Imprensa: dos jornalistas, dos jornais e de seus donos.
Qual é a cara da informação?
Omar dos Santos
Os automóveis ouvem a notícia,
os homens a publicam nos jornais.
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O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela.
Zé Ramalho
Por ser um conceito fundamental para compreensão deste artigo, inicio-o com a transcrição dos dicionários e enciclopédias do verbete que definem a função precípua dos jornalistas:
Diante das responsabilidades que esta definição impõe a quem opta pela profissão, sobretudo numa sociedade que se pretende democrática, posso afirmar com segurança que na imprensa brasileira, a enorme maioria dos profissionais não faz jus a seu diploma de jornalista. Existem exceções? Claro que existem. Mas número de profissionais que exercem o verdadeiro jornalismo, trabalho imprescindível para a existência da justiça e da democracia, é irrelevante diante de seu universo. Não digo isto por leviandade, mas baseado no salutar hábito que trago já arraigado de não só de ler e ouvir a mídia, mas analisá-la e julgá-la. Neste sentido, lembro ao leitor uma realidade adversa vivida por nossa imprensa, a manifesta crise de credibilidade que a afeta de há algum tempo. Por oportuno, consigno aqui a ressalva de que por creditar na ideia de Nietzsche que afirma não existir verdade absoluta, ela é, necessariamente, relativa. Obviamente estou confessando que as minhas não querem ser diferentes.
De antemão já esclareço que ombreio com aqueles que não acreditam na tão reclamada e decantada em neutralidade humana, seja ela qual for, mas sobretudo, a tal “neutralidade política”. A história de qualquer pessoa é o produto de suas escolhas e não se escolhe sem ter crença no que escolhemos. Assim, advogo que qualquer sociedade democrática e minimamente justa só pode se sustentar em uma imprensa ideologicamente plural, apartidária e política e economicamente independente. Valores que a nossa só demonstra eventualmente.
Não quero que o leitor acredite que este fenômeno circunscreve as duas ou três últimas gerações. Ao contrário, por sua histórica perseverança, ele parece ser inerente à atividade jornalística do Brasil, bastando uma visita à nossa história para comprovar o que afirmo. Vejamos então alguns capítulos de seu tenebroso roteiro, que mais parece ser de novela.
Já no império, a marca maior da imprensa era seu caráter instrumental de defesa de interesses político-partidários, pessoais e de castas, tanto é assim que ao atingirem seus objetivos, a grande maioria dos jornais e outros canais de comunicação encerravam suas atividades. Pode-se dizer que não tínhamos imprensa na acepção do termo, tínhamos eram panfletos temporâneos.
Um feito de nossa nascente imprensa que merece destaque foi o protagonismo da quase totalidade dos jornalistas em favor do “golpe da república”. Esses relegaram a segundo plano a obrigação de prestar informação, sua função precípua, unindo-se quase como maltas para formar uma poderosa tribuna militante, abertamente partidária, para minar, de forma truculenta e mentirosa, a legitimidade da monarquia e o caráter da pessoa do imperador, atendendo puramente os interesses das oligarquias agroexportadoras e de seus coronéis, cujos objetivos únicos era o de eternizar no comando da nação e do povo.
Na Primeira República, parte maior dos jornais e dos jornalistas eram atrelados aos partidos estaduais, todos conservadores e defensores dos interesses das elites agrária e dos militares golpistas.
Com a chegada do Estado Novo, urdido por um golpe civil e militar, que teve sua existência sustentada por um regime de exceção, o papel dos jornalistas, jornais e seus donos permaneceu quase que intacto, não regateando a ele, o regime, seu decisivo apoio. Situação que, sendo cruamente jocosa, configura uma inexplicável contradição. Pois mesmo diante da dureza com que o regime tratou a mídia, os jornalistas, os jornais e seus donos, prendendo, fechando jornais e assassinando profissionais, num desrespeito total a liberdade de imprensa, esses, de forma dócil, se permitiram ser cooptados e aparelhados pelo governo ditatorial. Assim, se não todos, mas a maioria dos profissionais e empresários da comunicação se subordinou ao poder, tentando se esconder atrás da desculpa de que se tratava de sobrevivência profissional e comercial.
