O algoritmo já decidiu a eleição de 2026?

Representação de urna eletrônica cercada por dinheiro (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Como a transformação da influência, da vigilância e da IA em um mercado global privado está criando novos riscos para a democracia brasileira em 2026

Reynaldo José Aragon Gonçalves
brasil247.com/

Da Cambridge Analytica ao Team Jorge. Da NSO à Cognyte. Da Abin paralela à ascensão da inteligência artificial generativa. Uma investigação sobre o surgimento de uma indústria global capaz de vender influência, vigilância, simulação social e manipulação cognitiva como serviços privados. O problema não é apenas a desinformação. É a privatização da capacidade de produzir realidade política.

A pergunta errada

O algoritmo já decidiu a eleição de 2026?

A pergunta parece exagerada. Afinal, eleições continuam sendo disputadas por candidatos, partidos, recursos financeiros, alianças políticas, programas de governo e capacidade de mobilização social. Nenhum algoritmo vota. Nenhuma inteligência artificial comparece às urnas. Nenhuma plataforma digital substitui, por si só, a decisão de milhões de eleitores. Sob esse ponto de vista, a resposta mais imediata seria simples: não, o algoritmo não decidiu a eleição de 2026.

Mas talvez essa seja a pergunta errada.

Ao longo da última década, o debate público sobre democracia digital foi dominado por expressões como fake news, bolhas informacionais, desinformação, robôs e inteligência artificial. Embora importantes, essas categorias frequentemente descrevem os sintomas sem alcançar a estrutura que os produz. O foco excessivo nos conteúdos faz com que o olhar se desloque para aquilo que circula, enquanto permanece invisível a arquitetura que organiza a circulação. Discute-se a mensagem. Pouco se discute a infraestrutura de poder que determina quem a produz, quem a amplifica, quem a financia e quem se beneficia de seus efeitos políticos.

Essa limitação ficou evidente em uma sucessão de episódios que marcaram a política internacional contemporânea. O escândalo da Cambridge Analytica revelou a utilização de dados pessoais de milhões de usuários para fins de segmentação política. O Team Jorge expôs a existência de estruturas privadas capazes de operar milhares de identidades artificiais em múltiplas plataformas. O Pegasus, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group, tornou-se símbolo global da transformação da vigilância em serviço comercial. Mais recentemente, as investigações conduzidas pelas autoridades francesas sobre a atuação da BlackCore em diferentes processos eleitorais mostraram que operações de influência podem atravessar fronteiras nacionais sem que seus financiadores sejam facilmente identificados. Em comum, todos esses casos apontam para uma mudança histórica mais profunda do que normalmente se reconhece.

O que está em curso não é apenas a disseminação de informações falsas nem o avanço da inteligência artificial sobre a esfera pública. Trata-se de uma transformação mais profunda, que desloca capacidades historicamente associadas ao poder político para uma nova infraestrutura de influência cuja escala, alcance e funcionamento ainda estão longe de ser plenamente compreendidos.

Essa transformação altera profundamente a natureza da disputa democrática. Durante grande parte do século XX, o poder político dependia da capacidade de controlar territórios, recursos econômicos, meios de comunicação e instituições. No século XXI, uma dimensão adicional passou a ocupar posição estratégica: a capacidade de moldar ambientes cognitivos. Em outras palavras, influenciar não apenas o que as pessoas pensam, mas as condições sob as quais elas percebem, interpretam e atribuem sentido à realidade política.

É nesse ponto que a pergunta do título revela sua insuficiência. O risco para a democracia brasileira em 2026 não está em saber se um algoritmo decidirá a eleição. O risco está em compreender que algoritmos, plataformas, sistemas de vigilância, inteligência artificial e operações de influência passaram a integrar uma infraestrutura privada de poder cuja capacidade de interferência cresce em velocidade superior à capacidade das instituições democráticas de compreendê-la, regulá-la ou controlá-la.

O problema, portanto, não é apenas a desinformação.

É a privatização da capacidade de produzir realidade política.

