Omar dos Santos*
Sempre que penso na celebre frase do presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Delano Roosevelt, a meu julgamento um dos três melhores chefes daquela nação, tendo embora defeitos próprios de nossa espécie, "Ontem, 7 de dezembro de 1941 — uma data que viverá na infâmia — os Estados Unidos da América foram súbita e deliberadamente atacados pelo Império Japonês", penso também na notória e contumaz belicosidade do povo americano.
Parece-me que na formação da consciência sociopolítica e humanitária desse povo, persiste, como um fantasma, a herança sombria e malfazeja herdada de suas origens da Europa medieval, que atravessaram o Atlântico e perduram numa incessante perseguição que jamais cessará na cultura americana. Não sendo assim, como explicar sua aguda e histórica vocação para o litígio e a guerra. Há que se atentar que tal estigma se acentuou muito mais nestes tempos em que esse povo passou a ser governado por um grupo de canalhas liderados por um presidente psicopata, que vem mostrando ao mundo com riqueza de detalhes, as reais dimensões de sua arrogância, maldade e egoísmo.
Pois bem. Para justificar esta qualificação, vejamos o que a História nos mostra sobre as barbaridades cometidas por sucessivos governos da “Great American”, como eles falam de “boca cheia”, contra dezenas de nações mundo afora, sempre com o apoio incondicional de seu povo.
A história começa logo após a invasão do território americano realizada pelos europeus, muito antes de sua independência da Inglaterra, quando eles, deliberadamente, cuidaram de exterminar os nativos num genocídio que matou 95% da população originária, a dona da terra. Portanto, a nação americana já nasceu violenta.
Nas décadas de 30 e 40 do século XIX, prosseguindo em sua saga de violência contra outros povos, eles “literalmente tomaram” 55% do território mexicano, seus vizinhos de fronteiras.
A década de 60 daquele século ficou marcada na História Americana por ter sido o tempo em que se deu um dos conflitos mais sangrentos, verdadeira barbárie, da história moderna, a Guerra de Secessão. Estima-se que nela tenha morrido quase um milhão de americanos, 2% da população.
O advento da II Guerra Mundial, por variadas circunstâncias, possibilitou grande desenvolvimento econômico, político e, sobretudo bélico, aos Estados Unidos, transformando-os no país mais hegemônico dos tempos atuais. Assim, como é de sua natureza, eles usaram tal hegemonia para se intrometerem, invadirem e cometerem as maiores atrocidades contra outras nações. Cito aqui somente as mais abjetas, pois sua totalidade daria um livro.
Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, as forças armadas americanas jogaram 2 bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki respectivamente com a desculpa de que os japoneses não queriam acabar com a guerra, mas que como sabemos hoje, foi apenas para testar a eficiência da nova arma cujos efeitos nem eles mesmos conheciam.
Nos anos 1950 a 1953, o mesmo governo impôs à Organização das Nações Unidas – ONU, e o fez sob absoluta coação, uma autorização para invadir a Coreia do Norte. Nessa guerra, como está amplamente documentado, as forças armadas americanas fizeram experimentos com armas químicas e biológicas sobre a população coreana, usando patógenos (antraz, peste, varíola), bombas incendiárias de gás Napalm e desfolhante Agente Laranja, bombardeando de forma indiscriminada o território coreano, o que causou a destruição massiva da população civil e das florestas do país.
Na década de 1961 a 1971, durante a invasão do Vietnã, os americanos jogaram 388.000 toneladas de Napalm sobre o país invadido e lançaram cerca de 80 milhões de litros de herbicidas, incluindo o Agente Laranja destruindo quase toda a cobertura vegetal do país. O objetivo era destruir as florestas que serviam de cobertura para as tropas vietnamitas como também as colheitas de alimentos, e conseguiram.
Destaco aqui uma das maiores barbaridades da história de todas as guerras da humanidade que consternou o mundo. Essa tragédia está eternizada na famosa foto conhecida como "A Menina do Napalm", feita em 8 de junho de 1972, na vila de Trảng Bàng, Vietnã. A imagem retrata Phan Thị Kim Phúc, menina de 9 anos, correndo nua com pele se soltando do corpo por queimaduras após um ataque aéreo americano com Napalm. O registro foi feito por Nick Ut, fotógrafo da Associated Press, que a socorreu logo em seguida.
Em 20 de março de 2003, com a desculpa de que o Iraque supostamente estava produzindo armas de destruição em massa (químicas, biológicas e nucleares), mas que eles, os americanos, produzem em toneladas, o governo pressionou e conseguiram do Conselho de Segurança da ONU a licença para invadir aquele país. Esta invasão resultou em um número devastador e incerto de mortes de civis iraquianos. Estimativas apontam para um número entre 100.000 e 600.000.
Finalmente apresento dois dados curiosos, porém sinistros e que resumem o autoritarismo inveterado do governo e povo americano.
