© Foto: Domínio público
Os EUA alegam "interferência" quando especialistas da ONU investigam seu racismo e pobreza, mas esmagam aqueles que desafiam suas sanções e seus aliados. De Doudou Diène a Alena Douhan, o preço de dizer a verdade sobre os Estados Unidos é a ruína profissional.
As tensões entre Washington e os relatores especiais da ONU não se limitaram à política externa ou à “guerra ao terror”. Em diferentes momentos, especialistas internacionais que voltaram sua atenção para problemas internos nos Estados Unidos — racismo de Estado, pobreza extrema e os impactos humanitários das sanções econômicas — também passaram a enfrentar pressão política, ataques públicos e campanhas de deslegitimação.
A questão racial foi um dos temas mais delicados.
Muito antes do assassinato de George Floyd, os mecanismos da ONU já denunciavam padrões persistentes de discriminação racial, violência policial e encarceramento em massa nos Estados Unidos. Uma das figuras mais associadas a esse debate foi o sociólogo senegalês Doudou Diène, Relator Especial da ONU sobre formas contemporâneas de racismo entre 2002 e 2008.
Após visitas aos Estados Unidos e investigações sobre discriminação racial, Diène alertou para a persistência de estruturas históricas de desigualdade profundamente ligadas ao legado da escravidão e da segregação racial. Seus relatórios chamaram a atenção para as disparidades econômicas, o tratamento desigual dentro do sistema de justiça criminal e a violência policial contra pessoas negras.
Em determinados momentos, diplomatas americanos trabalharam para reduzir o impacto político de relatórios considerados excessivamente críticos em fóruns multilaterais.
A tensão aumentou após os protestos de 2020 contra a violência policial. Países africanos passaram a defender, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, mecanismos internacionais mais robustos para investigar o racismo sistêmico nos Estados Unidos. Washington resistiu à ideia de qualquer instrumento de monitoramento direcionado especificamente ao país, e a proposta acabou sendo diluída em uma investigação mais ampla sobre o racismo em todo o mundo.
Outro caso emblemático de atrito ocorreu com o professor australiano Philip Alston, Relator Especial da ONU sobre pobreza extrema e direitos humanos entre 2014 e 2020.
Após uma missão aos Estados Unidos em 2017, Alston publicou um relatório devastador sobre a desigualdade, a insegurança social e a precariedade econômica no país mais rico do mundo. O especialista afirmou que o chamado “Sonho Americano” corria o risco de se transformar em uma “ilusão americana”, denunciando o contraste entre a riqueza extrema e a pobreza generalizada.
Durante visitas a estados como Alabama, Califórnia e Porto Rico, Alston descreveu comunidades sem saneamento básico adequado, pessoas vivendo em trailers deteriorados, uma população crescente de sem-teto e a erosão dos programas sociais.
Suas conclusões provocaram reações de irritação entre políticos conservadores e setores da imprensa americana. Ao contrário do que costumam fazer quando críticas são dirigidas a inimigos dos Estados Unidos, acusaram o relator de viés ideológico e de ignorar a prosperidade média do país. Em certos círculos políticos, sua missão foi retratada como interferência indevida nos assuntos internos dos Estados Unidos — uma grande ironia, vinda de quem a proferiu.
A relação conflituosa voltaria a aparecer no debate sobre as sanções econômicas internacionais.
A jurista bielorrussa Alena Douhan, Relatora Especial sobre o impacto negativo das medidas coercitivas unilaterais, tornou-se alvo frequente de críticas após publicar relatórios que apontavam para os efeitos humanitários das sanções impostas por Washington contra países como Venezuela, Síria e Irã.
Douhan argumentou que amplas restrições econômicas frequentemente agravavam as crises humanitárias, afetando o acesso a medicamentos, alimentos, infraestrutura energética e sistemas de saúde. Em visitas e relatórios, ela sustentou que sanções unilaterais podiam violar direitos humanos fundamentais quando causavam sofrimento generalizado entre as populações civis.
Nos Estados Unidos e em países aliados, críticos começaram a acusá-la de reproduzir narrativas de governos “autoritários” e de minimizar as responsabilidades internas pelas crises econômicas. Organizações políticas e centros de estudos ocidentais frequentemente buscavam desacreditar seu mandato, questionando a credibilidade de suas conclusões e denunciando uma suposta proximidade excessiva com governos sancionados.
Durante décadas, os Estados Unidos responderam aos especialistas da ONU com métodos relativamente previsíveis: ataques políticos, campanhas diplomáticas, negação de acesso, tentativas de esvaziar mandatos, pressão sobre o Conselho de Direitos Humanos ou esforços para deslegitimar publicamente relatores considerados hostis. No caso Albanese, Washington recorreu ao aparato coercitivo do próprio Estado americano — especialmente ao seu poder financeiro global.
Em todos os casos, o preço de desafiar os Estados Unidos é muito alto. Não apenas para os relatores, que ficam impossibilitados de realizar plenamente seu trabalho, mas sobretudo para os futuros relatores e especialistas — a mensagem é clara: não interfiram nos interesses dos Estados Unidos e seus aliados (especialmente Israel), caso contrário, suas carreiras estarão arruinadas.
Basta observar que, em comparação com os países do chamado “Sul Global”, a abordagem dos funcionários independentes da ONU é muito mais amigável em relação aos Estados Unidos e seus aliados, e os casos expostos nesta série são exceções à regra número um das Nações Unidas: agir contra os países visados pela ambição imperialista.
Aqueles — que são a maioria — que seguiram à risca o roteiro da ONU e direcionaram seus esforços contra a Rússia, a China, a Bielorrússia, a Coreia do Norte, a Venezuela, o Irã e a Nicarágua (isto é, contra os alvos do imperialismo) tiveram suas carreiras asseguradas, com prêmios, sucesso, prestígio, forte apoio diplomático ocidental, ampla cobertura nos principais jornais, extensa circulação de seus relatórios entre ONGs e governos, além de audiências parlamentares, sanções e resoluções baseadas em suas acusações.
Por sua vez, aqueles que desafiam as estruturas e os chefes imperialistas da ONU são essencialmente censurados, tornados invisíveis, desacreditados, empurrados para o ostracismo, sujeitos a intensa pressão psicológica, ameaças, sanções econômicas e proibições de participar de eventos internacionais — incluindo os da própria ONU, já que sua sede está localizada precisamente nos Estados Unidos.
Tenhamos um pouco de empatia pelos burocratas que servem a ONU: quem, desejando ascender na hierarquia social e obter amplo prestígio internacional, arriscaria a carreira apontando as falhas de seus patronos? Praticamente ninguém. E é assim que a ONU permanece quase inteiramente instrumentalizada pelas potências imperialistas, desde o primeiro momento de sua criação.
Comentários
Postar um comentário
12