
Câmara dos Deputados, Congresso Nacional (Foto: agência Brasil)
A herança maldita deixada pelos governos de Temer e Bolsonaro produziu uma avalanche de parlamentares inescrupulosos
A degradação de alguns segmentos da política brasileira não ocorreu por acaso. Ela foi sendo construída ao longo dos últimos anos por meio da corrosão deliberada da representação legislativa, do fisiologismo pernicioso e da transformação do mandato parlamentar em instrumento de negócios privados e guerra ideológica. O que deveria ser espaço de representação popular converteu-se, em larga medida, num feudo de interesses capturado por setores do Centrão oportunista e da extrema direita bolsonarista, cuja lógica política gira menos em torno do interesse nacional e mais da autopreservação do poder e do dinheiro.
A herança maldita deixada pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, ao empoderar o Congresso por meio do sequestro progressivo do orçamento público, alimentou uma avalanche de parlamentares inescrupulosos do Centrão fisiológico e da extrema direita. Consolidou-se um modelo político baseado na chantagem institucional, no rateio de verbas públicas e no fortalecimento de currais eleitorais sustentados por envios de emendas sem a devida transparência.
O Congresso Nacional, atualmente dominado por esses mesmos setores políticos eleitos em massa no auge da onda bolsonarista, transformou-se num ambiente permanente de embates marcados pela desinformação, pela defesa absoluta das poderosas bancadas aglutinadas no parlamento, pela defesa de pautas ultraliberais em detrimento das necessidades da maioria da população brasileira, pela agressividade verbal, pela autopromoção digital, pelo oportunismo. Nesse cenário, parlamentares progressistas muitos deles preparados, conhecedores dos problemas estruturais do país e defensores de pautas sociais relevantes enfrentam enormes dificuldades para estabelecer um debate qualificado diante de discursos radicalizados, rasos e frequentemente sustentados por ataques, fake news e encenações midiáticas voltadas às redes sociais.
A deterioração do nível político e institucional do Legislativo fica evidente quando a lógica do espetáculo e dos interesses eleitorais passa a prevalecer sobre o compromisso com o interesse público. A recente derrubada de trechos cruciais dos vetos do presidente Lula à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 evidencia de modo inequívoco esse processo de degradação. A articulação conduzida pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) para flexibilizar restrições à transferência de recursos públicos em período pré-eleitoral foi interpretada por amplos setores como uma manobra de natureza essencialmente eleitoreira. Na prática, abre-se espaço para que prefeitos e governadores aliados sejam irrigados com verbas e benefícios públicos às vésperas das eleições, enfraquecendo mecanismos mínimos de responsabilidade fiscal e comprometendo a isonomia do processo eleitoral. O objetivo está centrado na ampliação do poder político e eleitoral utilizando o Estado como instrumento de barganha.
Centrão e extrema direita transformaram o voto em commodity política. O caso envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que terceirizou seu mandato em favor dos atuais investigados por ilicitudes financeiras, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o dono da Refit, empresário Ricardo Magro, alvo da Operação Sem Refino por fraudes bilionárias, tornou-se símbolo desse modelo promíscuo de poder. As investigações e revelações sobre transferências milionárias da Refit para empresas ligadas à família do senador evidenciam como parte significativa dessa elite parlamentar opera em estreita sintonia com interesses empresariais e financeiros. O mandato deixa de representar o eleitor para servir como extensão de grupos econômicos, instituições financeiras e operadores de influência. Para os mais sagazes desse sistema, a política converteu-se em grande centro de negociatas e quanto mais vantagens oferecem ao poder econômico, maior o retorno financeiro, maior a proteção política e maior o valor de mercado de sua influência dentro do Congresso.
Em geral, a atuação do bloco bolsonarista é frequentemente marcada pela truculência verbal, pela ausência de preparo ético-político e pela incapacidade de construir consensos mínimos em favor do país. Muitos desses parlamentares parecem atuar menos como representantes da população e mais como influenciadores digitais especializados em produzir cortes virais, ataques pessoais e campanhas de desinformação. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) tornou-se um dos símbolos dessa atuação baseada em lacração permanente, vantajosa inclusive para negócios pessoais, estratégia replicada por diversos parlamentares do Partido Liberal, entre outros de mesmo viés ideológico. Sua atuação é tão deletéria e contrária à proteção das mulheres e crianças, que na quinta feira desta semana apresentou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) para tentar suspender os importantes decretos assinados pelo presidente Lula, com a velha justificativa de que esses contrariam a liberdade de expressão. Vale assinalar que os decretos governamentais estabelecem diretrizes que estipulam um limite de duas horas para que as plataformas digitais removam postagens com apologia a crimes e conteúdos de nudez, inclusive os gerados sinteticamente por IA, a partir do recebimento da notificação. As redes também deverão conter o engajamento de linchamentos virtuais focados em mulheres. Todo esse processo será supervisionado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Já no Senado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acumula episódios envolvendo disseminação de desinformação e sucessivas controvérsias públicas. Sua trajetória política sempre esteve acompanhada por acusações, contradições e narrativas desmentidas posteriormente pelos fatos. O problema não reside apenas na mentira ocasional da política tradicional, mas na institucionalização da mentira como método permanente de mobilização política.
