Carlo Ancelotti não soube ganhar

Imagem: Michele Bergami


Por LICIO CAETANO DO REGO MONTEIRO*


A busca por um salvador vindo do Norte reproduz a nossa histórica inferioridade intelectual, esquecendo que o drible e a eficiência nascem da intimidade com o caos

1.

Carlo Ancelotti não nos entrega nada. Porque não possui qualquer dimensão da tragédia que é dirigir a seleção brasileira, a que mais perdeu Copas em toda a história. O italiano ganha e perde como se estivesse fazendo um pedido no Spoleto. Não espero de um técnico do Brasil que ele ganhe tudo, que ganhe sempre, nem mesmo que ganhe. O Brasil ganhou cinco apenas, perdeu 23. Mas cada Copa perdida nos deixou um legado trágico, cada técnico derrotado passou noites sem dormir ao longo de anos, e mesmo décadas depois da derrota teve que responder infinitas vezes, a cada programa esportivo ou na padaria do bairro, perguntas sobre suas escolhas.

Basta olhar o Tite, um profissional atormentado depois de perder duas Copas, que teve que interromper sua carreira por conta de crises de ansiedade. Telê Santana fez o melhor São Paulo da história depois de duas frustrações em Copas, se tornando bi-mundial – mas por um clube. E quando venceu o Milan por 3 a 2 no Mundial Interclubes estavam lá para lembrá-lo de 1982.

Dunga poderia viver o resto da vida como capitão do tetra, mas quis mergulhar no pântano da existência humana e perder uma Copa como treinador do Brasil. Estes só conheceram derrotas, os técnicos das quartas-de-final. Dunga ainda é lembrado pelo tetra em campo, Telê Santana por uma certa imprensa nostálgica de 1982 e o São Paulo F. C., Tite nem isso.

Cada técnico vencedor, no entanto, conheceu também a derrota. Feola, que cochilava no banco de reservas, venceu em 1958, mas cometeu a façanha de fazer um bicampeão nem passar da fase de grupos em 1966. Zagallo comandou o esquadrão do tri, mas rodou no carrossel holandês de 1974 e foi engolido pelos franceses em 1998.

O blasé Carlos Alberto Parreira contestado em 1994 venceu, mas, distraído em 2006, perdeu com um dos times mais favoritos da história. E Felipe Scolari foi do céu de 2002 ao inferno alemão de 2014. Todos perderam depois de vencer. E deixam na lembrança a derrota como última impressão – a que fica.

Cada uma das tragédias futebolísticas é um legado humano sobre como lidamos com a perda, a frustração, a constatação da inferioridade. Algo que nos fala a um sentimento compartilhado ao mesmo tempo por toda a nação, e que dificilmente um técnico estrangeiro pode sentir junto e retribuir como ensinamento, não sobre tática ou superação, mas algo mais que o esporte tem a dizer sobre a vida.

Nosso destino é perder, a vitória é exceção, é o extraordinário. Os chicletes de Carlo Ancelotti, assim como o corte de seu terno, não se conectam ao espírito popular. Um técnico necessário é aquele que se coloca em risco, pois sabe que está exposto à tragédia e, por uma combinação improvável de resultados, à glória.

2.

As grandes seleções, colocadas no patamar de campeãs, venceram Copas do Mundo fazendo do jogo, cada uma a seu modo, algo maior para o próprio jogo. O que agregam ao mundo da bola é uma contribuição à civilização do futebol que se manifesta em sua face edificante, mas também em sua desmedida.

O Uruguai pode ser valente, mas eventualmente ao ponto de descambar para a violência incontida. A Argentina brilha e fracassa em torno de um semideus. A Inglaterra inventou o chuveirinho e a pipoca, ganhando em casa e nunca mais. A Itália é o ferrolho, que às vezes de tão fechado não sai de si – há doze anos nem mesmo chega à Copa. A Alemanha é a disciplinada e fria e, às vezes, de tão fria congela. A França teve a elegância e altivez de Zidane e Mbappé, rondando à espreita o salto alto e o conflito interno iminente.

