Pesquisa eleitoral

Imagem: Ricardo Arce

Por RAFAEL CARDOSO SAMPAIO*

A ascensão da pesquisocracia transforma incertezas estatísticas em destinos políticos, ocultando o paradoxo da mobilidade social e a blindagem mediática de biografias polêmicas

O Brasil chegou a abril de 2026 governado por uma nova instituição. Chama-se pesquisa eleitoral. Em menos de seis semanas, entre o começo de março e meados de abril, oito institutos diferentes (Quaest/Genial, Datafolha, AtlasIntel, Paraná Pesquisas, CNT/MDA, Futura Inteligência, Meio/Ideia e Real Time Big Data) divulgaram levantamentos nacionais que convergem para a mesma manchete. Haveria empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição deste ano. A manchete vira narrativa, a narrativa vira política, e a política, em boa medida, é engolida pelo que chamo aqui de “pesquisocracia”.

O excesso de sondagens e a leitura equivocada de variações dentro da margem de erro produziram uma ilusão de ótica, a de que Flávio Bolsonaro estaria à frente, que desloca o debate sobre o que está em jogo em 2026. O que está em jogo é um filho do golpismo disputando a Presidência contra um governo que entregou emprego recorde, mas não entregou o sentido de mobilidade social prometido. A pesquisa, que deveria ser termômetro, virou palco.

Na minha opinião, a questão central não é se as pesquisas estão certas ou erradas. É que elas passaram a ocupar o espaço do real. O eleitor, a imprensa e boa parte do debate político giram hoje em torno de oscilações de dois pontos percentuais que, do ponto de vista estatístico, sequer são oscilações de fato.

Pesquisas demais, análises demais, realidade de menos

Os números pintam um quadro de erosão de Lula e consolidação competitiva de Flávio, quase sempre dentro ou nas bordas da margem de erro. A Quaest/Genial de 15 de abril mostrou, pela primeira vez na série, Flávio à frente numericamente no segundo turno, com 42% contra 40% de Lula, e, no primeiro turno, Lula com 37% e Flávio com 32%. Quatro dias antes, o Datafolha registrou Flávio 46% contra Lula 45%, com rejeição de 48% para Lula e 46% para Flávio. A AtlasIntel de 25 de março cravou Flávio 47,6% e Lula 46,6%. A Paraná Pesquisas de 30 de março repetiu o padrão, com 45,2% contra 44,1%. O Meio/Ideia de 8 de abril evidenciou outro empate, 45,8% contra 45,5%.

Duas exceções contrariam a narrativa dominante. A CNT/MDA de 14 de abril mostrou Lula com 44,9% e Flávio com 40,2%, vantagem acima da margem, e a Futura Inteligência foi na direção oposta, com Flávio 48% e Lula 42,6%. A dispersão é eloquente. Num mesmo período, os números vão de Lula a quase cinco pontos de vantagem até Flávio a mais de cinco pontos, um intervalo de dez pontos percentuais entre institutos, muito maior do que a margem nominal de dois pontos declarada por cada um. O jornal Gazeta do povo consolidou essa síntese em matéria atualizada em 16 de abril seu público mais conservador.

Há convergência em outro ponto, a avaliação do governo. A Quaest registra 43% de aprovação contra 52% de desaprovação. O Datafolha, 45% contra 51%, com ótimo/bom em 29% e ruim/péssimo em 40%. A AtlasIntel, 45,9% contra 53,5%. A Paraná Pesquisas, 44,6% contra 52%. A curva é descendente e consistente desde dezembro de 2025, quando Lula tinha vantagem de dez pontos sobre Flávio na Quaest.

Diante desse quadro, parece-me necessário um esclarecimento estatístico que a imprensa vem evitando fazer. O Conselho Federal de Estatística publicou em 2024 o documento “O Empate Técnico. Não é Empate e Não é Técnico”, no qual Luiz Carlos da Rocha argumenta que o critério convencional de empate, diferença menor que duas vezes a margem, não guarda coerência com os fundamentos da estatística e é um constructo puramente jornalístico. Um estudo da Giant Steps Capital sobre os pleitos de 2012 a 2016 estimou que a margem de erro real foi de 7,5 pontos percentuais, bem acima dos 2 pontos divulgados. Quando um instituto anuncia empate técnico de 42% contra 40%, o que ele está efetivamente dizendo é que não sabe quem está na frente. Não está dizendo que houve mudança de tendência.

