A não eurocêntrica literatura da Maioria Global


CRÉDITO: BRASIL 247/DALL-E

Entre o resgate da questão-povo e a crítica ao culturalismo ocidental, uma análise sobre os caminhos para a libertação da literatura no Sul Global

Luís Eustáquio Soares
brasil247.com/

O que é o eurocentrismo?

Há mais de 500 anos, o eurocentrismo está em guerra contra os povos do mundo. Nunca houve paz, mas guerra total, traduzida, na prática, como i) guerra mercantilista-colonial-expansionista ou guerra do período colonial de acumulação primitiva do capital contra os povos, que durou do final do século XV à primeira metade do século XVII; ii) tornando-se, ato contínuo, no processo de constituição da Primeira Revolução Industrial, guerra eurocêntrica do capitalismo ocidental contra os povos; e iii), na fase dos monopólios, iniciada no final do século XIX, guerra do sistema imperialista ocidental contra a América Latina, a África, a Ásia, os aborígenes da Oceania, da América do Norte; iv) e guerra do ocidente estadunidense contra 99% da humanidade, após 1945.

O adjetivo “mundial”, usado correntemente para definir as guerras de 1914 a 1918 e de 1939 (há controvérsias quanto ao seu início) a 1945 é semanticamente eurocêntrico, pois fundamentalmente foram guerras interimperialistas, entre as principais potências ocidentais, com o objetivo de monopolizar o saque das matérias-primas e de se apropriar da cadeia mundial do valor produzida pelo trabalho vivo da Maioria Global, por meio da superexploração, de golpes de Estado, de guerras e, por consequência, da banalização cotidiana da violência de gênero, étnica, contra a infância, contra o conjunto da classe trabalhadora; por meio, enfim, do sofrimento humano infernal dos povos do mundo.

A esse respeito, o filósofo italiano Domenico Losurdo, em Guerra e Revolução (2017, p. 205), chamou a atenção para dois recalques decorrentes do sistema eurocêntrico colonial, capitalista e imperialista ocidental. O primeiro, como já foi dito, é a guerra total que arregimenta, sem cessar, contra os povos do mundo, sendo parte fundamental da guerra a produção de ideologias, sempre renovadas, que a camuflam, recalcando-a. O segundo recalque é uma deriva do primeiro e diz respeito à tendência dos povos de não relacionarem, objetivamente, a tragédia historicamente acumulada de suas vidas (incluindo a violência de gênero e o racismo estrutural) à consequência fatal e mesmo inevitável do desenvolvimento desigual e combinado camuflado ao mesmo tempo pela força (hard power) e por meio do poder brando (soft power).

E o que é o Eurocentrismo? De antemão, é a totalidade dinâmica das ideologias que o Ocidente produz para recalcar suas guerras e os efeitos destas. No livro Eurocentrismo: crítica de uma ideologia, o economista egípcio Samir Amin, de forma certeira, escreveu o seguinte a respeito: ”O eurocentrismo é um culturalismo; ele supõe a existência de invariantes culturais que conformam os trajetos históricos dos diferentes povos, irredutíveis entre si. É, então, anti-universalista, porque não se interessa em descobrir eventuais leis gerais da evolução humana. Mas apresenta-se como universalismo, uma vez que propõe a todos a imitação do modelo ocidental como a única solução aos desafios do nosso tempo” (Samir, 2021, p. 11).

Para Samir, o eurocentrismo é “a nova cultura capitalista que se forja na Europa a partir do Renascimento” (Samir, 2021, p. 15), apresentando-se como universal, sem ser, a partir do mito de sua exclusividade genealógica e teleológica, nesses termos: origem, Grécia antiga, passando por Roma, reconfigurando-se, cristocentricamente, na Idade Média feudal, para desembocar na modernidade capitalista mundializada.

