- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

A interrupção do fluxo petroleiro no Golfo Pérsico expõe a vulnerabilidade estrutural de um sistema econômico dependente de um único e frágil gargalo logístico
1.
Em 28 de fevereiro de 2026 teve início a ofensiva militar por parte dos Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica do Irã. A guerra abriu uma fase inédita de ataques sistemáticos contra infraestrutura energética em inúmeros países do Oriente Médio tanto por parte dos agressores quanto por parte do país agredido. O evento de maior expressão do conflito se deu com o fechamento do Estreito de Ormuz.
Assim, no plano macro, o impacto agregado foi muito maior do que a soma dos danos físicos locais, porque se combinou com o estrangulamento do Estreito de Ormuz. A Agência Internacional de Energia (IEA) estimou, em abril, perdas de exportação acima de 13 milhões de barris/dia, com mais de 360 milhões de barris de perda acumulada em março e mais 440 milhões projetados para abril; no relatório de maio, a agência disse que a produção dos países do Oriente Médio afetados pelo fechamento de Ormuz estava 14,4 milhões de barris/dia abaixo do nível pré-guerra.
Assim, compreender os impactos que a guerra trouxe para a reprodução da ordem global demanda a compreensão sobre o papel que ocupa o Oriente Médio na produção mundial de petróleo, o que deve ser desenvolvido sob o movimento de acúmulo de múltiplas determinantes do concreto. Essa dinâmica de acúmulo de determinantes concretas tem como base, em grande medida, as dimensões que envolvem reservas, extração, refino, circulação e produção de valor a partir da base natural petrolífera.
Em perspectiva global, de acordo com a OPEP, as reservas conhecidas de petróleo são da ordem de 1,5 trilhão de barris, sendo localizadas nos territórios dos países do Oriente Médio 873 bilhões. Ao se analisar a produção efetiva, são 74 milhões de barris diários extraídos da terra globalmente, enquanto o Oriente Médio comparece com 23 milhões de barris para o cômputo da produção mundial. A região detém, portanto, 55,7% das reservas globais e produz 31% do petróleo diário mundial (23 de 74 milhões de barris), mas o que ocorre quando se analisa a capacidade de refino? Refinam-se no Oriente Médio 9 milhões de barris por dia de capacidade instalada, contra uma capacidade global de 94 milhões.
Essa assimetria entre extração e beneficiamento é a expressão empírica da divisão internacional do trabalho no setor petroleiro. Há, portanto, países que extraem, países que refinam e países que consomem em proporções radicalmente desiguais. Essa divisão expressa a forma como o capitalismo organizou o espaço mundial de modo a concentrar as funções de maior valor agregado nos países centrais e as funções de extração primária na periferia.
2.
No interior do geral – a produção do Oriente Médio – emerge o específico: a posição singular da Arábia Saudita. Com 267 bilhões de barris em reservas e 9,4 milhões de barris produzidos por dia, o país representa, sozinho, 40,9% da produção regional e 12,7% da produção mundial. É o único produtor com capacidade ociosa significativa, o que lhe confere uma função que vai além da produção: a de regulador de mercado, de âncora de preços.
Essa posição singular é o resultado de uma trajetória histórica específica: a aliança entre a Casa de Saud e as empresas americanas, o papel da Arábia Saudita na formação da OPEP em 1960, sua posição de liderança no embargo de 1973, e a renegociação permanente de sua relação com os Estados Unidos ao longo do século XX. O que aparece como dado estatístico (9,4 milhões de barris/dia) é a forma presente de uma compenetração histórica de atritos, negociações e contradições que duram décadas.
Na via oposta caminha o caso específico do Irã, que vem a ser a expressão mais aguda da contradição entre o universal e o singular no setor. Com 208 bilhões de barris de reservas – a segunda maior do Oriente Médio e uma das maiores do mundo –, o Irã produz 3,2 milhões de barris por dia: uma fração do que sua base natural permitiria. A explicação desse hiato decorre da dimensão política: as sanções internacionais impostas pelos Estados Unidos desde 1979, intensificadas após 2018 com a retirada americana do acordo nuclear (JCPOA), bloquearam o acesso iraniano a capital, tecnologia e mercados internacionais.
Aqui a contradição se aprofunda: o Irã possui a segunda maior reserva regional, mas não pode transformá-la em produção e circulação de valor na escala que as condições naturais permitiriam. A sanção é, nesse sentido, uma forma de bloqueio à realização do valor: o petróleo iraniano existe como valor potencial, mas encontra barreiras políticas à sua transformação em valor realizado. Essa tensão entre capacidade produtiva e realização do valor é uma das principais contradições que o conflito de 2026 colocou em movimento.
