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1.
A eliminação da seleção brasileira de futebol no dia 05 de julho para a seleção norueguesa traduz uma continuidade de problemas técnicos e, talvez sobretudo, administrativos por parte de jogadores, comissão técnica e toda a gestão (desde antes destes quatro anos pré-copa) da Comissão Brasileira de Futebol (CBF). Poder-se-ia realizar críticas ferrenhas nesse fio. Mas aqui, falar na posição de um expert do esporte não nos interessa nesse texto.
Ainda que as diferentes negligências e os diversos erros na preparação e condução do Brasil para e durante o campeonato no sentido técnico-administrativos sejam evidentes (quando não são por si só gritantes), é importante nos atentarmos para o problema que reside no avesso da aparência – o que, no entanto, não diminui a sua influência direta no externo. Um problema ideológico, tanto no campo religioso, quanto no campo político.
Um problema que tira dos jogadores a responsabilidade (para qual, aliás, são muito bem pagos) sobre o que deve ser feito para alocá-la dentro de um hipotético “plano divino”, onde todas as coisas se tornam justificadas. Parece curioso pensarmos que, com tantas preocupações sobre problemas tão mais graves no mundo, “deus” teria como preferência interferir objetivamente na campanha de uma seleção em um campeonato de uma modalidade esportiva.
Que o Brasil compreendeu, interiorizou e traduziu a modernidade em seu próprio contexto, não é uma discussão nova. Aqui, diferentes pensadores como Roberto Schwarz, Carlos Nelson Coutinho, Marilena Chauí, Michael Löwy e José Paulo Netto, para citar alguns nomes, poderiam ser mencionados quanto às suas diferentes contribuições para pensarmos os reflexos moderno no nosso país, tanto em suas expressões miméticas quanto em suas metamorfoses para a realidade própria brasileira.
Porém, sem entrar num debate histórico, sociológico, filosófico e, quiçá, antropológico e geopolítico sobre esse que, sem dúvidas, é um tema extensivamente complexo, nos interessa refletir sobre a ascensão neopentecostal no Brasil, datada do final do século XX, sobretudo a partir da Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), expoentes fundamentais dessa vertente religiosa e política – recomendamos a tese de doutorado Protestante e política no Brasil: da constituinte ao impeachment de Paul Freston, aos que interessarem um debate histórico-institucional sobre o que mencionamos, aqui, de forma singela.
A teologia da prosperidade (também na forma de reação à teologia da libertação, expressamente crítica ao capitalismo) dá lugar a um movimento religioso-político de ênfase à prosperidade pessoal como sinal da graça divina. Numa ressignificação politicamente condicionada da doutrina cristã, os valores materiais e individuais tanto prevalecem quanto sobrepujam o coletivo e o imaterial. A fé perde qualidade e se torna quantificável. O acúmulo excessivo não promove repúdio, mas se torna uma meta a ser conquistada.
O camelo atravessa sem dificuldades o buraco de uma agulha, pois agora se compram os assentos a serem ocupados no reino de Deus (não surpreenderia que divididos, ainda, por pistas). A discussão sobre a ascensão e os impactos do neopentecostalismo no Brasil é extensa e bastante complexa, principalmente por (infelizmente) traduzir diretamente um sintoma da sociedade brasileira contemporânea. Mas aqui, o nosso ponto de crítica é direcionado: a sua aparição dogmática no futebol brasileiro.
2.
Após a eliminação para Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo, em entrevistas cedidas, jogadores da seleção brasileira citaram, numa quantidade notável de vezes, “deus” em suas falas – o que, de início, já parece indicar algo. Porém, é a entrevista do jogador Endrick para o UOL que nos soa particularmente curiosa. Ao ser perguntado sobre o seu balanço pessoal quanto a sua atuação na Copa do Mundo, o atleta cita o ser divino em quase toda a sua resposta. Mas o que chama a atenção não é, a fio, a forte presença de sua crença pessoal na sua fala, e sim, o modo com o qual ele (correlato com todos os seus companheiros de equipe) condiciona a divindade no seu discurso.
“[…] Espero agora trabalhar bastante nesses próximos quatro anos para, se Deus quiser, ele possa me abençoar de novo”, “[ao ser perguntado sobre se ele poderia ser o homem desse novo ciclo] Acho que Deus vai me dizer […] Tomara que eu não seja o homem, tomara que sejam todos os jogadores […] pra gente nunca, se Deus quiser, passar mais por essa sensação” e “[sobre se lamentava o gol perdido] Cara, muito. Depois até fiquei falando com Deus, agradeci a oportunidade […]” são alguns dos exemplos da fala feita pelo jogador.