A quase totalidade da imprensa brasileira, jornalistas, veículos de comunicação e seus donos, quando da eleição democrática do ex-ditador Getúlio Vargas para presidente em 1950, deu, já em sua posse e durante todo o mandato, uma demonstração explicita e inequívoca de sua iniquidade, sectarismo e venalidade, na tentativa de reverter o enorme apoio popular que o presidente eleito gozava, desfecharam uma brutal campanha para desmoralizá-lo e enfraquecer seu governo.
À época, os grandes veículos de comunicação, muitos deles ainda em franca atividade e cultivando os mesmos ideais arbitrários e golpistas com que sempre agem, ao verem que os resultados das urnas não atendiam os interesses das elites do atraso, mas atendiam a vontade do povo, questionaram a eleição e tentaram evitar a posse do candidato eleito. Durante todo o seu mandato, Getúlio foi vítima de uma campanha difamatória com acusações de corrupção, enriquecimento ilícito e autoritarismo sem nenhuma prova. No limite da indecência, jornalistas, veículos de comunicação e seus donos acusavam o governo de “nacionalismo exagerado”, pois o presidente, buscando diminuir a dependência econômica e tecnológica do exterior a que a nação estava condenada, continuou seu projeto de industrialização com a criação das indústrias de base como a Petrobrás, CSN, Eletrobrás etc. Como “certa família” que governou o Brasil há pouco tempo, à época já havia a elite néscia de lesa-pátria, cuja voz era a dos jornalistas, que defendia, com unhas e dentes, um projeto de refinamento das relações de vassalagem e entreguismo do Brasil aos “Yankees”. Costumo afirmar que o sacrifício de Vargas só serviu para adiar, por 10 anos, o mais pérfido e impiedoso ato de nossa história, o Golpe Militar de 64.
Continuando este tenebroso roteiro, recordemos o papel protagonizado por nossa imprensa no sinistro episódio.
De início, reforço minha convicção de que os jornalistas, muito mais que os próprios empresários da comunicação, não porque esses últimos sejam menos canalhas, mas porque os primeiros têm o dever juramentado de defender a verdade e a democracia a qualquer preço, foram absolutamente apóstatas e perjurados. Para ilustrar minhas acusações, resumamos a atuação da grande imprensa da época no advento, no início e durante todo o golpe.
A elite brasileira, falando pela voz e caneta de seus, há um só tempo, “intelectuais e lacaios”, os jornalistas, defenderam incondicionalmente o marco do movimento golpista, as asquerosas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” dando apoio antecipado ao golpe de 1964. Diante do evento, todos os jornalistas e jornais abandonaram a função de informar a verdade à sociedade com neutralidade para, de forma incondicional, tomar partido dos que perpetraram 21 anos de estado de exceção, obscuridade e a mais brutal violência contra o povo brasileiro. Por justiça, ressalvo aqui o importantíssimo e corajoso papel exercido pela imprensa alternativa ligada ao movimento sindicalista. Esta não se imiscuiu nesse lamaçal, ao contrário, enfrentou a luta e resistiu todo o tempo, tendo seus jornalistas pago, muitas vezes com a própria vida. Os jornalistas de grandes veículos como O Globo, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Estado de Minas, só para citar os mais poderosos, agiram como atores políticos de peso, defendendo e legitimando o movimento de oposição ao presidente João Goulart.