Em terceiro plano, nos termos detectados pelas estatísticas produzidas pela OPEP, as reservas conhecidas de petróleo do Iraque correspondem a 140 bilhões de barris e produz 3,7 milhões por dia, o que corresponde a 5% da produção global e 16% da produção regional. Os relatórios produzidos pela agência de informação energética dos EUA indicam a perspectiva de que a produção no Iraque foi sensivelmente afetada pela interrupção do oleoduto Iraque-Turquia, além de indicar a relação inversamente proporcional entre instabilidade política e continuidade da produção realizada no país.
A IEA projeta para o Iraque um incremento de mais de 560 mil barris por dia de capacidade de petróleo bruto até 2030 – o segundo maior da região –, o que consolida o país como um dos principais candidatos à expansão da oferta regional no médio prazo. Mas esse crescimento projetado está condicionado à resolução das contradições institucionais internas: sem um acordo estável entre Bagdá e o governo regional do Curdistão, sem investimento em infraestrutura de exportação e sem redução da dependência de transnacionais estrangeiras nas condições atuais de governança, o potencial geológico continuará sendo capturado apenas parcialmente.
3.
Os Emirados Árabes Unidos expressam uma situação específica que não existe nos outros casos com a mesma nitidez: a distância entre o que o país pode produzir e o que estava autorizado a produzir pelos acordos da OPEP. Com aproximadamente 3,1 milhões de barris por dia, os Emirados Árabes Unidos operam abaixo de uma capacidade que a própria estatal ADNOC planeja elevar a 5 mb/d até 2027 – uma expansão de quase 70% sobre o nível de produção efetivamente praticado. A IEA projeta para os Emirados o maior incremento individual de capacidade de crude da região até 2030: mais 720 mil barris por dia. Esse dado revela que o crescimento emiradense dependia de uma renegociação das quotas no seio da OPEP que os Emirados já sinalizavam, em múltiplos momentos, estar dispostos a pressionar, situação que foi resolvida recentemente quando o país deixou de integrar o bloco.
O Qatar ocupa uma posição singular no grupo que só é compreensível ao se colocar em contraste a produção de gás natural: é o menor produtor de petróleo bruto entre os seis, com 619 mil barris produzidos por dia, mas exerce um poder geopolítico e econômico que essa posição estatística não explica. A explicação está no fato de que o Qatar negou o modelo de rentismo petroleiro puro para construir um modelo de rentismo gasífero integrado, com a exploração do campo North Field – a maior reserva de gás natural do mundo, partilhada com o Irã (South Pars) – como eixo central. Essa negação do petróleo pelo gás é, ela própria, uma forma de rentismo mais sofisticado, não uma superação do rentismo como tal.
O Kuwait encarna o rentismo em sua forma mais concentrada e mais vulnerável. As receitas de petróleo e gás responderam por cerca de 57% das receitas totais do governo no ano fiscal de 2021, e as exportações totais de petróleo por cerca de 78% das receitas de exportação no mesmo período – índices que tornam o país funcionalmente dependente de um único produto de uma forma que nem a Arábia Saudita (que ao menos exporta derivados e petroquímica em volumes crescentes) nem o Qatar (que diversificou para GNL) atingem na mesma proporção.
Para uma população relativamente pequena – inferior a cinco milhões de habitantes – e um território que não oferece alternativas de escala a curto prazo, o petróleo não é apenas a principal fonte de receita: é o fundamento do contrato social que sustenta a monarquia.
Os seis países respondem por 97,5% da produção regional, de modo que o restante fica distribuído entre Omã (0,775 milhões de barris por dia), Bahrein (0,176 milhões por dia) e os outros países da região responsáveis por 0,096 milhões de barris por dia. Vale notar que o desenvolvimento aqui realizado se baseou na estatística formulada pela OPEP, que utiliza como categoria analítica a produção de óleo cru. Assim, por exemplo, no que se refere especificamente à produção de GNL, o Oriente Médio compareceu em 2025, de acordo com as informações fornecidas pela OPEP, com 754 bilhões de metros cúbicos de gás frente ao total global de 4 trilhões e 341 bilhões produzidos mundialmente.
4.
Até aqui se tem uma influência relevante dos países produtores analisados no interior do circuito produtivo global de petróleo. Por outro lado, a produção de mercadorias derivadas do petróleo através do refino acaba representando uma fração menor da produção mundial. Em contraste ao fato de que detém mais de 50% das reservas globais e mais de 30% da extração de óleo bruto, em torno de 10% da produção mundial de refinados é gerada na região.
A conexão direta entre a produção de refinados e o consumo doméstico fica evidente nos números: são produzidos 9 milhões de barris diários e consumidos 8,8 milhões. O desdobramento claro é de que o circuito de transformação do óleo bruto em refinado serve estritamente ao mercado interno, entendimento que é realçado pelo fato de que as refinarias no Oriente Médio têm capacidade para produzir 10 milhões de barris diários.
