Matar é considerado 'rotina' em Gaza: soldados descrevem atirar em palestinos 'por prazer'

Soldados israelenses disseram que assassinatos perto da "Linha Amarela" de Gaza se tornaram rotina, com algumas tropas comemorando os ataques mortais. (Imagem: Captura de vídeo)


Soldados israelenses disseram à AP que tiroteios mortais continuaram durante todo o cessar-fogo em Gaza, com regras de engajamento permissivas ao longo das zonas de segurança.

Principais desenvolvimentos

- Reservistas israelenses disseram à Associated Press que soldados rotineiramente atiravam em palestinos que se aproximavam ou cruzavam a "linha amarela" de Gaza durante o cessar-fogo.

- Soldados israelenses descreveram regras de engajamento permissivas, confusão sobre a implementação do cessar-fogo e comandantes priorizando o controle territorial.

- Defensores dos direitos humanos alertaram que civis podem ter sido mortos por atravessarem fronteiras mal demarcadas ou invisíveis.

'Era uma selva'

Reservistas israelenses que serviram em Gaza após o cessar-fogo de outubro disseram à Associated Press que os tiroteios contra palestinos perto da zona tampão controlada por Israel continuaram durante toda a trégua, apesar das declarações públicas de redução das hostilidades.

Um soldado de combate afirmou que as tropas receberam instruções para abrir fogo contra qualquer pessoa que cruzasse a chamada linha amarela, que separa as áreas controladas por Israel das áreas controladas pelos palestinos.



Uma das revelações mais surpreendentes da investigação da Associated Press veio de um reservista israelense que descreveu seus companheiros soldados comemorando após ataques contra palestinos perto da zona tampão de Gaza.

O soldado relatou que as tropas gritaram em comemoração e se congratularam mutuamente após um veículo que transportava palestinos ter sido atingido perto da área controlada por Israel na Faixa de Gaza, matando todos os ocupantes. Ele acrescentou que tais cenas se tornaram comuns durante seu período de serviço após a entrada em vigor do cessar-fogo de outubro.

“Era uma selva”, disse o soldado à AP. “Após o cessar-fogo, a ordem era: se alguém cruzar a linha, atire nele.”

Fronteiras ambíguas

A chamada linha amarela foi estabelecida depois que as forças israelenses se retiraram para uma zona tampão designada sob o acordo de cessar-fogo. No entanto, soldados da ocupação israelense disseram à AP que a fronteira era frequentemente mal demarcada ou difícil de identificar.

Em alguns locais, a linha era demarcada por barris ou blocos amarelos. Em outros, segundo os soldados, não havia qualquer indicação visível.

Um reservista afirmou que os comandantes ignoraram as preocupações sobre a sinalização clara da linha, argumentando que os palestinos já deveriam saber onde ela se localizava.

A Associated Press informou que mais de 900 palestinos foram mortos em Gaza desde que o cessar-fogo entrou em vigor, incluindo dezenas de mortos perto ou além da linha amarela, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.

Ambiente de 'atirar para matar'

Os soldados israelenses descreveram o que consideravam regras de engajamento extremamente permissivas.

Um soldado afirmou que as tropas frequentemente precisavam tomar decisões rápidas sobre alvos com informações limitadas, baseando-se em coordenadas aproximadas ou suposições sobre a localização de uma pessoa.

A organização israelense de veteranos Breaking the Silence fez coro com essas preocupações. O grupo afirmou que os depoimentos coletados de soldados indicam que as regras de engajamento perto da zona tampão equivaliam, na prática, a políticas de "atirar para matar" em alguns setores.

Segundo anotações de entrevistas analisadas pela AP, um soldado descreveu ter recebido instruções para "eliminar" qualquer pessoa que cruzasse a linha.

O diretor executivo da organização Breaking the Silence, Nadav Weiman, argumentou que as políticas militares criaram condições em que civis estavam sendo mortos por cruzarem fronteiras mal definidas.


'Vidas humanas não têm valor'

Os reservistas entrevistados pela AP contestaram repetidamente a caracterização da situação como um cessar-fogo.

Um soldado afirmou que os comandantes mencionaram publicamente o acordo, enquanto em privado sinalizavam a expectativa de uma presença militar prolongada dentro de Gaza.

Outro descreveu uma atmosfera predominante em que a proteção da força e o controle territorial se sobrepunham à preocupação com as vidas civis.

“Havia um sentimento generalizado de que vidas humanas não têm valor”, disse ele.

Os soldados também disseram acreditar cada vez mais que Israel pretendia permanecer em grandes partes de Gaza indefinidamente, em vez de realizar uma retirada completa, conforme previsto no acordo de cessar-fogo.

Crescente controle israelense

Os depoimentos surgem num momento em que autoridades israelenses sinalizam planos para expandir o controle territorial dentro da Faixa de Gaza.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou esta semana que as forças israelenses controlam atualmente cerca de 60% do território e que o próximo objetivo é aumentar esse número para 70%.

Entretanto, uma avaliação humanitária interna analisada pela AP teria concluído que as ações militares israelenses se tornaram "cada vez mais proativas" nos últimos meses.

Os dados citados no relatório mostraram que as mortes perto da linha amarela aumentaram significativamente entre janeiro e abril.

“Precisamos parar de usar o termo cessar-fogo”, disse um soldado. “Não ajuda quem quer acabar com a guerra.”

(PC, AP)

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