Diante dessa realidade nua e crua, como conceber um projeto de futuro nacional liderado por figuras que transformaram a distorção dos fatos em ferramenta cotidiana de sobrevivência política? Como aceitar que grande parte dos parlamentares denunciados, investigados ou envolvidos em ilicitudes recentes pertença justamente ao partido que alimentou seu discurso em torno da suposta moralidade pública, da frase Deus, pátria, família e liberdade, lema central, inspirado no integralismo? O Partido Liberal bolsonarista converteu-se, paradoxalmente, num dos maiores símbolos da degradação ética que dizia combater.
Sob a falsa imagem de lisura política construída perante parte da opinião pública, Centrão e extrema direita bolsonarista defendem interesses profundamente conectados às bancadas do agronegócio predatório, da indústria armamentista, das apostas virtuais e de conglomerados financeiros, entre outras. O mandato parlamentar passa a funcionar como mecanismo de proteção corporativa desses grupos.
O grau de deterioração institucional torna-se ainda mais evidente quando setores conservadores e fisiológicos sabotam propostas voltadas à melhoria das condições de vida da população apenas para impedir ganhos políticos do atual governo, a exemplo do debate sobre o fim da escala 6x1. Em vez de discutir formas de melhorar a saúde e a qualidade de vida do trabalhador, setores conservadores e fisiológicos sabotam a discussão e chegaram a propor o absurdo aumento da carga horária semanal. Nessa mesma linha, Flávio Bolsonaro teve o descalabro de posicionar-se contra o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais. Ele propôs um modelo que amplia a precarização e transfere mais riscos para a classe trabalhadora. Sua sugestão de criar um regime alternativo à CLT, focado no pagamento por hora, intensifica o modelo de trabalho intermitente instituído na reforma de 2017. Na prática, a medida oficializa o biscate contínuo e fragiliza a garantia do salário mínimo, deixando os profissionais com direitos trabalhistas mínimos. Enquanto sindicatos e setores do governo defendem modelos que ampliem o tempo de descanso, convivência familiar e qualidade de vida dos trabalhadores, parte da extrema direita e do Centrão quer “preservar o setor produtivo”.
Foi justamente nesse ambiente de degradação institucional e promiscuidade entre política e poder econômico que a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro começou a ser gestada por determinação direta de seu pai.
Nessa conjuntura, durante um bom tempo, o senador contou com relativa blindagem de aliados políticos, de setores da mídia corporativa e de parte da elite financeira, historicamente inclinada a apoiar candidatos considerados maleáveis e servis aos interesses do mercado. A grande imprensa, inclusive, tentou dissociar Flávio Bolsonaro da imagem extremista de seu pai, chegando em alguns momentos a suavizar sua identidade política para vendê-lo como alternativa mais moderada ao bolsonarismo raiz. Nos bastidores, setores econômicos preferiam claramente o bolsonarista Tarcísio de Freitas, por considerá-lo mais preparado, mas acabaram obrigados circunstancialmente a engolir o nome de Flávio Bolsonaro enquanto não surgia outra alternativa viável para enfrentar Lula.
Todavia, a narrativa de suavização e aceitação do zero um começou a ruir diante da sucessão de escândalos financeiros, contradições públicas e ligações perigosas com personagens investigados por crimes financeiros. As revelações sobre o vultoso financiamento de Daniel Vorcaro ao projeto cinematográfico “Dark Horse” aprofundaram o desgaste do senador e expuseram novamente a proximidade entre setores do bolsonarismo e operadores do mercado financeiro envolvidos em suspeitas de crime graves contra o patrimônio público. Diante dessas descobertas, o senador Ciro Nogueira adotou a mesma postura em relação a Flávio Bolsonaro, que antes o havia renegado assim que o aliado caiu em desgraça por receber mesada de Vorcaro. Trata-se de um comportamento pragmático e previsível entre figuras desse espectro político. Somam-se a isso os antigos fantasmas que acompanham o clã Bolsonaro, sobretudo, ao Flávio: rachadinhas, negócios imobiliários incompatíveis com a renda declarada, relações nebulosas com milicianos.
