
Um campo de soja durante a colheita perto de Mambai, estado de Goiás, Brasil, em março de 2026.Dado Galdieri/Bloomberg via Getty Images
Uma pesquisa mostra que a dependência comercial não levou ao alinhamento político.
Durante anos, a leitura convencional sobre o coração agrícola do Brasil tem sido a de seguir os fluxos comerciais. Se a China compra sua soja e carne bovina, o raciocínio é que os onze estados produtores devem se inclinar para Pequim. No entanto, uma pesquisa sobre as tendências políticas da região, conhecida como fronteira agrícola, mostra que esse raciocínio está errado.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, e o comércio bilateral atingiu um recorde de US$ 171 bilhões no ano passado, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). O Brasil exportou aproximadamente US$ 100 bilhões para o gigante asiático em 2025, e a região agropecuária contribuiu com cerca de 36% das exportações, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A região, que abrange o Centro-Oeste e o Norte do Brasil, é relevante não apenas por seu peso econômico, mas também pelo que revela sobre o alinhamento político do país.
Uma pesquisa realizada pela Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, uma sondagem de opinião pública original, representativa regionalmente e feita presencialmente, sobre como a região fronteiriça vê o resto do mundo, foi conduzida com 1.000 adultos em 70 municípios selecionados entre o final de outubro e meados de novembro do ano passado.
Curiosamente, embora o trabalho de campo tenha sido realizado enquanto o Brasil absorvia uma tarifa americana de 50% imposta em agosto daquele ano, a pesquisa registra um padrão intrigante: a região vende para a China sem confiar nela, aceita as regras europeias sem adotá-las e confia nos EUA sem depender deles comercialmente. Isso coloca o Brasil em uma situação de interdependência sem alinhamento, na qual a influência econômica não se traduz automaticamente em confiança política.
Em 2022, a China absorveu 80% das exportações de soja e 86% da carne bovina da região fronteiriça, um sinal de domínio comercial aparentemente inigualável. Ainda assim, apenas 12,6% dos moradores da região fronteiriça consideram a China “muito confiável”, em comparação com 21,8% para os EUA. Quando questionados sobre influência política, mais de 40% afirmam que Washington exerce “muita” influência sobre a política brasileira; apenas 22,6% dizem o mesmo de Pequim. A China é claramente vista como um ator econômico; no entanto, seu papel político não é prontamente aceito.
Os EUA, por outro lado, quase não compram diretamente a produção da fronteira agrícola, embora suas empresas estejam presentes em ambas as pontas da cadeia produtiva. Na saída do país, empresas de comércio exterior — como ADM , Cargill e Bunge — movimentam quase metade dos embarques de soja da região para a China. Mais a montante, a tecnologia americana fornece os insumos: a Mosaic Company, sediada em Tampa , fornece cerca de um quinto dos fertilizantes utilizados pelo Brasil, enquanto as sementes, os agroquímicos e as máquinas também são, em grande parte, de origem americana.
Essa presença é real, mas quase invisível, e demonstra uma vantagem americana que é o oposto da situação atual de Pequim. Argumentamos que a confiança que os EUA desfrutam, em vez de se basear em uma presença comercial direta praticamente inexistente, pode estar fundamentada em algo mais: familiaridade e confiabilidade percebida em toda a fronteira.
O fator Europa
A Europa também desempenha um papel importante. Quase três quartos dos entrevistados concordam que atender às exigências ambientais da UE fortaleceria a reputação do Brasil. Dois terços também acreditam que a conformidade prejudicaria a competitividade dos produtos brasileiros, e 61,5% suspeitam que as regras servem principalmente aos interesses econômicos europeus, e não ao meio ambiente. Embora essas opiniões sejam comuns a todos os entrevistados, elas não se anulam; coexistem em uma postura que identificamos como conformidade pragmática. A fronteira está se preparando para uma condição de acesso ao mercado pela qual espera pagar, em vez de adotar um princípio compartilhado.
O que une essas posturas é uma cultura política peculiar, visto que a maioria dos moradores da região fronteiriça (83%) se identifica como centrista ou de direita. A maioria afirma que o governo interfere demais na vida cotidiana e que a regulamentação dos negócios traz mais prejuízos do que benefícios, e dois terços são favoráveis à flexibilização das leis ambientais brasileiras.
Analisar a fronteira agrícola, com suas características voltadas para o mercado e céticas em relação ao Estado, é a lente mais plausível para compreender as posturas do restante da região: à vontade com as regras estabelecidas pelos mercados, cautelosa com as impostas pelo Estado. Não obstante, os resultados da pesquisa podem potencialmente ajudar a explicar por que a condicionalidade da UE no exterior é tolerada enquanto a regulamentação interna encontra resistência, e por que o poder associado aos mercados abertos supera o poder associado ao capitalismo de Estado.
A perspectiva política
Além disso, a fronteira agrícola brasileira está se tornando uma região cada vez mais importante politicamente. Seus estados detêm aproximadamente 15% do eleitorado nacional, mais de 22 milhões de pessoas, e estão sobrerrepresentados em cargos políticos importantes, como o Ministério da Agricultura. À medida que esse peso aumenta, as posições da região se tornam um obstáculo para o que qualquer governo em Brasília pode fazer de forma crível.
Uma política externa vista como excessivamente favorável a Pequim encontrará resistência justamente nos locais que geram as receitas de exportação do Brasil. Os termos de conformidade com a UE tornam-se negociáveis a partir de uma posição de força interna, em vez de fraqueza. Compromissos impostos de cima para baixo, sem uma consulta mais aprofundada, podem enfrentar dificuldades na prática.
Para as potências externas, a lição é a mesma. O domínio da China compra volume, não lealdade: caso as tensões comerciais aumentem ou surjam alternativas viáveis, o grupo que menos confia em Pequim poderá ser o mais rápido a procurar outras opções. Os EUA detêm um ativo que não compraram nem divulgam, e, como demonstram as renovadas ameaças de tarifas deste ano , podem colocar esse ativo em risco. A UE, por sua vez, deve lembrar que a forma como uma regra é implementada será tão importante quanto o seu conteúdo.
Em resumo, a fronteira agrícola brasileira ainda não é cliente de ninguém. Ela faz parte da economia global e não está comprometida com nenhuma das potências que a integram, servindo como um lembrete de que, em regiões dependentes de exportações, os fluxos comerciais são um indicador inadequado de lealdades.



Comentários
Postar um comentário
12