Assim, a influência da produção de petróleo do Oriente Médio nos mercados mundiais ganha maior relevância e impacto se for colocada a lente sobre o quantitativo global de barris de petróleo exportados: dos 44 milhões de barris comercializados no mercado mundial diariamente, 17 milhões são provenientes da região. No setor do gás natural, dos 1,4 trilhão de metros cúbicos exportados anualmente, a fração exportada pelos países implicados na guerra do Irã corresponde a 198 bilhões de metros cúbicos.
Na outra ponta da situação temos os países compradores de petróleo proveniente da região em análise. A Ásia é o destino estrutural do petróleo do Oriente Médio. Dos 6 países que têm produção relevante que mapeamos, o Qatar se retirou da OPEP em 2019. Assim, em 2025, levando em consideração os dados dos 5 países membros da OPEP, 86% das exportações de petróleo bruto dos países membros da OPEP – 13,4 de 15,56 mb/d – foram para mercados asiáticos, segundo o relatório anual de 2026. A respeito do Qatar, a Agência de Energia dos Estados Unidos informa que 82% da exportação de produtos petrolíferos é direcionada à Ásia.
A China é o maior importador de petróleo do mundo e, por larga margem, o maior comprador de óleo bruto exportado pelo Oriente Médio. Segundo o relatório da Agência Internacional de Energia de março de 2026, as importações do Golfo do Oriente Médio representaram pouco mais de 50% do abastecimento marítimo de petróleo da China.
O país mantém reservas estratégicas e comerciais que representam 120 dias de importações líquidas marítimas – um dos maiores estoques estratégicos do mundo –, o que atenua sua vulnerabilidade a disrupções de curto prazo, sem eliminar a dependência estrutural. Assim, Arábia Saudita, Iraque, EAU, Kuwait e Irã (via circuitos de contorno às sanções) respondem coletivamente pelo grosso dos fornecimentos asiáticos além da Rússia. O Irã especificamente aumentou de forma consistente suas exportações para a China desde 2020, apesar das sanções americanas, o que representa a principal fonte de divisas iranianas no período atual.
5.
A Índia importou 4,9 milhões de barris por dia de petróleo bruto em 2025, dos quais o Oriente Médio supriu cerca de 40%. A partir disso, a Índia configura-se como o país cuja exposição à disrupção de Ormuz é a mais difícil de compensar no curto prazo, dado que a proximidade geográfica ao Golfo torna as rotas alternativas mais longas e custosas.
A dependência indiana do Oriente Médio tem também uma dimensão bilateral relevante: os países do Golfo são destino de uma volumosa diáspora de trabalhadores indianos, cuja remessa de divisas representa um pilar das contas externas da Índia. A relação Índia–Oriente Médio não é apenas energética: é também uma relação de trabalho e de capital que estrutura a reprodução de ambas as economias.
Japão e Coreia do Sul são os países do grupo com maior vulnerabilidade estrutural ao fechamento do Estreito de Ormuz. As chegadas de óleo bruto do Oriente Médio representavam 77% do abastecimento total do Japão, segundo o relatório de março de 2026 da Agência Internacional de Energia — e outras fontes indicam que a participação do Oriente Médio nas importações japonesas de petróleo estava acima de 90% em 2024. Para a Coreia do Sul, a participação do Golfo era de 62% do suprimento em 2025.
Segundo análise da Zero Carbon Analytics, 87% da energia total do Japão e 81% da Coreia do Sul provêm de combustíveis fósseis importados – contra 20% para a China e 35% para a Índia –, o que torna esses dois países os mais dependentes em termos estruturais, com menor margem para substituição rápida.
A Europa importou 9,3 mb/d de petróleo bruto em 2024, tornando-se um dos maiores mercados importadores do mundo. A reorientação das importações europeias após a invasão russa da Ucrânia em 2022 redesenhou o mapa de fornecimento: as importações russas caíram para apenas 3% do total europeu em 2024 (de 27% em 2021), e os EUA se tornaram o maior fornecedor individual com 21% do total. O Oriente Médio ocupa uma posição intermediária e declinante para a Europa como destino, mas ainda relevante em termos absolutos: os países membros da OPEP exportaram aproximadamente 3,34 mb/d para a Europa em 2024, contra 3,62 mb/d em 2023.
