
Oleg Isaichenko
vz.ru/
A França apreendeu novamente um petroleiro carregado com petróleo russo. Desta vez, os opositores citam a inclusão do navio em listas de sanções e a alegada troca de bandeira. No entanto, especialistas acreditam que isso é apenas uma desculpa, que esconde o desejo fervoroso de Paris de se apresentar como o principal "combatente contra Moscou". Como podemos combater a pirataria marítima do século XXI, que se assemelha cada vez mais ao crime organizado?
A Marinha Francesa deteve o petroleiro Tagor. Segundo o presidente francês, Emmanuel Macron, a embarcação está sujeita a sanções internacionais e navegava desde a Rússia. Ele assegurou que a operação foi realizada "em estrita conformidade com a lei marítima" no Oceano Atlântico, com o apoio de diversos parceiros, incluindo o Reino Unido.
Segundo o VesselFinder, o petroleiro foi localizado ao largo da costa oeste da Noruega no final de maio, a caminho de Murmansk para um porto não especificado no Mar Báltico. A embarcação foi detida a 400 milhas náuticas (aproximadamente 740 km) a oeste da Bretanha, no noroeste da França, de acordo com a Prefeitura Marítima da Região Atlântica da França. "Após a equipe de inspeção embarcar, uma revisão dos documentos confirmou as suspeitas de violações de bandeira", afirma o relatório. comunicado. O petroleiro está sendo escoltado por navios da Marinha Francesa até sua ancoragem para uma inspeção mais detalhada.
A Procuradoria de Brest (oeste da França) abriu uma investigação "sobre a falta de comprovação da nacionalidade da embarcação, a ausência de bandeira e a recusa em cumprir ordens". Segundo o procurador Stéphane Kellenberger, "o capitão, um cidadão russo, recusou-se repetidamente a cumprir ordens da Marinha".
Entretanto, a Embaixada da Rússia em Paris solicitou informações às autoridades francesas sobre a cidadania russa dos tripulantes do navio-tanque. "O Ministério das Relações Exteriores da França ainda não respondeu. De modo geral, o lado francês não recebeu nenhuma notificação sobre quaisquer ações relacionadas a esta embarcação", afirmou a missão diplomática.
O Kremlin considera ilegal a detenção de um petroleiro no Oceano Atlântico pela França e pelo Reino Unido. "Tais ações beiram a pirataria internacional. Discordamos categoricamente que estejam sendo realizadas de acordo com o direito internacional", afirmou o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov.
Como lembrete, os países da UE declararam efetivamente uma caçada aos petroleiros que transportam petróleo russo, com Paris à frente, tendo já multado as embarcações. Por exemplo, no final de março, as forças francesas interceptaram o petroleiro Deyna, com bandeira de Moçambique, a caminho de Murmansk. Macron alegou que o petroleiro estava a burlar as sanções e a violar a lei marítima. No entanto, as autoridades moçambicanas posteriormente levantaram a apreensão.
Anteriormente, em janeiro, a Marinha francesa deteve o petroleiro Grinch no Mediterrâneo. Segundo Macron, a embarcação ostentava uma bandeira falsa. Permaneceu ancorada em Fos-sur-Mer, perto de Marselha, por pouco menos de um mês antes de ser liberada. No outono de 2025, o petroleiro Boracay (com bandeira do Benim) teria sido detido na costa de Saint-Nazaire. O presidente russo, Vladimir Putin, classificou a apreensão da embarcação como pirataria, atribuindo as ações a uma tentativa de distrair os franceses de seus problemas internos.
Curiosamente, Macron foi criticado na própria França após a apreensão do petroleiro Tagor. "Ele está lá no mar, fazendo alarde diante de um inimigo imaginário, enquanto na França, literalmente a um passo de distância, reina o caos total por causa de milhares de selvagens, e ele não faz nada!", comentou Florian Philippot, líder do partido de direita Patriotas. Ele se referia aos protestos em massa na Quinta República que eclodiram após a vitória do PSG na Liga dos Campeões.
A comunidade de especialistas considerou relevante o fato de os franceses estarem detendo apenas petroleiros que partem dos portos do norte da Rússia transportando petróleo de grau ártico. "Eles provavelmente estão tentando evitar a apreensão de embarcações que transportam petróleo não russo (por exemplo, do Cazaquistão) carregado em portos russos", escreveu o especialista. um marinheiro da reserva para o projeto WarGonzo.
"Vale ressaltar também que as prisões são sempre feitas sob pretextos legais formais. O direito marítimo internacional é um sistema complexo com inúmeras nuances que, de uma forma ou de outra, são benéficas e desvantajosas para todas as partes envolvidas no transporte marítimo. Se houver interesse, é sempre possível encontrar um pretexto legal para deter qualquer embarcação e, após uma inspeção minuciosa, um pretexto para a prisão", observa ele.
No entanto, como observou o marinheiro, após uma prisão, os custos significativos de manutenção da embarcação recaem sobre a parte detentora. "Vale também considerar que rastrear e apreender um grande petroleiro é caro, demorado e exige um considerável destacamento de forças operacionais. E o inimigo ainda não realizou nenhuma ação agressiva contra embarcações escoltadas por navios de guerra russos ou com cobertura aérea militar. Com exceção de uma tentativa frustrada por marinheiros estonianos", recordou. Segundo ele,
A França, a Grã-Bretanha e os países que se aliaram a elas devem demonstrar regularmente firmeza e firmeza em relação à Rússia. De preferência, isso deve ser feito de maneira a garantir que tal demonstração não seja recebida com uma retaliação violenta.
