Polarização como motor da História

Lula, do PT, e Augusto Cury, do AvanteCRÉDITO: DIVULGAÇÃO / RICARDO STUCKERT

“Uma sociedade onde predominam Arranjos Produtivos muda completamente de configuração”


Dos quatro candidatos já confirmados a Presidente da República, apenas dois terão tempo de televisão: Lula, do PT, e Augusto Cury, do Avante. Se isso for determinante para a vitória eleitoral, a preferência do eleitorado se dividirá entre um trabalhador nascido do movimento sindical e um intelectual refinado, conhecido no mundo inteiro por seus milhões de livros de autoajuda. Não vou fazer previsões sobre quem ganhará. Vou me limitar a indicar, teoricamente, quem representaria melhor o vitorioso.

Os dois maiores filósofos do século XIX, Friedrich Hegel e Karl Marx, apoiaram suas teorias no conceito de que o motor central da História é o confronto entre forças oponentes, seja no campo das ideias (Hegel), seja no campo material (Marx). Por isso, é o idealismo ou o materialismo que comandam o desenvolvimento das sociedades. Isso nada tem a ver com o significado comum das palavras idealismo ou materialismo. São significados específicos no contexto de teorias filosóficas.

Portanto, quando se candidata como o grande oponente à polarização política no Brasil, Augusto Cury está dois séculos atrasado. A polarização é inevitável. Do contrário, não haverá avanço da sociedade. Sua presença na campanha não acaba com a polarização, mas a desloca de lugar. Em vez de ser entre três candidatos unidos contra Lula, será, primeiro, entre Flávio e Caiado, para definir o candidato da direita ou da extrema direita. Depois viria a dele contra Lula, se ganhar dos dois.

Mestre da ambiguidade, Augusto Cury se diz indignado com a situação do País e justifica sua candidatura como alternativa à polarização política existente. Contudo, suas propostas não diferem do discurso convencional que pretende associar as políticas sociais de Lula e o capitalismo e o empreendedorismo, representados por Flávio Bolsonaro. Em questões específicas, manifesta-se como um extremista de direita. Quer tirar da cadeia os golpistas de 8 de janeiro e elogia Michel Temer, outro golpista.

Acredito que, se crescer na campanha até o ponto de convencer o eleitorado a levá-lo para o segundo turno, de alguma forma, indiretamente, acabará ajudando o Presidente a se reeleger. Num embate frontal com ele, Lula certamente não adotará essa terminologia, mas poderá apontar o idealismo hegeliano implícito nas propostas dele – pacificação do País, valorização da educação, etc. –, presentes no seu discurso, como simples repetição de promessas vazias nas disputas presidenciais.

Por outro lado, o Presidente, como antigo metalúrgico e líder sindicalista, é um exemplo pessoal do materialismo em desenvolvimento como força social empurrando a História para a frente. Nesse sentido, representa o anúncio de uma Nova Era que não se confunde com a fusão de capitalismo e socialismo sugerida por Cury, mas como alvorada de um novo sistema social concreto que supera o trabalho subordinado no Capitalismo real e o socialismo utópico, numa síntese em nível superior.

Nesse sentido, entendo que estamos na alvorada de uma Nova Sociedade e de uma mudança de Era, de que virtualmente todos os políticos brasileiros ainda não se deram conta, entre eles Augusto Cury. E essa Nova Era será o resultado do confronto entre o socialismo utópico de Hegel e o materialismo prático de Marx, de uma forma absolutamente inevitável, não importa o que pensam os políticos, os intelectuais e os trabalhadores, aos quais compete empurrar a História sem tomar consciência disso.

Para onde iremos nessa marcha? A meu ver, será uma resposta ao maior desafio que trabalhadores comuns de todo o mundo estão enfrentando, e principalmente de países em desenvolvimento como o Brasil, diante do progresso acelerado da tecnologia. Automação, robotização e os diferentes campos de aplicação da Inteligência Artificial estão expulsando das fábricas, do agronegócio e de postos de trabalho tradicionais milhões de trabalhadores que não têm onde se refugiar.

Há apenas uma possível saída para isso: os trabalhadores se tornarem donos dos empreendimentos empresariais onde trabalham. Como iniciativa individual, como sugerem os neoliberais, já se provou que é uma farsa: mais de 50% dos trabalhadores brasileiros que buscaram esse caminho gostariam de voltar à carteira assinada, o que será literalmente impossível para a maioria deles. As empresas não quererão reverter sua corrida tecnológica apenas por razões sociais. Continuarão desempregando gente.

A saída terá de ser coletiva, mediante a expansão, no País, de Arranjos Produtivos Locais, Territoriais (rurais) e Vocacionais (urbanos). O Arranjo não difere de uma cooperativa, só que institucionalizada como Sociedade Anônima. Deve ser dirigido por uma Diretoria escolhida por seus próprios trabalhadores numa Assembleia Geral de sócios. No caso brasileiro, deve também ser submetido às regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o que igualmente o distingue da cooperativa convencional.

Uma rede de Arranjos Produtivos organizados e integrados entre si por internet, espalhados por todo o território nacional, representará o refúgio ideal para os trabalhadores expelidos das empresas pela aceleração do avanço tecnológico. Serão acolhidos, com suas famílias, em lugares onde poderão trabalhar, receber salários dignos (proporcionais à sua contribuição ao próprio Arranjo) e ter uma vida social interativa, em nível muito superior ao que podem ter sob o Capitalismo individualista.

É claro que, embora já existam no Brasil pouco menos de 100 iniciativas espontâneas de organização de Arranjos, uma rede deles, em escala nacional, exigiria o suporte do Governo, principalmente em termos de financiamento e assistência técnica inicial, especializada na sua organização. Mas isso, indiscutivelmente, é obrigação do Governo, já que não há escolha para organizar, de outra forma, meios de absorção de milhões de trabalhadores expulsos do mercado de trabalho tradicional.

Em termos de capacidade produtiva, o Sistema Integrado de Arranjos Produtivos Territoriais é imbatível. E é uma contribuição decisiva para acabar com a fome. Além da alta produtividade do trabalho cooperativo – o trabalhador sabe que trabalha para si mesmo, e não para um patrão –, há diferentes formas de sua organização, como economia circular, integração de cadeias produtivas etc., que determinarão maior produtividade e produção, quando conectados como Arranjos Produtivos Territoriais.

Uma sociedade onde predominam Arranjos Produtivos muda completamente de configuração. Não será mais uma sociedade capitalista, mas Social Trabalhista, reunindo as aspirações socialistas e trabalhistas num mesmo ambiente. Como sociedade do futuro, o Social Trabalhismo aponta para a Humanidade uma Era de prosperidade e de paz, já que um dos fatores de revoluções, como o conflito de classes, desaparecerá por falta de motivação do trabalhador, transformado em sócio.


"A leitura ilumina o espírito".

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