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O contraste entre o planejamento estratégico chinês, a sedimentação institucional alemã e a interrupção recorrente dos projetos brasileiros revela a duração como o pilar central da soberania nacional
1.
A questão decisiva do nosso tempo talvez não seja apenas saber quais países crescem mais, inovam mais ou controlam melhor suas instituições. A pergunta mais profunda é outra: que forma histórica cada sociedade construiu para organizar a relação entre Estado, economia, conhecimento e futuro?
China, Alemanha e Brasil não podem ser compreendidos como três posições numa mesma escala abstrata de eficiência. Cada país expressa uma maneira específica de articular planejamento, conflito social, formação institucional e duração histórica. A comparação, portanto, não deve buscar um modelo a ser copiado, mas revelar como diferentes sociedades produzem ou bloqueiam as condições de continuidade de seus próprios projetos.
É neste ponto que a Teoria da modernidade dependente oferece uma chave interpretativa. Segundo essa perspectiva, a dependência contemporânea não se reduz à subordinação produtiva, tecnológica ou financeira. Ela também se manifesta como expropriação da duração histórica. Nas formações dependentes, os processos sociais são frequentemente interrompidos antes de se consolidarem; políticas públicas são lançadas antes de se transformarem em instituições; projetos de desenvolvimento são anunciados antes de acumularem densidade; universidades produzem muito, mas sob pressão permanente de validação; e o futuro aparece menos como construção coletiva do que como exigência antecipada de resultado.
O capitalismo contemporâneo, sobretudo depois da financeirização e da crise de 2008, intensificou essa forma de dominação temporal: o presente passou a ser pressionado por expectativas futuras que exigem comprovação imediata.
A China representa, nesse quadro, uma forma histórica singular de organização da duração. Seu planejamento não deve ser confundido com simples centralização administrativa, nem com uma imagem abstrata de autoritarismo eficiente. O que se observa é uma forma estatal capaz de converter objetivos estratégicos em processos de longa duração. O Estado chinês organiza metas, infraestrutura, urbanização, tecnologia, indústria, educação e ciência como partes de um mesmo horizonte histórico.
Os planos quinquenais não funcionam apenas como documentos técnicos. Eles cumprem a função de estabilizar expectativas, hierarquizar prioridades e construir uma sequência entre decisão, execução e reavaliação. O futuro, nesse caso, não aparece apenas como promessa; aparece como campo organizado de intervenção.
2.
Isso não significa ausência de contradições. Ao contrário, a China é atravessada por desigualdades regionais, tensões ambientais, conflitos entre crescimento e controle social, disputas entre inovação e disciplina política, além de problemas decorrentes da urbanização acelerada. Mas a forma histórica chinesa possui uma característica decisiva: ela transforma essas contradições em matéria de planejamento. O conflito não desaparece, mas é absorvido por uma arquitetura estatal que procura convertê-lo em etapa de recomposição.
O país não planeja apenas obras, cidades ou setores produtivos; planeja ritmos de transição. A infraestrutura não é pensada isoladamente. Ela articula território, indústria, logística, energia, tecnologia e formação de quadros. Por isso, quando a China constrói ferrovias, portos, universidades, cidades, parques tecnológicos ou corredores industriais, não está apenas respondendo a uma demanda imediata. Está produzindo condições materiais para uma temporalidade nacional de longo alcance.
A urbanização chinesa expressa bem essa forma histórica. Muitas cidades não surgem apenas da expansão espontânea do mercado imobiliário ou da pressão imediata da renda fundiária. Elas são concebidas dentro de uma estratégia que articula deslocamento populacional, industrialização, transporte, energia, inovação tecnológica e integração regional.
A cidade aparece como peça de um projeto nacional. Evidentemente, nem todos os resultados correspondem ao desenho inicial; há desperdícios, excessos, cidades subutilizadas, bolhas imobiliárias e desequilíbrios sociais. Mas o elemento decisivo permanece: o espaço urbano é tratado como mediação entre presente e futuro. Planejar uma cidade é planejar a inscrição territorial de uma estratégia histórica.
3.
A Alemanha expressa outra forma de duração. Seu planejamento não se apresenta, em geral, como centralização estatal explícita, mas como sedimentação institucional. A força alemã está menos na declaração grandiosa de futuro e mais na continuidade entre sistema produtivo, formação profissional, pesquisa aplicada, empresas, sindicatos, bancos regionais, universidades, institutos tecnológicos e administração pública.
A Alemanha não organiza sua duração apenas por planos nacionais visíveis. Ela a organiza por meio de instituições que acumulam confiança, memória técnica e capacidade de coordenação. Sua temporalidade histórica é institucionalizada. O futuro se constrói como continuidade de competências acumuladas.
