Max Weber: una vita politica



Por ARI MARCELO SOLON*
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Entre o vício e a virtude acadêmica, Weber construiu uma ciência social ciente de que o conceito jamais abraça a realidade

 

  1. Max Weber: Una vita


O que há de novo em Max Weber? Massimo Palma, no livro Max Weber: Una vita politica (1864-1920), que acabou de ser publicado pela Editora Caroci, mostra as ideias e olhares novos de Max Weber que indicaremos aqui. O que surpreende?

Quando Weber tinha apenas 33 anos, foi acometido de uma forma debilitante de doença nervosa, que o impediu de conseguir escrever uma linha sequer, levando-o a se refugiar na Floresta Negra por algum tempo para se recuperar. Além disso, ele fazia uso de várias drogas, opióides, codeína, substâncias para dormir. Ele também tinha problemas de álcool. Tudo isso está conectado a seu grande esforço de pesquisa durante toda sua vida acadêmica: não apenas suas pesquisas eram altamente detalhistas, como no caso da análise que fizera sobre a agricultura romana, mas também a profundidade era acompanhada pela grande quantidade de temas e épocas pesquisadas. Para isso, basta ver a quantidade de povos e épocas e aspectos em que cada um deles foram analisados em Economia e Sociedade.

Weber foi educado nas Studentenschaften alemãs, tanto que tinha uma cicatriz no rosto, que era característica dos estudantes dessas associações de estudantes por conta das lutas de espada e que ele escondia com a barba. Um outro elemento de sua vida que trai sua origem nesse meio é que ele acolhia a guerra, que fazia parte do ethos guerreiro-aristocrático dos membros dessas associações; militarismo esse que esteve presente nas classes superiores durante todo o II. Reich, tornando-se moribundo apenas com o “fim da glória” na Primeira Guerra Mundial, como descreveu Ernst Jünger, e recebendo um coup de grâce com a Noite dos Longos Punhais.

Weber, como disse Schmitt, era o maior revanchista de todos os tempos, ele acolhe a guerra com entusiasmo sem igual, o que para seus alunos, como Lukács e Bloch, era incompreensível, mas, para quem conhece a história desse ethos guerreiro-aristocrático prussiano, não é tão surpreendente.

Ele frequentou Monte Verità na primavera de 1913, uma comunidade de nudistas e anarquistas. A dimensão erótica da sua obra cresce, pois ele frequentou Frida e Elsa von Richthofen, duas irmãs aristocráticas que conhece através do psiquiatra herético da psicanálise Otto Gross e depois curado por Jung, viciado em cocaína. Além dessas duas irmãs, ele se apaixona pela pianista Mina Tobler. A cada uma delas, ele dedica sua sociologia da religião.

Por que ainda é importante estudar e re-estudar Weber? No meu caso, a essência da filosofia do direito eu recebi do meu orientador Tércio Ferraz Jr., que fez uma tese até hoje reputada em primeira linha na Alemanha sobre Emil Lask. Emil Lask, como neokantiano, nessa camisa de força, ele estabeleceu o melhor método de se estudar a filosofia do direito, que é o hiatus irrationalis entre a empiria e a lógica. Tércio dizia que isso provavelmente tinha origens místicas em Plotino, mas no livro fica claro que, apesar de ele fundar a irracionalidade na realidade, a origem é puramente filosófica a partir dos estudos de Fichte.

No fim do livro, Palmo critica Weber e o politeísmo de valores: a teologia política weberiana. Ele o confronta com o pior livro de Lukács, A Destruição da Razão. No frigir dos ovos, parece que críticas grosseiras que Lukács faz a Weber como sociólogo do imperialismo estavam certas.

  1. hiatus irrationalis


Na reconstrução da formação metodológica de Max Weber proposta por Massimo Palma, a noção de hiatus irrationalis assume relevância particular. Palma observa que, na versão francesa do ensaio de Heinrich Rickert sobre os modos do universal na história, aparece uma expressão utilizada por Emil Lask e que Weber considerou especialmente estimulante: o hiatus irrationalis.

A ontologia do hiatus irrationalis pode ser localizada, em parte, na corrente de ideias que se desenvolveu em torno das tentativas dos filósofos de Weimar de teorizar um método adequado para compreender a história. Rickert e Emil Lask foram responsáveis por introduzir essa ontologia no método de pesquisa das ciências sociais.

