Friedrich Engels nos mostrou como fazer história.

Ilustração em preto e branco de Friedrich Engels, por volta de 1890. (Hulton Archive / Getty Images)

TRADUÇÃO: PEDRO PERUCCA

Uma caricatura comum retrata Friedrich Engels como um ultradeterminista que apresentava os seres humanos como marionetes das forças econômicas. Na realidade, seus escritos históricos eram sutis e sofisticados, demonstrando como a ação humana pode alterar o curso da história.

Existe um mito de que Friedrich Engels distorceu a teoria social revolucionária de Karl Marx, transformando-a em uma forma de determinismo tecnológico politicamente fatalista. Embora seja possível extrair trechos do contexto para justificar essa afirmação, a verdade é que Engels era um pensador extremamente sofisticado, com um conhecimento enciclopédico de história, que colocava a ação humana consciente no centro de sua compreensão do processo histórico. Embora entendesse que a ação humana era determinada materialmente, seu modelo de determinação não era de forma alguma mecânico ou reducionista.

E.P. Thompson estava, sem dúvida, certo quando argumentou que deveríamos nos precaver contra as tentativas de fazer de Engels o bode expiatório para quaisquer falhas "escolhidas para serem imputadas ao marxismo posterior". E Perry Anderson, acertadamente, voltou o bastão na direção oposta, contra as tentativas de denegrir o legado de Engels, ao sugerir que ele era, na verdade, um historiador mais sólido do que Marx: " Os julgamentos históricos de Engels são quase sempre superiores aos de Marx. Ele possuía um conhecimento mais profundo da história europeia e uma compreensão mais segura de suas estruturas sucessivas e salientes."

O nascimento do materialismo histórico

Em seus próprios comentários, eminentemente sensatos, sobre o método que ele e Marx desenvolveram, Engels fez uma observação que se tornou famosa:

Se alguns escritores mais jovens atribuem mais importância ao aspecto econômico do que ele merece, Marx e eu somos parcialmente responsáveis ​​por isso. Tivemos que enfatizar esse princípio orientador diante de adversários que o negavam, e nem sempre tivemos tempo, espaço ou oportunidade para fazer justiça aos outros fatores que interagiam. Mas a questão era diferente quando se tratava de retratar um período da história — isto é, aplicar a teoria à prática — e aí, nenhum erro era admissível.

Para Engels, "o fator determinante na história é, em última análise , a produção e reprodução da vida real". No entanto, ele insistia: "se alguém distorcer isso declarando que o momento econômico é o único fator determinante, transforma essa proposição em um jargão abstrato, ridículo e sem sentido".

Infelizmente, ao longo do último século e além, houve toda uma indústria artesanal dedicada a distorcer as proposições de Marx e Engels, transformando-as em jargões abstratos, ridículos e sem sentido. Isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito aos escritos de Engels. A calúnia que lhe foi atribuída pode estar relacionada ao fato de que ele não apenas cunhou o termo "materialismo histórico", mas também, possivelmente, inventou sua prática por meio da autoria da primeira obra de história "marxista": A Guerra Camponesa na Alemanha (1850).

Produzido no contexto das revoluções derrotadas de 1848, este estudo teve como objetivo tanto fornecer evidências de uma genuína tradição revolucionária alemã quanto contrapor as tendências moralistas e voluntaristas presentes entre os fragmentos da esquerda revolucionária derrotada. Enquanto o pai da história positivista moderna, Leopold von Ranke, fez a afirmação superficial e mística de que a revolta camponesa de 1525 surgiu como uma “convulsão da natureza”, Engels tratou todos os personagens principais como agentes racionais, cujo comportamento poderia ser melhor compreendido por meio de uma análise aprofundada de seus interesses materiais conflitantes, enraizados nas relações sociais da época.

Sua intenção era apreender a essência social subjacente ao movimento revolucionário, para além de sua aparência superficial de mera explosão de misticismo religioso. Estrutura e ação não são, segundo esse modelo, opostos: na verdade, são mutuamente constitutivas. Sua afirmação de que as revoluções têm causas profundas não é uma alternativa à exploração do papel da ação dentro delas, mas sim o pré-requisito necessário para tal investigação.