No entanto, via Estreito de Ormuz especificamente, a Europa recebe apenas uma fração do petróleo regional: a Agência de Energia norte-americana estima que cerca de 600 mil barris por dia – ou apenas 4% dos fluxos de crude via Ormuz – foram roteados para a Europa em 2025. O grosso das importações europeias do Oriente Médio chega por outras rotas: pelo Canal de Suez, pelo sistema SUMED e pelo Mediterrâneo, proveniente principalmente de países como Iraque (via Türkiye), Arábia Saudita (via Suez) e países do Norte da África. O Norte da África supriu quase 1,2 mb/d em petróleo bruto à Europa em 2024 — uma parcela significativa proveniente da Líbia, principal fornecedor da Itália nos primeiros sete meses do ano.
6.
Em 2024, os EUA importaram apenas cerca de 490 mil barris por dia do Golfo Pérsico, segundo a EIA – equivalente a aproximadamente 8% de suas importações totais de petróleo bruto. Essa autonomia direta, porém, não elimina a exposição sistêmica dos EUA ao petróleo do Oriente Médio. O preço do petróleo é formado num mercado global: a interrupção de Ormuz eleva o preço do barril, pressionando a inflação americana e as margens industriais, independentemente da origem física dos barris consumidos.
A Agência de Energia norte-americana observa que, mesmo que os EUA não importem petróleo do Golfo, o impacto de uma perturbação em Ormuz sobre os preços globais seria imediato e afetaria toda a economia americana via custos de combustível, insumos industriais e cadeias de abastecimento.
A relação entre o Oriente Médio e seus mercados não é unidirecional. Os países exportadores dependem dos mercados importadores para realizar o valor do petróleo; os países importadores dependem dos exportadores para suprir sua demanda energética. Essa interdependência é assimétrica, mas mútua: o choque de qualquer lado propaga-se para o outro.
A vulnerabilidade cruzada tem dimensões fiscais, logísticas e geopolíticas que se articulam de formas distintas para cada par de países. Do lado dos exportadores, há um preço mínimo do barril para equilibrar o orçamento, o que revela o quanto cada economia depende do mercado comprador. Do lado dos importadores, a dependência energética do Oriente Médio varia de 40% (Índia) a 95% (Japão), criando vulnerabilidades assimétricas a choques de oferta.
Qual é então a centralidade do Estreito de Ormuz para a circulação dos produtos petrolíferos? A resposta está na desproporção entre a dimensão física da passagem e o volume de valor que ela movimenta. Com apenas 21 milhas náuticas em seu ponto mais estreito e dois canais navegáveis de 2 milhas cada, o Estreito concentra cerca de 20 mb/d de petróleo e derivados em trânsito diário – o equivalente a mais de 25% de todo o comércio marítimo de petróleo do planeta. Não há nenhum outro ponto geográfico no mundo que concentre tanto valor energético num espaço tão reduzido.
Essa centralidade é o produto da forma como o capitalismo organizou a extração e a circulação do petróleo do Golfo ao longo do século XX. Arábia Saudita, Iraque, Irã, Kuwait, EAU e Qatar construíram suas infraestruturas de exportação voltadas quase exclusivamente para o Golfo Pérsico e, portanto, para o Estreito. O Iraque circula por ali 72% de suas exportações totais; a Arábia Saudita, 60%; os Emirados Árabes, 51%. Iraque, Kuwait, Qatar e Irã não dispõem de qualquer alternativa de oleoduto com escala suficiente para compensar um fechamento prolongado. A capacidade total de rotas alternativas — o oleoduto East-West saudita e o ADCOP emiradense — cobre no máximo 5,5 mb/d, ou 27% do fluxo habitual. Os outros 73% simplesmente não têm outro caminho.
Do lado dos destinos, a dependência é igualmente estrutural e geograficamente concentrada. Segundo a EIA com base em rastreamento de tanqueiros Vortexa, 89% de todo o crude que saiu pelo Estreito no primeiro trimestre de 2025 foi para a Ásia: China recebeu 37,7% do total, Índia 14,7%, Coreia do Sul 12% e Japão 10,9%. Para Pequim, mais da metade do abastecimento marítimo de óleo bruto passa por ali; para Seul, quase 70%; para Tóquio, 57%. São economias cujas cadeias industriais inteiras, de semicondutores a petroquímica, dependem da continuidade desse fluxo.
O conflito iniciado em fevereiro de 2026 tornou isso empiricamente verificável: quando o tráfego de petroleiros caiu 70% após os ataques de 28 de fevereiro, o Brent cruzou US$ 100 em 8 de março – pela primeira vez em quatro anos – e atingiu US$ 126 no pico, com alta de 27% em menos de duas semanas. O Estreito não é uma rota entre outras: é o ponto onde a contradição entre abundância geológica e fragilidade logística do Oriente Médio se manifesta em sua forma mais concentrada.
*Gabriel Cavalcante é professor do departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UFES).
"A leitura ilumina o espírito".
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário
12