Durante décadas, a política global foi enquadrada como uma disputa entre grandes potências. Mas esse roteiro familiar está começando a ruir.
Dai Weilai
No discurso internacional recente, o termo "potências médias" tornou-se muito popular, então hoje falaremos sobre ele.
Quando as pessoas pensam em assuntos globais, geralmente tendem a imaginar alguns "pesos-pesados": como os EUA e a China estão competindo, como o conflito entre Rússia e Ucrânia terminará e se os incêndios no Oriente Médio continuarão a arder. Pode parecer que o mundo é sempre moldado por um "jogo" entre grandes potências.
Mas os tempos mudaram. Um grupo de "atores orientados para a ação" emergiu no cenário global. Embora possam não ser capazes de determinar sozinhos a direção da trajetória mundial, em momentos críticos podem ajudar a direcioná-la. São as "potências médias" que, coletivamente, estão assumindo o protagonismo.
O ex-secretário de Estado americano Antony Blinken disse certa vez: "Se você não está à mesa, você está no cardápio". É uma afirmação direta e bastante incisiva. Mas, em janeiro deste ano, no Fórum Econômico Mundial de Davos, o primeiro-ministro canadense Mark Carney dirigiu-se diretamente ao mundo, dizendo: "Nós, potências médias, devemos agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio".
Veja bem, até o Canadá — um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos — está começando a se preocupar com o seu “destino gastronômico”. O que isso nos diz? Mostra que o velho roteiro de “os Estados Unidos decidem e as grandes potências determinam tudo” não funciona mais.
O que são, então, as “potências médias”? Não são países pequenos ligeiramente maiores, nem grandes potências ligeiramente menores. Elas se situam entre as principais potências globais e os Estados de pequeno e médio porte: economicamente capazes, militarmente competentes, influentes regionalmente e reconhecidas internacionalmente. Não estão dispostas a permanecer como meras espectadoras na competição entre as grandes potências e, em vez disso, desejam ter mais voz na governança global.
Em termos simples, são um grupo de "jogadores experientes" que têm dinheiro no bolso, recursos disponíveis, um forte senso de autonomia e um grande apetite por networking.
Analisando o cenário internacional atual, essas “minorias-chave” ativas podem ser divididas, de forma geral, em quatro grupos.
Primeiro: os “estrategistas geopolíticos” altamente hábeis em manobras — como a Turquia, a Arábia Saudita e a Índia. Esses países são centros estratégicos com influência significativa. A Turquia, por exemplo, é membro da OTAN, mas coopera abertamente em questões militares com a Rússia. A Arábia Saudita, por sua vez, é aliada dos EUA na aparência, mas também aprofunda a cooperação com a China e a Rússia e até mesmo aderiu ao BRICS de forma ostensiva. A lógica deles é simples: não alinhamento, mas benefício. Quem oferece oportunidades de desenvolvimento assume o controle.
Em segundo lugar: os “disruptores do Sul Global” que “não acreditam nas regras antigas” — como a Indonésia, o Brasil e a África do Sul. Sua prioridade é romper com o sistema antigo e construir um melhor.
Tomemos a Indonésia como exemplo. O níquel é essencial para baterias de novas energias, e a Indonésia detém mais de 60% das reservas globais do metal. No passado, a Indonésia só conseguia obter uma renda modesta com a exportação de matéria-prima. Mas, em 2020, apesar da forte pressão ocidental, o país proibiu a exportação de minério de níquel para manter o processamento de valor agregado internamente e modernizar sua indústria. Com o apoio de empresas chinesas, a indústria de processamento de níquel da Indonésia decolou rapidamente. Em apenas seis anos, as exportações de produtos de níquel aumentaram dez vezes.
O Brasil segue uma trajetória semelhante. Como um importante país produtor de terras raras, está empenhado em fortalecer sua capacidade de processamento interno. Em resumo, esses países não querem mais ser meros fornecedores de matéria-prima para o Ocidente — eles almejam ocupar posições de maior destaque nas cadeias de valor globais.
Terceiro: o “grupo transoceânico de dupla dependência” — incluindo Canadá, Austrália, Japão e Coreia do Sul. Sua característica definidora é que “a segurança depende dos EUA, mas as fontes de renda dependem da China”. Veja o caso da Coreia do Sul: a China tem sido, há muito tempo, seu mercado de exportação mais importante, mas os EUA a pressionam para se desvincular da China. Isso não é coordenação de alianças — é, na prática, forçar um país a sacrificar suas próprias armas em nome da lealdade. Mas a lealdade pode ser declarada; os meios de subsistência não podem ser sacrificados.
Quarto: o emergente “bloco de autonomia limitada”, composto principalmente por potências médias europeias como a Alemanha e a Espanha. Embora ainda façam parte do campo ocidental, já não seguem cegamente os Estados Unidos em questões-chave. A Espanha, por exemplo, opôs-se abertamente à ação militar conjunta EUA-Israel contra o Irã e recusou o uso de bases militares espanholas pelos EUA para tais operações. A sua mensagem para Washington é clara: os aliados não são servos — por que deveríamos pagar pelos seus cálculos estratégicos?