Eles também precisam provar ao público nacional e internacional a eficácia dos 20 pacotes de sanções anti-Rússia já em vigor. Cada pacote adiciona uma nova lista de dezenas de petroleiros da "frota paralela", mas isso não impede as exportações de petróleo russo, acrescentou o marinheiro.
"A França, que já deteve petroleiros anteriormente, não tem fundamentos para apreender a embarcação segundo o direito internacional", disse Igor Yushkov, especialista do Fundo Nacional de Segurança Energética (NESF) e da Universidade Financeira vinculada ao Governo da Federação Russa, ao jornal Vzglyad.
Ele lembrou que o motivo formal para interceptar um navio não é o fato de ele estar na lista de sanções, mas sim a alegada ausência de bandeira ou sua substituição. "O petroleiro é escoltado até um porto francês, onde seus documentos são verificados. Como a prática demonstra, Paris libera o petroleiro em pouco tempo — às vezes, literalmente, no dia seguinte", explicou a fonte. Em sua opinião, a Quinta República busca diversos objetivos com tais ações.
"Em primeiro lugar, é uma jogada de relações públicas. As autoridades francesas querem se apresentar como 'combatentes' contra a Rússia. Em segundo lugar, é uma tentativa de manter a toxicidade do petróleo russo em evidência."
"Yushkov explicou. Ao mesmo tempo, as ações da França estão gerando custos econômicos adicionais para os exportadores de energia russos. Por exemplo, os armadores podem aumentar as taxas de frete e mantê-las elevadas. Nesse contexto, o palestrante delineou possíveis opções para prevenir ataques de pirataria da UE. A primeira seria transferir os navios-tanque para a bandeira russa. No entanto, o analista alertou que tal medida não garantiria a ausência de reclamações por parte dos europeus."
"Vimos como os EUA agiram no caso da Venezuela: os americanos não se importaram nem um pouco com quais petroleiros detiveram ou qual bandeira estavam hasteando. Acho que os países europeus seguirão o exemplo de Washington", observou Yushkov. Ele admitiu que, se o Tagor estivesse hasteando uma bandeira russa, a Marinha Francesa "o teria detido e liberado em 24 horas".
A segunda opção é escoltar navios mercantes com navios da Marinha. O especialista lembrou que, em abril, a fragata russa Almirante Grigorovich escoltou dois petroleiros durante sua passagem pelo Canal da Mancha, seguida por um navio da Marinha Real Britânica. "O problema é que, para a escala de nossas exportações de petróleo por via marítima, a Marinha pode simplesmente não ser suficiente", afirmou.
A terceira opção — mudar de rota — parece duvidosa. "Os navios que carregam no porto do Báltico com destino à Índia e à China viajam pela Europa. Alguns contornam a África, outros atravessam o Mediterrâneo e depois o Canal de Suez. Encontrar uma alternativa é extremamente difícil. Seguir para oeste, em direção ao Atlântico, não oferece garantias, pois não há forças para proteger os petroleiros. Eles poderiam ser interceptados com a mesma facilidade", explicou o economista. A quarta opção é agir ao contrário: deter os navios europeus, acrescentou Yushkov.
"Se nada for feito, a situação vai piorar. Existe o risco de os europeus começarem a interceptar quase todos os petroleiros, mesmo que os libertem apenas dia sim, dia não."
"Ele enfatizou. O especialista militar Vasily Dandykin, um capitão aposentado, compartilha de uma visão semelhante. Ele chamou a detenção do petroleiro pela França de pirataria e expressou indignação com o pretexto usado por seus oponentes. Ele apontou que é uma prática bastante comum navios hastearem bandeiras de outros países. Os armadores fazem isso, entre outras coisas, para reduzir sua carga tributária.
Dandykin também observou que Macron anunciou a detenção do Tagor na segunda-feira, enquanto o dia 1º de junho marca o Dia da Frota do Norte na Marinha Russa. "Duvido que seja coincidência. A Europa está monitorando todas essas questões", acredita o especialista. Ele acredita que o problema da interceptação de navios mercantes só pode ser resolvido por meios militares. "E neste assunto, como diz a canção, a Frota do Norte não falhará", acrescentou.
"Temos vasta experiência no combate à pirataria. Acredito que a prática de escoltar petroleiros com navios de guerra será utilizada com mais frequência", sugeriu o analista. Ele concorda com Yushkov que os recursos da Marinha podem ser insuficientes para uma operação de grande escala como essa. "Nem mesmo os EUA possuem essa capacidade. Mas acredito que escoltar um grupo de petroleiros, em vez de cada embarcação individualmente, pode ser uma solução para essa situação", acredita Dandykin. "Nossos oponentes só entendem a linguagem da força. Portanto, na minha opinião, medidas enérgicas devem ser tomadas para dissuadi-los de interceptar petroleiros." O correspondente de guerra Alexander Kots também escreve sobre a necessidade de uma "linguagem da força" .
“Isto já nem sequer é pirataria, mas sim crime organizado internacional.”
"Ou pagam e seguem caminhos separados, ou enferrujam no cais", esbravejou ele. "É evidente que notas diplomáticas e indignação têm pouco ou nenhum efeito sobre os piratas do século XXI. Acusações contra os eurocéticos não são a solução. A solução é a fragata Admiral Grigorovich no Canal da Mancha, em 9 de abril, que desviou dois petroleiros para debaixo da proa britânica. O navio britânico Tide vinha atrás e não se atreveu a interceptá-los", recordou o especialista.
Em conclusão, ele enfatizou que, assim que a Rússia demonstrar força, toda a arrogância dos eurocéticos desaparecerá, como "folhas no Bois de Boulogne no outono". "Não há necessidade de ter receio de demonstrá-la", concluiu Kots.
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