Quando a influência virou mercado

A ideia de que eleições podem ser influenciadas por interesses econômicos, grupos de pressão ou campanhas de propaganda está longe de ser novidade. O que mudou no século XXI não foi a existência da influência política, mas a sua transformação em mercadoria. Pela primeira vez na história, capacidades antes associadas a estruturas estatais de inteligência, guerra psicológica e operações estratégicas passaram a ser oferecidas por empresas privadas em escala global. O que está emergindo não é apenas um novo conjunto de tecnologias. É um novo mercado.

O fim da Guerra Fria e a expansão da globalização alteraram esse cenário. A partir dos anos 1990, diversas funções tradicionalmente associadas ao Estado passaram por processos de terceirização. Empresas privadas assumiram atividades relacionadas à segurança, inteligência, logística militar e análise de dados. As guerras do Afeganistão e do Iraque aceleraram esse movimento ao ampliar o papel de contratadas privadas em funções sensíveis da política de segurança internacional. Ao mesmo tempo, a internet transformava dados em ativo econômico e informação em recurso estratégico.

Foi nesse ambiente que surgiu o SCL Group. Fundado no Reino Unido, o grupo se especializou em operações psicológicas, influência estratégica e comunicação comportamental para governos, Forças Armadas e campanhas políticas. Em materiais promocionais apresentados a clientes, a empresa afirmava possuir experiência em mais de 60 países e atuar em contextos eleitorais, militares e de segurança. A influência já não aparecia apenas como instrumento político. Ela começava a ser vendida como serviço.

A Cambridge Analytica representou o momento em que esse mercado se tornou visível para o mundo. Em 2018, as revelações feitas por Christopher Wylie mostraram que a empresa havia obtido dados de aproximadamente 87 milhões de usuários do Facebook para construir perfis psicológicos e direcionar mensagens políticas altamente segmentadas. A repercussão internacional do caso concentrou-se na violação de privacidade, mas a questão mais profunda era outra: a demonstração prática de que dados comportamentais podiam ser convertidos em vantagem política comercializável. Não se tratava apenas de propaganda eleitoral mais eficiente. Tratava-se da industrialização da persuasão.

Os anos seguintes revelariam que a Cambridge Analytica não era uma exceção. Em 2019, uma investigação da New Yorker expôs a atuação da Psy-Group, empresa israelense formada por ex-integrantes de serviços de inteligência e especializada em campanhas de influência. Segundo a reportagem, a companhia oferecia operações digitais clandestinas, identidades falsas e ações coordenadas para interferir em processos políticos. A lógica era semelhante: capacidades tradicionalmente associadas ao universo da inteligência transformadas em produto.

A partir desse momento, a fronteira entre marketing político, inteligência privada, segurança cibernética e operações psicológicas começou a desaparecer. Dados, vigilância, segmentação comportamental, manipulação informacional e influência estratégica passaram a integrar uma mesma cadeia econômica. O que antes dependia de estruturas estatais complexas passou a circular em mercados internacionais, disponível para governos, empresas, campanhas eleitorais e grupos privados dispostos a pagar por essas capacidades.

O resultado foi o surgimento de um mercado internacional especializado na comercialização de capacidades de influência, vigilância e modelagem comportamental. A partir desse momento, a disputa pela percepção coletiva deixou de ser apenas instrumento de poder estatal e passou a integrar uma cadeia econômica global.

Cambridge Analytica não foi um desvio de rota. Foi um dos primeiros sinais visíveis da indústria privada da guerra cognitiva.

A indústria da guerra cognitiva

A Cambridge Analytica revelou a possibilidade de transformar dados comportamentais em vantagem política. Os casos que vieram depois mostraram algo mais importante: essa capacidade já não estava concentrada em governos ou serviços de inteligência, mas circulava em um mercado internacional composto por empresas especializadas em vigilância, influência e modelagem comportamental.

O caso mais conhecido talvez seja o Pegasus, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group. Diferentemente de ferramentas tradicionais de monitoramento, o software permitia acesso remoto a mensagens, ligações, localização, câmeras e microfones de dispositivos móveis. Em 2021, o Pegasus Project, investigação coordenada pela Forbidden Stories com apoio da Anistia Internacional e participação de dezenas de veículos de imprensa, revelou uma lista com mais de 50 mil números de telefone potencialmente selecionados por clientes governamentais da empresa. Entre os alvos identificados por diferentes veículos de imprensa estavam jornalistas, defensores de direitos humanos, opositores políticos e autoridades públicas em diversos países. Independentemente das disputas jurídicas sobre cada caso específico, o episódio demonstrou que capacidades de vigilância antes associadas aos serviços secretos das grandes potências haviam se transformado em produto comercial.

