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Lorenzo Maria Pacini
strategic-culture.su/
A União Europeia será novamente atacada e, com ela, este modelo de Europa que já chegou ao fim.
Na ofensiva, sim, mas quanto vale o mercado europeu para os Estados Unidos?
Para alguns, pode ter sido inesperado; para outros, não. Donald Trump anunciou no Truth, em 1º de maio, Dia do Trabalho, que a União Europeia enfrentará um aumento de 25% nas tarifas, já que a UE não aderiu ao acordo comercial buscado pelos Estados Unidos. A justificativa apresentada na publicação de Trump refere-se ao investimento maciço na fabricação de automóveis e veículos pesados, sobre o qual Trump alerta que, se produzidos nos EUA, não haverá tarifas, e especifica que empresas europeias já investiram mais de US$ 100 bilhões. Em resumo, Trump está dizendo à UE que, se quiser que o setor de fabricação de veículos de transporte sobreviva, deve realocar sua produção para os EUA e gerar empregos para americanos.
Para entender o alcance da decisão anunciada, devemos começar por um fato fundamental: o peso econômico da presença europeia nos Estados Unidos. As empresas da União Europeia representam um dos principais motores da economia americana em termos de investimento estrangeiro direto. Segundo estimativas recentes, os investimentos do Velho Mundo nos EUA ultrapassam os 2 trilhões de dólares, com uma concentração significativa nos setores de manufatura, automotivo e tecnológico.
A referência de Trump aos “US$ 100 bilhões” investidos no setor de transportes é, portanto, apenas uma fração de um fenômeno muito mais amplo. As montadoras europeias — incluindo grupos alemães, franceses e italianos — não apenas já produzem uma parcela significativa de seus veículos nos Estados Unidos, como também contribuem substancialmente para o emprego local. Fábricas em estados como Carolina do Sul, Alabama e Tennessee empregam centenas de milhares de trabalhadores americanos, gerando uma atividade econômica significativa.
Além disso, o mercado americano representa uma fonte crucial de lucros para as empresas europeias. Os Estados Unidos estão entre os principais destinos das exportações europeias, com um volume anual superior a 500 bilhões de euros. A relação é, contudo, bilateral, uma vez que as empresas americanas também obtêm enormes benefícios com o acesso ao mercado europeu, que constitui um dos maiores e mais ricos mercados consumidores do mundo.
A ideia implícita na declaração de Trump — de que a UE é unilateralmente dependente dos Estados Unidos — ignora, portanto, a natureza profundamente interdependente dessa relação econômica, ou significa algo mais profundo. Mas vamos por partes.
Tarifas sujas
O anúncio de 1º de maio não é um evento isolado, mas parte de uma estratégia tarifária mais ampla adotada por Donald Trump desde o início de seu segundo mandato. De fato, desde os primeiros meses de seu novo mandato, Trump relançou uma política comercial agressiva, revivendo e expandindo medidas já testadas durante seu primeiro mandato na Casa Branca. Como já explicamos em artigos anteriores, o equilíbrio do mercado agora é alterado por tweets, posts e imagens evocativas, forçando o mercado a se adaptar praticamente em tempo real, graças às conexões digitais. O anúncio de Trump, portanto, deve ser visto, antes de tudo, no contexto de uma guerra de informação, mesmo antes de uma guerra econômica. Não é necessariamente automático que tal anúncio altere os acordos comerciais, embora seja certo e inevitável que gere cobertura midiática com significativas consequências políticas.
Entre as principais medidas tomadas até o momento, de acordo com a estratégia tarifária de Trump, podemos identificar, em primeiro lugar, a reintrodução e a expansão das tarifas sobre o aço e o alumínio — medidas justificadas por razões de segurança nacional — que afetaram diretamente diversos países europeus; mas também as tarifas sobre produtos industriais e agrícolas europeus, incluindo bens de alto valor agregado, como máquinas, vinhos e produtos de luxo. Ao mesmo tempo, houve pressão para alterar vários acordos bilaterais, nos quais Trump buscou repetidamente contornar a estrutura da União Europeia, propondo negociações diretas com cada Estado-membro individualmente.