Esse pano de fundo e o consequente desencontro de narrativas entre os próprios aliados aprofundaram ainda mais o desgaste público do grupo. Às omissões e contradições de Flávio Bolsonaro somaram-se as declarações do deputado Mário Frias, um dos idealizadores do filme Dark Horse, que apresentou versões flagrantemente conflitantes sobre o financiamento e os objetivos do longa-metragem. O cenário agravou-se quando a produtora executiva indicada por Frias, Karina Ferreira da Gama (ligada à Go Up Entertainment), tornou-se alvo de questionamentos por não possuir uma trajetória consolidada no setor cinematográfico, o que alimentou fortes suspeitas sobre a real origem e o destino dos recursos. Diante desse acúmulo de contradições publicizadas, o discurso de perseguição política e reserva moral começou a perder tração. Como reflexo, pesquisas recentes dos institutos Atlas Intel e Data Folha já indicam erosão nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro, enquanto o presidente Lula recupera terreno político, sustentado por entregas econômicas e programas de governo bem-sucedidos.
Ao mesmo tempo, o bolsonarismo tenta sobreviver apostando novamente em blefes políticos e em cortinas de fumaça destinadas a mobilizar sua militância mais radicalizada. Nessa jogada, “o zero um” subestima a inteligência dos brasileiros. A desfaçatez de Flávio Bolsonaro é tamanha que ele nem se preocupa em disfarçar o jogo de cartas marcadas ao cobrar a CPMI para a plateia ciente de que Davi Alcolumbre, seu parceiro de bastidores, já decretou o sepultamento dessa comissão. A última cartada da pré-campanha de Flávio Bolsonaro para impactar a opinião pública é um possível encontro com o presidente Donald Trump, uma agenda que, até o momento, não foi confirmada pelo governo estadunidense.
Diante dessa sucessão de fraudes políticas, tanto o mercado financeiro, como a mídia corporativa, já considera que a pré-candidatura bolsonarista se tornou pesada demais eleitoralmente. A Faria Lima já começa a olhar para possíveis outsiders ou alternativas de centro-direita capazes de preservar a agenda econômica ultraliberal sem carregar o desgaste moral e político acumulado pelo bolsonarismo. A lógica permanece a mesma, qualquer alternativa que impeça a continuidade de Lula. Outro sinal eloquente desse desgaste reside no fato de que até antigos aliados começam silenciosamente a abandonar o barco bolsonarista. Quando até os próprios fiadores do sistema passam a buscar uma rota de fuga, é porque a engrenagem da farsa começou a derreter diante da realidade.
Em suma, diante da crescente captura do Congresso por setores fisiológicos do Centrão e pela extrema direita bolsonarista, evidencia-se que a eleição de outubro representará uma virada crucial para o país. Será uma oportunidade decisiva para que a sociedade brasileira reflita sobre o peso e a responsabilidade de seu voto na reconstrução da política nacional. O eleitor terá diante de si a escolha entre perpetuar um modelo marcado pela desinformação, pelo oportunismo e pela submissão aos interesses econômicos ou fortalecer representantes comprometidos com os reais problemas do país e com a defesa do interesse público.
Numa materialidade em que as redes sociais, os portais de transparência e o acesso à informação permitem acompanhar o comportamento dos parlamentares quase em tempo real, torna-se cada vez mais difícil esconder contradições, incoerências e práticas incompatíveis com a ética pública. A população pode observar quem votou contra ou a favor de projetos ligados aos direitos dos trabalhadores, à justiça social, à educação, à saúde e à melhoria das condições de vida da população. Pode conhecer o histórico, a capacidade, a honestidade e a postura de cada candidato antes de entregar-lhe um mandato. Essas informações estão sempre presentes nas redes sociais.
Mais do que nunca, o Brasil precisará de parlamentares preparados, equilibrados, honestos e capazes de compreender a complexidade dos desafios nacionais, e não de figuras movidas apenas pela lacração, pela agressividade e pela busca oportunista de engajamento nas redes. A reconstrução da credibilidade do legislativo federal, estadual e municipal dependerá diretamente da maturidade política do eleitorado em rejeitar aqueles que transformaram o mandato em instrumento de privilégios, negócios e manipulação, abrindo espaço para representantes verdadeiramente comprometidos com a democracia, com a soberania do país e com os interesses do povo brasileiro.
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