A caixa de pandora da direita

Imagem: Liana S


Por LUIZ FERNANDO DE PAULA*

O diagnóstico ortodoxo que culpa apenas o intervencionismo petista pela recessão de 2014-2016 ignora o peso do choque externo, das crises políticas e dos impactos predatórios do ajuste fiscal sobre a economia

1.

A proximidade das eleições tem levado economistas ortodoxo-liberais a abrirem uma verdadeira Caixa de Pandora, do qual sai todos os males, neste caso atribuído ao Presidente Lula e Dilma Roussef e as políticas adotadas pelos governos do PT. A análise desses analistas, entretanto, se revela frequentemente não consensuais e por vezes superficiais. Este me parece ser o caso do artigo de Leonardo Weller, “O elefante na sala”, publicado neste Folha em 17/05/2026, que em resposta ao ensaio de Laura Car­va­lho e Gui­lherme Klein (“Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade”), sus­tenta que a esquerda se recusa a olhar para os efei­tos da crise eco­nô­mica durante o governo Dilma Rous­seff e que as polí­ti­cas expan­si­o­nis­tas do PT ges­ta­ram a reces­são de 2014-2016.

O autor atribui ainda a suposta impopularidade do Presidente Lula a crise de 2014/2016, resultante de políticas inconsistentes adotadas pelo Governo Dilma, crise que segundo ele seria ainda pouco analisada e compreendida, em que pese haja uma ampla literatura sobre o assunto (ver, por exemplo, o livro do André Singer, “Os Sentidos do Lulismo”). Para ele é falso atribuir a crise externa a desaceleração econômica no Governo Dilma. Ademais a crise econômica no Governo Dilma teria suas origens nos estímulos econômicos pelo lado da demanda, via expansão do crédito e via gastos públicos nos governos Lula 1 e Lula 2.

O artigo tem vários pontos questionáveis.

2.

Em primeiro lugar, assume que qualquer estímulo do governo pelo lado da demanda é contraprodutivo para o crescimento econômico e gera distorções na economia. Esta é uma visão – baseada na abordagem monetarista e novo-clássica – que não é consensual na economia. Economistas keynesianos sustentam que empresários estão dispostos a mobilizar fatores de produção (trabalho, capital e tecnologia) somente se tiverem expectativas de vendas futuras (princípio da demanda efetiva), e não há uma mão invisível de mercado em economias monetárias que garanta que o que o empresário produz vai ser vendido no mercado. Nisto resulta que em momentos em que os gastos privados estão declinantes, em função de expectativas deterioradas dos empresários quanto ao futuro (como vivemos nos tempos atuais), o gasto público pode ser usado como um instrumento contracíclico eficaz, já que pode ter efeitos multiplicadores sobre a renda sobretudo em conjunturas recessivas, como atestam vários trabalhos empíricos feitos na academia nos EUA e no Brasil sobre multiplicadores fiscais.

Leonardo Weller parece acreditar na polêmica tese do Alberto Alesina da “contração fiscal expansionista”, segundo o qual o ajuste fiscal feito com corte nos gastos públicos gera crescimento econômico, pois ao sinalizar um compromisso crível com a sustentabilidade da dívida pública ocasiona uma queda nas taxas de juros de longo prazo, melhorando a confiança dos agentes de modo a estimular investimento privado e consumo das famílias, mais que compensando queda na demanda agregada gerada pelo menor gasto do governo. Esta tese, entretanto, foi fortemente questionada empiricamente no mainstream norte-americano.

Do ponto de vista empírico, diversos estudos questionaram a metodologia utilizada por Alesina e seus coautores para identificar episódios de ajuste fiscal e seus efeitos sobre o crescimento, mostrando que muitos dos casos considerados “expansionistas” ocorreram em contextos favoráveis, marcados por forte crescimento das exportações, desvalorizações cambiais ou políticas monetárias expansionistas, e não pelos cortes de gastos públicos em si. Além disso, outras pesquisas empíricas – como já indicado neste artigo – mostram que os multiplicadores fiscais costumam ser elevados em momentos de crise, de modo que a austeridade frequentemente aprofunda recessões, aumenta o desemprego e pode até dificultar a redução da relação dívida/PIB ao enfraquecer o crescimento econômico.

3.