Por que esses países estão "se rebelando" agora? A razão é simples. Não é que eles tenham se fortalecido repentinamente da noite para o dia, mas sim que a antiga ordem internacional está se deteriorando e enfraquecendo.
Nos últimos anos, os Estados Unidos têm instrumentalizado cada vez mais tarifas, tecnologia e finanças, usando sanções e ferramentas coercitivas com frequência. Isso fez com que muitos países percebessem que entregar seu destino a outros significa que ele pode ser revertido a qualquer momento.
Entretanto, os desafios globais — segurança regional, mudanças climáticas, transição energética, reestruturação da cadeia de suprimentos — não podem mais ser resolvidos por um único país. A velha ordem está se desintegrando e um novo espaço está se abrindo. Isso cria a oportunidade perfeita para que as potências médias se reposicionem.
Essa mudança pode ser resumida em três "momentos-chave" recentes no discurso internacional.
O primeiro é o “Momento das Potências Médias”. Um artigo da Carnegie Endowment for International Peace intitulado “O Momento das Potências Médias” argumenta que, no alvorecer de um mundo multipolar, as potências médias estão se tornando a espinha dorsal da renovada cooperação internacional. No passado, os EUA ditavam as regras e os outros seguiam. Agora, os EUA não conseguem mais comandar totalmente o sistema, então as potências médias estão cada vez mais formando mecanismos de cooperação regional e alianças temáticas próprias.
Um exemplo é o MIKTA — um grupo formado por México, Indonésia, Coreia do Sul, Turquia e Austrália. Trata-se essencialmente de uma plataforma onde as potências médias se coordenam entre si, sem que as grandes potências liderem o processo.
O segundo ponto é o “momento de mediação do Paquistão”. No final de abril deste ano, o principal jornal paquistanês, Dawn, usou esse termo em um artigo. Em um momento em que as tensões entre os EUA e o Irã estavam extremamente altas, os países que de fato conseguiram desempenhar um papel de mediação foram potências médias regionais como o Paquistão. Situado na encruzilhada do Sul da Ásia, da Ásia Central, do Oriente Médio e do Oceano Índico, e possuindo capacidade nuclear sem estar diretamente envolvido em conflitos, o Paquistão consegue se comunicar com todos os lados. Ele se torna o mensageiro, o construtor de pontes e o agente de desescalada. Isso demonstra que, na política internacional, a influência nem sempre provém da força militar, mas frequentemente de ser ouvido e de inspirar confiança.
O terceiro é o “momento EUA-Suez”. Um editorial do jornal egípcio Al-Ahram comparou a situação entre os EUA e o Irã ao “momento da Crise de Suez”. A analogia é poderosa. Em 1956, durante a Crise de Suez, a Grã-Bretanha e a França venceram militarmente, mas perderam politicamente, renunciando à legitimidade internacional e acelerando o declínio das antigas potências coloniais.
Hoje, os EUA estão caindo em uma armadilha semelhante no Oriente Médio. O Irã, como uma potência média regional significativa, não cedeu à pressão dos EUA, mas, ao contrário, demonstrou forte capacidade de contra-ataque. As bases americanas, os sistemas de defesa aérea e as redes de radar estão sob constante pressão. O mundo está testemunhando que os Estados Unidos, outrora onipotentes, não são mais onipotentes.
É claro que a ascensão das potências médias não leva automaticamente a uma nova ordem global justa e razoável. Esses países têm interesses e contradições diferentes. Alguns buscam autonomia estratégica, enquanto outros se posicionam entre as grandes potências. Mas, coletivamente, sua existência demonstra que o mundo está se afastando de um cenário em que “poucas grandes potências decidem tudo” e caminhando para uma “maior consulta entre diversos atores”.
Do ponto de vista da China, essa mudança é bem-vinda. A China há muito defende um mundo multipolar e a democratização das relações internacionais. Ela não busca hegemonia, esferas de influência ou alinhamento forçado.
A cooperação da China com as potências médias baseia-se na igualdade, na consulta e no benefício mútuo. Para os países que buscam equilíbrio, a China está disposta a expandir os interesses comuns. Para os países que dependem dos EUA para segurança, mas da China para crescimento econômico, a China mantém paciência estratégica — sem impor escolhas, mas também salvaguardando firmemente seus interesses fundamentais. Para as potências médias do Sul Global, a China está disposta a trabalhar em conjunto para reformar a ordem internacional e fortalecer a voz dos países em desenvolvimento.
Em julho de 2024, durante a visita do presidente Xi ao Cazaquistão, a China declarou explicitamente seu apoio ao Cazaquistão para que este desempenhe o papel de potência média no cenário global.
Por fim, uma civilização mundial verdadeiramente madura jamais deveria ser uma selva governada pela lei do mais forte. As grandes potências têm suas responsabilidades, os países pequenos têm sua dignidade. Todas as nações — independentemente de seu tamanho ou força — devem desfrutar de direitos iguais ao desenvolvimento, à segurança e à dignidade, com base na soberania e no direito internacional.
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