Caio Prado Júnior e a economia brasileira como totalidade histórica em Diretrizes para uma política econômica brasileira
Uma raridade que reencontra o debate
Escrita em agosto de 1954 para o concurso da cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a obra Diretrizes para uma política econômica brasileira circulou por mais de setenta anos como fantasma bibliográfico, impressa em tiragem reduzida, jamais reeditada, até que a Boitempo a convertesse, em 2026, num livro de ampla circulação. Luiz Bernardo Pericás trata a peça como raridade que retorna ao alcance do leitor comum (Pericás, 2026, p. 7). O ganho da edição está menos em resgatar uma curiosidade de arquivo do que em recolocar em movimento uma das formulações mais densas do marxismo brasileiro sobre a estrutura econômica do país.
Quando redigiu a tese, Caio Prado Júnior já havia publicado Evolução política do Brasil, Formação do Brasil contemporâneo e História econômica do Brasil. O livro pertence à sua maturidade, daí a hipótese que defendo ao longo desta leitura: Diretrizes funciona como articulação entre o sentido da colonização, elaborado nas obras históricas anteriores, e a reflexão política que desembocaria, doze anos depois, em A revolução brasileira. O que separa Caio Prado de qualquer vulgata determinista é a atenção à base material e aos conflitos de classe sem esquematismo mecânico.
O estudo introdutório de Alexandre de Freitas Barbosa e Gilberto Bercovici chama atenção para o caráter político da própria disciplina em que Caio Prado se inscreveu. A cadeira de Economia Política do Largo São Francisco nasceu, no século XIX, sob o signo de Jean-Baptiste Say, cuja definição da produção como criação de utilidades permitiu ao ensino paulista contornar a teoria clássica inglesa do valor-trabalho. Os autores extraem daí uma consequência que interessa a quem estuda trabalho e direito.
“Em um país como o Brasil, cuja economia era baseada na mão de obra escrava, deixar de lado a categoria valor trabalho, essencial para a economia política clássica inglesa, propiciaria um ensino da economia política que não precisaria se preocupar em tratar da questão do trabalho, portanto da escravidão” (Barbosa; Bercovici, 2026, p. 21).
A escolha teórica não era neutra. Ao afastar o valor-trabalho, o ensino da economia dispensava-se de encarar a substância da economia colonial, o trabalho e, no limite, a escravidão. A crítica de Caio Prado à economia clássica não é querela de método: é a recusa de uma ciência montada para não ver aquilo sobre o que o país se ergueu.
O concurso de junho de 1956 reuniu sete candidatos e uma banca de perfil conservador, com nomes como Goffredo da Silva Telles Júnior, que fora quadro da Ação Integralista Brasileira nos anos 1930 (Barbosa; Bercovici, 2026, p. 25). Cinco dos quatorze membros presentes da Congregação haviam se oposto à inscrição de um candidato comunista. O vencedor, José Pinto Antunes, apresentou o que os organizadores descrevem como uma profissão de fé liberal. Caio Prado recebeu as menores médias de toda a banca e não obteve a cátedra, embora alcançasse, por maioria, o título de livre-docente – e nunca foi chamado para lecionar na instituição. As notas isoladas não provam veto ideológico, mas lidas ao lado da oposição à inscrição, do perfil da banca e do desfecho autorizam discutir a dimensão político-institucional do episódio sem transformá-lo em conspiração. O concurso é, ele próprio, um capítulo de história social das instituições.
A economia como processo histórico
O primeiro capítulo estabelece o método do livro. Caio Prado recusa a economia como ciência de regularidades abstratas e trata cada situação econômica como momento de um processo anterior que a produziu. Os fatos econômicos, escreve, não se explicam por si, mas por aquilo que os precede, e reconstruir esse antecedente é o que ele chama de perspectiva histórica (Prado Júnior, 2026, p. 37). A consequência é imediata: as categorias com que a economia opera não são coisas autônomas.
As relações humanas e as ações que nelas se configuram, afirma Caio Prado, é que constituem “o conteúdo real do fato econômico” (Prado Júnior, 2026, p. 53). A formulação converge com a crítica marxiana ao fetichismo, em que relações entre seres humanos aparecem sob a forma de relações entre coisas, e a economia clássica, ao naturalizá-las, converte um arranjo histórico em lei eterna. Daí a exigência de um ponto de vista próprio, capaz de submeter as categorias supostamente universais ao confronto com a formação social concreta (Prado Júnior, 2026, p. 56).