Em segundo lugar, a afirmação de Weller que é falso atribuir a crise externa a desaceleração econômica no Governo Dilma é questionável também. Exercício empírico feito pelo economista Braulio Borges mostrou que pelo menos 38% da desaceleração do PIB per capita brasileiro em 2012-2017 pode ser atribuído a “bad luck”, entre os quais a queda nos preços de commodities observadas neste período (https://blogdoibre.fgv.br/posts/impacto-dos-erros-reais-da-nova-matriz-tem-sido-muito-exagerado). Fatores políticos, como a operação Lava-Jato, como Weller reconhece, também contribuiu para a desaceleração econômica (aguda em 2014-2016, com média de menos 2,1% a.a.) e forte aumento na taxa de desemprego (mais de 9,0% em 2015). Considerando um conjunto de fatores econômicos (queda nos preços de commodities, crise hídrica, etc.) e políticos (lava-jato, ascensão da direita no Congresso, etc.) pode-se sustentar que houve uma verdadeira “tempestade perfeita” no país a partir de 2014 que resultou em uma forte recessão em 2015/2016 (média negativa do PIB real de 3,4% no biênio).

Weller sustenta ainda que “uma crítica à Dilma, oriunda da esquerda, sugere que a crise teria sido causada pela guinada ortodoxa do seu segundo governo —seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tentou cortar gastos e aumentar impostos para reequilibrar as contas públicas. Essa narrativa é, entretanto, inconsistente com o ‘timing’ da recessão, que, de acordo com o Ibre (…), começou no segundo trimestre de 2014, antes de Dilma 2.” Ora não se pode afrontar os dados: de fato a recessão começou em 2014, mas esses mesmos dados mostram que a desaceleração se aprofundou sobremaneira – e este é um ponto relevante – em 2025, por ocasião da tentativa do Ministro Joaquim Levy fazer um ajuste fiscal a fórceps numa conjuntura claramente recessiva. Ao mesmo tempo a tentativa fracassada de ajuste fiscal em meio recessão, cortando gastos públicos, resultou num aprofundamento da crise econômica, o que por sua vez inviabilizou o referido ajuste, obrigando o governo a rever sua meta de superávit primário, em função da queda na arrecadação fiscal.

Para Weller o problema principal no Brasil é de baixa produtividade dada a ausência de reformas estruturais (leia-se reformas liberais), argumento que é repetido ad nauseam por economistas ortodoxo-liberais. Dizer que o problema do Brasil é de baixa produtividade é tautologia, não diz nada sobre a relação de causalidade entre produtividade e crescimento econômico. E um dos problemas da baixa produtividade no Brasil é justamente o de baixo crescimento econômico, em particular do setor industrial. A Lei Kaldor-Verdoorn sustenta que o crescimento da produção, especialmente industrial, tende a gerar aumento da produtividade do trabalho devido aos retornos crescentes de escala e aos efeitos dinâmicos de aprendizado e inovação. Deste modo, a relação de causalidade entre produtividade e crescimento econômico é inversa.

4.

Vale ressaltar que Weller não faz qualquer menção ao experimento neoliberal durante os Governos Temer e Bolsonaro, quando foram implementadas várias reformas e medidas liberalizantes, como o teto de gastos, reforma trabalhista, e privatização da BR Distribuidora e da Eletrobrás. Apesar das reformas estruturais feitas neste período, o crescimento médio do PIB real em 2017/2023 foi de apenas l,72% a.a. contra 4,0% a.a. no período 2004/2013, período em que houve uma melhoria significativa nos indicadores sociais do país, inclusive com redução da pobreza, enquanto tais indicadores pioraram significativamente no período 2017/2023.

Cabe destacar que, segundo dados do Observatório de Política Fiscal do IBRE/FGV, o investimento público aumentou de 2,85% do PIB em 2007 para cerca de 4,0% do PIB no período 2009/2013, e foi um dos fatores que contribuiu para manutenção do crescimento elevado no período do chamado de “milagrinho”. Portanto, uma análise minimamente equilibrada considera que não há uma relação de causalidade simples e direta entre reformas e crescimento econômico. Crescimento econômico depende de vários fatores, do lado da oferta e da demanda da economia, inclusive da natureza da reforma implementada.

Em suma, a interpretação da crise de 2014-2016 e de seus desdobramentos políticos e econômicos exige uma análise mais nuançada e menos dogmática do que aquela baseada exclusivamente na defesa de reformas liberalizantes e austeridade fiscal. A experiência brasileira recente mostra que não existe uma relação automática entre ajuste fiscal, reformas pró-mercado e crescimento econômico sustentado. Ao contrário, o desempenho da economia depende da combinação entre contexto internacional, dinâmica política interna, investimento público e privado, política macroeconômica e capacidade de expansão da demanda e da produção. Uma leitura equilibrada do período deve reconhecer tanto os limites e problemas da chamada “nova matriz econômica” quanto os efeitos recessivos do ajuste fiscal de 2015 e das políticas implementadas posteriormente, evitando explicações simplificadoras para um processo histórico marcado por elevada complexidade econômica e política.

*Luiz Fernando de Paula é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro A economia brasileira na encruzilhada: ensaios sobre macroeconomia, desenvolvimento econômico e economia bancária (Appris). [https://amzn.to/4u5K40g]


"A leitura ilumina o espírito".

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