a quem serve? Embora a foto dos dois escalpos vá assombrá-lo por algum tempo (mesmo que nem fosse ele), há muitos outros mal-entendidos e mitos circulando na internet. O principal deles é que ele é um fantoche do Ocidente e um protegido do líder israelense Netanyahu, o que surgiu em grande parte quando os homens de Al-Sharaa tomaram Damasco e o controle da Síria em dezembro de 2024. Essa última ligação com Netanyahu se baseia em dois fatos principais. Primeiro, durante a guerra na Síria, Israel apoiou a Al-Nusra, permitindo que seus combatentes feridos operassem livremente em território israelense; e segundo, ao derrubar Assad, Al-Sharaa estaria idealmente alinhada a Israel e seus objetivos geopolíticos. Não é bem assim.

Na realidade, Netanyahu e Al-Sharaa são ideologicamente opostos em muitas áreas, embora ambos se oponham ao Irã e seus aliados na região. Al-Sharaa conta com o apoio do presidente turco, Recep Erdogan, que vem ganhando força contra Israel e suas ideias de criar um Grande Israel, abrangendo a Síria, partes do Iraque e da Jordânia — e o Líbano, é claro.

É claro que o Ocidente não quer que a Síria volte a ser algo sequer parecido com um representante do Irã, e por isso precisa de alguém que consiga manter a ordem, mesmo que seus métodos sejam bastante brutais. Isso foi bem resumido por um pesquisador de Damasco chamado Mahmoud Bitar, que parece acreditar que Al-Sharaa não é realmente um parceiro ou aliado dos líderes ocidentais, mas sim um agente pago.

“O Ocidente não confia em Al-Sharaa”, escreveu ele recentemente. “Al-Sharaa não se alinha ideologicamente com o Ocidente. Mas ambos os lados entendem que o caos contínuo na Síria não beneficia ninguém: alimenta o extremismo, desestabiliza a região e prolonga o desastre humanitário. O diálogo, por mais difícil que seja, torna-se a opção menos ruim.”

“A geopolítica não é uma história de heróis e vilões, de marionetes e manipuladores”, acrescenta. “É uma negociação constante entre restrições, riscos e escolhas ambíguas. Os Estados não podem escolher parceiros ideais; eles lidam com quem detém o poder e pode influenciar os resultados.”

Então, para onde caminha esse casamento por conveniência? Por ora, está claro que Al-Sharaa está feliz em desempenhar o papel de marionete do Ocidente para abrir caminho para a ajuda e o comércio com a Síria, que sofreu anos de sanções excruciantes que exauriram os recursos do país. Quando uma disputa de poder ganhar força entre Israel e Turquia, é provável que Washington se alinhe com o primeiro, alienando seu parceiro da OTAN, que foi o gênio por trás do golpe de Estado sem derramamento de sangue de Al-Sharaa — a menos, é claro, que as relações entre Trump e Netanyahu azedem repentinamente, e então Erdogan se tornaria uma ferramenta útil para os objetivos de Washington na região. O jogo de esperar para ver ainda tem algum tempo antes de fornecer respostas mais claras, mas, enquanto isso, o mundo terá dificuldade em se desvencilhar da imagem de um terrorista de terno barato, incapaz de abrir uma garrafa de água mineral moderna e tendo que depender de uma mulher ocidental para fazer isso por ele.

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