Tarifas de guerra



Editorial

O governo Trump anunciou a imposição de tarifas entre 10% e 12,5% sobre um grupo de 60 países que acusa de não tomarem medidas suficientes contra o trabalho forçado. Diversas considerações são necessárias para compreender o significado e o alcance desse anúncio. Primeiramente, essas tarifas não são adicionais às já existentes, mas sim substituem as tarifas anteriores. Isso faz parte de um cálculo do governo Trump de que o mecanismo utilizado para implementar as novas taxas será mais difícil de ser contestado judicialmente e menos suscetível a reveses legais, como os sofridos por sua ferramenta predileta, que lhe permitia impor tarifas ilimitadas antes de a Suprema Corte dos EUA decidir que tal mecanismo carecia de base legal para sua aplicação.

Por outro lado, é importante esclarecer que isso não implica qualquer acusação de trabalho forçado no México e, na verdade, não tem absolutamente nada a ver com exploração trabalhista. Sua base é a Lei de Prevenção do Trabalho Forçado Uigur (UFLPA), uma lei de 2022 que rotula todos os produtos fabricados na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, na China, como produzidos com trabalho forçado e proíbe sua entrada nos Estados Unidos. Para implementar a proibição, nenhuma prova de práticas trabalhistas antiéticas é necessária; basta comprovar que um produto contém qualquer componente daquela região ou de qualquer outra entidade que Washington decida adicionar a uma lista negra arbitrária. Em outras palavras, faz parte da guerra comercial que os Estados Unidos travam para conter seu declínio diante da ascensão da China, e pune outros países por não seguirem as diretrizes geopolíticas da Casa Branca com o entusiasmo necessário.

A própria administração republicana deixou claro que os direitos dos trabalhadores são um pretexto que pode ser usado em substituição de qualquer outro que sirva aos seus interesses. Em uma teleconferência com jornalistas antes do anúncio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, altos funcionários disseram que “o presidente não permitirá que sua política comercial e seus objetivos gerais sejam prejudicados simplesmente porque uma ferramenta pode ser limitada por um tribunal ou algo do tipo” e que “a verdadeira mensagem que todos precisam entender é que o presidente sempre usará as ferramentas à sua disposição para atingir seus objetivos de política comercial”.

Por fim, a continuidade das tarifas deve ser analisada no contexto da guerra que Donald Trump está travando — e perdendo — no Irã, para a qual ele acaba de solicitar ao Congresso uma verba de US$ 95 bilhões, além do US$ 1 trilhão já alocado no orçamento militar deste ano e do US$ 1,5 trilhão que solicitará para 2027. A menos que alguém o impeça, o magnata continuará a perturbar as cadeias de suprimentos globais e a obrigar os consumidores de seu país a arcar com o custo de seus desastres militares.

"A leitura ilumina o espírito".

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