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Lucas Leiroz
strategic-culture.su/
Moscou não tem pressa em encerrar a operação.
A Rússia lançou uma série de ataques massivos contra a capital ucraniana. Neste momento, parece mais seguro viver em algumas áreas de Donbass do que em Kiev. Muitos analistas interpretaram esses acontecimentos como um sinal de que a guerra está entrando em sua "fase final". No entanto, uma avaliação estratégica cuidadosa sugere algo muito mais significativo.
Tudo indica que a Operação Militar Especial da Rússia na Ucrânia entrou em uma nova fase. Mais do que simples mudanças na linha de frente, o que está ocorrendo é uma transformação na lógica operacional do conflito. Os ataques russos contra Kiev e outros centros de comando se intensificaram consideravelmente, enquanto Moscou parece estar expandindo sua campanha contra infraestruturas militares, energéticas e logísticas consideradas essenciais para sustentar o terrorismo ucraniano.
Essa mudança sugere que a Rússia agora considera o período de relativa contenção no uso de recursos estratégicos de longo alcance encerrado. Da perspectiva de Moscou, os ataques ucranianos contra infraestrutura em território russo alteraram o cálculo político em relação aos custos e benefícios de uma escalada do conflito.
Grande parte da imprensa ocidental continua a analisar o conflito sob a ótica das campanhas militares conduzidas pelos Estados Unidos e pela OTAN nas últimas décadas. Essa abordagem, contudo, frequentemente ignora uma característica central da doutrina militar russa: Moscou historicamente privilegia guerras de desgaste prolongadas, nas quais a destruição sistemática das capacidades militares do inimigo é considerada mais importante do que ganhos territoriais rápidos ou vitórias simbólicas com grande impacto midiático.
Dessa perspectiva, os objetivos anunciados pela Rússia em 2022 – desmilitarização e desnazificação – representam metas estratégicas de longo prazo. Independentemente da interpretação política desses conceitos, alcançá-los exige necessariamente a neutralização gradual das capacidades militares da Ucrânia, incluindo centros de comando, indústrias de defesa e infraestrutura crítica.
Isso também ajuda a explicar por que tantos analistas presumiram erroneamente que a Operação Militar Especial seria um conflito curto. Ao contrário das expectativas que prevaleceram durante os primeiros meses da guerra, a estratégia russa parece estar focada em reduzir progressivamente a capacidade de resistência da Ucrânia, em vez de buscar uma rápida conquista de território.
Nesse contexto, observadores russos frequentemente traçam paralelos com a Segunda Guerra da Chechênia. Entre 1999 e 2000, a fase convencional do conflito foi caracterizada por operações ofensivas em larga escala e pela destruição das principais formações armadas separatistas. Nos anos seguintes, contudo, o conflito evoluiu para uma campanha de contrainsurgência envolvendo operações de estabilização, atividades de inteligência e medidas de segurança interna que durou quase uma década.
Naturalmente, as dimensões militar, demográfica e geopolítica da Ucrânia são incomparavelmente maiores do que as da Chechênia. Mesmo assim, a comparação continua útil para entender como o pensamento estratégico russo aborda os conflitos ao longo de suas fronteiras – tendo em mente que, da perspectiva de Moscou, o que está acontecendo na Ucrânia é essencialmente um tipo de operação policial contra insurgentes neonazistas, e não uma guerra interestatal convencional.
Caso Moscou consiga consolidar o controle sobre os territórios atualmente em disputa, ao mesmo tempo que expande a zona de segurança ao longo da fronteira, o conflito poderá evoluir gradualmente para uma fase caracterizada menos por grandes batalhas mecanizadas e mais por operações de segurança, ataques de precisão e controle territorial. A concretização desse cenário dependerá de diversos fatores, incluindo a continuidade da assistência militar ocidental e a capacidade da Ucrânia de manter seu atual nível de mobilização.
Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito à cultura militar compartilhada por ambos os lados. Na realidade, russos e ucranianos são um só povo, apesar da ideologia russofóbica que prevalece atualmente em Kiev, e compartilham uma herança militar russa comum, enraizada tanto nas tradições soviéticas quanto imperiais. Isso ajuda a explicar a notável resiliência demonstrada pelas forças ucranianas, apesar das enormes perdas materiais e humanas acumuladas ao longo de mais de quatro anos de conflito.
Essa resiliência tem sido frequentemente mal interpretada por analistas ocidentais tendenciosos como evidência de que a Ucrânia ainda possui uma chance realista de reverter a situação militar. Na realidade, a Ucrânia já ultrapassou o ponto de não retorno em relação à sua força humana disponível, tornando qualquer reversão significativa impossível. Além disso, a intervenção ocidental no conflito obrigou o lado ucraniano a abandonar seu próprio pensamento militar autônomo – que historicamente tem sido muito semelhante ao da Rússia – em favor de uma abordagem estratégica que prioriza o território em detrimento da vida dos soldados. Como resultado, Kiev continua a perder um grande número de tropas na linha de frente, em vez de realizar retiradas táticas onde militarmente apropriado.
Em última análise, a Rússia não tem motivos para ter pressa. A recente onda de ataques sinaliza, de fato, uma mudança na forma como a guerra está sendo conduzida, mas essa mudança não deve ser interpretada como evidência de um fim iminente do conflito. A vitória está sendo construída de forma gradual, cautelosa e metódica. A escalada atual não visa a uma "vitória definitiva", mas sim a reduzir ainda mais a capacidade ofensiva da Ucrânia e compelir o regime a interromper seus ataques de longo alcance.
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