Berlim, Paris, Madri. Gás, energia nuclear, energias renováveis. A batalha pela base energética da futura indústria europeia está em aberto, e o atual campo de batalha é o Ato de Aceleração Industrial em debate na União Europeia. Foto: Iberdrola / arquivo
Berlim, Paris, Madri. Gás, energia nuclear, energias renováveis. A batalha pela base energética da futura indústria europeia está em aberto, e o atual campo de batalha é a Lei de Aceleração Industrial (LAI), em debate na União Europeia. Esta não é apenas mais uma diretiva; ela definirá as regras do jogo para o desenvolvimento econômico nas próximas décadas e determinará quais regiões e setores estarão na vanguarda.
Esta regulamentação, cujo projeto foi apresentado em março, possui múltiplas camadas de análise. Não conseguiremos abordá-las todas aqui, mas duas são de particular interesse. A primeira, que tem sido notícia, centra-se na China. A iniciativa europeia, também conhecida como "Lei Made in Europe", procura revitalizar a indústria europeia em dificuldades e, para esse fim, visa mobilizar auxílios estatais, financiamento e subsídios há muito demonizados pela ortodoxia financeira imposta pela Alemanha. Isso por si só já é notícia.
Mas, entre as medidas para impulsionar as fábricas do continente, Bruxelas também incluiu passos significativos para defender a produção nacional e controlar o investimento estrangeiro, especialmente da China, que já ameaçou retaliar. Embora a tensão externa com Pequim seja intensa, a luta interna entre os parceiros europeus não é menos acirrada.
O que está em jogo é a matriz energética da indústria do futuro. A Lei de Aceleração da Descarbonização (IAA, na sigla em inglês), originalmente chamada de "Lei do Acelerador da Descarbonização", é essencialmente uma tentativa de conciliar duas necessidades urgentes, reconciliáveis em alguns aspectos e regiões, mas dificilmente compatíveis em outros. Estamos falando da reindustrialização europeia — com a qual Bruxelas pretende recuperar a competitividade perdida — e da transição energética que a Europa um dia aspirou liderar.
Esta última diretiva surge como uma exigência em resposta à crise climática, demandando uma transição para longe dos combustíveis fósseis. No entanto, não devemos nos deixar enganar, pois, nos países emergentes, a dependência energética tem um preço muito alto. A Europa possui petróleo na Noruega e gás na Holanda, mas isso está longe de suprir suas necessidades.
A falta de soberania energética é uma desvantagem. Parece óbvio que essa tentativa de revitalizar industrialmente a Europa deva se concentrar em energias renováveis e indústrias eletrificáveis, mas a situação não é tão simples, pois isso introduz um novo ator na tradicional equação franco-alemã que historicamente moldou a União Europeia. A Alemanha, motor industrial do continente, baseou a competitividade de sua poderosa indústria no gás barato da Rússia.
Desde o fim desse fornecimento – após o ataque de Moscou à Ucrânia em 2022 – a indústria manufatureira alemã tem sofrido. A França, sempre peculiar, baseia sua produção industrial na energia nuclear. Esses dois países testemunharam como, nos últimos cinco anos, a implantação massiva de instalações de energia renovável na Espanha mudou o mapa energético do sul da Europa. Isso foi feito de forma questionável, o que trará ainda mais problemas no futuro, sem contestar um modelo de negócios baseado no controle de algumas poucas empresas privadas, sem participação cidadã e com operações que não deveriam surpreender ninguém se acabarem em casos de corrupção.
Isso é verdade e terá repercussões, pois está se perdendo uma oportunidade de ouro para testar novos modelos energéticos mais democráticos. Mas é igualmente verdade que, nos últimos anos, a Espanha produziu a eletricidade mais barata entre os principais países europeus, resultado direto do aumento da geração de energia renovável (55% do total no ano passado). Este fator, e não outros, é o que permitiu a Madri impulsionar o crescimento europeu nos últimos anos.
Isso é motivo de preocupação na Alemanha, que tem se mantido inerte, talvez aguardando a recuperação do fornecimento russo — esse debate ressurgirá mais cedo ou mais tarde. Segundo um artigo recente de Marc López Plana, especialista nas complexidades da política europeia, Berlim está pressionando para que a nova Lei de Aceleração Industrial inclua critérios relativos à “proximidade logística do consumidor final” no financiamento e apoio à indústria. O objetivo é desencorajar a realocação de empresas para o sul, onde a energia é mais barata. Paris também observa essa questão com desconfiança e pressiona para que a lei inclua a energia nuclear entre as “tecnologias estratégicas”.
O apagão que atingiu a Península Ibérica há um ano, deixando Portugal e Espanha sem eletricidade, desencadeou uma onda de indignação contra as energias renováveis, que foram as primeiras a serem culpadas. Um ano depois, todos os relatórios descartaram essa responsabilidade — na verdade, as centrais termoelétricas e os protocolos obsoletos foram os principais culpados — e o fechamento do Estreito de Ormuz aumentou o valor de tudo o que contribui para a soberania energética. Madri quer um lugar à mesa com os principais atores, mas não está claro se Berlim e Paris permitirão. Não vai gerar manchetes bombásticas, mas as linhas de batalha já foram traçadas.
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