Antes mesmo de as pessoas irem às ruas, a grande imprensa promoveu intensa campanha para convencer as massas a apoiarem o golpe, jornalistas, veículos de comunicação e seus donos publicavam editoriais e notícias para inflamar o povo contra o governo de João Goulart, todas elas baseadas nas mais desavergonhadas e estúpidas mentiras. Outro fato que comprova tal apoio, foi a invenção delirante da iminente ameaça de invasão comunista no Brasil. Aliás, mentira que continua sendo reiterada pela direita e seus jornalistas todas as vezes em que ela corre o risco de perder o poder. À época, essa corja fez o povo acreditar que as reformas de base, propostas por Jango eram uma ameaça à família tradicional, à propriedade privada e à religião. Qualquer semelhança com as atuais “pregações” e acontecimentos não é mera coincidência, é projeto.
O retrato mais acabado da falta de ética, brio e decência da grande imprensa do Brasil veio à luz, com a consumação do golpe militar. Jornalistas, veículos de comunicação e seus donos, passaram a convocar a população para novas manifestações como as marcha da vitória, ocorridas em várias capitais, as quais foram efusivamente celebradas pela grande imprensa em manchetes festivas e editoriais históricos de apoio explícito ao novo regime.
Só para comprovar a razão desta minha crítica, lembro ao leitor uma atitude vergonhosa ocorrida anos após o fim da ditadura. Refiro-me à confissão de culpa e ao cínico pedido de desculpa feito pela poderosa Rede Globo por ter apoiado o Golpe Militar de 64. Com afirmei alhures, não sei se o povo desculpou, eu não.
Chegado o final do Século XX, a imprensa tupiniquim, para celebrar sua vilania e falta de escrúpulo, decidiu se despedir do Segundo Milênio erguendo um brinde a estes “dons”. Foi assim, que no apagar das luzes daquele século, ela apoiou a campanha cassação do mandato do presidente Fernando Collor. Não que ele não tenha cometido crimes que justificassem seu afastamento do cargo. Ao contrário do que aconteceu com Getúlio Vargas e João Gulart, Collor, herdeiro de uma das dinastias políticas mais corruptas e depravadas das oligarquias que desde a imposição da república que temos, confiscaram e mantiveram cativo o poder, cometeu desvios que não foram poucos e foram muito graves.
Qual então foi o problema moral de sua cassação?
É que mais uma vez a imprensa brasileira preferiu chafurdar no lamaçal. Tomou partido, criou narrativas tendenciosas, insuflou a opinião pública contra um governo eleito, enfim, manobrou descaradamente para a deposição de um presidente. Como lembrei antes, o papel constitucional e sagrado dos jornalistas deve, por questão legal e ética, circunscrever à tarefa de prestar informações honestas e objetivas ao cidadão, tarefa que foi, nesse e em muitos outros episódios de nossa história, prostituído pela ganância financeira, pela falta de caráter dos empresários da comunicação e pela submissão e indolência desses profissionais.
Fato notoriamente inacreditável do episódio foi a ambiguidade da atuação da imprensa em relação à acusação e à defesa do acusado. Os grandes veículos, inicialmente neutros ou até favoráveis ao governo, progressivamente foram mudando seu comportamento e passando a insuflar as multidões na defesa da saída do presidente. Ao final do processo, alguns jornais voltaram a defender a inocência de Collor. Não faltou, e não sem alguma razão, especulações e denúncias de que tais oscilações se deveram aos riscos de possíveis perdas de favores e de lucros que a cassação representaria.
Chegamos a um milênio novinho em folha, mas que de nada adiantou, a tragédia do povo brasileiro não acaba. Quando o mundo e nós brasileiros embalávamos a auspiciosa chegada do Terceiro Milênio, tido como prenúncio de renovação da conduta moral, ética e humanística dos homens, para nós, pelo menos no que tange ao trabalho da imprensa, só restou mais frustrações.
