
Imagem: Bianca Maria
Por VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ, ESTER DIAS DA SILVA BATISTA & IZABELA VICTÓRIA PEREIRA*
A submissão do conhecimento às demandas imediatas do mercado esvazia o pensamento crítico e afasta o país de um projeto científico voltado ao verdadeiro desenvolvimento social
Trata-se de uma pergunta difícil de se responder, assertivamente, a não ser que se recorra a dicionários ou à Inteligência artificial.
“A ciência é um esforço sistemático e rigoroso de construção, organização e verificação de conhecimento sobre o mundo, utilizando métodos experimentais, observação e evidências. Ela é um processo dinâmico, autocrítico e coletivo, fundamental para o avanço tecnológico e a compreensão de fenômenos cotidianos” (Fonte: Inteligência artificial).
Sem fazer suspense, veremos que essa descrição da Inteligência artificial desconhece no todo o sentido do pensamento científico – que, em parte, é o objetivo de uma abordagem científica da própria ciência.
Desse modo, digamos inicialmente que: Ciência é um processo de investigação que segue padrões ou modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação, prospecção (“experimentação”), catalogação, análise (refutação ou confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a crítica surge com a insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, mas sem que se anule todas as interferências externas (não científicas) advindas da política, da economia, da cultura, da moral e da própria visão de mundo do sujeito cognoscente acerca do objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com “lugar de fala”).
Neste sentido inicial, podemos acrescentar que a produção da ciência, seja no aspecto acadêmico ou a ciência pela ciência (que ocorre cotidianamente na vivência acadêmica), se dá como um processo fundamentado no método científico, caracterizado por etapas que buscam sistematizar a construção do conhecimento – e permitir sua expansão e replicação. Esse processo se inicia pela observação, seja do ambiente, dos fenômenos naturais ou até mesmo das relações sociais que se fazem presentes, seguida pela formulação de uma hipótese e sua posterior experimentação. A partir disso, obtêm-se os resultados que podem, confirmar ou refutar tal hipótese, o que leva a sua reformulação.
Nota-se, por sua vez, um movimento cíclico ou contínuo que é marcado, não por pontuações totalmente imutáveis, mas por idas e vindas, impulsionado por uma insatisfação diante do que é até então estabelecido; por exemplo, pela dúvida ou pela busca de novas explicações (algo que marca, de modo geracional, uma grande quantidade de cientistas que foram formados por essa dúvida e curiosidade constante em relação à realidade).
Qual ciência nos interessa?
Qual ciência interessa à humanidade? A Inteligência Artificial, por exemplo, é de interesse de toda a Humanidade? O que interessa ao Brasil? Qual ciência? Ao Brasil não interessaria um projeto de país? Quem já ouviu falar de projeto de país? Quando foi a última vez que tivemos um projeto de país? Com Getúlio Vargas, em 1930, e que depois foi remodelado por Juscelino Kubitschek? Se viéssemos a ter algum projeto de desenvolvimento nacional, esse projeto seria baseado em ciência e consciência social?
A conhecida Geração de 30 (década de 1930) – a geração mais profícua de pensadores, cientistas, intelectuais do país – produziu as análises clássicas sobre nossa formação social, cultural, política. Por que não se produz mais análises científicas desse nível? A ciência que nos interessa é essa da globalização do capital? Não foi o neoliberalismo que criou as bases tecnológicas adequadas à implantação dos algoritmos que impõe a lógica maquínica da uberização social?
Na trilha dessas questões, podemos nos indagar: nós nos aplicamos bem à indução, mas, nem tanto à dedução. Por que? Porque a dedução requer o raciocínio lógico-dedutivo, a investigação prévia, a chamada massa crítica[i]: a reflexão investigativa, criativa e crítica.
Ainda pensando em qual ciência nos interessa, torna-se necessário considerar que a produção científica não se limita apenas à construção do conhecimento em si, mas também às formas como esse conhecimento circula, é apropriado e ressignificado socialmente após sua produção.
Um conceito que fundamenta essa concepção da produção para além do que é produzido é a chamada ecologia da ação (MORIN, 1996), em que a ação científica e a produção do conhecimento não permanecem restritas aos meios acadêmicos, mas passam a integrar um complexo conjunto de interações e o contexto em que estão inseridas, muitas vezes, respondendo a esse ambiente, sendo não neutro e atravessada por diversas dimensões (PALACIOS, 2001).
No contexto contemporâneo essa dinâmica científica passa também pelo imediatismo e pelo consumo acelerado de informações. A ciência que passa a ser interessante socialmente tende a aproximar-se de uma espécie de “ciência express”, fast-food, voltada à satisfação imediata das demandas mercadológicas.