O exemplo do sistema dual de formação profissional é importante. Ele articula escola, empresa, qualificação técnica, aprendizagem prática e inserção produtiva. Não se trata apenas de educação para o trabalho em sentido estreito. Trata-se de uma forma de mediação entre juventude, conhecimento, indústria e reprodução social.
O jovem não é lançado imediatamente à improvisação do mercado. Ele é incorporado a uma cadeia institucional que lhe oferece tempo de formação, reconhecimento social e trajetória possível. O mesmo vale para a relação entre universidades, institutos de pesquisa e empresas industriais. O conhecimento não aparece como evento isolado, mas como parte de uma engrenagem de longo prazo. A inovação não depende apenas do gênio individual ou do edital ocasional; ela se apoia em redes estáveis.
A Alemanha revela, assim, uma forma histórica em que a duração é produzida pela densidade institucional. A continuidade não depende apenas de um governo, de uma liderança ou de um ciclo político. Ela está inscrita em rotinas, contratos, conselhos, pactos, normas, certificações, financiamento e cultura técnica. Isso não elimina crises. A reunificação alemã, a integração europeia, a transição energética, a pressão migratória, a concorrência chinesa, a guerra na Ucrânia e a reorganização das cadeias globais colocaram desafios profundos ao modelo alemão. Ainda assim, a capacidade de responder a esses desafios se apoia numa espessura institucional acumulada. A Alemanha pode vacilar, mas dificilmente começa do zero.
O contraste com o Brasil é decisivo. O Brasil não é simplesmente um país sem planejamento. Essa afirmação seria falsa. O Brasil planejou, industrializou, criou universidades, empresas públicas, instituições de pesquisa, bancos de desenvolvimento, sistemas nacionais de pós-graduação, políticas de saúde, infraestrutura energética, agricultura tecnificada e complexos produtivos relevantes.
A questão é outra: a forma histórica brasileira tende a interromper seus próprios processos antes que eles consolidem plenamente sua duração. O problema não é a inexistência de projetos, mas a dificuldade de transformá-los em continuidade histórica. O país começa muitas vezes, recomeça frequentemente e interrompe com uma regularidade impressionante aquilo que parecia adquirir forma.
É por isso que o Brasil deve ser analisado, no interior da Teoria da modernidade dependente, como uma das formas mais acabadas da dependência temporal. A dependência brasileira não se manifesta apenas pela posição subordinada na divisão internacional do trabalho, pela vulnerabilidade externa, pela desigualdade social ou pela concentração patrimonial. Ela se manifesta também na instabilidade recorrente da duração.
O futuro nacional é constantemente anunciado, mas raramente encontra tempo para descer às camadas profundas da sociedade. A modernização aparece, mas não se universaliza; a indústria se expande, mas não se completa; a universidade cresce, mas é pressionada por ciclos de avaliação e financiamento instável; a política pública nasce, mas sofre descontinuidade; a democracia se afirma, mas permanece sob ameaça de recomposição regressiva.
4.
A forma histórica brasileira é marcada por uma contradição persistente: o país possui grande capacidade de criar instituições, mas menor capacidade de proteger o tempo necessário para que elas se consolidem. Essa contradição atravessa a educação, a ciência, a indústria, a saúde, o planejamento urbano e o desenvolvimento regional. O Brasil cria uma universidade pública de alta qualidade, mas frequentemente a submete à insegurança orçamentária, à burocratização e à urgência produtivista.
Cria políticas industriais, mas as abandona antes de completar cadeias tecnológicas. Cria instrumentos de planejamento, mas os subordina a ciclos eleitorais, ajustes fiscais ou mudanças de orientação econômica. Cria políticas sociais robustas, mas muitas vezes as expõe à disputa imediata sem consolidá-las como pacto nacional de longa duração.
Essa dificuldade não é apenas administrativa. Ela é histórica. A formação brasileira nasceu sob o signo da escravidão, da concentração fundiária, da violência social, da dependência externa e da modernização conservadora. O novo raramente destruiu o velho; muitas vezes o reorganizou. A República não eliminou plenamente a estrutura oligárquica; a industrialização não universalizou direitos; a urbanização não democratizou a cidade; a expansão educacional não superou a desigualdade de origem; a Constituição de 1988 criou um horizonte democrático avançado, mas esse horizonte passou a conviver com a pressão permanente do ajuste, da dívida, da financeirização e da instabilidade política.
O Brasil avança por camadas superpostas. Cada camada moderna convive com uma forma anterior que não desaparece. O resultado é uma temporalidade desigual, na qual tempos históricos distintos coexistem de maneira tensa.