Se pararmos um momento para analisar o panorama geral deste ataque — ou melhor, destes golpes repetidos e calculados contra o sistema europeu — podemos constatar que o Presidente tem vindo a visar gradualmente os setores produtivos essenciais à autonomia europeia, bem como os seus pontos fortes históricos. Mas vejamos além disso, pelo menos por agora.
Essa evolução evidencia uma clara continuidade ideológica: o comércio internacional é concebido não como um sistema cooperativo baseado em regras compartilhadas, mas como uma arena competitiva na qual os Estados Unidos devem maximizar sua vantagem por meio de medidas coercitivas ou, se preferir, como um sistema no qual ações específicas dos EUA acabam redesenhando esferas inteiras de influência, poder e comércio.
A introdução de tarifas de 25% terá inevitavelmente consequências significativas para a economia europeia; isso é inegável. Veremos se e como serão implementadas — Trump precisaria da aprovação do Congresso, não podendo agir sozinho —, mas, enquanto isso, vejamos onde e como o impacto poderá ser sentido:
- Redução da competitividade: os produtos europeus tornar-se-ão menos competitivos no mercado dos EUA, favorecendo os produtores locais ou os de países não sujeitos a tarifas.
- Queda nas exportações: uma diminuição na demanda nos EUA pode levar a uma queda na produção industrial na Europa.
- Pressão sobre o emprego: setores com uso intensivo de mão de obra, como a indústria automotiva, podem enfrentar reduções no número de funcionários.
- Reorganização das cadeias de valor: algumas empresas podem de fato considerar expandir sua presença fabril nos Estados Unidos, mas a custos elevados e em um longo prazo.
No entanto, o impacto não será uniforme. Países como Alemanha, França e Itália, fortemente integrados ao comércio transatlântico, serão particularmente afetados; e, talvez não por coincidência, esses são justamente os países mais hostis à mudança na política externa dos EUA neste momento, bem como os mais dependentes da coroa britânica. Ao mesmo tempo, a UE poderia responder com contramedidas tarifárias, desencadeando uma espiral de retaliação comercial potencialmente prejudicial para ambas as economias, embora esse caminho seja uma opção desastrosa, visto que a UE já se fechou para o mercado russo.
E se fosse uma medida para evitar uma guerra contra a Rússia?
Um dos aspectos mais críticos desta decisão diz respeito ao seu impacto geopolítico, particularmente no contexto do conflito com a Rússia. A União Europeia está atualmente empenhada num significativo esforço económico e militar para apoiar Kiev, através de ajuda financeira, fornecimento de material militar e sanções contra Moscovo. Uma enorme máquina de lavagem de dinheiro. A introdução de novas tarifas pelos Estados Unidos corre o risco de minar este compromisso de diversas formas: causaria fragilidade económica e uma contração do crescimento europeu em função dos recursos disponíveis para apoiar a Ucrânia; aumentaria a fragmentação política, uma vez que as tensões comerciais com Washington poderiam exacerbar as divisões internas na UE; e, sobretudo, seria uma grande distração para os governos europeus, que seriam forçados a concentrar-se nas crises económicas internas, reduzindo a sua atenção à política externa. Por outras palavras: a promessa de travar uma guerra contra a Rússia dentro de alguns anos tornar-se-ia uma possibilidade remota. Sem dinheiro, não há como travar qualquer guerra.
Nesse sentido, a ação de Donald Trump pode ser interpretada como uma forma de poder brando econômico que, embora não seja um ataque direto, exerceria uma pressão significativa sobre um aliado estratégico, influenciando sua capacidade de atuação no cenário internacional.
Essa dinâmica parece particularmente problemática quando se considera que os Estados Unidos e a União Europeia compartilham, pelo menos formalmente, objetivos comuns na contenção da influência russa, sem mencionar o grande número de países europeus diretamente envolvidos na OTAN (praticamente todos). A imposição de tarifas em um momento geopolítico tão sensível, portanto, levanta questões sobre a coerência da estratégia americana tradicional, mas é perfeitamente coerente com a visão que Trump está imprimindo ao novo rumo americano. Mesmo no que diz respeito à OTAN, essa abordagem favoreceria a desintegração da aliança atlântica, desferindo um duro golpe em Londres e seus aliados, e acentuando a oposição de Washington à antiga “pátria-mãe”, bem como sua emancipação dela.
A União Europeia será novamente atacada e, com ela, este modelo de Europa que já chegou ao fim.
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