As ideias de Hirschman continuam a oferecer uma rica fonte para a compreensão da complexidade do desenvolvimento econômico, da não linearidade de sua dinâmica e da inter-relação entre os fenômenos econômicos, políticos e sociais. Ilustração de Gemini.
Escolhi o tema da educação e do desenvolvimento para refletir, a convite da UNESCO, sobre o legado e a relevância do pensamento de Albert Hirschman.
Nesta época, em que a ciência, a cultura e a educação estão sob constante ataque, mesmo em alguns dos países mais desenvolvidos, é necessário lembrar que foi graças à expansão do conhecimento e da educação nos últimos dois séculos que a humanidade conseguiu atingir seu atual nível de desenvolvimento tecnológico, e enfatizar que a educação é uma condição necessária para a construção de sociedades democráticas e inclusivas.
Albert O. Hirschman argumentou que o desenvolvimento não é um processo linear e, portanto, previsível. Em vez de reformas “estruturais” em larga escala, ele propôs mudanças progressivas e incrementais que gerariam um efeito cumulativo significativo.
Para ele, investimentos estratégicos em infraestrutura, saúde, ciência, tecnologia e educação geram conexões e ciclos virtuosos que retroalimentam o crescimento econômico e o desenvolvimento social.
Um pilar fundamental que diferenciava sua abordagem era a importância da participação social nos processos de desenvolvimento, visto que, segundo ele, o envolvimento das comunidades e a promoção de processos de planejamento participativo podem ser decisivos para o sucesso de uma estratégia de desenvolvimento.
Hirschman também chamou a atenção para as “barreiras à mudança”. Essas barreiras podem ser econômicas, sociais e até mesmo psicológicas.
As ideias de Hirschman continuam a oferecer uma rica fonte para a compreensão da complexidade do desenvolvimento econômico, da não linearidade de sua dinâmica e da inter-relação entre fenômenos econômicos, políticos e sociais, bem como da importância da interação entre fatos econômicos, políticas e ideias.
Para ele, os recursos destinados à educação não eram uma despesa, mas um investimento com efeitos multiplicadores na esfera econômica e também na vida social.
Além de desenvolver o capital humano, a educação pode fomentar atitudes que promovam a participação democrática, a responsabilidade política e um ambiente propício à inovação e ao engajamento social. No arcabouço proposto por Hirschman em sua obra clássica , Saída, Voz e Lealdade (1970), a educação é fundamental porque capacita os indivíduos a expressarem suas opiniões e a participarem do processo de desenvolvimento.
Hirschman reconheceu que a expansão da educação pode gerar tensões se a economia não crescer em paralelo com as aspirações sociais, criando frustração e agitação social que podem ser expressas de muitas maneiras diferentes.
A educação é necessária, mas se não for acompanhada por uma estratégia de desenvolvimento, pode gerar uma crise de expectativas que leva ao questionamento da capacidade do sistema democrático de canalizar as demandas sociais.
No final do século XX, Paul Krugman publicou o livro " A Era das Expectativas Diminuídas: A Política Econômica dos EUA na Década de 1990" . Quase três décadas depois, fica claro que, se já naquela época se percebia globalmente um problema de expectativas reduzidas de crescimento e melhoria do padrão de vida, hoje nos encontramos em uma crise de expectativas.
Como chegamos a esta situação? O antecedente imediato é o colapso do consenso macroeconômico que orientou a política econômica durante as três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, com a ascensão de uma ideologia que influenciou as políticas a serem seguidas, o chamado “neoliberalismo”.
Em seu livro "O Caminho para a Liberdade: A Economia e a Boa Sociedade " (2024), Joseph E. Stiglitz alertou: "O neoliberalismo não é autossustentável. É contraditório. Distorceu nossa sociedade. Cultivou um egoísmo extremo e materialista que minou a democracia, o bem-estar social e a confiança."
Em "Saída, Voz e Lealdade", Hirschman desenvolve um modelo para explicar como os indivíduos reagem à deterioração das organizações. A saída envolve o abandono da organização quando os cidadãos a percebem como não mais funcional, seja abstendo-se da participação política ou eleitoral, deixando de participar do debate público ou mesmo emigrando. A voz, por outro lado, é a expressão de uma ideia ou vontade de promover mudanças internas, seja por meio da participação política, protestos, ativismo político ou deliberação pública. A lealdade é a disposição de permanecer e participar mesmo quando há deficiências, um senso de pertencimento que inibe a saída e incentiva a expressão de opiniões para aprimorar a organização, e que se manifesta na identidade nacional, na confiança institucional e no engajamento cívico.
O pensamento de Hirschman nos fornece uma ferramenta para compreender a crise democrática contemporânea. A democracia deliberativa surge como uma síntese que transforma vozes individuais em deliberação institucionalizada, lealdade em consenso político razoável e a saída em uma opção residual, que deve funcionar como um fator de dissuasão e um poderoso corretivo em qualquer organização ou Estado, em vez de uma resposta de massa. Essas abordagens nos permitem entender o populismo como um sintoma de falhas estruturais nos mecanismos de participação democrática.
Para superar essas fragilidades estruturais, bem como para construir alternativas de desenvolvimento socialmente inclusivas e ambientalmente sustentáveis, a educação é agora mais crucial do que nunca. Precisamos de uma educação que aborde a complexidade da sociedade contemporânea, bem como da necessidade de um modelo educacional que permita aos nossos jovens aprender a continuar aprendendo ao longo de suas vidas, em uma sociedade onde o conhecimento avança rapidamente. Uma educação que os prepare para o trabalho, mas também para a vida em comunidade e para o exercício de sua responsabilidade como cidadãos.
*Reitor da UNAM Este texto resume as principais ideias da palestra proferida pelo Reitor da UNAM, no âmbito da Cátedra Albert Hirschman da UNESCO.
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