O modo de vida norte-americano



Por EMIR SADER*

A hegemonia cultural dos Estados Unidos ergueu-se sobre as rodas do automóvel e as lentes de Hollywood, exportando um ideal de consumo que ainda dita as aspirações globais

1.

Dois fenômenos foram fundamentais para projetar o “modo de vida norte-americano” (o “american way of life) como o estilo de vida mais ambicionado no mundo no século passado e, de alguma forma, também neste século.

O primeiro foi o automóvel, como a mercadoria mais importante que os Estados Unidos produziram e fizeram com que se tornasse a mercadoria mais ambicionada no mundo. Sobretudo para a classe média que, quando tinha possibilidade de acesso ao carro próprio, se distanciava claramente das condições de vida da massa com menor poder aquisitivo que ela, condenada ao transporte coletivo.

Com o carro próprio, as pessoas ganhavam a liberdade de ir e vir, de se deslocar, indo para lugares impossíveis para a maioria da população. A imagem mais difundida e ambicionada de consumo passou a ser a de uma pessoa com um carro conversível, fumando cigarro e com uma loira ao seu lado. A combinação entre carro, cigarro e mulher bonita representava o objetivo de vida mais ambicionado e promovido pelo marketing.

Mesmo quando passaram a concorrer com os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha passaram a fabricar carros melhores que os norte-americanos, mas assumiram o carro como a mercadoria de maios ambição de consumo.

O outro fenômeno determinante da hegemonia do estilo de vida norte-americano no mundo – e que sobrevive, mesmo quando a hegemonia dos Estados Unidos como potência mundial se debilita, é Hollywood, o cinema norte-americano.

Por meio de seus filmes, Hollywood passou a produzir não apenas uma atividade de prazer que rapidamente se estendeu por todo o mundo. Mas também produziu a universalização de muitos dos seus valores. Os filmes de cow-boy personificavam, por um lado, o “mocinho” e, por outro, os bandidos. Estes, os peles vermelhas, eram simplesmente as populações indígenas, defendendo suas terras originárias, consideradas de apropriação indevida pelos produtores das películas.

Assim se projetava a imagem glamourizada dos personagens reais do imperialismo, personificadas em grandes atores cinematográficos. Estes, por sua vez, se tornavam as imagens dos homens mais bonitos, encantadores, que dispunham, por sua vez, das mulheres mais belas.

 

2.

Já os filmes de guerra, outro estilo tão popular dos filmes de Hollywood, representavam sempre os bons, brancos, ocidentais, em guerra contra populações de outras identidades, não brancos, negros ou asiáticos, que representavam os “maus”.

Hollywood nunca tematizou o nazismo, porque os alemães são iguais a eles: brancos, imperialistas. O único filme que o fez, O grande ditador, do Charlie Chaplin, que não era norte-americano, e teve que sair do país assim que o filme, que ridicularizava o Hitler, foi estreado.

Dessa maneira Hollywood difunde pelo mundo o objetivo das pessoas ser felizes, realizadas, uma forma de vida calcada no “modo de vida norte-americano”. Não há outra proposta que compita com essa no mundo de hoje.

Os shopping-center na China são bonitos e maiores que os do Ocidente, mas com as mesmas marcas, reproduzindo o mesmo estilo de vida e de consumo.

Assim como os carros seguem universalizados como mercadoria que renova seus modelos a cada ano, projetando novos modelos, pelo mundo afora. Este segue sendo o elemento ainda mais forte da influência do “modo de vida norte-americano” no mundo globalizado de hoje.


*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]


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