Deixo claro, aqui, que não se trata de uma espécie de ataque movido por uma “fobia cristã”. O que nos aparece como problemático aqui, mais uma vez, é a maneira com a qual deus é referido em todas as suas respostas. Deus se torna um condicionante para todas as possibilidades de agir do jogador. Somente “se Deus quiser” certas coisas podem ser feitas – podemos retomar o que fora dito logo no começo do texto: em que medida parece prudente pensar que, de todas as intervenções divinas possíveis em problemas concretos e amplos do nosso mundo, deus se preocuparia em agir, objetivamente, no desempenho profissional de um jogador de futebol?
A fala de Endrick traduz, precisamente, o projeto ideológico neopentecostal, onde o religioso e o político convergem em suas analogias estruturais. O sobrenatural e o sagrado intervém diretamente no particular e nas relações sociais, fundamentalmente atravessadas pelos “planos de Deus”, em que a responsabilidade pessoal atua em segundo plano. Tudo está previsto, determinado e regulado pela vontade e ação divina.
O esforço individual tem menos relevância na conquista concreta de cada objetivo que as interferências e contribuições sobrenaturais motivadoras de cada ato. O conformismo dá espaço à inércia da atitude. Ora, se tudo depende da intervenção de um ser em um plano supraterreno, a ação terrena se torna negligenciável. A conquista se torna mérito de um trabalho acordado por deus, e o fracasso igualmente justificado pelas suas vontades.
Enquanto dinheiro e bens capitais puderem ser acumulados, a noção de prosperidade sempre será interiorizada pelos jogadores que, satisfeitos de seus problemas terrenos, não sentirão de uma eliminação vexatória (reconhecendo o mérito da equipe adversária) no maior campeonato de futebol do mundo, o suficiente para converter a perda do título em força vital para o trabalho individual. As casas caras, os carros caros, as viagens de alto custo para países de primeiro mundo e as contas bancárias com numerosos zeros sempre irão servir de referencial para o pensamento de “do que tenho que reclamar, se Deus me faz tão próspero?”.
3.
Talvez esse incômodo crítico à doutrina neopentecostal não traduza exatamente uma preocupação coletiva da nossa sociedade, ainda que diversos brasileiros tenham se mostrado aversos à teologia da prosperidade – principalmente considerando as suas articulações com a extrema-direita brasileira. Porém, é inegável que o neopentecostalismo incrusta com uma individualização radical o que, de origem, representa o espírito coletivo de uma nação inteira.
Falar do Brasil como “o país do futebol” é se referir a algo que transcende o puro caráter particular das gerações de craques gerados no seio da nossa terra. Pelé, Garrincha, Rivelino, Sócrates, Bebeto, Romário, Ronaldo Fenômeno; todos esses são alguns dos grandes nomes de jogadores brasileiros em toda a nossa história no esporte. Mas para além da grandeza desses atletas exclusivamente pautada em suas atuações individuais, nos interessa, precisamente, o papel simbólico que cada um (entre tantos outros), enquanto jogadores de futebol, ocupam na tradução do caráter social coletivo brasileiro no esporte.
Para nós, pentacampeões do mundo, país de origem e palco de onde alguns dos maiores jogadores de toda a história, o futebol não é somente uma modalidade esportiva; o futebol traduz, com protagonismo, um fenômeno social coletivo de um país com dimensões continentais. Um esporte que se introduz em solo brasileiro através da classe dominante, se converte (num amplo movimento histórico-social) em um símbolo para as massas que transcende as relações postas de dominação.
Waldenyr Caldas dedicou um pequeno, mas potente texto, em 1984, sobre O futebol no país do futebol. Destaco, aqui, a seguinte fala: “A meu ver, a análise ideológica que se quiser fazer do futebol de modo geral, e do futebol brasileiro em particular, não deve deixar de lado o seguinte argumento: não é o futebol em si, nem enquanto manifestação lúdica nacionalmente consagrada, que aliena, que desvia a sociedade dos seus problemas mais urgentes. Este fato decorre, isto sim, do uso ideológico que o Estado possa fazer desse esporte, como faria de qualquer outra manifestação que tivesse força popular idêntica”.
Mais à frente, o autor continua, dizendo que “assim como o Estado autoritário pode usar o futebol para corroborar ainda mais o seu poder, no Estado democrático esse mesmo futebol pode dar verdadeiras demonstrações de amor à liberdade e à democracia”. Suas palavras não poderiam passar despercebidas aqui. Ora, não se trata de enxergarmos o futebol sob as lentes imagéticas da neutralidade. Futebol e política sempre estiveram intimamente entrelaçados. Se não se trata, então, de pensarmos sobre como “despolitizá-lo”, o que vale (e precisa) ser pensado é sobre qual sentido político o esporte está sendo direcionado e os seus impactos, diretos e indiretos, na manutenção do seu caráter representativo social e coletivo em nosso país.
4.
A história do futebol brasileiro, mais do que títulos e honrarias outras, é marcada por diferentes períodos de luta ativa contra a estrutura autoritária e elitizada no esporte reclamando a democracia entre jogadores, clubes e seleção. No seio do Sport Club Corinthians Paulista, na década de 80, surge o poderoso movimento da democracia corinthiana, com expoente em Sócrates, Casagrande e Wladimir, protestando a favor de uma reforma que considere a autonomia, liberdade e democracia no futebol profissional.