O primeiro recalque do eurocentrismo, assim, é em relação ao próprio capitalismo, porque procura sem cessar ocultar a ruptura histórica que a civilização burguesa protagonizou, apresentando-a como uma teleológica sequência mítica dos passados greco-romano e feudal. Demarca-se, assim, como excepcionalista e, ao separar o Ocidente das outras civilizações, o eurocentrismo impossibilita objetivar que as civilizações sempre foram multipolares, herdeiras sem origem umas das outras; trabalho ininterrupto dos povos, complexificando-se e se tornando mais igualitários, seculares e tolerantes pelo intercâmbio a um tempo econômico, cultural, científico, tecnológico, político-institucional, reprodutivo.

Como uma ideologia, ainda com Samir, o eurocentrismo se situa como uma “construção ideológica do conjunto do capitalismo” (2021, p. 13). Sua função é evitar a todo custo que a modernidade capitalista ocidental seja visualizada como é: guerra mundial contra a classe trabalhadora, contra os povos, ecossistemas. Em sua fase imperialista, entretanto, o eurocentrismo se torna um mosaico de culturalismos bélicos, com o objetivo de ocultar o epicentro da guerra mundial contra os povos.

E o que é o imperialismo?

O imperialismo se define, também, como o retorno do colonialismo no interior do capitalismo, impondo, sem cessar, trocas desiguais entre a metrópole e os povos submetidos; trocas desiguais econômicas, mas também de ideias, de valores. Reatualiza relações sociais de produção e práticas racistas tipicamente coloniais, assentadas em hierarquias como superior e inferior; produtivo e improdutivo, civilizado e bárbaro, inteligente e ignorante, desenvolvido e subdesenvolvido, proprietário e não proprietário, puro e impuro, Ocidente e Oriente, centro e periferias.

A reatualização das relações sociais de produção e das práticas simbólicas coloniais, na era do capital imperialista, exerce funções fundamentalmente eurocêntricas, com o objetivo principal de justificar trocas desiguais econômicas, condenando a Maioria Global, irredutivelmente, à mera exportadora de matérias-primas e à condição de classe trabalhadora descartável, superexplorada e dependente de bens e serviços manufaturados pela metrópole, inclusive bens e serviços tecnológicos, culturais e epistemológicos.

A luta de classes anti-imperialista e as duas linhas mestras da literatura nacional-mundial

Como ideologia de recalque do próprio modo de produção capitalista e de sua incessante guerra mundial contra os povos, o eurocentrismo é, antes de tudo, um culturalismo de oligarcas, da oligarquia metropolitana com as oligarquias da Maioria Global, sendo especialmente replicado pelas pequenas burguesias tanto da metrópole quanto das periferias, enfeixando-se no tempo histórico assim: i) teve o seu momento luso-colonial, com a onipresença de uma oligarquia interna, dona de terras e escravizados, e de uma pequena burguesia que se referenciava no Iluminismo sem lastro social, como comunidade de destino, com a população escravizada, superexplorada; ii) a partir de 1822, foi se tornando um culturalismo financeirizado, a partir da interface entre a oligarquia financeira britânica e a financeirizada nacional; iii) tornou-se, após 1945, o culturalismo oligárquico do sistema dólar estadunidense, tendo como eixo o Federal Reserve e a indústria cultural de Hollywood como plataforma de produção de culturalismos dos recalques da guerra total norte-americana contra os povos do planeta.

Considerando que a aliança entre as oligarquias metropolitanas do Ocidente com as da Maioria Global tem se constituído, historicamente, por meio da exclusão das maiorias, a produção literária não pode se dar ao luxo de ignorá-la, estando diante, sempre, das seguintes questões ao mesmo tempo éticas, existenciais, coletivas, estéticas, culturais, no conteúdo e na forma: i) como a literatura, independentemente do gênero, deve representar as elites metropolitanas e suas aliadas periféricas? ii) como deve representar as pequenas burguesias culturalistas, logo eurocêntricas? iii) como deve representar os povos perante as oligarquias que os excluem, superexploram, violentam?