Crítico militar

poder dessa abordagem ao estudo da história é evidente em seus escritos militares. Como observou Walter Gallie, Engels se estabeleceu como “provavelmente o crítico militar mais perspicaz do século XIX”. Comentando o ensaio de Engels sobre o assunto, “O Exército” (1857), Marx escreveu que ficou “impressionado”, não apenas “com o volume da obra”, mas também com sua qualidade: considerou-a uma obra que “comprova a exatidão de nossas ideias a respeito da relação entre as forças produtivas e as relações sociais”.

Para além de tudo o que se possa dizer sobre "Exército", esta obra não se resume a materialismo mecânico ou determinismo tecnológico. Trata-se, na verdade, de um estudo magistral da história militar ocidental, da Antiguidade ao período imediatamente posterior a Napoleão. Ao longo do ensaio, embora Engels tenha enquadrado sua narrativa em seu contexto social, sua atenção à organização, à liderança, ao moral e à cultura iluminou a natureza não reducionista de seu materialismo.

Ao analisar os confrontos entre gregos e persas, ele argumentou que a organização, o treinamento e a liderança dos gregos tornaram as "massas desajeitadas e desordenadas" de seus adversários "totalmente incapazes de oferecer algo além de resistência passiva contra a nascente falange de Esparta e Atenas". Em relação aos conflitos entre os próprios gregos, ele explicou de maneira semelhante o domínio de Esparta na guerra terrestre como resultado de sua organização interna.

Contudo, ele também salientou que o sistema social grego era capaz de sustentar o serviço militar de homens livres porque se baseava na escravidão. Em Atenas, o treinamento militar consistia em dois anos de serviço aos dezoito anos, após os quais o homem livre ocupava um cargo na reserva até os sessenta anos.

Embora esse sistema produzisse excelentes soldados, os quarenta anos de serviço militar exigidos dos homens espartanos, dos vinte aos sessenta anos, garantiam que seus hoplitas fossem ainda mais bem treinados. Visto que o movimento unificado exigido pela falange só podia ser dominado através de longos anos de prática coletiva, "enquanto a falange decidia a batalha, o espartano, a longo prazo, mantinha a vantagem".

Uma arte prática

A nuance característica que Engels acrescentou a esse argumento, "a longo prazo", juntamente com sua atenção ao momento organizacional da análise, aponta para o fato de que seu materialismo não era de modo algum mecânico. Veja, por exemplo, seus comentários sobre a maneira revolucionária com que Epaminondas liderou os tebanos à vitória sobre Esparta em 371 a.C. Em uma inovação tática de profundo mérito, Epaminondas decidiu não confrontar os espartanos em uma linha tradicional, mas formar uma ordem oblíqua cujo ponto mais forte era uma coluna profunda avançando contra a ala mais forte de seus adversários espartanos.

Essa formação inovadora rompeu a linha espartana em seu ponto mais forte, após o que Epaminondas flanqueou um inimigo que se tornara incapaz de recriar sua ordem tática. Engels reconheceu que o gênio de Epaminondas residia em sua capacidade de reconhecer o poder organizacional do inimigo e mudar suas táticas para minar esse poder. A partir daquele momento, como ele escreveu em outro lugar, a liderança militar tornou-se uma arte "que deve ser aprendida tanto teórica quanto praticamente".

Embora os macedônios tivessem aperfeiçoado essa revolução tática, a força de sua forma militar continuava a depender de um intenso programa de treinamento, possível apenas porque a escravidão havia libertado sua infantaria da necessidade de trabalho manual. Contudo, por mais que os hoplitas treinassem, seu poder não superava o do próprio sistema de falange.

Como se constatou, a própria característica que conferia poder à falange acabou por ser a causa de sua queda. Embora a eficácia da falange dependesse do movimento coerente de uma massa de homens, ser uma massa significava que a falange era relativamente inflexível.

Em terrenos particularmente acidentados, a ordem da falange podia ser comprometida ao encontrar um inimigo. Isso provou ser o caso dos romanos, que souberam explorar essa fraqueza posicionando a infantaria pesada em uma formação mais flexível.

Da Antiguidade ao Feudalismo

Os romanos conseguiram derrotar os gregos graças às suas inovações organizacionais. No entanto, à medida que o Império Romano se expandia e se estabilizava, o exército tendia a perder seu caráter romano. As exigências militares fizeram com que, em vez de escravizar os bárbaros derrotados para reproduzir as relações de produção existentes, Roma recrutasse esses antigos adversários em massa para o seu exército.

Para Engels, esse processo levou à gradual desromanização do exército e à eventual queda do império. Foi quando "toda distinção em equipamentos e armamentos entre romanos e bárbaros cessou" que as tribos germânicas, "fisicamente e moralmente superiores, marcharam sobre os corpos das legiões não romanizadas".