A produção científica, nessa perspectiva, deixa de ser compreendida como um processo de construção do conhecimento e passa a ser reduzida à produção acelerada de respostas rápidas, resultados imediatos e certezas permanentes, afastando-se da ideia de que a produção científica demanda tempo, investimento, investigação e amadurecimento teórico-metodológico.
Dessa forma, a ciência passa a ser percebida apenas como resposta imediata, sem que sejam problematizadas as próprias questões que orientam sua produção: de onde surgem essas demandas? A quem essa ciência responde? Quais interesses ela atende? Quais sujeitos são contemplados ou excluídos nesse processo?
Ao questionar a pergunta inicial “qual ciência nos interessa?”, torna-se necessário refletir acerca dos interesses e projetos de humanidade que orientam essa produção científica. Afinal, a produção do conhecimento pelo conhecimento não ocorre de forma desvinculada de direcionamentos sociais, políticos e econômicos; ao contrário, pois, aquilo que se considera relevante investigar responde, inevitavelmente, a determinados sujeitos, demandas e interesses.
Por que nunca teremos um Nobel de Ciências?
Ganhamos prêmios no Oscar, mas nunca chegamos perto de um Nobel. Por um instante, não levemos em conta que são premiações aparelhadas por interesses políticos globalizados, neocolonialistas. Não é uma prova matemática, mas é um indicativo de que nossa cultura é rica, complexa, diversificada, plural e realmente popular? Por justiça e bom senso, deveríamos ter recebido o Nobel de Literatura mais de uma vez.
Contudo, destacar-se basicamente o merecimento ao Nobel de Literatura não é um indicador de que a ciência requer investimentos e consistência? Criatividade não nos falta, nunca faltou, e o merecido Nobel de Literatura é uma prova da pluralidade cultural que gera o poder de uma massa crítica (os antigos chamavam de “cadinho”, caldo cultural, como vimos na Semana de 22).
No sentido propriamente científico, não é presumível que sem educação não há massa crítica – e que sem esse interruptor não há ciência, não se aciona o princípio que faz “transbordar o conhecimento” para fora do estado da arte, do que é conhecido até aquele momento?
Ocorre que, no Brasil, sempre, continuamente (salvo lampejos muito esporádicos), a educação é vista como custo (prejuízo). Nunca é investimento.
A nossa crise da educação, dizia Darcy Ribeiro, não é crise, é um projeto. Um projeto que prevê, institui, fomenta, uma eterna crise.
A China, de outro modo, constrói planejamentos e logísticas com previsão de 50 anos. Podemos chamar de antevisão. A China tem o passado de 5 mil anos como reserva histórica, mas olha o futuro.
Como o futuro daqui 50 anos requer mudanças e aplicações imediatas, a China substituiu a tese de doutorado por experimentos e inovações.[ii]
No Brasil, dado que o jeitinho brasileiro se aplicou a replicar o “copiar e colar” (com a Inteligência artificial mais ainda), copiando esse modelo chinês, não teríamos nem teses (reflexões cientificas) nem inovação. No Brasil, uma linha no algoritmo já é considerada inovação. Um robô, que imita outro robô, já é inovação. A China substituiu a ciência pela inovação – o que é bem discutível – porém, no Brasil, além disso, a cópia desse modelo chinês, substituindo as teses por protótipos, seria um instrumento político-institucional a serviço do negacionismo.
Em 10 minutos, algum governante já teria protocolado projeto de lei negacionista e algum youtuber teria publicado nas redes, dizeres assim: Tá vendo, até os chineses sabem que esse papo de ciência é mi-mi-mi, “conversa pra boi dormir”. Qualquer aplicativo do agronegócio é melhor do que os milhões gastos com as universidades federais.
Como se vê, há mais pontas soltas do que a massa crítica necessária à transformação da realidade social, política, científica do país. Mas, ainda há outros aspectos a se considerar: O que é Ciência, afinal, entre a ontologia, epistemologia e conquista histórica? De qual Ciência estamos tratando, no século XXI?
Diante dos temas/problemas complexos, é preciso reforçar o entendimento de que nós temos uma investigação sociológica séria e comprometida, temos investigações na ciência de altíssimo nível, temos pensadores/as da sociologia da ciência de grande relevo; porém, não temos a tal massa crítica (socializada, por óbvio) para fundamentarmos um pensamento científico – que também se magnetize como pensamento sociológico.
Temos uma cultura ímpar, criativa, produtiva, todavia, ao invés desse “cadinho” atuar como empuxo de mudanças sociais, populares, integradas com o futuro, o jeitinho brasileiro adequado ao elitismo e racismo (a autocracia de classe), ao patrimonialismo e arcaísmo, nós nos aprimoramos na expansão da “cultura balofa”. No geral, isso corresponde à formação cultural, social, científica das nossas “elites” (plutocracia).
