
O relatório não é um apelo emocional. Trata-se de um documento jurídico meticuloso, construído com base em depoimentos de testemunhas, provas forenses, imagens de satélite, análises militares, registros médicos e anos de documentação. O que ele apresenta não é meramente mais um catálogo de vítimas civis. Argumenta que o assassinato, a mutilação, a fome, a detenção e a destruição psicológica de crianças palestinas não podem ser explicados como danos colaterais. Em vez disso, a Comissão conclui que as próprias crianças se tornaram alvos deliberados da política militar israelense. As implicações de tal conclusão vão muito além de Gaza. Elas levantam questões fundamentais sobre o próprio futuro do direito internacional.
Um Relato de Gravidade Extraordinária
A Comissão estima que, desde outubro de 2023, pelo menos 20.179 crianças palestinas foram mortas e mais de 44.000 ficaram feridas. Aproximadamente 30% de todos os palestinos mortos eram crianças. Esses números, por si só, colocam a guerra em Gaza entre os conflitos mais mortais para crianças na história moderna. No entanto, a importância do relatório reside não apenas nos números, mas também em suas conclusões sobre a intenção.
O livro documenta casos repetidos em que crianças foram alvejadas por franco-atiradores, atacadas por drones, atingidas enquanto buscavam comida ou água, ou mortas apesar de não representarem nenhuma ameaça militar – o que deveria ter sido óbvio. Examina o uso repetido de explosivos de alto poder destrutivo em áreas civis densamente povoadas, muito tempo depois de as consequências previsíveis para as crianças se tornarem inegáveis. Detalha ataques a maternidades, unidades neonatais, escolas, orfanatos e abrigos. Também examina o bloqueio de alimentos, água e medicamentos, mostrando como a fome, as doenças e o colapso dos serviços médicos se tornaram instrumentos de guerra dirigidos contra toda uma população civil, cujos membros mais jovens são os mais vulneráveis.
A Comissão investiga as práticas de detenção israelenses envolvendo menores palestinos. Crianças presas em Gaza e na Cisjordânia descrevem tortura, violência sexual, tratamento degradante e desaparecimento em centros de detenção sem que suas famílias recebam qualquer informação. Tais abusos, conclui o relatório, fazem parte de um sistema mais amplo de punição coletiva direcionada contra a sociedade palestina ao longo de gerações. O relatório da Comissão da ONU não é inédito nesse sentido, embora as conclusões sejam devastadoras. Elas corroboram relatórios anteriores da Save the Children (Crianças Palestinas em Detenção Militar Israelense Relatam Condições Cada Vez Mais Violentas, 29 de fevereiro de 2024) e, muito antes dessa campanha genocida iniciada em 2023, do UNICEF (Crianças em Detenção Militar Israelense , fevereiro de 2013). Em seu livro recente, Sobreviventes da Escuridão, o jornalista palestino Wesam Afifa documenta a horrenda violência dos campos de concentração israelenses criados para palestinos, incluindo crianças.
Talvez a conclusão mais arrepiante do relatório da ONU seja que a destruição vai além da morte física. A própria infância se tornou um campo de batalha. Trauma psicológico, orfandade, deslocamento repetido, fome, interrupção da educação e deficiência permanente se combinam para criar o que a Comissão descreve como a destruição da "essência da infância".
Um padrão amplamente documentado
As conclusões da Comissão não surgiram de repente. Durante quase dois anos, jornalistas palestinos documentaram crianças resgatadas de prédios desabados, bebês morrendo em incubadoras sem eletricidade, famílias dizimadas em ataques aéreos e crianças baleadas enquanto tentavam buscar comida ou água. Muitos desses jornalistas pagaram com a própria vida. Gaza se tornou o "conflito mais mortal de todos os tempos para jornalistas", relatou Irene Khan, Relatora Especial da ONU para a promoção e proteção do direito à liberdade de opinião e expressão. Mesmo assim, apesar do perigo extremo, os jornalistas continuaram documentando eventos que grande parte do mundo preferia não ver.
Organizações internacionais de direitos humanos chegaram a conclusões semelhantes muito antes deste recente relatório da ONU. A Save the Children alertou repetidamente que Gaza havia se tornado um dos lugares mais perigosos do mundo para se ser criança. A Defence for Children International-Palestine documentou repetidos tiroteios contra crianças em circunstâncias que levantaram sérias questões sobre a necessidade militar. A Human Rights Watch investigou ataques a escolas, hospitais e campos de refugiados. A Anistia Internacional examinou ataques repetidos que pareciam violar os princípios da distinção e da proporcionalidade previstos no direito internacional humanitário. O UNICEF alertou repetidamente que crianças estavam sendo mortas e feridas em uma escala sem precedentes. Nenhuma dessas organizações descreveu acidentes isolados. Elas identificaram padrões recorrentes que exigiam investigação independente. O novo relatório da ONU consolida efetivamente esse vasto conjunto de evidências em uma única avaliação jurídica.
Em janeiro de 2024, o Tribunal Internacional de Justiça considerou plausível a alegação da África do Sul de genocídio por parte de Israel e ordenou medidas provisórias exigindo que Israel impedisse atos proibidos pela Convenção sobre o Genocídio, preservasse provas e facilitasse a assistência humanitária. Ordens subsequentes reforçaram essas exigências à medida que as condições em Gaza se deterioravam. Embora o Tribunal ainda não tenha se pronunciado sobre o mérito da ação de genocídio, reconheceu repetidamente o grave risco enfrentado pela população palestina e as obrigações contínuas impostas a Israel pelo direito internacional. O novo relatório da Comissão fornece mais provas que inevitavelmente moldarão os futuros processos judiciais.