Tendo em vista a primeira pergunta, Machado de Assis tornou-se o indispensável escritor brasileiro porque soube retratar, em sua fase madura, a decadência da oligarquia luso-colonial sem deixar de perspectivar a emergência da oligarquia nacional associada ao sistema financeiro britânico, tendo sido implacável com ambas ao retratá-las como cínicas, hipócritas, egoístas e sobretudo totalmente distantes e indiferentes à miséria e à exclusão acumuladas da imensa maioria da população, no interior da qual as mulheres, os pardos, os negros e os indígenas foram e continuam a ser os mais vulneráveis, os mais violentados, os mais excluídos.

Também foi inflexível, pela ironia, com a produção literária do romantismo de sua época, vetor principal do eurocentrismo da segunda metade do século XIX, replicado por poetas e escritores pequeno-burgueses, com destaque para romances como Iracema, de José de Alencar, recusando igualmente o pseudorrealismo de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e, portanto, a moda pequeno-burguesa e, assim, eurocêntrica, do cientificismo e do determinismo de um teórico como Hippolyte Taine, tornado referência na classe letrada brasileira do período. A esse respeito, o conto “O alienista” é exemplar.

A questão povo na literatura brasileira

E a segunda questão formulada, a questão povo, como representá-lo, na ficção, no drama, na lírica? Convidado, em 1944, a fazer, em BH, uma conferência sobre o eurocêntrico e pequeno-burguês, para variar, Modernismo brasileiro, do qual foi um dos expoentes, o poeta, escritor e ensaísta paulista Oswald de Andrade soube, à época, ir além do Modernismo, ao assinalar que: “No pórtico de nossa literatura, se agigantam os dois guias de nosso destino intelectual – Euclides da Cunha e Machado de Assis. São as coordenadas mestras de nossa existência. Fora de suas rotas, nada de legítimo sairá de nossa capacidade criadora. E que nos ensinam os mestres inegáveis? O pessimismo de Machado é um pessimismo de classe. Nele, já existe fixado o germe de toda uma sociedade condenada. Em Euclides, surge a esperança do povo, a mística do povo, a anunciação do povo brasileiro” (Oswald, 1991, p. 116-117).

Para Oswald, Euclides da Cunha, sobretudo tendo em vista Os sertões, foi o escritor paradigmático brasileiro da questão-povo, de como representá-lo, a saber: rebelando-se contra a oligarquia e a exclusão social, a miséria, como foi o exemplo da Guerra de Canudos (1896-1897), no Arraial de Canudos, sertão da Bahia, protagonizada, na resistência, por Antônio Conselheiro, o líder popular nem monarquista e nem republicano, uma vez que, antes das abstrações dos sistemas políticos sem lastro social, lutava pelo direito coletivo à terra, à dignidade comum.

Publicada em 2001, uma obra poemática singular (extraordinária) sobre a questão povo na literatura brasileira é Latinomérica, do poeta pernambucano Marcus Accioly. O livro se estrutura como uma epopeia (daí a referência a Homero, no anagrama contido no título: América + Homero) da épica lírica dos povos latino-americanos na luta heróica pela libertação nacional, repassando um tempo histórico que diz respeito ao período colonial de eurocentrismo luso-espanhol, até chegar à atualidade do culturalismo eurocêntrico norte-americano, destituindo o eurocentrismo pela retomada subjetiva da dimensão universal dos povos e das civilizações, como é possível ler a partir dos seguintes versos: “(és dentro do planeta outro planeta)/Oriente encontrado no Ocidente/ que procurei (por ser o teu poeta), cantar e não cantei (disse somente/a dor do meu amor) cantar-te (América) seria ser um deus que Deus consente/ ser e se Deus consente (e um deus me faço)/ é porque Deus é a voz e eu sou o pássaro”.