Já na alvorada, “voraz”, como canta o poeta, no ano 2005, jornalistas, veículos de comunicação e seus donos deram corpo ao primeiro escândalo da “Era de Aquários”, o Mensalão. A imprensa, como é de seu costume, adotou uma postura, que mais tarde ela mesma classificou de “incendiária” e “denuncista” e “negligente”, pois antecipava as notícias aos próprios fatos, em sua maioria inverídicas e sensacionalistas.
Nesse capítulo, a imprensa se aliou, em perfeita simbiose, à Comissão Parlamentar de Inquérito, instalada com a clara intenção de derrubar o governo, tendo para isso, a quase totalidade dos jornalistas e “analistas” políticos como seus arautos. Essa sórdida campanha, muito bem conduzida por sinal, foi na verdade uma tentativa, que restou frustrada, de afastar o presidente da república do cargo, sendo ela sustentada pela forja de factoides e canalhices, repetindo assim, a mesma atuação no impeachment de 1992, tanto é que mais tarde, parte desta mesma imprensa, reconheceria tal tentativa.
Mas esta roda não pode parar de rodar, pois jornalistas, veículos de comunicação e seus donos não vivem sem escândalo. Se os políticos e a elite empresarial não lhes fornecem um, eles o criam. Foi por este motivo que nossa imprensa, em 2014, criou uma das mais asquerosas e burlescas “farsas” da história de nosso jornalismo, a Operação Vasa Jato. Desculpem-me os leitores, “Operação Lava Jato”. Afinal, já haviam passados nove anos desde o Mensalão.
Tal operação já nasceu espúria e risível, pois seu objeto de investigação eram denúncias de um esquema de lavagem de dinheiro feita por um certo Alberto Youssef e operada no Posto da Torre de Brasília, que dizia só vender combustíveis mudou seu rumo. No andar da carruagem, a imprensa e os políticos da direita, todos muito “preocupados” e “infelizes” com o destino da economia do “pátria amada”, viram uma oportunidade ideal para realizar seu grande sonho, remover Dilma Rousseff da presidência, e o fizeram da forma mais abjeta e truculenta possível.
Como já apontei, temos na história da república muitos momentos de “parceria” de jornalistas, veículos de comunicação e seus donos com o lado podre do poder político e com as elites entreguistas, mas nunca tivemos uma aliança desses com a sociedade civil para defender os legítimos interesses do povo e da nação. Foi assim que a Operação Lava Jato, nome pomposo, expôs, como nenhuma outra, o adesismo, amenismo e oportunismo que sempre vincaram nossa imprensa.
Hoje, ao analisarmos a atuação da mídia durante o episódio, podemos compreender a profundidade e o grau de degradação moral e profissional que caracterizou o comportamento de quem a operou. Passada a crise, historiadores e a própria imprensa, mais uma vez classificaram sua atuação como repugnante e espetaculosa, marcada que foi pelo aliciamento político partidário em vez de ser apenas cobertura jornalística. E mais. Não paira dúvida alguma de que ela, a cobertura, foi absolutamente decisiva para que os verdadeiros e inconfessáveis objetivos da Operação da Lava Jato fossem alcançados, já que o enorme e lesivo poder de nossa imprensa conseguiu, como sempre consegue, influenciar não só as massas, mas também todas as instituições do Estado com suas mentiras. Assim nunca mais se falou no que justificava a instalação da CPI, os crimes contra a ordem econômica nacional.
Aqui, mais uma vez, a contumaz parceria do “triunvirato” jornalistas, poder e elite, marca distintiva do DNA de nossa imprensa, possibilitou a derrota do povo, da democracia e da nação. Foi o trabalho de veicular diuturnamente notícias tendenciosas e sensacionalistas, sustentadas em grotescas distorções dos fatos feitas pelos jornalistas, que a mídia arbitrária pode promover uma verdadeira lavagem cerebral no povo para convencê-lo a acreditar e defender a operação. Tal farsa culminou com o golpe que cassou a presidente Dilma, na acessão do corrupto Temer à cadeira de presidente e na condenação ilegal de Lula à suspensão dos direitos políticos e à prisão. Por outro lado, num paradoxo absurdo, como afirmei antes, a imprensa defendeu uma operação que serviu também para acobertar escândalos como os casos Banestado, esquema de propina de Aécio Neves, Lista de Furnas só para citar alguns. Crimes que foram a justificava para a criação da Operação Lava Jato.