Um exemplo pessoal
Entre idas e vindas para hospitais, um de nós entrou na escola mais tarde, entre 8 e 9 anos de idade. Com a demora de dois anos, após a graduação, para ingressar no mestrado (até que alguém aceitasse o projeto), e como o mestrado durava quatro anos (hoje são apenas dois), defendeu-se o doutorado com 35 anos. Com essa idade já tinha um emprego em tempo integral no ensino superior, mas surgiu uma possibilidade aparentemente melhor.
Fui então para uma entrevista na cidade de Londrina. Como o entrevistador não se apresentou, não sei dizer se era o dono da faculdade ou o reitor. O fato, que ilustra a cultura balofa – vendida como conhecimento, mas que só é reflexo do esnobismo, capacitismo, elitismo, vazia em profundidade e relevância –, se deu assim que sentei à frente do interrogador: o sujeito fez a primeira colocação em francês – respondi o que entendi em português; em seguida fez uma pergunta em inglês, também respondi o que entendi em português.
Aí, não satisfeito, fez uma afirmação em alemão. Como não entendo nada de alemão fiquei quieto: não sei se me ofendeu ou falou qualquer coisa, por falar. O fato é que não fui selecionado, após esse interrogatório. De todo modo, como lição de vida e de aprendizado, tive a certeza confirmada, reforçada, de que aquele procedimento esnobe não é sinônimo de conhecimento e muito menos de profundidade analítica, quer dizer, capacitação ao melhor empenho no desenvolvimento de um pensamento sociológico (por dentro dos marcos do país) e do pensamento científico que interessaria ao povo brasileiro.
Ciência e filosofia
A ciência possui um estatuto e um caráter próprios, definidos por um objeto particular de estudo e por um método de análise, como por exemplo, a medicina e as ciências biológicas que possuem cada um o seu objeto e sua metodologia específicos. Já a filosofia não tem objeto de estudo delimitado e nem metodologia específica, ela busca investigar a razão, tempo, conhecimento, verdade absoluta, falseabilidade e diversas questões provando sua tese.
Mas é preciso nos atentarmos que mesmo com a distinção entre ciência e filosofia, ambas possuem rigor e a filosofia é uma área do conhecimento que constitui diversas áreas do conhecimento ao nos despertar uma investigação rigorosa e engajada. Nesse sentido, a filosofia exerce um papel fundamental, pois questiona justamente os limites, interesses e fundamentos do conhecimento científico presente na esfera social.
Nossa cultura é excepcional, incomparável, não há parametrização; porém, o jeitinho brasileiro – por força da dialética contraditória (ou dialética negativa) – também gerou o modo de vida, o modus operandi, que se assemelha a um conta-gotas, feito para nunca transbordar a métrica, a prescrição, a bula comportamental que serve de guia para a maioria do povo. Sem o transbordo da mesmice, do que é bom porque é comum e conhecido, não há massa crítica.
A ciência que interessa ao Brasil, nunca duvidemos disso, é a ciência que interessa ao povo – e não ao agronegócio, à especulação financeira. Sob a imposição de traços culturais retrógrados – patriarcalismo, machismo – e de acordo com a orientação dos tempos pós-modernos, o país é repleto de não-saberes que (muito infelizmente) também são poderes.[iii]
Portanto, como indicado no início, é possível partir da premissa de que a ciência é um processo de investigação que segue padrões ou modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação, prospecção (“experimentação”), catalogação, análise (refutação ou confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a “massa crítica” surge com a insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, sem que se anule todas as interferências externas (não cientificas) advindas da política, da economia, da cultura, da moral e da própria visão de mundo do sujeito cognoscente sobre o objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com “lugar de fala”).
*Vinício Carrilho Martinez é professor do Departamento de Educação da UFSCar. Autor, entre outros livros, de Bolsonarismo. Alguns aspectos político-jurídicos e psicossociais (APGIQ). [https://amzn.to/4aBmwH6]
*Ester Dias da Silva Batista é licenciada em biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
*Izabela Victória Pereira é graduanda em filosofia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Referências
CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.
CHAUÍ, M. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez, 1990.
Notas
[i] Quer seja a composição básica que produza uma reação nuclear em cadeia, quer seja a capacidade de transformar a quantidade em qualidade, em termos sociais, políticos, econômicos (por exemplo, “saltar” do crescimento ao desenvolvimento social).
[ii] https://blogdaengenharia.com/diversos/inovacao/china-substitui-teses-por-prototipos-em-doutoramentos-a-partir-de-2025-3/.
[iii] Veja-se Marilena Chauí e O discurso competente (em Cultura & Democracia, 1990: pp. 3-13), a respeito de um “saber” que se transforma em discurso, uma espécie de “sujeito único da verdade”, autorizado pelo poder ao mesmo tempo em que legitima esse poder — um discurso competente do saber e do poder. O fato curioso desse artigo de Chauí foi a proibição de ser apresentado num encontro da SBPC, o que confirmaria a tese central elaborada pela autora.
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