O Silêncio do Estado de Israel
Talvez igualmente surpreendente tenha sido a natureza da resposta de Israel. Em vez de analisar seriamente as provas reunidas pela Comissão, as autoridades israelenses mais uma vez rejeitaram o relatório de forma categórica, descrevendo-o como politicamente motivado e fundamentalmente tendencioso. Rejeitaram as conclusões na íntegra, sem oferecer refutação substancial dos incidentes específicos, dos depoimentos das testemunhas ou das provas forenses apresentadas pelos investigadores. Todo Estado tem o direito de se defender de acusações. Mas acusações sérias exigem respostas sérias.
Se as crianças não foram alvos deliberados, cabe às autoridades israelenses explicar por que milhares de crianças morreram em circunstâncias repetidamente documentadas por jornalistas, organizações humanitárias, profissionais da saúde e, agora, por uma Comissão de Inquérito da ONU. Por que hospitais, maternidades, escolas e abrigos para refugiados foram atingidos repetidamente? Por que comboios humanitários foram atacados diversas vezes? Por que crianças continuaram a morrer mesmo após acordos de cessar-fogo? Por que as investigações militares resultaram em tão pouca responsabilização? Simplesmente repetir acusações de parcialidade institucional não substitui uma explicação factual. A recusa em analisar as evidências tornou-se, por si só, uma característica perturbadora desta guerra.
O direito internacional humanitário assenta no princípio de que os Estados são responsáveis pela sua conduta. A responsabilização torna-se impossível quando todas as investigações são arquivadas antes mesmo de as provas serem examinadas.
O Juiz S. Muralidhar e o Dever do Juiz
As conclusões da Comissão da ONU também nos lembram da importância de juízes que compreendam que a lei não é meramente um instrumento técnico, mas sim uma defesa contra o poder arbitrário. Poucos juízes indianos incorporaram esse princípio de forma tão consistente quanto o Juiz S. Muralidhar, que, como membro da Comissão de Direitos Humanos da ONU, presidiu o comitê responsável por este novo relatório.
O Juiz Muralidhar construiu ao longo de décadas uma reputação como um dos juristas constitucionais mais respeitados da Índia, particularmente em casos envolvendo liberdades civis, violência comunitária e a proteção de comunidades vulneráveis. Ele foi uma das principais vozes judiciais na busca por responsabilização após o pogrom anti-sikh de 1984, insistindo que a impunidade não poderia se tornar a norma simplesmente porque os crimes eram politicamente inconvenientes. Seu compromisso com o dever constitucional tornou-se internacionalmente conhecido durante a violência comunitária no nordeste de Delhi, em fevereiro de 2020. Enquanto os hospitais lutavam para tratar as vítimas presas pela violência, o Juiz Muralidhar e o Juiz Anup J. Bhambhani convocaram uma audiência extraordinária à meia-noite na residência do Juiz Muralidhar. O Tribunal Superior de Delhi ordenou à polícia que garantisse o transporte seguro dos feridos para os hospitais e determinou tratamento médico de emergência imediato. Mais tarde naquele dia, o juiz Muralidhar questionou duramente a falha da Polícia de Delhi em registrar casos contra líderes políticos cujos discursos inflamatórios haviam sido amplamente divulgados, lembrando às autoridades que o país não poderia permitir 'outro 1984'.
Poucas horas após essas audiências, o Governo da Índia notificou a transferência do Juiz Muralidhar para o Tribunal Superior de Punjab e Haryana, embora a recomendação para sua transferência já tivesse sido feita formalmente pelo Conselho de Juízes da Suprema Corte no início daquele mês. O momento da transferência gerou grande preocupação entre advogados, juízes aposentados e organizações da sociedade civil, que consideraram o episódio como levantando questões preocupantes sobre a independência judicial.
A trajetória do Juiz Muralidhar ilustra um princípio essencial do Estado de Direito. Os tribunais não existem para ratificar a conduta dos governos. Sua função é examinar as provas sem medo ou favorecimento, especialmente quando as vítimas são aquelas com menos poder político. O mesmo princípio norteia o trabalho da Comissão de Inquérito da ONU. Suas conclusões podem ser contestadas, mas não podem ser simplesmente descartadas por serem politicamente inconvenientes. A resposta adequada a provas sérias é um engajamento sério. Essa é a primeira obrigação de qualquer Estado que afirme respeitar o Estado de Direito.
O Teste Diante da Humanidade
O relatório da Comissão da ONU, em última análise, não trata apenas de Israel ou da Palestina.
O relatório questiona se a ordem jurídica internacional criada após a derrota do fascismo europeu ainda possui a autoridade moral para defender crianças da violência organizada. Se mais de 20.000 crianças podem ser mortas enquanto as instituições da diplomacia internacional continuam funcionando praticamente como antes, então a promessa contida na Convenção sobre o Genocídio, nas Convenções de Genebra e na Convenção sobre os Direitos da Criança fica gravemente comprometida. O relatório não vai acabar com a guerra. Não pode restaurar as vidas já perdidas. Mas estabelece um registro histórico que será cada vez mais difícil de apagar. Muito depois da mudança de governos e do fim das campanhas militares, esse registro permanecerá. A história se lembra daqueles que cometeram atrocidades. Ela também se lembra daqueles que desviaram o olhar.
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