Os EUA só declararam formalmente guerra 11 vezes em sua história, a última ao Japão em 1941, na II Guerra Mundial e em 1917 contra a Alemanha e Áustria-Hungria, na I Guerra Mundial, as outras no século XIX.
Diante desta informação, salta à vista o paradoxo desta outra. Os Estados Unidos realizaram pelo menos 64 intervenções militares desde o fim da II Guerra Mundial, com algumas fontes indicando mais de 200 conflitos armados desde 1945. Entre invasões, bombardeios e operações de mudança de regime, as intervenções dos EUA se estenderam por diversos países na América Latina, África, Ásia, Europa e Oriente Médio.
Diante de tanta insanidade e iniquidade cometidas pelos americanos, governo e povo, ao longo de toda a sua história, salta aos olhos a enorme incoerência da já mencionada fala de Franklin Delano Roosevelt perante o congresso americano no dia 8 de dezembro de 1941.
Que o ataque surpresa do Império japonês aos Estados Unidos foi um embuste truculento, não há o que se discutir. Que o povo americano teve motivos para sentir-se ultrajado, também não cabe dúvida.
Mas, e o resto da história?
Quando refletimos sobre os fatos acima relatados, como afirmei trata-se de um pequeno resumo histórico, não há como não os comparar com o ataque japonês a Pearl Harbor do 7 de dezembro de 1941. Contudo, para não “encompridar a conversa”, adoro esta expressão, vou confrontá-lo somente a dois dentre os citados: o ataque americano à Hiroshima em 6 de agosto de 1945 e a história da “Menina do Napalm”, criança vietnamita de 9 anos atingida por bomba em 8 de junho de 1972.
Pearl Harbor é uma base militar americana situada no Pacífico com a maioria de habitantes formada por militares. No ataque japonês, morreram 2.403 americanos, sendo 2.335 militares e 68 civis.
A bomba atômica jogada pelas forças armadas americanas em Hiroshima matou cerca de 140 mil pessoas. 80 mil morreram instantaneamente e as demais faleceram nos meses seguintes devido a queimaduras, radiação e ferimentos. É importante dizer que Hiroshima não tinha nenhuma estrutura militar dedicada à guerra, mas, ao contrário, era uma cidade industrial com a maioria da população civil.
A vila de Trang Bang no Vietnã onde vivia Phan Thi Kim Phúc não era área de combate, lá só viviam famílias dedicadas à agricultura, principalmente ao plantio de arroz, alimento básico daquele povo. Mesmo assim, a aldeia foi selecionada pelo governo americano para receber toneladas de bombas incendiárias e para o uso de lança-chamas com o objetivo de destruir toda cobertura vegetal do lugar. Como consequência óbvia, centenas de civis (crianças, mulheres, idosos e lavradores) foram cruelmente mortos por queimaduras, ferimentos e intoxicações provocadas pelo Napalm.
Para que a humanidade não esqueça essa ignomínia, circula até hoje na mídia uma foto que mostra Phan Thi Kim Phúc fugindo de sua casa, nua e com a pele se soltando do pequeno corpo. Nem Dante Alighieri concebeu crueldade e perfídia maiores.
Isto posto, voltemos ao começo.
Se concordarmos que 7 de dezembro de 1941 é uma data que deverá viver na infâmia, e eu concordo plenamente, pois trago em mim a inabalável crença de que toda violência é abominável, isto nos leva a outra questão absolutamente desconcertante: Onde então deverão, por justiça, viver as datas 6 de agosto de 1945 e 8 de junho de 1972?
O dicionário define “infâmia” como a perda de fama, de honra e de confiança e a infâmia machuca, causa dor. Mas é de se perguntar também: Será que os dois atos confrontados ao ataque à ilha americana; o genocídio de Hiroshima e o inominável crime cometido contra a menina Phan Thi, cabem na qualificação de Roosevelt? De minha parte a resposta é um rotundo não pelas seguintes comparações.
Pearl Harbor foi uma disputa militar, exército contra exército, mas no caso do bombardeio a Hiroshima, os americanos sabiam muito bem que lá não havia exército, sabiam também que a guerra tinha data marcada para terminar, já que no dia 9 de agosto de 1945, quando foi jogada a segunda bomba em Nagasaki, o Exército Vermelho da Rússia, conforme o acordado entre os três comandantes aliados, invadiu a Manchúria com 1,8 milhões de tropas e expulsou as forças japonesas que restavam. O caso do ataque ao Vietnã é ainda muito mais obsceno e nojento, pois ter a coragem de bombardear com desfolhantes e “literalmente fritar” pessoas vivas e indefesas trata-se de uma bestialidade que pouquíssimas sociedades, mesmo as mais sociopatas e degeneradas, se quer têm a coragem imaginar. Honestamente não consegui, nunca, imaginar um lugar alternativo ao da infâmia reclamado pelo presidente Roosevelt.
Para mim, a questão se torna quase insuportável, pois não acredito em condenação eterna.
Omar dos Santos, professor aposentado. Mora em Brasília.

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