O conceito de hiatus irrationalis ocupa uma posição fundamental para a compreensão da epistemologia histórica de Max Weber. Embora a expressão não seja originariamente weberiana, sua presença nos escritos metodológicos do início do século XX revela a influência decisiva de Emil Lask e, por seu intermédio, de Johann Gottlieb Fichte.

O problema central diz respeito à relação entre conceito e realidade – ou também, entre universal e particular. Para Weber, a realidade empírica apresenta-se como um fluxo infinito de acontecimentos singulares – determinados, particulares -, ao passo que o conhecimento científico opera necessariamente por meio de conceitos universais. Entre a singularidade concreta do real e a universalidade abstrata do conceito abre-se uma distância que não pode ser eliminada mediante procedimentos puramente lógicos.

Esse problema está sempre presente em sistemas filosóficos que empregam alguma forma de dualismo. Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, reconhece que o campo das verdades gerais e universais é distinto daquele do mundo sublunar. Essa cisão entre universal e particular Platão já abordara por meio de seu dualismo entre forma (εἶδος) e matéria (ὕλη), mas cuja transição nunca conseguira descrever bem, pois o campo da particularidade sempre estaria eivado pela instabilidade.

No entanto, é Aristóteles quem separa os dois mundos como espaços de saberes distintos: enquanto o mundo das formas é conhecido pela pura contemplação filosófica, o mundo sublunar é compreendido pelo homem da prática – o navegador, o general, o político -, que lida com o fluxo dinâmico dos acontecimentos.

No século XVIII, essa questão está presente no debate entre teoria e prática de Kant, Rehberg e Gentz. Enquanto Kant postula o imperativo inflexível da lei moral universal contra as particularidades do cotidiano, Rehberg e Gentz enxergam a necessidade de levar em conta o caráter determinado de cada nação e de cada período histórico para a implementação da norma moral. Por fim, até mesmo Kant precisa admitir que há uma distância entre universal e particular, aceitando as “leis permissivas”, isto é, leis injustas poderiam existir, a fim de que houvesse uma transição entre universal e particular.

É essa distância que Lask, seguindo Fichte – que também participou do debate entre teoria e prática -, denomina hiatus irrationalis.

O contexto da discussão é a análise das possíveis relações entre universais e história. Weber distingue, inicialmente, duas formas de conhecimento. A primeira consiste na seleção do que é conforme ao gênero e na sua subordinação a fórmulas abstratas de validade geral, na subsunção dos fenômenos sob leis gerais. A segunda, inspirada por Rickert, consiste na seleção do que é individualmente significativo e na sua inserção em conexões universais, mas de caráter individual; busca-se compreender os indivíduos históricos por meio de conexões significativas sem abandonar sua singularidade.

A essas duas possibilidades Weber acrescenta uma terceira, associada à doutrina hegeliana do conceito. Nessa perspectiva, procura-se superar o hiatus irrationalis entre conceito e realidade mediante conceitos universais entendidos como entidades metafísicas que compreendem e fazem surgir de si mesmas as coisas e os processos particulares. Segundo essa concepção, torna-se possível conceber de modo rigorosamente racional a relação entre conceitos e realidade, uma vez que cada caso singular é considerado parte de uma totalidade representada pelo conceito. O conceito mais universal seria também o mais rico de conteúdo.

É precisamente essa terceira solução que Weber rejeita. Contra Hegel, ele sustenta que os conceitos não geram a realidade nem contêm em si o princípio de sua produção. O universal não absorve o singular. Os conceitos científicos permanecem instrumentos intelectuais destinados à ordenação do material empírico. Por mais refinados que sejam, eles jamais esgotam a riqueza da realidade histórica.

Desse modo, o hiatus irrationalis converte-se numa garantia contra toda forma de racionalismo especulativo. A ciência histórica não pode deduzir o mundo a partir de conceitos supremos como Espírito, Razão, Estado ou Humanidade. O historiador deve reconhecer que toda construção conceitual pressupõe uma seleção da realidade orientada por valores culturais. Os tipos ideais, núcleo da metodologia weberiana, não são reproduções do real, mas esquemas analíticos elaborados para torná-lo inteligível.

A originalidade de Weber reside em transformar essa limitação em princípio metodológico. A impossibilidade de eliminar o hiatus irrationalis não constitui uma deficiência do conhecimento, mas a condição mesma de uma ciência histórica rigorosa. Ao recusar tanto o positivismo redutivo quanto a metafísica hegeliana, Weber estabelece uma concepção do conhecimento fundada na tensão permanente entre conceito e realidade, universal e singular, construção intelectual e experiência histórica.