Pouco tempo depois, outra investigação internacional expôs uma dimensão diferente do mesmo fenômeno. Em 2023, a investigação internacional Story Killers, coordenada pelo consórcio Forbidden Stories e por mais de 30 veículos de imprensa, revelou a existência do Team Jorge, grupo liderado pelo ex-militar israelense Tal Hanan. Utilizando uma plataforma conhecida como AIMS, a organização afirmava controlar mais de 30 mil perfis falsos distribuídos por diferentes plataformas digitais. Esses perfis possuíam fotografias, históricos de interação, contas de e-mail, números de telefone e características capazes de simular usuários reais. O objetivo não era apenas disseminar mensagens, mas fabricar ambientes artificiais de opinião pública, ampliando narrativas, influenciando debates e criando a impressão de apoio social espontâneo.

A lógica reaparece em outras investigações recentes. Em 2026, a Viginum, agência francesa responsável pelo monitoramento de interferências digitais estrangeiras, atribuiu à BlackCore operações de influência detectadas na França e apontou indícios de atividades semelhantes na Escócia, em Nova York, Angola e Togo. O aspecto mais relevante do caso não foi apenas a suspeita de interferência, mas a dificuldade em identificar os contratantes finais das operações. A fragmentação das responsabilidades tornou-se parte integrante do modelo de negócio. Empresas diferentes podem fornecer infraestrutura, monitoramento, produção de conteúdo, publicidade, análise de dados ou amplificação digital, tornando cada vez mais difícil rastrear quem financia e quem executa determinadas campanhas.

O mesmo padrão aparece no campo da vigilância. Empresas como NSO Group, Candiru, Verint e Cognyte passaram a ocupar posições centrais em um mercado global de tecnologias de monitoramento. No Brasil, a investigação da Polícia Federal sobre o uso do software FirstMile pela chamada Abin paralela revelou mais de 60 mil consultas consideradas ilegais realizadas a partir de uma ferramenta desenvolvida pela Cognyte. O episódio demonstrou que a circulação dessas capacidades não se limita a conflitos internacionais. Ela alcança instituições, disputas políticas e estruturas de poder no interior das próprias democracias.

Nenhum desses casos, isoladamente, explica a transformação em curso. Juntos, porém, revelam algo maior. Dados, vigilância, inteligência, influência e manipulação comportamental deixaram de constituir atividades separadas. Passaram a integrar uma cadeia econômica cada vez mais sofisticada, na qual diferentes empresas oferecem capacidades complementares para governos, campanhas, grupos econômicos e atores privados. O que está emergindo não é apenas um novo setor tecnológico. É uma indústria dedicada à produção, gestão e disputa da percepção coletiva.

A consequência estratégica dessa transformação é profunda. Se o século XX assistiu à industrialização da guerra convencional e da comunicação de massa, o século XXI pode estar testemunhando a industrialização da guerra cognitiva. E é justamente nesse ponto que o Brasil deixa de ser um observador distante para se tornar parte da própria história.

O laboratório brasileiro

Seria confortável imaginar que a privatização global da influência, da vigilância e da guerra cognitiva é um fenômeno distante, restrito aos Estados Unidos, à Europa ou aos grandes centros de disputa geopolítica. A experiência brasileira dos últimos anos sugere exatamente o contrário. Poucos países reuniram, em tão pouco tempo, plataformas digitais de massa, ataques à legitimidade institucional e tecnologias privadas de vigilância atuando simultaneamente na disputa política. Nesse sentido, o Brasil não é apenas um observador do fenômeno. Tornou-se um de seus principais laboratórios.

As eleições de 2018 representaram um marco nessa transformação. O protagonismo do WhatsApp alterou profundamente a circulação da informação política. Diferentemente da televisão, do rádio ou das redes sociais abertas, a plataforma operava em ambientes fechados, dificultando monitoramento, rastreamento e resposta institucional. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada durante o segundo turno identificou a contratação de empresas especializadas em disparos massivos de mensagens no WhatsApp, utilizando bases de dados e estruturas privadas de comunicação política em larga escala. Pela primeira vez, uma eleição presidencial brasileira foi atravessada por uma infraestrutura de mobilização digital que operava em grande medida fora da visibilidade das instituições eleitorais e da própria esfera pública.