Esse ponto de vista não é nacionalismo metodológico. Caio Prado propõe apropriar-se criticamente do conhecimento produzido alhures, sem inventar uma ciência exclusivamente brasileira nem abandonar o que outras experiências produziram. O reconhecimento que dedica a Raúl Prebisch vem com uma reserva precisa. A perspectiva cepalina identificaria os desequilíbrios entre centro e periferia, mas não recuaria o bastante no tempo, presa a uma visão estática dos fatos econômicos. Essa distância em relação à Cepal, que o autor reconhece como pioneira, é um dos pontos que a leitura corrente apaga ao aproximá-lo depressa do estruturalismo latino-americano.
A feitoria disfarçada de sociedade
A formação da economia brasileira aparece, no capítulo 2, como empreendimento comercial, e a imagem que condensa a tese surge logo no início. Segundo Caio Prado, estava selado o destino da colonização brasileira, “seríamos uma feitoria comercial, embora de grandes dimensões e de novo tipo, disfarçada em sociedade normalmente organizada”, origem que se marcaria no futuro do país (Prado Júnior, 2026, p. 68). O colonizador europeu não vem para produzir, mas para organizar o negócio, e o país nasce como unidade produtiva voltada para fora, não para as necessidades de sua população.
Ao tratar da escravidão indígena e africana como solução do problema da mão de obra, a tese toca diretamente a história do direito do trabalho e formula uma concepção da forma jurídica que merece atenção: “Vê-se aí o direito como expressão normativa de uma determinada situação econômica, e refletindo a solução, traduzida em termos jurídicos, dos problemas propostos por essa situação” (Prado Júnior, 2026, p. 69).
A formulação não reduz mecanicamente o direito à economia. O que ela sustenta é que uma situação material encontra tradução normativa, que a escravidão foi um instituto jurídico moldado para resolver o problema do trabalho na empresa colonial. Caio Prado observa que a ausência dos estímulos próprios do regime capitalista, fundado na propriedade privada dos meios de produção, forçou a adoção do instituto servil. O trabalhador brasileiro, do escravizado ao imigrante, é descrito como recrutado enquanto simples força de trabalho, e aqui o leitor de 2026 precisa de cautela. A continuidade que o autor traça entre escravidão e imigração é estrutural e não deve apagar as diferenças jurídicas e históricas entre trabalho escravizado e trabalho assalariado. Nessa passagem, ele emprega a expressão em sentido amplo, para designar a redução dos trabalhadores à função produtiva exigida pelo empreendimento colonial.
O capítulo fecha o diagnóstico com uma das imagens mais expressivas do livro. Apesar da prosperidade aparente, os pés do país seriam de barro, e atrás de um simulacro de grandeza persistiriam os traços do velho sistema colonial produtor de gêneros tropicais (Prado Júnior, 2026, p. 75). A economia cíclica, do pau-brasil ao café, deixaria ruínas materiais e humanas a cada inversão de conjuntura, e a fragilidade da prosperidade paulista seria a prova de que a modernização não tocara os fundamentos coloniais.
O capitalismo sobreposto e o dreno do excedente
O capítulo 3 é o núcleo teórico da obra. Caio Prado distingue dois setores da economia brasileira, o exportador e o voltado ao mercado interno, e estabelece a primazia do primeiro. O marginalismo da população não seria exceção, mas resultado necessário do próprio modo de desenvolvimento colonial. Contra as categorias correntes, ele recusa que o Brasil seja um país novo ou um subdesenvolvido, se por isso se entender um ponto anterior numa curva única de progresso (Prado Júnior, 2026, p. 88), pois a trajetória europeia e norte-americana estaria sendo transposta mecanicamente para um país de formação diversa.
A formulação central é a tese propriamente dita.
“Nessas condições, o capitalismo brasileiro é pouco mais que uma forma exterior e sobreposta. Não representa fundamentalmente o sistema geral aglutinador e promotor de nossas atividades econômicas” (Prado Júnior, 2026, p. 94).
Na Europa, o capitalismo nasceu como negação interna do feudalismo, da decomposição de um regime anterior de produção. No Brasil, as formas capitalistas vieram de fora e por cima e apenas se acrescentaram à estrutura colonial, sem emergir do desenvolvimento próprio das forças produtivas do país (Prado Júnior, 2026, p. 95). O trabalho livre substituiu o escravizado por efeito de contingências exteriores, e a grande propriedade tipo plantation permaneceu intacta depois da abolição, obstáculo ao desenvolvimento capitalista da agricultura. O atraso, aqui, não é ausência de capitalismo: é o produto de uma forma específica de integração ao capitalismo mundial.