Resta dizer que o comportamento dos jornalistas, veículos de comunicação e seus donos durante a Operação Lava Jato, foi tão escandaloso que a imprensa internacional não poupou severas críticas a ele. No mundo inteiro, respeitadíssimos periódicos e jornalistas famosos repudiaram com veemência a postura de nosso jornalismo, estampando manchetes e editoriais apontando as inverdades, parcialidades e tendenciosidades cometidas por nossos jornalistas.
Chegamos finalmente ao que a imprensa, pela voz e pena de seus “analistas” políticos e econômicos, alcunha com que eles se autodenominam com enorme orgulho, último e maior escândalo político e financeiro da república, o escândalo do Banco Master. Vários veículos de comunicação e jornalistas, afirmam, peremptoriamente, que suas malhas enredam tanta gente graúda, inclusive da imprensa, que até santo anda preocupado. Entretanto, entre as várias denúncias de envolvimento, algumas já comprovadas, só profissionais e empresários de uma atividade não têm o nome no “poste”, os do jornalismo.
Pois bem, conjecturas deste escrevente à parte, analisemos a atuação da imprensa brasileira neste caso.
Uma primeira observação que chama nossa atenção sobre o caso, é a intensa polarização dos jornalistas. De um lado, aqueles que defendem a ideia de que não existe corrupção nos negócios do Master, sendo sua liquidação um problema de risco de mercado. Do outro, os que entendem que esse argumento demonstra o interesse dos primeiros em brindar vários atores do cenário: políticos, empresários e jornalistas. De qualquer forma, a controversa demonstra flagrante desvio da função legal e profissional de um jornalista, visto que no estrito cumprimento de sua função profissional, não cabe a ele defender esta ou aquela doutrina, esta ou aquela ideologia, esta ou aquela facção. O bom e honesto jornalismo exige compromisso absoluto com a pura informação dos fatos e dispensa a opinião subjetiva de quem a transmite.
Um outro desvio cometido pela maioria dos agentes midiáticos no processo de informação do caso, refere-se à tentativa, clara como a luz do sol, de desviar o foco das investigações. Aqui, como sempre fez, a grande imprensa do país tenta convencer a população de que o culpado pelos desvios não são os réus, mas a justiça e os investigadores. Para alguns jornalistas mais desprovidos de vergonha e ética, os agentes da justiça e da polícia são todos corruptos e estão perseguindo os investigados a mando do governo e do Partido dos Trabalhadores. Alguns jornalistas de duas famosas emissoras de televisão chegam a pedir, reiteradas vezes em seus “noticiários”, a prisão de agentes federais e membros da justiça superior do Brasil.
No curso das investigações, ficou comprovado um fato que grande parte da sociedade já denunciava, a ampla relação financeira das empresas de comunicação de massa e seus jornalistas com o mercado. A própria mídia, a partir de evidências trazidas pelos órgãos de investigação do caso, vem denunciando contratos milionários firmados entre pessoas e instituições investigadas e conglomerados da mídia, instituições religiosas e empresas publicitárias, como também a existência de acordos sigilosos envolvendo repasses de propinas à jornalistas importantes do Brasil. Alguns analistas políticos independentes têm alertado para o risco de o escândalo acabe contaminando o jornalismo, o que para mim já é fato consumado.
É Dentro deste alvoroço que chego ao capítulo último deste verdadeiro circo de horrores em que, de forma intencional, foi transformado nosso jornalismo de massa, patrocinado pelos desvios morais e profissionais que jornalistas, veículos de comunicação e seus donos têm prestado ao país.