Em 2022, o fenômeno avançou para uma nova etapa. A disputa já não se concentrava apenas na circulação de conteúdos ou na persuasão de eleitores. O próprio sistema eleitoral tornou-se alvo de campanhas permanentes de contestação. Urnas eletrônicas, Tribunal Superior Eleitoral, Supremo Tribunal Federal e instituições democráticas passaram a ocupar posição central em narrativas de deslegitimação política. O foco deslocou-se da preferência eleitoral para a confiança institucional. Não se tratava apenas de convencer pessoas a votar em determinado candidato. Tratava-se de disputar a percepção pública sobre a validade das próprias regras do jogo democrático.

A investigação sobre a chamada Abin paralela revelou uma dimensão ainda mais profunda desse processo. Segundo a Polícia Federal, o software FirstMile, desenvolvido pela empresa israelense Cognyte, foi utilizado em 60.734 consultas consideradas irregulares, alcançando cerca de 1.800 números telefônicos. O caso tornou-se um dos exemplos mais relevantes já documentados no Brasil sobre a utilização de tecnologias privadas de vigilância em contexto de disputa política. O dado é relevante não apenas pela escala da operação, mas porque demonstra como capacidades privadas de vigilância passaram a se integrar a disputas de poder no interior do próprio Estado brasileiro. Pela primeira vez, a discussão sobre influência digital e guerra informacional encontrou a discussão sobre inteligência, monitoramento e poder institucional.

Em menos de uma década, o Brasil reuniu três elementos que raramente aparecem simultaneamente: infraestrutura privada de comunicação política em massa, contestação sistemática da legitimidade institucional e utilização de tecnologias avançadas de vigilância em disputas de poder. Poucas democracias experimentaram essa combinação em tão curto espaço de tempo.

É justamente por isso que a eleição de 2026 merece atenção especial. O país chega ao próximo ciclo eleitoral carregando as experiências acumuladas da última década, mas agora diante de um ambiente tecnológico muito mais complexo. Para países do Sul Global, a questão ultrapassa os limites da disputa eleitoral. A concentração das plataformas digitais, da infraestrutura de dados e dos sistemas avançados de inteligência artificial em um número reduzido de corporações e potências tecnológicas transforma a soberania informacional em um problema estratégico de desenvolvimento, autonomia política e capacidade de decisão nacional. Se, em 2018, o desafio era compreender o papel das plataformas de mensagens e, em 2022, o foco se deslocou para a confiança institucional, em 2026, a questão central poderá ser outra: a convergência entre inteligência artificial, plataformas digitais, vigilância, influência privada e operações cognitivas em escala inédita. É nesse ponto que o Brasil deixa de ser apenas um caso nacional e passa a ocupar posição estratégica em uma transformação global.

A eleição que ainda não aconteceu

O risco mais comum ao analisar eleições futuras é imaginar cenários baseados em acontecimentos que ainda não existem. O desafio estratégico é exatamente o oposto: observar capacidades já disponíveis e perguntar como elas podem ser utilizadas quando encontrarem condições políticas favoráveis. Sob essa perspectiva, a eleição brasileira de 2026 não representa uma ruptura em relação ao que ocorreu nos últimos anos. Ela representa a convergência de processos que já estão em andamento.

A inteligência artificial ocupa posição central nesse cenário, mas não pelas razões normalmente apresentadas no debate público. O problema não está apenas nos deepfakes ou em imagens artificialmente produzidas. Essas tecnologias são apenas a camada mais visível de uma transformação mais profunda. O aspecto realmente relevante é a redução drástica dos custos de produção de influência. Atividades que anteriormente exigiam equipes numerosas, especialistas, produtores de conteúdo, designers e operadores dedicados podem agora ser executadas em escala muito maior e com custos significativamente menores. A inteligência artificial não cria a disputa cognitiva. Ela industrializa capacidades que já existiam.