A Espanha foi a última a se elevar ao topo, trazendo o toque de bola mais eficaz e aborrecedor do planeta. O Brasil… bem, o Brasil é a beleza e a soberba, a consagração e a decepção, a crença irracional no milagre do gênio inventivo e improvisado proscrito nos tempos atuais. Cada uma das seleções foi campeã e existe no mundo do futebol ao alinhar seu modo de existência a traços típicos de suas sociedades nacionais, coevoluindo com a cultura e o povo, fazendo da aventura em campo um lugar de aprendizagem das relações humanas.

Certamente a seletividade das campeãs expressa não só o jogo, mas também o domínio econômico e político exercido, do qual os sul-americanos participam como convidados menores, cuja potência futebolística está mais alta do que sua posição no sistema-mundo interestatal e capitalista.

O caso do Brasil é emblemático, demonstra como mesmo sua posição o primeiro mundo da bola é afetada permanentemente por um senso de inferioridade intelectual e organizativa que é capaz de resultar em apostas falidas como a contratação de um técnico italiano – daquele país que não vai à Copa há 12 anos. É como se fôssemos ricos em matéria-prima – os jogadores – mas incapazes de assumir as funções que demandam o pensamento, a estratégia e a organização necessárias para se ganhar.

A colonização mental nos impede de perceber como as injunções entre corpo, mente e coração são constitutivas do modo brasileiro de se jogar e lidar com o futebol – e que a solução para o futuro do Brasil na bola deve passar pela reconexão entre o modo de pensar e de agir que alçaram o país ao lugar que ocupa na história deste esporte.

3.

O Brasil, no entanto, não é mais protagonista na chamada copa dos protagonistas. Mais duro do que ser mero figurante na Copa é deixar de ser protagonista de si mesmo. O time em campo, vestindo a camisa, era coadjuvante dos que estavam fora de campo: o técnico Carlo Ancelotti, nos ombros de quem recairia a explicação da vitória, e o reserva Neymar Jr., portador de um séquito irracional que lhe garante imunidade.

Até mesmo a camisa amarela virou o avesso de si – gosto de vestir minha réplica da 11 de 1970 em dias de jogo da Copa, mas que guardo na gaveta desde 2015 pra não me confundirem na rua com aqueles que capturaram sua simbologia para defenderem o pior de nós. Diante do desafio colocado, não há dentro de campo quem tenha a personalidade de chamar de volta para si o protagonismo – esperar isso de Carlo Ancelotti seria um paradoxo, afinal sua vitória é a confirmação do papel coadjuvante do Brasil, mas sua derrota tampouco significa o contrário disso.

Disseram que só Carlo Ancelotti seria forte o suficiente para impor sua autoridade a uma seleção infantilizada pela dependência emocional da presença de Neymar Jr. Mas, olhando retrospectivamente, Carlo Ancelotti nunca esteve à altura. Barrar um jogador popular é algo que Telê, Parreira, Zagallo, Felipão e Dunga conseguiram fazer, pois dominavam o direito adquirido por aquele que se coloca em risco. Nem mesmo a percepção da artificialidade da campanha pró-Neymar o italiano soube estimar. E, mais do que isso, a capacidade de confrontar a trama política que induziu esta convocação.

Recentemente, vimos na série sobre o tricampeonato do Brasil, os técnicos João Saldanha e Mário Jorge Lobo Zagallo como protagonistas. Parte do drama psicológico envolvendo esta posição de treinador da Seleção esteve lá bem expressa, em todos os pontos que opunham os dois estilos, mas também naquilo que os identificava, e que se revelou de forma mais explícita na cena da madrugada na praça, na ficção daquele encontro.

