- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Por LUCIANO FEDOZZI*
aterraeredonda.com.br/
Ensinar o silêncio diante da injustiça não é realismo, mas a forma mais confortável de naturalizar o sofrimento alheio
Albert Camus nos lembra que a vida não é um ensaio para algo maior, mas o próprio julgamento em tempo real.
1.
O artigo do cientista político e colunista da Folha de S. Paulo João Pereira Coutinho[1] parte de um episódio de violência política individual – o segundo atentado contra o presidente dos EUA – e o interpreta como produto de uma mistura entre niilismo e ativismo. A partir disso, e de seu autodeclarado pessimismo, o autor sustenta que o jovem “não soube ficar quieto” e elogia o “quietismo” como atitude de resposta preferível ao pessimismo diante da condição humana.
O autor afirma que o livro de David E. Cooper, Pessimism, quietism and nature as refuge,[2] “deveria ser oferecido nas escolas” para que a juventude aprendesse a “ficar quieta”. A tese implícita é: diante da miséria moral do mundo, a melhor postura seria o distanciamento irônico, o cuidado do próprio jardim e a recusa de pretender “redimir” a humanidade. Diz o autor que isso não seria deixar de se preocupar com os outros, mas concluir que o melhor a fazer é cuidar de si próprio. A questão é que essa formulação mistura coisas muito diferentes: violência política, fanatismo, ativismo democrático, responsabilidade moral, solidariedade e direitos.
O artigo parte de uma premissa correta: atos violentos de assassinato motivados por purificação moral ou salvação política são totalmente equivocados e moralmente inaceitáveis. A história do terrorismo revolucionário ou nacionalista que o diga. Mas chega a uma conclusão equivocada: “a juventude deveria aprender a ficar quieta”. A conclusão não decorre da premissa.
Entre o fanatismo violento do indivíduo salvador e o quietismo há um vasto campo de ação moral legítima, que faz falta nas sociedades com pouco entendimento da “política” como prática de mediação dos conflitos. Para dizer o mínimo: debate público, convencimento, protesto, legislação, movimentos sociais, pesquisa, educação, mídias alternativas, litigância estratégica, denúncia, organização social, ciência, cultura, arte e políticas públicas.
Portanto, a alternativa ética não é: violência fanática ou quietismo, sem mediação institucional e sem responsabilidade pelas consequências. A alternativa ética madura é: ação responsável ou ação irresponsável. É o equilíbrio entre a ética da convicção, movida pelos valores e sentimentos, e a ética da responsabilidade, que pensa nas consequências da ação, como formulou Max Weber há um século.
2.
Como atitude filosófica, o quietismo é egocêntrico porque não pode ser tratado como moral universal. Para Immanuel Kant, a moralidade não depende apenas de inclinações pessoais, conveniências emocionais ou desejo de preservar a própria tranquilidade. Ela exige submissão da vontade a uma lei moral racional, expressa, um princípio racional (imperativo categórico) necessário e incondicional da moralidade, não dependente de desejos particulares.
A pergunta clássica da moral seria se é possível universalizar a seguinte máxima: “diante da injustiça, devo preservar minha tranquilidade e deixar que outros ajam”? Se essa máxima fosse universalizada, nenhuma injustiça seria corrigida na história. Escravização, racismo e segregação, colonialismo, desigualdades econômicas, violência contra mulheres e minorias de gênero, regimes autoritários, exploração infantil, xenofobia e degradação ambiental permaneceriam intactos.
Além disso, a ética kantiana baseada na dignidade humana exige que cada pessoa seja tratada como fim em si mesma, e não apenas como meio. Quando o quietista contempla a opressão do outro como parte inevitável da “miséria do mundo”, ele acaba transformando o sofrimento alheio em paisagem existencial. A vítima deixa de ser um sujeito moral que interpela minha razão prática e passa a ser apenas um dado desagradável da condição humana. É o fim da dignidade da pessoa humana como fundamento moral e político surgido a partir da “era dos direitos” na modernidade.[3] Nesse sentido, a defesa do quietismo é uma forma sofisticada de regressão moral, não uma aposta na maturidade do ser social.
Segundo as pesquisas do psicólogo e filósofo Lawrence Kohlberg, o desenvolvimento moral pode progredir de níveis pré-convencionais, centrados em punição e interesse próprio, para níveis convencionais, centrados em aprovação social e manutenção da ordem (lei e ordem), e finalmente para níveis pós-convencionais, nos quais normas e leis são julgadas à luz de princípios universais de justiça, direitos e dignidade humana.[4]
O quietismo defendido como ideal educacional ficaria, no melhor dos casos, preso a uma moralidade convencional de preservação da ordem: não perturbe; não se envolva; não confronte; aceite que o mundo é assim; cuide apenas do seu círculo próximo. Para Lawrence Kohlberg, no estágio do contrato social, surgido na ordem moderna, as leis são instrumentos para promover finalidades humanas e podem ser questionadas quando entram em conflito com direitos fundamentais.