A fisicalidade e a moralidade, que haviam sido relegadas a um papel secundário enquanto a organização e a tática assumiam o protagonismo, tornaram-se mais importantes à medida que as diferenças organizacionais tenderam a desaparecer. Essas mudanças organizacionais refletiram o declínio do modo de produção escravista.

Com a fragmentação de Roma no novo modo de produção feudal, a cavalaria ressurgiu como o fator decisivo na guerra. Embora os cavaleiros feudais que emergiram desse processo pudessem facilmente derrotar camponeses locais sem treinamento, os conflitos com as forças árabes durante as Cruzadas e com os mongóis na Europa Oriental mostraram que essas tropas montadas não eram páreo para os "cavaleiros ligeiros e ágeis do Oriente".

Apesar dessa fragilidade, as derrotas infligidas por essa cavalaria ligeira não levaram ao colapso da velha ordem. Essa transformação teve de aguardar até que o surgimento de um capitalismo embrionário dentro do modo de produção feudal começasse a criar as condições que levariam ao eventual desmoronamento do sistema militar feudal.

Engels argumentou que a ascensão das cidades e dos estados centralizados, juntamente com a introdução da pólvora vinda do Oriente, impulsionou uma lenta revolução na organização e nas táticas militares. O papel da infantaria expandiu-se novamente à medida que as limitações da cavalaria se tornaram cada vez mais evidentes. Nesse processo, os mosquetes se tornaram armas de guerra cada vez mais poderosas, conforme os avanços tecnológicos aumentavam sua velocidade de recarga.

Guerra revolucionária

Essas inovações tecnológicas moldaram mudanças nas táticas militares, já que o aumento na velocidade de recarga permitiu linhas de infantaria mais longas e rasas, com uma cadência de tiro maior. Os benefícios óbvios dessa nova tática, no entanto, criaram dificuldades sem precedentes. As linhas desajeitadas de soldados exigiam treinamento constante — uma lembrança dos desfiles, hoje obsoletos, que fazem parte das cerimônias de ditadores e reis — enquanto as linhas longas e finas apresentavam pontos fracos em seus flancos.

Contudo, os pontos fortes do novo sistema culminaram inicialmente nos sucessos esmagadores de Frederico, o Grande, contra os austríacos. O próprio Frederico foi o primeiro a admitir que aplicou as lições aprendidas com Epaminondas e sua ordem de ataque indireta às condições modernas.

Embora os sucessos de Frederico dependessem de um exército bem treinado, poucos anos após sua morte, a Revolução Francesa teve que se defender com um exército de cidadãos relativamente inexperiente, recrutado através das levées en masse . Esse novo exército de cidadãos, forjado pela consciência nacional, aprendeu com os sucessos das tropas americanas, igualmente inexperientes, contra os britânicos uma década antes.

Engels observou que, assim como os americanos, as tropas francesas recém-recrutadas estavam ideologicamente comprometidas com sua causa, mas tinham pouco tempo para dominar as complexidades do treinamento. Consequentemente, elas favoreciam táticas de escaramuça contra o inimigo. Infelizmente para os franceses, eles não dispunham nem das florestas virgens dos Estados Unidos, onde podiam desaparecer diante do inimigo, nem do seu vasto espaço para recuar. Como resultado, o Exército Cidadão Francês, relativamente inexperiente, precisava de mais do que essa tática para fazer uso eficaz de suas novas armas.

Eles o encontraram na coluna fechada. Combinadas com atiradores de elite, as colunas fechadas enfrentavam o inimigo em linhas extensas com eficácia, com as tropas agindo de forma flexível de acordo com o contexto geográfico. Buscavam proteção no terreno acidentado e nas aldeias, e sobreviviam vivendo da terra.

Engels apontou dois avanços tecnológicos que facilitaram essa flexibilidade. Primeiro, os franceses introduziram a coronha angulada para rifles em 1777, o que permitiu que seus atiradores de infantaria ( tirailleurs ) mirassem com mais eficácia no inimigo. Segundo, eles aproveitaram "a estrutura de artilharia mais leve, porém ainda robusta, construída em meados do século XVIII", o que possibilitou "a maior mobilidade posteriormente exigida da artilharia".