Em 1924, o Clube de Regatas Vasco da Gama marcaria na história a sua Resposta Histórica à Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), negando-se a desfiliar 12 atletas do clube, negros, operários e analfabetos em prol da sua inscrição na associação.
Em 2022, o mundo viveu um balanço na luta antirracista através da figura de Vini Jr., em razão dos massivos ataques racistas sofridos pelo jogador em solo europeu, motivando a criação de inúmeras campanhas e, mesmo, uma lei de jogo recente, a favor do combate ao racismo.
O que poderia, de fato, ter sido integralmente devorado pela reificação que abocanha por inteiro qualquer fenômeno social de grande repercussão popular, se interiorizou nas massas brasileiras na forma de uma ferramenta de luta ativa contra a postura autoritária, elitizada, antidemocrática e, para todos os fins, voltada aos interesses empresariais na consideração do esporte. Nós, brasileiros, refletimos no futebol a imagem do nosso grande espírito de luta como um povo historicamente vencido (leia: oprimido, subjugado, exterminado, expropriado).
Durante os jogos do Brasil, é quase como se entrássemos, ainda que na rapidez de um lampejo, em um estado de exceção de toda a continuidade histórica de opressão e dominação vivida por nosso país. O povo brasileiro interiorizou o futebol na sua prática cotidiana de tal modo que a defesa pela democracia, transmitida através do esporte, queima com tanta intensidade que o caráter democrático defendido soa quase como uma prática de vida (o que talvez fizesse brilhar, de alguma forma, os olhos de György Lukács).
5.
A paixão ardente em assistir os jogos da seleção brasileira em Copas do Mundo motivou inúmeros momentos de esforço coletivo e trabalho comunitário por todo solo brasileiro. As diversas ruas e casas, adornadas de pinturas, decorações e festividades, mais do que um movimento estético, traduz a forte união social de uma nação inteira, onde todos nós parecemos atados, em toda a nossa pluralidade de fios, pelo nó de ser brasileiro.
Por um breve instante, na efemeridade desses momentos, é como se toda a opressão sofrida em nossa história, por um povo marcado pela desigualdade, fome, xenofobia, pelo racismo e tantos outros problemas radicalmente presentes na realidade brasileira, deixassem de existir. Por um pequeno período de tempo, esquecemos as dores. A utopia da abolição das barbáries motivadas pelos vencedores históricos se torna, temporariamente, algo sólido – e isso é o que traduz o potencial do futebol como um estado de exceção para os brasileiros.
Mas é claro que não cabem somente elogios. Gradualmente, e de modo cada vez mais desenfreado, a paixão pelo futebol se converte em uma paixão por ídolos; pelo jogador que, menos do que é atleta, é mais celebridade. Em arquibancadas de estádios pouco a pouco vazias ou, no mínimo, menos ocupadas por trabalhadores assalariados, pois os ingressos se tornaram caros demais para se comprar.
Em escudos que possuem menos destaque nas camisas de times que os inúmeros logotipos de seus diversos patrocinadores (recentemente, de diversas bets). Em equipes formadas por profissionais midiáticos, com os cérebros necrosados da lógica neopentecostal, incapazes de se visualizarem jogando pela seleção, pelos brasileiros, e sim, exercendo a sua profissão voltados a alimentar o próprio ego e fomentar a sua dita “prosperidade”.
Trata-se de um processo crescente de individualização de um esporte que, estruturalmente, exige o pensamento coletivo – sintoma claro da seleção brasileira; se trata sempre daquele jogador; é sobre aquele jogador que a equipe gira em torno. O “joga para o craque!” muda de sentido; “joga para o jogador famoso!”, já que fotos suas na partida, com a camisa-propaganda de vários patrocinadores, valem lucro para o clube/a seleção. “Convoque a estrela para jogar a Copa do Mundo; e coloque-o em campo, nem que seja por alguns minutos. Venderemos muitos ingressos para os seus fãs, ansiosos para vê-lo ‘jogar’!”.
Enquanto a amarelinha continuar perdendo a sua representação simbólica para o povo brasileiro, metamorfoseando-se de forma grotesca em mais um meio de ganho individual dos jogadores, sob o acobertamento de “deus” para as responsabilidades pessoais dos jogadores em sua profissão, não somente continuaremos no eterno sonho de sermos hexacampeões, mas o futebol continuará perdendo as suas dimensões estéticas e políticas de exceção na sociedade brasileira, e o belo, forte e impávido colosso chegará no estágio final desse processo reificador: se tornará tanto um mero objeto de consumo fetichizado, quanto servirá de alimento para o senso de pertencimento dos ególatras que reverenciam mais a si mesmo do que o espírito coletivo de uma nação inteira.
*Lucas Santos é graduando em licenciatura em filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
"A leitura ilumina o espírito".
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