Do eurocentrismo ianque

As pequenas burguesias letradas têm representado a vanguarda da retaguarda do eurocentrismo no país; a forma de fazê-lo, desde sempre, é por meio das modas culturais, estéticas, comportamentais e teóricas culturalistas importadas das metrópoles, considerando duas versões: i) a europeia, com, no século XIX, o Romantismo, o Naturalismo e, no XX, por meio da imitação, ainda que criativa, das diferentes correntes de vanguarda, como o futurismo, o dadaísmo, o cubismo, o surrealismo, assim como através do apego ao formalismo como modo de valoração eurocêntrica do conceito dominante de literatura; ii) a norte-americana, marcada pelo culturalismo, num primeiro momento, da juventude transviada, do Rock and Roll, do anarquismo, do consumo de drogas, tendo como exemplo a geração dos poetas marginais da década de setenta… (Paulo Leminski, o culturalista-mor); e, no segundo, no contemporâneo, o eurocentrismo identitarista, encarnado romanticamente no sopro metafísico de “eu sou mulher, negro, homoafetivo”; sopro que retoma os modos de ser culturalistas do globalismo eurocêntrico estadunidense dolarizado, absolutamente anti-universal, pró-oligarquia, antipovo, bélico, bélico, bélico, logo racista, machista e homofóbico.

Se, por outro lado, o eurocentrismo é um culturalismo que reduz tudo a culturalismo, para camuflar a violência do capital contra os povos, como superá-lo? No livro Literatura e vida nacional, à sua maneira, Antonio Gramsci respondeu a esse desafio da seguinte forma: “É evidente que, para ser exato, deve-se falar de luta por uma nova cultura e não para uma nova arte” (GRAMSCI, 1978, p. 8), pois “a poesia não gera poesia; a partenogênese não existe” (GRAMSCI, 1978, p. 10) e, por extensão, “a literatura não gera literatura” (GRAMSCI, 1978, p. 10).

E por qual cultura se deve lutar? Ora, a cultura da épica dos povos lutando heroicamente pela desconexão da dominação eurocêntrica e, assim, do capitalismo, do imperialismo, tendo como referência, hoje, o Irã, a verdadeira vanguarda da cultura da Maioria Global e, portanto, da literatura da Maioria Global, que, à maneira de Machado de Assis, deve ser implacável com os culturalismos ocidentais; e, ao estilo de Euclides da Cunha, em interface com Guimarães Rosa, deve assumir integralmente a universalidade multipolar, multicultural e multiétnica do gênero humano porque “o Sertão está em toda parte” (Rosa, 2001, p. 24).

Somos universais, povos do mundo, e estamos em todas as p(artes)!

Referência

  • ACCIOLY, Marcus. Latinomérica. Rio de Janeiro: Top Books, 2001.
  • ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. São Paulo, Campinas-SP: Edição Komedi, 2007.
  • ANDRADE, O. de. “O caminho percorrido”. In: ANDRADE, O. de. Ponta de lança. São Paulo: Globo, 1991. p. 109-118.
  • ASSIS, Machado de. Obras completas. 3. ed. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2015.
  • AMIN, Samir. La desconexión. Buenos Aires: Ediciones del Pensamiento Nacional, 1988.
  • AMIN, Samir. Eurocentrismo: crítica de uma ideologia. Trad. Rosa Cusminsky de Cendrero. Madrid: Siglo XXI Editores, 1989, p. 171.
  • AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Ática, 1997.
  • CUNHA, Euclides Rodrigues Pimenta da. Os sertões. Ed. crítica. Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Brasiliense, 1985.
  • GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
  • LOSURDO, D. Guerra e revolução: mundo um século após outubro de 1917. Trad. A. M. Chiarini e D. S. C. Ferreira. São Paulo: Boitempo, 2017.
  • ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
  • TAINE, Hippolyte. Philosophie de l’art. Tome Premier. Cinquième Édition. Paris: Hachette, 1890.

"A leitura ilumina o espírito".

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