Nesse sentido, a comparação com China e Alemanha ilumina o núcleo da questão. A China organiza a duração por meio de uma estratégia estatal de longo alcance. A Alemanha organiza a duração por meio de instituições densas e pactos sociais relativamente estáveis.
O Brasil, ao contrário, organiza muitos começos, mas protege pouco a continuidade. Sua potência histórica é imensa, mas seu tempo social é frequentemente sequestrado por exigências de curto prazo. O país possui território, população, universidade, ciência, agricultura, energia, cultura, criatividade social e capacidade produtiva. No entanto, essas potências raramente se convertem em projeto contínuo de nação. São mobilizadas, interrompidas, retomadas, fragmentadas e novamente adiadas.
5.
A financeirização intensifica esse problema. Quando o fundo público passa a ser organizado prioritariamente pela lógica da dívida, da austeridade e da confiança dos mercados, o tempo político se estreita. A pergunta deixa de ser “que sociedade queremos construir em vinte ou trinta anos?” e passa a ser “como o orçamento reagirá ao próximo indicador?”. O futuro deixa de ser campo de elaboração coletiva e se converte em expectativa financeira antecipada.
O Estado passa a ser julgado menos por sua capacidade de construir duração social e mais por sua capacidade de responder imediatamente a sinais de confiança. Essa é uma das mutações centrais do capitalismo contemporâneo: o futuro se impõe ao presente como validação abstrata, e não como projeto histórico.
A Teoria da modernidade dependente interpreta esse processo como uma transformação qualitativa da dependência. A dependência clássica estava ligada à transferência de valor, à industrialização subordinada, à especialização produtiva, à vulnerabilidade externa e à articulação entre centro e periferia. Tudo isso continua importante. Mas, na contemporaneidade, a dependência assume também uma forma temporal: ela impede que as sociedades dependentes convertam suas capacidades em duração.
O país pode produzir ciência, mas não sustenta a sequência institucional necessária para transformá-la em soberania tecnológica. Pode formar quadros, mas não garante trajetórias estáveis. Pode criar políticas, mas não assegura continuidade. Pode imaginar o futuro, mas o vê capturado por urgências que exigem resultado antes da maturação.
A universidade pública brasileira é talvez o lugar mais sensível dessa contradição. Ela concentra uma parte decisiva do intelecto social do país. É nela que se formam pesquisadores, professores, profissionais, tecnologias, interpretações críticas e capacidades institucionais. No entanto, a universidade vive sob uma pressão temporal cada vez mais intensa. Avaliações, relatórios, rankings, editais, métricas, publicações e exigências de produtividade tendem a antecipar a forma do resultado antes que o processo intelectual amadureça.
O conhecimento passa a ser chamado a demonstrar sua validade continuamente. A pesquisa perde, muitas vezes, o tempo silencioso da elaboração. A formação se aproxima do desempenho. A crítica precisa justificar sua existência em linguagem administrativa. A universidade, que deveria ser uma das instituições de defesa da duração, passa a experimentar internamente a compressão temporal da dependência.
Isso não significa rejeitar avaliação, planejamento ou responsabilidade pública. O problema não está na existência de critérios, mas na transformação dos critérios em regime de antecipação. Quando a avaliação ajuda a qualificar processos, ela fortalece a universidade. Quando substitui o processo pela demonstração permanente de desempenho, ela empobrece o conhecimento. A questão central é preservar o tempo necessário para que a ciência, a crítica, a formação e a cultura amadureçam.
Nenhuma sociedade se torna soberana apenas acelerando publicações, multiplicando relatórios ou adaptando suas instituições a métricas externas. Uma sociedade se torna historicamente mais forte quando suas instituições conseguem sustentar processos que ultrapassam o ciclo curto da validação imediata.
7.
China, Alemanha e Brasil revelam, portanto, três respostas distintas ao problema da duração. A China converte o futuro em planejamento estatal integrado. A Alemanha converte o futuro em continuidade institucional e competência acumulada. O Brasil converte o futuro, muitas vezes, em promessa recomeçada. Essa diferença não é moral. Não se trata de elogiar uma sociedade e condenar outra. Trata-se de compreender formas históricas.
A China tem custos políticos, sociais e ambientais próprios. A Alemanha enfrenta rigidez, envelhecimento demográfico, dependência energética e desafios de adaptação tecnológica. O Brasil, por sua vez, possui uma vitalidade social extraordinária, mas sofre com a incapacidade recorrente de proteger institucionalmente essa vitalidade.