A mesma armadilha vale para a narrativa da ascensão de Flávio Bolsonaro. A diferença entre os 46% do Datafolha de abril e os 43% de março praticamente cabe dentro da margem de erro. A manchete, por outro lado, grita movimento, o mercado reage, analistas teorizam e o ciclo se reinicia.

A proliferação de institutos agrava o problema. Em junho de 2022, o TSE registrou 47 pesquisas de 13 institutos diferentes, o triplo de 2018. Em 2026, a lista ultrapassa 15 empresas nacionais ativas, várias delas com metodologias distintas. AtlasIntel trabalha com recrutamento digital aleatório, Datafolha e Quaest operam com entrevistas presenciais, Paraná Pesquisas faz ligações telefônicas, Real Time Big Data usa ligações automatizadas. Cada escolha metodológica embute vieses, e é previsível que os números divirjam.

Há ainda o uso político das sondagens. Artigo publicado na revista científica Opinião Pública, de Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes, em 2024, trata justamente sobre o “efeito bandwagon”, mostra experimentalmente que eleitores mudam seu voto para candidatos mais competitivos quando recebem informações de que seu candidato favorito não tem chances de vitória. Na opinião deste pesquisador, isso importa muito. Pesquisas medem a eleição e, ao mesmo tempo, a moldam.

A repetição incessante de “Flávio empata com Lula” não é relato neutro, é operador político. Aqui começa o problema central da pesquisocracia. Não se trata de dizer que as pesquisas são falsas ou compradas. Trata-se de reconhecer que, quando ocupam o centro do debate, contribuem para construir o resultado que medem.

A frustração é real

Reconhecer os limites das pesquisas não é rejeitá-las. A insatisfação com Lula é real e tem causa. Thomas Traumann, em coluna de O Globo de 20 de abril de 2026 intitulada “O Paradoxo da Mobilidade. O filho da faxineira ganhou diploma, não achou emprego e está frustrado com Lula”, comenta estudo qualitativo da Quaest em que Felipe Nunes cunha a expressão que dá título à coluna. Em palavras de Nunes, “esses eleitores tiveram uma forte ascensão de status, porém não vivenciaram ascensão de classe”. O filho da faxineira, relata Thomas Traumann, virou doutor, mas não conseguiu emprego na sua área e sobrevive como motorista de aplicativo.

Os dados da pesquisa qualitativa são contundentes. Entre os eleitores com mobilidade educacional alta, 49% avaliam Lula negativamente, contra 41% entre os sem mobilidade. 65% desse grupo dizem que o Brasil está na direção errada, contra 55% do outro. A conclusão de Thomas Traumann é que a atual crise de popularidade não é um problema de comunicação. A decepção desta geração é estrutural. E o colunista arremata em outra frase que merece leitura atenta. Depois de 18 anos de governos do PT, Lula não pode se dizer o candidato antissistema.

A tese de Felipe Nunes, reforçada em entrevista ao podcast O Assunto em 9 de abril e no livro Brasil no Espelho, da Globo Livros (2025), é que há uma busca de status social mal atendida pelas políticas tradicionais. A Quaest indica que 66% dos brasileiros se consideram classe média, enquanto 72% sentem alta nos preços dos alimentos e 72% declaram ter dívidas, conforme a mesma pesquisa de abril de 2026.

O governo tem motivos para se orgulhar de alguns indicadores. A taxa de desocupação chegou a 5,4% no trimestre encerrado em janeiro de 2026, mínima histórica da PNAD Contínua, subindo ligeiramente para 5,8% em fevereiro. O rendimento médio real atingiu R$ 3.679 em fevereiro, recorde da série, e a massa salarial bateu R$ 371,1 bilhões, alta de 6,9% em 12 meses. O PIB cresceu 2,3% em 2025 . A informalidade recuou para 37,5%, a menor desde 2020.

Do outro lado da balança, o humor material se deteriora. O IPCA de março de 2026 foi de 0,88%, empurrando a inflação em 12 meses para 4,14%, de volta ao teto da meta. A alimentação no domicílio subiu 1,94% em um único mês, a maior alta desde abril de 2022, com tomate a +20%, cebola a +17%, batata a +12% e leite a +11,7%. A cesta básica aumentou em todas as 27 capitais em março, segundo o DIEESE, com São Paulo a R$ 883,94. O endividamento das famílias chegou a 80,4%, recorde histórico da PEIC/CNC. A Selic, mesmo depois do corte de 19 de março para 14,75%, mantém o juro rotativo do cartão em 438% ao ano.