A ascensão do rifle

Os pontos relativos às escaramuças e à vida na terra são de suma importância para a nossa história. No que diz respeito às escaramuças, em seu ensaio "Infantaria" (1859), Engels argumentou que essa prática havia sido uma parte normal da guerra desde a Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando até o século XVII. Depois, desapareceu, apenas para reaparecer na Guerra da Independência Americana.

Enquanto os soldados dos exércitos europeus, mantidos unidos por coerção e tratamento severo, não podiam ser considerados confiáveis ​​para combates em formação aberta, nos Estados Unidos eles tinham que lidar com uma população que, sem o treinamento regular dos soldados de linha, era composta por bons atiradores e experientes no manuseio de rifles. A natureza do terreno os favorecia; em vez de tentarem manobras para as quais eram inicialmente incapazes, eles inadvertidamente se envolviam em escaramuças. Assim, os confrontos em Lexington e Concord marcam um ponto de virada na história da infantaria.

Essas mudanças táticas sustentaram a demanda por uma revolução na tecnologia militar. Em sua "História do Rifle" (1861), Engels destacou que o rifle era um produto da tecnologia alemã do século XV, que havia sofrido poucas melhorias em sua construção antes do século XIX.

Até então, os rifles eram mais precisos do que os mosquetes de alma lisa até um alcance máximo de cerca de 350 a 450 metros, mas também eram mais complexos de fabricar e consideravelmente mais lentos para recarregar. Consequentemente, os mosquetes de alma lisa constituíam a maior parte das armas de fogo da infantaria e da cavalaria. E embora os exércitos europeus continuassem a usar rifles, seu emprego era muito limitado e em grande parte irrelevante para o resultado das batalhas.

No entanto, as coisas mudaram com o ressurgimento das escaramuças nas Guerras Revolucionárias Americana e Francesa. Em vez de exércitos se enfrentarem predominantemente em linhas, "a partir de então, uma ordem mais ampla foi introduzida em cada confronto; a combinação de escaramuçadores com linhas ou colunas tornou-se a característica essencial do combate moderno."

Como Engels destaca, a maior parte da munição era gasta em escaramuças, direcionadas contra alvos que “raramente eram maiores que a frente de uma companhia; na maioria dos casos, tinham que atirar em homens isolados, bem escondidos pela cobertura. E, no entanto, o efeito de seu fogo é da maior importância”. Embora os antigos mosquetes fossem praticamente inúteis nessa nova forma de guerra, os rifles existentes provaram ser quase igualmente inadequados, porque eram muito lentos para recarregar e, como consequência da dificuldade associada à passagem de balas por canos mais longos, muito curtos para serem usados ​​com uma baioneta.

Essas deficiências tornavam os soldados armados com rifles vulneráveis ​​a ataques, tanto da infantaria com baionetas quanto da cavalaria. Nessas circunstâncias, escreveu Engels, “o problema que surgiu imediatamente foi o de inventar uma arma que combinasse o alcance e a precisão do rifle com a rapidez e a facilidade de carregamento e o comprimento do cano do mosquete de alma lisa”. Tal arma teria que ser “adequada para uso por qualquer soldado de infantaria”.

A marcha de barriga cheia

A demanda por rifles raiados, gerada por essa revolução na arte da guerra, impulsionou a transformação revolucionária do rifle ao longo do século XIX. Engels subverteu o determinismo tecnológico:

Com a própria introdução das escaramuças nas táticas modernas, surgiu a demanda por uma arma de guerra tão aperfeiçoada. No século XIX, sempre que surgia uma demanda por algo, e essa demanda era justificada pelas circunstâncias do caso, certamente seria atendida.

O restante do ensaio é um relato sofisticado do desenvolvimento cumulativo do rifle após 1828. Em "As Táticas da Infantaria e seus Fundamentos Materiais, 1700-1870" (1877), ele descreveu como o uso generalizado de rifles de retrocarga na Guerra Franco-Prussiana levou à substituição das colunas por cadeias compactas de atiradores, porque as primeiras se tornaram alvos fáceis demais para as novas armas.

Em relação à questão de viver da terra, Engels relacionou esse ponto à inovação tecnológica por meio do conceito de produtividade do trabalho. Se Frederico abriu as portas para uma revolução na arte da guerra, foi Napoleão quem aprofundou massivamente essa revolução em termos de mobilidade, dividindo a Grande Armée em corpos de exército que podiam atuar como forças militares relativamente autossuficientes.