Palma observa que, ao concluir essa tipologia das relações entre universais e história, Weber remete em nota ao livro Fichtes Idealismus und die Geschichte de Emil Lask. É nesse contexto que reaparece a expressão hiatus irrationalis. Segundo Lask, Fichte identifica um ponto em que os fios da especulação filosófica se rompem diante do fato da realidade. Surge então um hiato último entre o eu e o mundo, hiato que não pode ser alcançado pelo saber.

A importância dessa referência reside no fato de que Weber incorpora ao seu vocabulário metodológico uma formulação proveniente da leitura laskiana de Fichte. O hiatus irrationalis designa precisamente a dificuldade de reduzir a realidade à esfera dos conceitos e constitui um elemento relevante para compreender a reflexão metodológica desenvolvida por Weber nos anos iniciais do século XX.

 

  1. Weber, Lukács e Schmitt: teologia política

O livro também investiga o conceito de carisma em Max Weber, dialogando com interpretações polêmicas de Carl Schmitt. A atenção se concentra especialmente no jurista protestante Rudolf Sohm e em sua obra Kirchenrecht (1892), que Weber passou a estudar atentamente a partir de 1909, durante a elaboração de Economia e Sociedade. Para Weber, o carisma é uma forma de autoridade baseada em qualidades extraordinárias reconhecidas pelos seguidores, e não em normas jurídicas ou cargos burocráticos.

Portanto, por mais que se possa associar Weber e Schmitt a pontos diametralmente opostos, eles são bem mais próximos do que se pensa. Além da grande inspiração que Schmitt tivera em Weber, o carisma – irracional – aparece como um elemento muito importante para ambos. Se Schmitt mais expressamente aponta para a necessidade de uma representação material pelo soberano contra o formalismo mecânico da democracia parlamentar, Weber menos explicitamente via na racionalização (no sentido de uma Zweckrationalisierung) um fenômeno inescapável da modernidade, mas não tão desejável. Enquanto Weber vê esse processo como uma jaula irresistível (stahlhartes Gehäuse), Schmitt aponta para a essencialidade do irracional – do mito – como solução.

Enquanto a teologia política de Schmitt baseia-se na secularização de Deus e do vicário de Cristo para atribuir ao soberano duas de suas características mais importantes: a decisão da exceção e a representação substancial do todo; a teologia política de Weber aponta para uma racionalidade deficiente. Conforme Palma (2025, p. 336, tradução livre[i]): “Quase meio século depois da morte de Max Weber e da carta em que Lukács explicara a Marianne Schnitger como em relação a ele tinha «sempre percebido o fato da separação, da distância, como uma necessidade estulta, sem sentido, meramente empírica», o politeísmo weberiano é novamente mostrado como a teologia política de um pluralismo de fachada. Um pluralismo fundado sobre uma racionalidade deficiente, que se furta da busca das causas estruturais e, por isso, fecha-se à contemplação, por mais empática que seja, dos valores em conflito. Valores esses que aparecem como divindades em guerra, que vez ou outra levam a humanidade, dividida racionalmente em compartimentos e pelotões, a um massacre satisfatório”.

*Ari Marcelo Solon é professor na Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros, livros, de Caminhos da filosofia e da ciência do direito: conexão alemã no devir da justiça (Prisma). [https://amzn.to/3Plq3jT]

Referência

Palmo, Massimo. Max Weber: Una vita politica (1864-1920). Roma: Caroci Editore, 2025. [https://link.amazon/B02ByVH9Y]

Nota

[i] No original: “A quasi mezzo secolo dalla morte di Max Weber, e da quella lettera in cui Lukács aveva spiegato a Marianne Schnitger come nei suoi confronti avesse «sempre sentito il fatto della separazione, della distanza come una stupida necessità, senza senso, meramente empirica», il politeismo weberiano viene di nuovo svelato come la teologia politica di un pluralismo di facciata. Un pluralismo fondato su una razionalità monca, che sfugge all’indagine delle cause strutturali e perciò si ferma davanti alla contemplazione, per quanto empatica, dei valori in lotta. Valori che appaiono come divinità che giocano alla guerra, che ogni tanto la fanno, spingendo anche gli umani, razionalmente divisi in comparti e plotoni, a un soddisfacente massacro”


"A leitura ilumina o espírito".

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