É esse paradoxo que as pesquisas captam e que nenhum spot publicitário resolve. Pela primeira vez, muitas famílias têm carteira assinada e, ao mesmo tempo, precisam escolher entre a conta de luz e o açougue. A percepção de piora da economia nos últimos 12 meses bateu 50% na Quaest de abril, contra 38% em dezembro. Esther Solano e Alexandre Fuccille, em relatório da Fundação Carolina, sintetizam o momento ao escrever que “a corrida presidencial já começou e, de fato, se estende a todas as áreas da vida política sob a sombra da polarização”.

Se o diagnóstico econômico explica a frustração, ele não explica por que a beneficiária dessa frustração é uma figura com o passivo de Flávio Bolsonaro. Existem três camadas de resposta.

A primeira é o capital de nome. Felipe Nunes, citado pela Gazeta do povo, é explícito ao afirmar que o sobrenome dá um atalho muito rápido para o conhecimento, mas também traz a rejeição junto. Pedro Venceslau, na CNN Brasil, é mais direto ao afirmar que “qualquer um da família que entrar na disputa com o sobrenome Bolsonaro vai naturalmente herdar os votos da bolha”. A base bolsonarista oscila entre 25% e 30% do eleitorado de forma estável e esse núcleo é transferível.

A segunda camada é a ausência de alternativa viável na direita. Tarcísio de Freitas desistiu da Presidência e vai à reeleição em São Paulo, embora Lauro Jardim, na CBN, avalie que seu fantasma sempre vai rondar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro teve mandato cassado por faltas em dezembro de 2025 e segue autoexilado nos EUA, onde articulou o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, fiasco resumido por dirigente do PL em coluna de Jardim reproduzida pela imprensa regional. “O Eduardo Bolsonaro acabou. Ninguém no partido o quer candidato”.

Michelle Bolsonaro se recolheu com a declaração de que estaria afastada da política para cuidar de Jair, em prisão domiciliar desde 24 de março após 90 dias em cela na PF. Ratinho Júnior voltou ao Paraná. Restam Ronaldo Caiado e Romeu Zema, com rejeição baixa, mas penetração incipiente.

A terceira camada é a incapacidade sistêmica de processar o passivo de Flávio Bolsonaro. Pedro Doria, no Canal Meio de 30 de março, foi cortante ao afirmar que “Flávio Bolsonaro é a Alerj na presidência da República. É um pesadelo”. Celso Rocha de Barros, na Folha, em texto de 2025 que voltou a circular alertou que “em entrevista à Folha, Flávio Bolsonaro nos contou que o próximo golpe já está marcado para 2027. Se a família Bolsonaro fosse de esquerda, a entrevista teria sido o centro da agenda política nacional”. Merval Pereira, na GloboNews resumiu a assimetria. A chance de Flávio se eleger presidente e tentar dar um golpe existe. A de Lula se eleger e tentar dar um golpe não existe.

Parece-me que o ponto aqui é menos jurídico e mais político. O passivo de Flávio Bolsonaro é volumoso e, em sua maior parte, permanece impune. A rachadinha da Alerj, esquema que, segundo o MP-RJ, desviou R$ 6 milhões via 483 depósitos em espécie na conta de Fabrício Queiroz, foi neutralizada em cascata. O STJ anulou provas em 2021, o STF reconheceu foro privilegiado em 2021, o TJ-RJ arquivou a denúncia em 2022, e Gilmar Mendes rejeitou em 26 de fevereiro de 2025 os últimos recursos do Ministério Público.

Os fatos prescreveram, mas nunca houve julgamento de mérito. O Estadão, em editorial de 13 de abril intitulado “Os esqueletos de Flávio Bolsonaro”, lembra que arquivamento por nulidades processuais não é absolvição. Fabrício Queiroz, hoje, é subsecretário de Segurança em Saquarema, cidade do PL.

