Os reais criminosos

Imagem: Richard Chiang


Por JOÃO TAKAES BOTTO*
aterraeredonda.com.br/


A barbárie institucionalizada no Brasil revela que o combate ao crime, na verdade, opera como um motor de estigmatização do pobre para proteger os interesses da elite

1.

Sob a vigência da contemporaneidade, muito se fala de uma conjuntura nacional em que a violência e o medo alastram-se em circuitos subconscientes, formando um imaginário que vê isto como normativo. Nunca antes os brasileiros trouxeram tanto as marcas da vida primitivo: o mesmo anseio do homem neandertal em meio ao medo do predatismo se observa no trabalhador que, voltando para casa, olha a todos os lados por ameaças a sua vida.

Em meio a isso, as campanhas políticas de candidatos à presidência, as forças internacionais e até mesmo o presidente nacional, observando as implicâncias desta problemática, falam de um vilão em comum: as facções criminosas e o crime sistemático. Mas, olhando a fundo, vê-se que, embora tenha um reflexo desta, o crime não age sozinho; muito mais, todos os lados do poder se coadunam em um ciclo cultural e político que, como sempre, nos levam às mazelas do capitalismo.

As facções são muito mais complexas do que se parece. Sob a égide da favelização e o empobrecimento historicamente estabelecido em um país que, desde 1930, é comandado por uma burguesia, o Brasil reflete um ciclo de pobreza profunda. Muitos dos proletários são, evidentemente, vulneráveis o suficiente para procurarem auxílio a qualquer custo. Nesse sentido, o homem pobre, privado de opções de subsistência, acaba no crime.

É posto em uma organização hierárquica que, em diversas conjunturas, refletem muito o empresariado normativo: o favelado é o funcionário, o chefe, o engravatado da Faria Lima. Recebe comandos, operações, deveres e age. Se morre, é facilmente substituível. Em um dos países com o maior contingente de empobrecidos do mundo, de onde vêm um vulnerável engendrado pelo crime, nasce outro para substituí-lo. Esse é o ciclo infinito de manutenção de um sistema que abrange dos altos burgueses ao lumpem proletariado.

No viés prático deste espiral de substituição, cria-se um ciclo dialético o qual subentende o vício da violência. Entende-se isso como uma tese e uma antítese que age sob o indivíduo, culminando na síntese de um ser ambivalente, conflitado pelo choque de oposições. Na tese, as forças públicas, “contendo as facções”, matam em massa os “criminosos” – entrando em favelas já com o fuzil em riste e exercendo, como sempre, a sua “necropolítica”. Sendo este um recurso de marginalização e repressão pela morte, mata-se qualquer um: homem, mulher, criança.

Efeito prático é o massacre na favela do Rio de Janeiro em que, enquanto enfileiravam-se centenas de corpos mortos, a cultura hegemônica os chamava de impiedosos criminosos, justificando seus massacres irrestritos e privados de fiscalização judicial. Mas, observando como, mal mortos, já haviam substitutos que os pudessem retirar das matas nas quais foram fuzilados, a antítese subjaz no maquinário que imediata e facilmente repõe aquele que é efeito de uma vulnerabilização – achando um novo pobre para manter as tropas criminosas.

2.

Assim, as facções replicam às forças públicas sob a mesma ótica, a do embate belicoso. Reagem violentamente, comandados pelos “Faria limer’s” – os reais criminosos. Isto repete-se incessantemente, já que a própria morte de um permite que seja substituído por outro, e a polícia mantém seu regime permissivo de contenção mortal. Destarte, recorrentemente, a violência brutal é afirmada. A sociedade, defronte disso, vê um ciclo de morte que assola seu imaginário: o Brasil dos sonhos é perdido por manchetes que intercalam a morte dos pobres e a das forças armadas.

A ambivalência dessa síntese, em que a hostilidade é constante e a vivência é dolorosa, é a de um civil que se atemoriza diante todas as forças, seja a pública, seja a do crime. E, culturalmente, isto leva a sociedade a um eventual questionamento, em meio a este engendramento: as razões?

Deste modo, as forças políticas e a insatisfação pública da pequena burguesia abrem a sutura do contexto complexo e denso. Especula-se o porquê dessa reiteração da violência – como pode o povo desvendar os efeitos de uma elite burguesa que faz a manutenção da dialética do crime organizado e das forças públicas? Medrosa por seu desvelo, a burguesia age, nascendo a manipulação da indústria cultural. Mais antigos, mas ainda eficientes, há os programas televisivos.

Um carismático e “popular” comunicador que, extasiado em exibir isto, mostrava as faces superficiais do crime: os traficantes atirando contra a polícia, os choques do crime contra a civilidade média, os assaltos, os sequestros, etc. O civil de classe média sentava em seu sofá e via, sob o olhar da mídia hegemônica, as denúncias de um sistema criminal que chegava – putz! – até ao conforto de sua casa. Embora a polícia tentasse, expandindo seus tentáculos, o esforço era ineficiente: os criminosos ainda viviam.

Comemora-se execuções públicas televisionadas, narradores que escarneciam a realidade e a vida do marginal, e a indiferença perante as forças estruturais era frequente. Devíamos matar, conter. Armar-nos. E aí está: carros blindados, casas muradas, pistolas e, sempre, a relação do crime à visão do homem periférico. Hoje, esses veículos ampliam-se, e, embora aqui ou acolá vê-se o vazamento dos burgueses por trás do crime, o imaginário de medo e violência das classes médias e altas aos pobres é mantido.