Essa política da duração exigiria uma mudança de critério. Em vez de perguntar apenas quanto uma política custa no exercício fiscal imediato, seria necessário perguntar que continuidade ela torna possível. Em vez de avaliar a universidade apenas pela soma de produtos anuais, seria necessário perguntar que formas de inteligência coletiva ela sedimenta.
Em vez de organizar a economia apenas pela reação de curto prazo aos mercados, seria necessário perguntar que capacidades produtivas, tecnológicas e sociais permanecerão no país depois de cada ciclo. A dependência temporal se fortalece quando tudo é medido antes de amadurecer. A soberania começa quando uma sociedade aprende a proteger aquilo que ainda está em formação.
Por isso, a discussão sobre China, Alemanha e Brasil não é externa ao cotidiano brasileiro. Ela atravessa a escola que não consegue planejar sua década, a universidade que espera o orçamento do ano seguinte, a indústria que hesita diante da abertura e da instabilidade, a cidade que cresce sem coordenação, o pesquisador que troca investigação longa por sobrevivência curricular, o jovem que não encontra trajetória e a política pública que vive sob ameaça de reversão. O problema da duração não é abstrato. Ele se materializa em vidas, instituições, carreiras, territórios e expectativas. Quando uma sociedade perde duração, ela não perde apenas tempo; perde a capacidade de reconhecer seus próprios começos como parte de uma história.
A conclusão que se impõe é que o problema brasileiro não pode ser resolvido apenas por melhores gestores, melhores indicadores ou melhores programas setoriais. Tudo isso pode ser necessário, mas é insuficiente. A questão decisiva é criar uma arquitetura histórica da duração. Isso significa organizar Estado, universidade, ciência, indústria, cultura, território e política social como partes de um mesmo processo de longo prazo.
Significa impedir que cada governo recomece o país como se nada tivesse existido antes. Significa proteger políticas estratégicas contra a destruição recorrente. Significa transformar planejamento em pacto institucional e não em peça de propaganda. Significa compreender que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas capacidade de fazer com que processos sociais continuem, amadureçam e se convertam em forma histórica.
Nesse ponto, a Teoria da modernidade dependente permite formular uma tese forte: o subdesenvolvimento contemporâneo não é apenas falta de recursos, tecnologia ou produtividade; é também perda social de duração. Uma sociedade dependente é aquela que não controla plenamente o tempo necessário para transformar potência em forma. Ela possui sementes, mas não garante a profundidade da raiz.
Possui inteligência, mas não garante continuidade institucional ao intelecto social. Possui território, mas não o organiza como projeto. Possui universidade, mas não a protege como mediação crítica de longo alcance. Possui povo, cultura e energia histórica, mas frequentemente os submete à repetição exaustiva dos recomeços.
A comparação com China e Alemanha ajuda a desfazer ilusões. Não há desenvolvimento sem duração. Não há soberania sem instituições capazes de atravessar governos. Não há ciência forte sem tempo de maturação. Não há universidade crítica se todo pensamento for obrigado a provar imediatamente sua utilidade. Não há democracia profunda se a sociedade for mantida em permanente estado de urgência. O futuro não se constrói apenas com metas; constrói-se com tempo protegido, memória institucional, coordenação social e capacidade de sustentar conflitos sem destruir os processos que poderiam amadurecer.
O Brasil talvez precise menos de uma nova promessa de futuro e mais de uma nova relação com a continuidade. Sua tragédia não é ausência de grandeza. Ao contrário, talvez seja justamente possuir grandeza suficiente para saber o que poderia ser, mas não dispor ainda da forma histórica capaz de sustentar essa possibilidade. A tarefa, portanto, não é imitar a China nem copiar a Alemanha. É compreender, a partir de nossa própria formação dependente, que o desenvolvimento brasileiro exige uma política da duração. Uma política capaz de defender o tempo da escola, da universidade, da ciência, da indústria, da cultura, do território, da infância e da vida social contra a pressa destrutiva da validação imediata.
Se a China mostra a força do planejamento estratégico e a Alemanha mostra a força da sedimentação institucional, o Brasil mostra o drama de uma sociedade cuja potência permanece muitas vezes suspensa entre começo e interrupção. Mas é exatamente nesse drama que reside sua possibilidade.
Porque onde a interrupção se torna visível, também se torna possível nomeá-la. E onde uma sociedade consegue nomear a forma de sua dependência, começa a construir a crítica necessária para superá-la. A modernidade dependente sequestra a duração; a tarefa histórica brasileira é devolvê-la à sociedade. Só então o futuro deixará de aparecer como promessa antecipada e poderá tornar-se, enfim, construção comum.
*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].
"A leitura ilumina o espírito".
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