A mansão de R$ 5,97 milhões no Setor de Mansões Dom Bosco, Lago Sul, Brasília, comprada em janeiro de 2021 (R$ 2,9 milhões em espécie e R$ 3,1 milhões financiados pelo BRB em 30 anos, quitados em 37 meses com R$ 3,4 milhões em pagamentos extras, conforme matéria do Metrópoles, voltou à cena com a prisão, em 16 de abril de 2026, de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, na Operação Compliance Zero. Costa presidia o banco quando o financiamento foi aprovado e foi preso em investigação ligada ao Banco Master de Daniel Vorcaro. O caso Kopenhagen, da franquia Bolsotini, com 1.512 depósitos em espécie fracionados identificados pelo MP-RJ, seguiu o mesmo destino processual, com prescrição técnica sem julgamento.

Há ainda os elos com milícia. Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime morto em 2020, foi homenageado por Flávio Bolsonaro com a Medalha Tiradentes em 2005. Sua mãe e sua ex-esposa receberam R$ 1,029 milhão em salários do gabinete de Flávio entre 2008 e 2018. Em 19 de março de 2026, a mãe de Nóbrega foi denunciada pelo MP-RJ por lavagem de R$ 8,5 milhões.

Há a Abin Paralela, com áudio de agosto de 2020 revelando reunião de Jair Bolsonaro, Ramagem, Heleno e advogadas de Flávio Bolsonaro planejando “encontrar podres” dos auditores da Receita que detectaram a rachadinha. Há a vigília de 22 de novembro de 2025, convocada por Flávio Bolsonaro diante da casa do pai, citada por Alexandre de Moraes ao decretar a prisão preventiva de Jair por empregar “o mesmo modus operandi da organização criminosa que tentou um golpe de Estado”.

Reinaldo Azevedo tem chamado atenção para o que descreve como blindagem midiática em curso. Em suas palavras, “desde o dia 5 de dezembro, Flávio Bolsonaro tem sido blindado de si mesmo, de sua biografia, de seu passado”. Em 16 de abril, o colunista acrescentou que “começou o esforço em setores da tal ‘mídia’ e em áreas do colunismo político para tornar ‘moderado’ o dito Zero Um”.

Olhar para as pesquisas sem se deixar guiar por elas

A combinação de desaprovação crescente e empate técnico ressuscitou, em supostos bastidores do PT, a hipótese de substituir Lula por Fernando Haddad. Em dezembro de 2025, a Quaest mostrou que 52% achavam que Lula não deveria se candidatar e que Fernando Haddad era o preferido como substituto para 27% dos entrevistados. Em 4 de abril, o Blog do Elielson, da CBN Recife, trouxe análise do consultor Teixeira afirmando que “Fernando Haddad já tem praticamente a mesma intenção de voto que o Lula, com algo em torno de 10% a menos de rejeição”. A pesquisa Futura Inteligência de 14 de abril chegou a testar cenários sem Lula.

Na opinião deste pesquisador, a ideia é simplesmente absurda. Não se trata de menosprezar Fernando Haddad, que mostrou competência como ministro da Fazenda e prepara agora disputa pelo governo de São Paulo. Trata-se de reconhecer o que está sendo proposto.

Um presidente incumbente, com 43% a 45% de aprovação, patamar comparativamente confortável, pior do que o de seu próprio primeiro mandato, melhor do que o de Dilma Rousseff em 2014 e o de Jair Bolsonaro em 2021, com a trajetória de Lula, sua biografia pública, sua projeção internacional, sua capacidade reiterada de chegar ao segundo turno e vencer, seria preterido porque Fernando Haddad teria dez pontos a menos de rejeição numa pesquisa de abril, no início de um ciclo eleitoral em que 51% do eleitorado ainda pode mudar de candidato até outubro.

Aventar a substituição do candidato incumbente com base em variações de rejeição dentro da margem de erro, a seis meses do pleito e antes mesmo do início formal da campanha, é a pesquisocracia em sua forma mais acabada. O partido abdica de sua própria leitura política e delega ao instituto a decisão estratégica. Celso Rocha de Barros, em texto recente, rejeita a hipótese ao lembrar que “não há ninguém no PT com a esperança de achar um novo Lula”. Fernando Haddad, ao deixar a Fazenda em 19 de março para disputar São Paulo, confirmou Lula como candidato. O debate, porém, existe e volta a cada pesquisa ruim. Mais um sintoma.

