Eleições: o que dizem as pesquisas?

Lula e Flávio BolsonaroCRÉDITO: RICARDO STUCKERT/PR I AGÊNCIA SENADO

Se a última pesquisa Datafolha foi boa para Lula, ela não foi ruim para Flávio Bolsonaro


A última rodada de pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais dos institutos Quaest e Datafolha aponta para certa estabilidade, mas com uma tendência de alta de Lula e de queda de Flávio Bolsonaro. Considerando apenas as simulações de segundo turno, a pesquisa do Datafolha divulgada no dia 24 de julho mostra que Lula tem 5 pontos de vantagem sobre Flávio, numa proporção de 47% para 43%. A distância aumentou um ponto em relação à pesquisa de junho do mesmo instituto.

Nas simulações de segundo turno da Quaest, em pesquisa divulgada no dia 15 de julho, a diferença é de 8 pontos. O presidente aparece com 45%, contra 37% do candidato bolsonarista. Considerando as várias pesquisas divulgadas nas últimas semanas, o agregador Globo/Locomotiva aponta para uma diferença de 5,6 pontos pró-Lula, e o agregador do UOL indica uma diferença de 4,5 pontos.

A primeira conclusão a que se pode chegar é a de que os resultados configuram um desempate entre Lula e Flávio, superando aquela condição de empate que vinha se apresentando até o final de maio e o início de junho. Esta é uma boa notícia para Lula.

Dois fatores são a causa desse desempate. O primeiro diz respeito a uma melhora, ainda que pequena, na avaliação do governo. A pesquisa Quaest de julho, por exemplo, mostra que, pela primeira vez desde 2024, a avaliação positiva do governo supera a negativa, numa proporção de 48% contra 47%. O segundo fator é o desgaste de Flávio Bolsonaro por conta da crise de sua campanha e das denúncias que o atingem.

Os históricos de pesquisas de eleições anteriores mostram que, quando o incumbente disputa a reeleição, ocorre uma relação entre a avaliação de seu governo e o desempenho na intenção de voto. A existência dessa relação indica que uma das estratégias eleitorais de Lula, principalmente no início da campanha e no primeiro mês do horário eleitoral de rádio e TV, consiste em projetar as realizações do governo, buscando melhorar a avaliação e, também, as intenções de voto.

Se a última pesquisa Datafolha foi boa para Lula, ela não foi ruim para Flávio Bolsonaro. A pesquisa foi feita depois de uma avalanche de crises que sacudiram a campanha do candidato bolsonarista: pedidos de recursos a Vorcaro para o fim de Jair Bolsonaro, fotos com o sicário de Vorcaro, tarifaço de Trump, brigas com Michelle Bolsonaro, notas fiscais emitidas para empresas vinculadas a Vorcaro, ataque às urnas eletrônicas, dificuldade de encontrar uma vice para a chapa e ligação com políticos do Rio de Janeiro vinculados ao crime organizado e ao Comando Vermelho.

A pesquisa Datafolha joga por terra uma série de especulações que se espalharam nas últimas semanas acerca de uma possível desistência de Flávio de sua candidatura. As especulações eram equivocadas por não compreenderem a natureza da disputa política e do jogo que o bolsonarismo está fazendo.

A sobrevivência da candidatura de Flávio confirma a tese de que estamos, novamente, diante de uma eleição polarizada. O alto índice de rejeição de Flávio e Lula — agora Flávio é mais rejeitado do que Lula — confirma a polarização. A candidatura de Flávio alimenta a polarização, alimenta-se dela e sobrevive por causa dela.

A polarização cria um ambiente eleitoral rígido que contamina o processo decisório de voto dos eleitores. Cada candidato tem um núcleo duro de eleitores que não estão dispostos a mudar de voto. Aconteça o que acontecer, em termos de fatos e notícias boas ou ruins, seja para Lula ou para Flávio, a tendência é a de que as intenções de voto dos eleitores de um ou de outro permaneçam fiéis.

A polarização instaura o jogo da luta do bem contra o mal. Para quem vota em Lula, a candidatura de Flávio é a encarnação do mal. E, para quem vota em Flávio, o presidente é a encarnação do mal. Para os eleitores, não importam os pecados que cada candidato possa ter. O que importa é derrotar o mal.

Esse jogo maniqueísta é mais próprio da direita. Flávio Bolsonaro lança mão dele recorrentemente. Na convenção que o ungiu candidato, ele foi explícito ao afirmar que as eleições serão “uma luta do bem contra o mal”.

Apresentando-se como defensor da liberdade, da família e da religião, Flávio imputa a Lula a corrupção e a incompetência. A campanha de Flávio priorizará esse tipo de discurso, em detrimento do programa de governo, de propostas para o país e de políticas públicas.

Para a campanha de Lula, não basta apenas ter um bom programa de governo e propostas para o país. É preciso que haja uma vacina contra a estratégia bolsonarista e contra o vendaval de mentiras que o bolsonarismo e a direita já estão disseminando.

Outra especulação que ganhou alguma força nos últimos dias diz respeito à ideia de que Lula poderá vencer no primeiro turno. O argumento se sustenta na constatação de que Lula corre sozinho na raia da centro-esquerda e que não dividirá os votos com ninguém, ao contrário da direita, que terá quatro ou cinco candidatos. Além disso, a soma das intenções de voto nas simulações de primeiro turno mostra que Lula não está longe de superar as intenções de voto de todos os outros candidatos.

A atenção da campanha de Lula deve voltar-se para o eleitorado de centro e para as franjas de eleitores de direita não bolsonaristas, que serão disputados também por Caiado, Zema e Renan Santos. Serão esses segmentos que decidirão as eleições.

Não se tratará apenas de desmentir as mentiras, mas de atacar. É preciso desnudar a hipocrisia e o cinismo de Flávio e da direita. A capacidade persuasiva será um elemento estratégico importante na definição do resultado das eleições. Afinal de contas, a principal função do líder é persuadir, convencer e dirigir.


Aldo FornazieriProfessor da Escola de Sociologia e Política e autor de “Liderança e Poder”

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