A Constituição Federal do Brasil, em seu Art. 223, estabelece:
“Compete ao Estado outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para a exploração do serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens do Brasil. Cabendo a ele a função de fiscalizar a atuação das empresas concessionárias, podendo, em caso de irregularidades cassar a conceção”.
Assim, quando uma concessionária recebe autorização para atuar neste campo, ela se obriga a respeitar os princípios legais e normativos que regem o sistema de comunicação do país. Destaco aqui, os seguintes: a) cumprir a função social de priorizar finalidades educativas, artísticas e culturais; b) zelar pela defesa da democracia; c) estimular a diversidade de vozes e a luta contra monopólio ou oligopólio dos meios de comunicação; d) observar as funções constitucionais que estabelecem que os serviços de comunicação de massa servem como instrumento fundamental para a promoção da democracia, do pluralismo e do livre exercício da cidadania.
Diante destas obrigações, que devem ser intransigíveis, a pergunta óbvia é: Como tem agido a imprensa brasileira ao longo de sua história? Como procurei mostrar ao longo do texto, minha resposta é curta e objetiva. A enorme maioria dos jornalistas e empresários da comunicação fazem exatamente o contrário do que a constituição exige. Ela olvida completamente a cultura brasileira e, ao invés de educar e informar a sociedade, busca alienar e cooptar o povo, impondo-lhe a opinião das elites econômicas e suas políticas disfarçadas de notícias, com o objetivo de mantê-lo sobre seu controle. Já é senso comum a verdade de que a maioria dos cidadãos tem consciência do desrespeito aos princípios da pluralidade de voz e da livre concorrência, pois vê e entende que a concentração da comunicação no Brasil chega ao nível da imoralidade absoluta.
E mais. De há muito, o nosso aparato de comunicação de massa adota uma prática, a só tempo, interessante quanto burlesca. Temos uma profusão de marcas fantasias de jornais, revistas, rádios e canais de televisão, mas temos um ridículo número de empresas que as operam. Fenômeno que a própria mídia chama, eufemisticamente, de “grupo”. O número de proprietários de todos as marcas fantasias do país não passa de vinte. Neste quadro, pensar em promoção da democracia, do pluralismo e do livre exercício da cidadania é só para quem acredita em Mula Sem-cabeça, Papai Noel e Boitatá.
Enfim, chego ao final deste infame roteiro e, por questão de convicções muito pessoais, não posso concluí-lo falando de esperança de melhoria da atuação ética de nossa imprensa em geral e da reabilitação do caráter da grande maioria de seus profissionais, seja da área ou função que for. Ao contrário, não tenho medo em afirmar que a situação vai gradativamente adquirindo contornos que certamente levarão a atividade jornalística às barras da insustentabilidade moral e social.
Qualquer cidadão que se dispuser a avaliar a formação acadêmica, capacidade profissional e, sobretudo, a densidade moral dos jornalistas brasileiros vai se surpreender de forma muito negativa com os resultados. Mais uma vez, por questão de justiça, ressalvo que exceções existem, mas são muito poucas quando se considera o estonteante número de profissionais existentes na atividade. Do meu ponto de vista, lembrando aqui o filósofo Leonardo Boff ao afirmar que "todo ponto de vista é a vista de um ponto", as principais e mais graves deformações que acometem sua atuação são a venalidade, a subserviência e a facciosidade, estas são nefastas pois contaminam e inviabilizam qualquer alternativa de melhoria no jornalismo, perpetuando assim seus vícios e sua pusilanimidade.