Diante desse cenário, gostaria de propor quatro caminhos.

(i) A imprensa precisa rever sua relação com as pesquisas. Não se trata de deixar de divulgá-las, e sim de diferenciar, nas manchetes e nas análises, variação dentro da margem de erro, que é incerteza, não tendência, de variação fora dela. O empate técnico, como lembra o Conselho Federal de Estatística, nem é empate nem é técnico. É o intervalo em que o instituto não consegue diferenciar os candidatos. A manchete correta de “Flávio 46% e Lula 45%, margem de 2 pontos” não é “Flávio ultrapassa Lula”, e sim “empate dentro da margem de erro, sem mudança de tendência em relação a março”.

(ii) A imprensa precisa voltar a fazer reportagem sobre os candidatos. Reinaldo Azevedo está certo ao apontar a blindagem em curso. O eleitor que hoje declara voto em Flávio Bolsonaro, em boa parte, não conhece o passivo do candidato, apenas o sobrenome. Reportar é diferente de sondar. A pergunta a ser feita, nas próximas pesquisas qualitativas, talvez seja se o entrevistado sabia dos episódios que compõem a biografia política do candidato. Se não sabia, o que dirá a pesquisa quantitativa meses depois, quando souber.

(iii) O governo Lula precisa assumir com clareza o diagnóstico de Thomas Traumann. A atual crise de popularidade não é um problema de comunicação. A decepção é estrutural. O filho da faxineira com diploma e sem emprego compatível é o eleitor que faz falta na base, e não é um palanque melhor nem uma live semanal que vai recuperá-lo. Há medidas concretas possíveis. Uma política industrial que converta diploma em vaga qualificada. Uma segunda fase do Bolsa Família voltada a jovens com ensino superior e renda abaixo de um teto. Uma política de crédito que encare o escândalo do rotativo em 438% ao ano. Uma reoneração tributária das rendas do capital, capaz de financiar essas medidas sem recrudescer o ajuste sobre a renda do trabalho. São ideias de bancada, não revoluções conceituais. Estão à disposição há meses.

(iv) O PT e a esquerda organizada precisam parar de reagir pesquisa a pesquisa. A função de um partido é construir narrativa, agenda e mobilização, não ajustar posicionamento semanal de acordo com o humor captado em 2 mil entrevistas presenciais. O governo ainda não está em campanha formal. Flávio Bolsonaro ainda não foi processado publicamente como candidato, sabatinado por jornalistas rigorosos, submetido ao escrutínio comparativo. Quando isso acontecer, entre agosto e outubro de 2026, as pesquisas de abril terão o mesmo valor de uma previsão do tempo feita com 180 dias de antecedência.

Em 2026, o Brasil decide se aceitará como alternativa de poder o filho mais velho de um ex-presidente condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, hoje em prisão domiciliar, cuja eventual posse, segundo Celso Rocha de Barros, estaria comprometida com promessa de novo golpe em 2027 caso o STF declare inconstitucional eventual anistia aos golpistas de 8 de janeiro. Jessé Souza, em entrevista recente, oferece leitura complementar ao observar que o pobre de direita, de São Paulo ao Rio Grande do Sul, vê no ex-presidente Jair Bolsonaro um semelhante.

Essa identificação, lembra o sociólogo, é fruto também da retirada da esquerda das periferias e do diálogo material com quem trabalha. A mobilidade sem classe que Thomas Traumann descreve é, no fundo, a mesma ferida. Promessa educacional cumprida, promessa econômica quebrada.

A pesquisa mede o sintoma. Não mede, e não pode medir, se o eleitor sabe que Flávio chamou vigília golpista em novembro, que sua mansão foi financiada pelo ex-presidente preso de um banco sob investigação, que empregou familiares de milicianos por uma década, que herdou do pai os votos e também o projeto. Este texto não defende ignorar as sondagens. Defende colocá-las no devido lugar. São fotografias, não mapas. São termômetros, não diagnósticos.

A manchete “Flávio empata com Lula” não é exatamente correta e certamente é politicamente insuficiente, porém existe uma frustração estrutural no eleitorado que tinha o petismo como horizonte e hoje não sabe mais o que esperar e ignorar isso seria arrogância. Por outro lado, reduzir 2026 ao duelo de porcentagens é abdicar da política.

*Rafael Cardoso Sampaio é professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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