No estágio dos princípios éticos universais, a ação correta é orientada por princípios de consciência aplicáveis a todos os seres humanos, inclusive quando a ordem legal não representa a justiça. Esse princípio orientou grandes lideranças e movimentos sociais contra tiranias e injustiças, de figuras religiosas e filosóficas da Antiguidade (como Jesus Cristo e Spartacus, por exemplo) a lideranças contemporâneas de variado espectro político e ideológico da luta por direitos humanos.
3.
Em sociedades desiguais, a passividade dos bons frequentemente favorece a permanência dos poderosos, dos maus ou dos indiferentes no poder. Quando o autor da coluna sugere que a juventude deveria aprender a “ficar quieta”, é preciso perguntar quieta diante de quê? quieta diante de quem? quieta em benefício de qual ordem social? A defesa abstrata e a-histórica do quietismo ignora que os grupos mais vulnerabilizados nunca receberam direitos como dádiva dos de cima.
Como mostram os estudos magistrais de T. H. Marshall e de Norberto Bobbio, os direitos da cidadania foram conquistados por ação coletiva, mobilização social, organização política, coragem intelectual, desobediência civil e, em contextos extremos, formas de resistência contra regimes opressivos, especialmente quando a legalidade do Estado protegia injustiças civis, políticas e sociais, dimensões que constituíram os direitos da cidadania nos séculos XVIII, XIX e XX, respectivamente.
Nesse sentido, seja por seus valores ou por suas consequências práticas, a “cretinice moral”, que se apresenta hoje também na alternativa quietista egocêntrica, não é um insulto vulgar contra os defensores da passividade e da alienação, sejam eruditos ou ignorantes. É uma categoria crítica necessária, por se colocar contra uma forma de julgamento moral estreito que, sob aparência de lucidez pessimista, transforma prudência em covardia ética; moderação em indiferença; serenidade em privilégio; e pessimismo em álibi para a omissão e o conforto.
Na tradição aristotélica, agir bem exige phronesis, isto é, prudência ou sabedoria prática. A cretinice seria o oposto disso: uma incapacidade de deliberar bem diante das circunstâncias concretas. A pessoa pode até ter conhecimento técnico ou acadêmico, mas falha em perguntar: “O que é adequado fazer, considerando as pessoas envolvidas, as consequências e o bem comum?” A cretinice moral costuma apontar para uma conduta de arrogância prática ou incapacidade de avaliar as consequências éticas do próprio comportamento.
Ou seja, a pessoa erra com convicção, uma espécie de alienação consciente, sem considerar o outro e sem reconhecer a própria limitação. Por isso a cretinice moral representa uma falha da razão prática. Ela reduz uma situação complexa a uma leitura rasa: o pessimismo vira interesse próprio, conveniência, preguiça ou desejo chamar atenção nos meios de comunicação. Quando vista como julgamento humano sobre o que fazer, a cretinice não pergunta pelo melhor ou necessário. Pergunta apenas pelo cômodo, pelo interesseiro ou pelo ressentido.
4.
Portanto, defender e ensinar quietismo seria ensinar a juventude a não evoluir para uma moral prática pós-convencional, sensível ao sofrimento humano reforçando o hiper-individualismo da era digital. Seria formar sujeitos adaptados e conformistas, não sujeitos moralmente autônomos, necessários a todas as lutas por emancipação, de classe, de gênero, de raça/etnia, de idade.
A história moderna é, em grande parte, a história de pessoas e de organizações que se recusaram a ficar quietas diante de injustiças. Elas expressaram a construção, a duras penas, nos últimos séculos, de uma moralidade pós-convencional, que questiona a ordem injusta, seja legal ou não, e que se dispõe a agir junto com os outros que sofrem as opressões ou que são empáticos com as causas justas.
O mundo não melhorou porque os justos ficaram quietos. Quando melhorou foi porque pessoas comuns e outras em situação de destaque recusaram a comodidade moral da omissão e decidiram agir – não para se purificar, mas para afirmar que nenhuma sociedade decente pode exigir silêncio daqueles que sofrem injustiça. Em tempos sombrios de violência política e radicalização amoral, é compreensível que se critique o fanatismo daqueles que acreditam carregar nas próprias mãos a salvação do mundo.
Não há saída que não seja coletiva. Mas há um erro grave em transformar essa crítica do ativismo em elogio do quietismo, do niilismo e da passividade. Entre a violência messiânica e a omissão confortável existe um campo inteiro de responsabilidade moral: ação por uma democracia substantiva (política, social e econômica), resistência cultural, defesa dos direitos humanos e da natureza, educação crítica e solidariedade social.