A série detalha ainda as personalidades dos jogadores, com um acento dramático às vezes exagerado, mas humano, demasiadamente. A Copa não ocorre só no campo, e quem só vê a bola não entendeu nada ainda. Como diriam cronistas do passado, futebol não é questão de vida ou morte, é muito mais do que isso. Este “mais-do-que-isso”, no entanto, tem sido atualmente algo que escapa à cultura de um povo e que está capturado em tramas comerciais cada vez mais agressivas, que comprometem nossa capacidade coletiva de lidar com o jogo – e conectá-lo com a vida.

4.

Esta dificuldade se coloca de forma ainda mais acentuada com a desconexão entre cabeça e pé, mente e corpo, que se estabelece ao delegar função tão importante a Carlo Ancelotti, como se o Brasil pudesse ganhar uma Copa como o Real Madrid ganha uma Champions. Faltam conexões necessárias para que uma campanha vitoriosa seja construída – algo que não é somente do plano do jogo, mas da complexa conexão estabelecida entre o imaginário popular nacional e sua tradução em campo – e para isso o “mister” não tem um plano.

Quando dizem que o Brasil se afasta de sua essência que é o drible e a alegria, parece se esquecerem da figura do “técnico brasileiro” que sempre se caracterizou por uma relação ambígua com essas características do futebol brasileiro. Nunca vi um técnico à beira do campo gritando para driblar. Geralmente gritam para defender, para terem atenção, para pegar firme. Os times do Brasil não se construíram pela exaltação irresponsável do drible e do corpo livre, mas pela tensão permanente entre a demanda de ordem e a canalização do caos criativo dos jogadores em direção a algo que pudesse ser eficiente – e, eventualmente, belo.

O jogador não dribla pelo técnico – muitas vezes é apesar dele. Não só o drible físico, em campo, mas o drible mental necessário para se afirmar diante do adversário, e às vezes em relação a todo o ambiente que o cerca – tanto o ambiente mais comum de escassez da infância, quanto o novo portal que se abre na ascensão financeira dos craques. Nesta tensão entre o que o corpo manda e o que o técnico, o “professor”, comanda, ganhamos e perdemos, constituímos uma personalidade, que se desdobrou em diferentes faces da vitória e da derrota – e por isso corremos o risco de ganhar.

O “mister” não é o “professor”. Carlo Ancelotti não respondeu a perguntas na saída de campo, deixou esse papel a seu filho – que talvez por ter treinado o Botafogo tenha aprendido algo a mais sobre a vida do que o ex-técnico do Real Madrid e do Milan. Foi protocolar na coletiva. E rumou para sua casa no Canadá depois da Copa, deixando o avião da seleção chegar sozinho no Brasil com o lateral Danilo, que poderá se dedicar melhor agora aos estudos de psicologia.

Não sei se haveria ainda alguém para recebê-lo com gritos de burro no saguão de um aeroporto do Rio de Janeiro. Waldemar Lemos, Joel Santana, Lisca Doido ou Renato Gaúcho nunca ganharam uma Champions League, mas todos eles perderiam uma Copa com mais dignidade e humanidade do que Ancelotti. Todos eles passariam o resto de suas vidas atormentados pelo fantasma da Copa que perderam.

O craque Daniel, do Falha de cobertura, prometeu dedicar o resto da vida a odiar os jogadores do 7 a 1 de 2014. Pior do que o ódio, no entanto, é a indiferença. Ganhar a Copa é exceção, a única promessa que pode ser cumprida é a de comparecer ao encontro marcado com a tragédia da derrota. Como na canção de Marisa Monte e Arnaldo Antunes, “É meu troféu, é o que restou / É o que me aquece sem me dar calor / Se eu não tenho o meu amor / Eu tenho a minha dor”.

Mas, esta dor Carlo não sente e é incapaz de compartilhar com os brasileiros. Não há comercial de cerveja nem hino nacional que o salve desse destino. Exigir que ganhe a Copa seria demais, o que eu pediria é que pelo menos aprenda a perdê-la.

*Licio Caetano do Rego Monteiro é professor do Departamento de Geografia da UFRJ.


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