As investigações sobre o Team Jorge ajudam a compreender essa mudança. A plataforma AIMS permitia operar milhares de identidades artificiais capazes de interagir em diferentes ambientes digitais. Com a inteligência artificial generativa, esses perfis deixam de ser simples repetidores de mensagens e passam a simular comportamento humano de maneira cada vez mais sofisticada. O objetivo não é convencer diretamente o eleitor, mas influenciar as condições sob as quais decisões políticas serão tomadas.

Nesse contexto, a operação mais eficiente não é necessariamente a mais visível. Ao contrário do imaginário popular, grandes campanhas de desinformação podem produzir menos efeito do que uma sequência coordenada de pequenos eventos. Um vídeo aparentemente autêntico. Um documento cuja origem permanece incerta. Uma denúncia impossível de verificar imediatamente. Um influenciador regional. Um portal local desconhecido. Um vazamento estrategicamente posicionado. Um grupo de mensagens fechado. Cada elemento parece irrelevante isoladamente. Juntos, podem produzir um ambiente de dúvida permanente sobre instituições, candidatos e processos democráticos.

A experiência internacional sugere que essas operações costumam explorar conflitos já existentes na sociedade. Não criam tensões do zero. Amplificam tensões reais. Crime organizado, segurança pública, corrupção, religião, soberania nacional, plataformas digitais, liberdade de expressão, decisões judiciais e política externa figuram entre os temas com maior potencial de mobilização emocional no Brasil contemporâneo. A capacidade de identificar, segmentar e amplificar essas sensibilidades constitui um dos principais ativos da nova economia da influência política.

A principal questão de 2026 talvez não seja quem vencerá a eleição, mas quem terá maior capacidade de influenciar a percepção de legitimidade do processo político. Nas disputas contemporâneas, o objetivo nem sempre é convencer. Muitas vezes, basta produzir dúvida, fragmentação e desconfiança suficientes para dificultar a construção de consensos mínimos sobre a realidade. A principal batalha pode não ocorrer entre candidatos, mas entre narrativas concorrentes sobre a legitimidade das instituições, das regras do jogo e dos próprios resultados eleitorais.

O que está realmente em disputa

A pergunta que abre este artigo conduz a uma conclusão inesperada. O problema de 2026 não é tecnológico. É político. O que está em disputa não é apenas uma eleição, mas a capacidade das democracias de preservar algum grau de controle sobre os mecanismos que organizam a informação, a opinião pública e a legitimidade institucional.

No século XXI, a disputa pelo poder passou a envolver também os mecanismos que organizam a percepção coletiva da realidade. Plataformas digitais, bases de dados comportamentais, tecnologias de vigilância e inteligência artificial passaram a interferir diretamente na forma como indivíduos interpretam acontecimentos, constroem opiniões e tomam decisões políticas.

Essa transformação produz uma consequência frequentemente ignorada. O problema já não se resume à circulação de conteúdos falsos ou verdadeiros. O que está em jogo é a capacidade de definir quais temas serão visíveis, quais narrativas ganharão escala, quais emoções serão amplificadas e quais interpretações terão maior probabilidade de ocupar o centro do debate público. A disputa deixa de ocorrer apenas sobre informações. Ela passa a ocorrer sobre os próprios ambientes cognitivos nos quais as informações adquirem significado.

O Brasil chega às eleições de 2026 situado exatamente nesse ponto de inflexão histórica. De um lado, instituições democráticas que buscam adaptar-se a um ambiente informacional cada vez mais complexo. De outro, uma indústria global que transforma vigilância, influência, modelagem comportamental e simulação social em ativos econômicos. Entre esses dois polos encontra-se o espaço onde será travada a principal disputa da próxima década: a disputa pela capacidade de produzir realidade política.

Por isso, a questão decisiva não é quem vencerá a eleição de 2026, mas quem terá maior capacidade de influenciar sua percepção de legitimidade. Quando a influência se transforma em mercado, a vigilância em serviço e a percepção coletiva em ativo estratégico, a principal disputa democrática deixa de ocorrer apenas nas urnas. Ela passa a ocorrer nos sistemas que definem o que uma sociedade é capaz de reconhecer como realidade. E quem controla a realidade política raramente precisa controlar o resultado da eleição.

"A leitura ilumina o espírito".

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