No momento em que ressurgem as vertentes (neo)fascistas, apresentando mais uma vez o caminho em direção às piores pulsões de morte e de violência que a nossa espécie é capaz de produzir, querer ensinar jovens a “ficarem quietos”, diante dos grandes impasses do mundo em transformação, é formar espectadores adaptados à indústria cultural e aos preceitos selvagens do neoliberalismo.
Resistir a esses encantos e ao desalento, real ou produzido, é uma tarefa ética, não apenas política. Ela tem caráter afetivo, e não apenas racional, porque envolve crenças e valores, não apenas programas. Ela exige reconhecimento simbólico dos subalternos e não apenas direitos econômicos.[5]
Importa também considerar que para achar que o quietismo é uma alternativa moral conservadora, a serviço da continuidade da “miséria do mundo”, não precisamos compartilhar da ideia messiânica de que o mundo um dia alcançará as utopias redentoras, por mais belas, justas e bem-intencionadas que elas sejam sobre o destino da humanidade. As utopias são importantes para mover o mundo, para orientar os valores a serem defendidos e praticados, mas não podem ser elevadas à máxima moral, a qualquer custo, porque as consequências em geral são perversas em todos os sentidos.
A autonomia moral precisa supor também a práxis sempre crítica das utopias. As antigas gerações de lutadores por emancipação precisam reconhecer os ensinamentos realistas da história, sem, todavia, endossar a capitulação e os pragmatismos rasos já conhecidos.
Contra o fanatismo de extrema direita e o neofascismo que bate à porta, ninguém tem o direito de se colocar como salvador individual e violento da história. Contra o quietismo, a alienação, o hiper-individualismo tecnológico e o desencanto produzido, ninguém tem o direito moral de transformar a própria tranquilidade em doutrina alheia.
Como disse Antonio Gramsci copiando o escritor Romain Rolland,[6] diante do pessimismo da razão (que significa analisar a realidade de forma crítica, reconhecendo as dificuldades, obstáculos e a força dos adversários sem ilusões), resta o otimismo da vontade, o agir com determinação e esperança na transformação social, apesar das análises sombrias do nosso tempo. Que os defensores do quietismo fiquem quietos quando pretendem transformar seu cretinismo moral em doutrina pedagógica para a educação popular e a juventude.
*Luciano Fedozzi é professor titular de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Referências
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução António Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Apresentação de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.
FEDOZZI, Luciano. O Eu e os Outros. Participação e transformação da consciência moral e cidadania. Porto Alegre:Tomo Editorial, 2008.
GRAMSCI, Antônio. Cadernos do cárcere. Volume 1: introdução ao estudo da filosofia; a filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Tradução de Luiz Repa. São Paulo: Editora 34, 2003.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.
KOHLBERG, Lawrence. Essays on moral development. Volume I: The philosophy of moral development: moral stages and the idea of justice. San Francisco: Harper & Row, 1981.
MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967.
SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2003.
WEBER, Max. A política como vocação. In: WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2011.
Notas
[1] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2026/05/atirador-no-jantar-de-trump-misturou-niilismo-com-ativismo.shtml?utm_source=sharenativo&utm_medium=social&utm_campaign=sharenativo (1º.mai.2026)
[2] Pessimism, quietism and nature as refuge (Pessimismo, quietismo e natureza como refúgio). Segundo David Cooper, o pessimista tem quatro caminhos possíveis: a amnésia, o niilismo, o ativismo e o quietismo.
[3] Cf. A era dos direitos (2004), de Norberto Bobbio
[4] Este referencial foi utilizado na análise dos efeitos do Orçamento Participativo de Porto Alegre na cultura política dos participantes, indicando transformações sócio morais compatíveis com a noção de cidadania crítica dentre as pessoas que participaram por mais tempo do procedimento. Ver Fedozzi (2006).
[5] Ver Honneth (2003) e Souza (2003).
[6] Embora popularizada por Antônio Gramsci, a frase reflete o “otimismo heroico” do dramaturgo socialista francês Romain Rolland, frequentemente citada para descrever a necessidade de persistência política em tempos de crise. Le Sacrifice d’Abraham –, publicada no jornal francês L’Humanité, de 19 de março de 1919. “O que mais amo em [Raymond] Lefevbre”, dizia Rolland, sobre o autor de Le Sacrifice…, “é essa íntima fusão — que, para mim, constitui o homem verdadeiro – de pessimismo da inteligência, que penetra toda ilusão, e otimismo da vontade”.
"A leitura ilumina o espírito".
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário
12