Cabe aqui uma sincera confissão deste escriba. Sou absolutamente convicto da impossibilidade de existência de uma sociedade verdadeiramente democrática e uma justiça equânime sem uma imprensa. E mais. A sobrevivência destes dois valores vitais para o aperfeiçoamento e a perpetuação do que chamamos de civilização é crucial. Mas para não correr o risco de misturar “alhos com bugalhos”, esclareço logo que falo – de uma imprensa livre –, estágio que a nossa está longe de atingir. O que temos por hora é um sistema de comunicação profano, marcado pela deformação moral e a dependência política e econômica, operado por profissionais subservientes e condescendentes, docilmente obedientes às vontades e aos interesses de empresários também desprovidos de qualidades morais e patrióticas. Nesta perspectiva, é deveras risível o discurso de nossos jornalistas em defesa de uma “tal de liberdade de imprensa”, que é como eles classificam isto que aí está. Acreditam eles, ora por ingenuidade, ora por dissimulação, que praticam um “jornalismo livre”, mesmo que na verdade, vivam enclausurados pelas ordens e interesses de seus patrões midiáticos, ou seja, seus donos.
Não terminarei este artigo sem falar sobre alguns mitos e inverdades que têm servido de “desculpas” para jornalistas justificarem sua falta de compromisso com a verdade. Sempre que o debate sobre o jornalismo brasileiro aborda a necessidade de transformações e melhorias em sua qualidade, seriedade e transparência, eles, invariavelmente, se abrigam em algumas práticas e desculpas.
A primeira e mais grave delas é o hábito da quase totalidade deles de usar o milenar e sórdido recurso de “desqualificar o oponente”. Todas as vezes que lhes falta capacidade argumentativa ou que são flagrados em falhas conceituais, sua primeira atitude é usar tal recurso, sobretudo quando seus monólogos não permitem a réplica da outra parte, o que ocorre na maioria das vezes.
Outra prática bastante comum, já quase uma de nossos jornalistas é o uso de expressões como “supostamente”, “presumivelmente”, “segundo consta”, “suspeito” etc. com fim de não se comprometerem com a verdade dos fatos. O que, consideradas suas funções profissionais, é um grande absurdo. Nos noticiários do país, os fatos ficam todos no campo das suposições e parece que nada tem existência concreta.
Por fim, a desculpa preferida e usada por todos os jornalistas que li e ouvi, é a clássica declaração de preservação do emprego. Todas as vezes que um jornalista comete uma injustiça e é cobrado profissional ou judicialmente pelo seu erro, a justificação é sempre a mesma. Estava cumprindo ordens superiores, e tenho que garantir meu emprego e o sustento de minha família.
Tenho que dizer que este argumento se quer não resiste uma análise de senso comum. Vale lembrar que há 82 anos, no julgamento dos criminosos nazistas da Segunda Guerra, a grande maioria deles fizeram as mesmas alegações, mas foram condenados, pois pelas normas civilizatórias não se deve, de forma alguma, cumprir ordens que atentem contra a sociedade e os direitos da pessoa humana.
Encerro aqui lembrando que a desmoralização, o descrédito e a depreciação crescente que sofre a imprensa e os jornalistas é o preço que eles pagam por sua negligência e falta de autocrítica quase perenes.
Omar dos Santos é professor aposetado.
Taguatinga, DF, 30 de junho de 2026

Na disputa pelo poder quem costuma escolher o alvo e definir objetivos é o poder econômico, mas quem os atinge é a mídia, com sua narrativa. Para ficar em um único caso, a eleição para presidente em 2018 não foi vencida pelo candidato e sua quadrilha. O candidto era, em condição minimamente responsável, era inadequado e seu grupo político não ia além de um ajuntamento. Quem, de fato, venceu a eleição foi a mídia com sua narrativa. O fez vencer a eleição e o sustentou no poder por quatro anos, a despeito do tamanho da tragédia. Por isso o tema abordado pelo professor Omar é tão importante e necessário, não só pelo acerto de suas críticas, mas, também, para enfrentarmos uma mídia que sempre foi avessa à verdade dos fatos e contrária aos interesses da população brasileira. O momento é agora para este debate. Aqui, em todos os lugares e agora.
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