Cada corpo de exército era grande e complexo o suficiente para levar a luta até o inimigo, mas pequeno o bastante para se sustentar vivendo da terra, reduzindo assim suas linhas de suprimento e aumentando sua velocidade. Napoleão combinou, de forma notável, velocidade e massa, mantendo cada corpo de exército a apenas um dia de marcha de distância um do outro. Eles podiam enganar seus inimigos sobre seus objetivos reais, ao mesmo tempo que mantinham a capacidade de se unir quando necessário para confrontá-los: "Marchem divididos, lutem unidos", como ele escreveu em uma frase que Vladimir Lenin mais tarde relembraria em seus argumentos a favor da tática da frente única.

Segundo Engels, o sistema militar de Napoleão dependia do desenvolvimento prévio das forças produtivas. Apesar da controvérsia em torno desse aspecto da teoria marxista, neste caso, pelo menos, parece ser puro senso comum. Se os franceses eram "quase invencíveis", mas ainda vulneráveis ​​em certos momentos, mesmo em seu auge, isso não se devia simplesmente às vicissitudes dos líderes locais. Devia-se também ao fato de seu estilo de guerra móvel depender da capacidade dos soldados de viver da terra.

Como Engels salientou em "Condições e Perspectivas para uma Guerra da Santa Aliança contra a França em 1852" (1851), aumentos prévios e de longo prazo na produtividade do trabalho agrícola eram um pré-requisito para o sucesso dessa abordagem, tornando-a "impossível por um período prolongado em um país pobre, semibárbaro e pouco povoado". É por isso que os exércitos franceses "pereceram lentamente na Espanha e rapidamente na Rússia".

O fio ininterrupto

Nesse mesmo ensaio, Engels argumentou que as duas características principais do sistema napoleônico — seu caráter de massa e sua mobilidade — eram produtos da emergência do capitalismo: “A guerra moderna pressupõe a emancipação da burguesia e do campesinato; é a expressão militar dessa emancipação”. Especulando sobre as possíveis consequências de uma nova Revolução Francesa, ele apresentou o argumento materialista de que os novos desenvolvimentos nas forças produtivas — especificamente o uso generalizado do telégrafo e a expansão das ferrovias pela Europa Ocidental — estavam tornando a dominação russa “cada vez mais impossível”.

Contudo, Engels continuou a enfatizar o ponto não reducionista de que qualquer esperança que pudesse ser depositada numa França revolucionária em sua luta contra a Rússia contrarrevolucionária "pressupõe que haverá um bom Ministro da Guerra". Ele reiterou sua visão sobre a importância da liderança militar ao discutir os sucessos da levée en masse.

Engels argumentou que os sucessos iniciais dos recrutas franceses dependiam da existência de um núcleo de soldados experientes em torno dos quais eles se organizavam. Além disso, as vitórias francesas nas primeiras Guerras Revolucionárias da década de 1790, particularmente sobre os prussianos e austríacos em Valmy, em 1792, resultaram não tanto da habilidade e do entusiasmo franceses, mas sim da incompetência alemã.

Todos esses argumentos destacam um ponto fundamental: a visão de Engels sobre a centralidade da ação humana historicamente constituída na construção da história. Como Marx observou em seus comentários sobre "O Exército", Engels não reduziu a história da humanidade a uma narrativa de avanço tecnológico, mas sim utilizou sua compreensão desses avanços como meio para uma compreensão rica da ação humana, por meio da qual ele foi capaz de dar sentido ao núcleo racional do voluntarismo, evitando sua superficialidade.

Utilizando palavras que parafraseiam a solução formal de Marx para a relação entre estrutura e agência em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte , Engels escreveu :

Os homens fazem a sua própria história, apenas dentro de determinadas circunstâncias que a condicionam, e com base em relações reais já existentes, entre as quais as relações económicas — por muito que sejam influenciadas pelas políticas e ideológicas — continuam a ser as que, em última análise, decidem, constituindo o fio condutor que os atravessa e o único que conduz à compreensão das coisas.

Os escritos históricos de Engels dão vida a essa relação. Ao fazê-lo, oferecem um recurso valioso para qualquer pessoa que queira compreender a história de uma forma que escape às superficialidades triviais de grande parte dos trabalhos históricos e políticos contemporâneos.

PAUL BLACKLEDGE

Autor de Friedrich Engels e a Teoria Social e Política Moderna (2019), Marxismo e Ética (2012), Reflexões sobre a Teoria Marxista da História (2006) e Perry Anderson, Marxismo e a Nova Esquerda (2004).


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