Vereadores, deputados, influenciadores e empresários reclamam de um problema, embora culpabilizando-o pela vida do homem pobre. Os meios são amplos e o alcance sobrepassa até os enriquecidos: a internet, a micropolítica e até o simples conversar são alvos desta conjuntura de manutenção capitalista. Assim, mantêm-se os interesses do esquema estrutural de enriquecimento e corrupção em função do crime, enquanto o pobre é afundado em uma profunda estigmatização e vilanização necropolítica.

3.

A situação torna-se mais complexa quando se entende que a política rememora muito o feudalismo, constituindo-se um poder meramente ilustrativo. Raymundo Faoro já pensava como, em analogia ao que o clero era para o senhor feudal, o executivo brasileiro é fruto de uma oligarquia engendrada na dominação capitalista. Seja de direita ou de esquerda, enfeitam-se de gritos extasiantes e perfomances entusiasmadas perante a violência do crime para disfarçar o silêncio ensurdecedor da responsabilidade e da farsa sistemática. Se não são os donos das facções, por eles são comandados.

Não se pode – fardo brasileiro – clamar por uma soberania democrática em que a democracia é empiricamente burguesa. E, ainda menos, quando vê-se que tudo é abandonado quando entra em pauta o interesse dos empresários – desvanecem as lutas identitárias, a miséria institucionalizada por auxílios ínfimos, as políticas públicas de proteção, etc. Ouve-se o comando de acobertar as operações de corrupção, e de repente o crime é terrorista.

Reclama-se da hostilidade, propagam-se novas faces de poder, novas esperanças –, mas tudo é preconcebido na sala de negócios, em que o empresário criminoso sabe que o presidente irá protegê-lo a todos os custos. Fazendo uso da mão armada, da intervenção internacional ou até da traição social. Sim, eles são “donos do poder”, como dizia o historiador Raymundo Faoro. Agem propagando políticas de armamento que estimulam tudo em prol do conflito e da proteção burguesa, e as forças armadas são seus ávidos protetores. Ainda, para garantir, a pistola do homem médio varre os restos dos pobres, culpabilizando-os.

Armar os ricos e manter a polícia em permissividade caracteriza muitos dos grandes eventos de morte injusta pois ambos são inflados pelo ego desta cultura: um é alimentado pela estigmatização do pobre e o espírito da autodefesa em meio à inoperância do poder público – que, obviamente, nunca irá resolver o problema simplesmente aniquilando qualquer um que se encaixe em sua visão de criminoso. O outro é alimentado pelas forças políticas que, sempre que questionadas, clamam-nos para matar mais 100 em alguma favela.

4.

Em conclusão, sobreposta a toda essa violência, todos os horizontes tornam-se brutais, e o Brasil é assolado por um dia-a-dia elitista, medroso e violento. O imaginário do país, interno ou externo, é negativo, inoperante. Quase anárquico, de completa falha institucional e liberdade individual. Movida pela barbárie, pelo espírito da autonomia capitalista que age na concepção de “justiça” narcísica. Defendendo a sua individualidade por meio da repressão, a classe média está, a todo momento, armada. Enquanto, aos marginalizados, o caso do medo e da necessidade cultural de defesa é o mesmo, mas privados das regalias de um armamento, detêm muito menos imposição individual.

Isto é outro fator, embora não venha ao caso: a adesão ao armamento público, embora seja permitida a todos, leva-nos novamente a lembrar que, pelos altos custos em balística, o direito de defesa é concedido apenas a aquele que “tem de quem se proteger” – isto é, é um próprio marcador dessas diferenças sociais, de tratamento e martírio de uma fragilização estrutural. Sem o benefício da dúvida – ou da custosa defesa armada, muitas vezes, sua morte vem antes de sua defesa. O medo torna-se massificado.

De um problema profundamente capitalista advém esta barbárie. E, para muito além da designação trumpista de grupo terrorista, o fenômeno da facção é problemático pois implica em uma cultura de medo violento. Os ricos estão armados, os pobres são relacionados ao que os vitimiza e os policiais têm o aval para matar, matar e matar. A formação inconsciente do brasileiro já é moldada pelos impactos do capitalismo – a pobreza, a alienação, a exploração e a precária proletarização mercantil de tudo, mas a expansão disto, em que a invenção estereotípica do outro abrange a todos, desvia a cultura hegemônica à criação de um proletário relacionado ao matável.

Com isso, não só a convivência normal é alterada sob a égide de uma constante hostilidade, do medo sistemático e da atribuição da culpa às minorias, mas abre portas para o imperialismo e à expansão da barbárie. Isto, pois a internacionalização dessa conjuntura, com a designação estadunidense do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas, amplia os horizontes de morte e intervenção internacional em nosso país. Muito mais que nas mazelas da intromissão dos Estados Unidos para fins econômicos, tal aspecto nos insere diretamente na rede de subjugação e amplia o ciclo de violência por meio da duplicação da repressão violenta ao “crime”.

Nossa conjuntura de medo e estigmatização violenta não é sanada, mas o capitalismo do grande empresariado e a desterritorialização de nossa economia é ampliada. Afinal, o medo e a manutenção de um sistema corrompido se torna sistemática, e a harmonia destes fatores geram uma população que não tange apenas ao conflito, mas é fragmentada por múltiplas camadas de manipulação cultural e mentiras alienantes.

Estrutura essa propagada pelos esporos de uma burguesia que constrói seu império com o uso da violência e do crime, sequer se importando com a natureza de um imaginário nacional, respaldando a barbárie institucionalizada, a destituição da unidade nacional e a perpetuação da violência do crime, da sociedade e das forças públicas.


*João Takaes Botto é estudante do terceiro ano do ensino médio em Sorocaba.

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