A tese precisa ser lida em seu tempo. Caio Prado emprega mais-valor e sobretrabalho para mostrar que a indústria capta parte do sobretrabalho e da renda fundiária gerados na lavoura cafeeira (Prado Júnior, 2026, p. 97). Ele incorpora a discussão sobre a deterioração das relações de troca, formulada por Prebisch e Singer na passagem da década de 1940 para a de 1950, e a reinscreve numa interpretação histórica do sistema colonial, da apropriação do excedente e da dominação imperialista (Prado Júnior, 2026, p. 99). A originalidade está menos na prioridade cronológica do que na historicização do problema e na sua integração à formação econômica brasileira. A penetração imperialista, ele observa, encontrou no Brasil uma situação ideal, recebida internamente como benefício, por já ser o país dependente antes de sua chegada (Prado Júnior, 2026, p. 99-100). O capítulo culmina em sua proposição mais radical:
“O problema está, portanto, em deter aquela flutuação cíclica, eliminá-la pela raiz; e isso somente será possível com a subversão completa do sistema colonial e do imperialismo em que hoje tal sistema se engasta” (Prado Júnior, 2026, p. 111).
A reprodução financeira desse sistema ocupa o capítulo 4. Caio Prado afirma que “a economia brasileira se apoia fundamentalmente na produção para o mercado exterior” (Prado Júnior, 2026, p. 115), e daí extrai um argumento de rara originalidade. O mercado externo subordina o interno e, mais que isso, o cria sob forma dependente. O mercado interno teria nascido como derivação das atividades exportadoras, ampliando-se do açúcar ao café sem nunca adquirir autonomia produtiva. As remessas de juros, lucros e dividendos passavam a superar as novas inversões, num círculo em que o mais-valor produzido internamente é drenado para fora, movimento que o autor descreve como espiral que atrela a economia brasileira ao imperialismo (Prado Júnior, 2026, p. 136). O apêndice estatístico, com a relação de troca do café contra máquinas importadas entre 1915 e 1948 e a tabela de remessas de 1947 a 1952, dá suporte empírico a essa deterioração. O Brasil permaneceria um país periférico e de economia complementar (Prado Júnior, 2026, p. 138).
Da técnica à terra, os caminhos da transformação
Os capítulos 5 e 6 fazem a passagem do diagnóstico ao programa. Caio Prado descreve a crise do sistema colonial como crônica, e não como simples crise de crescimento, e pergunta para onde esse crescimento conduziria o país, já que não seria no do aumento das forças produtivas nacionais (Prado Júnior, 2026, p. 141). A industrialização apareceria como solução de emergência dentro do sistema e, ao mesmo tempo, como possível ponto de partida para outra estrutura, cuja mudança de qualidade dependeria de recompor o sistema geral. É aqui que o autor formula a sua concepção de sujeito histórico.
A transformação viria, escreve o autor, “na medida em que os indivíduos participantes do processo deixarem de ser unicamente atores de sua história e vida coletiva para se fazerem também os seus autores” (Prado Júnior, 2026, p. 146). A fórmula aproxima Caio Prado de um marxismo da práxis, atento à consciência e à ação, e assume o risco de tensionar com o voluntarismo, que ele contém ao lembrar que os objetivos são condicionados pelas contingências históricas.
A afirmação mais delicada da obra está no capítulo 5, escrita com todas as letras. Para o autor, “a proletarização não é aqui, como foi na Europa, resultado em grande parte da destruição de classes médias (artesanato e campesinato): representa, pelo contrário, um progresso social”, pois a passagem do trabalhador rural à condição de proletário significaria valorização humana e elevação material e cultural (Prado Júnior, 2026, p. 153). O argumento tem limites que uma leitura de 2026 precisa explicitar, porque a incorporação ao assalariamento não equivale a uma emancipação. A permanência da exploração, a precariedade do trabalho assalariado e os limites da cidadania salarial exigem distinguir a valorização jurídica do trabalhador da sua emancipação social. Caio Prado enxerga na proletarização uma promessa, e eu leio nela tanto um avanço em relação ao fatalismo racial que ele combate quanto uma confiança que a história do trabalho brasileiro não confirmou por inteiro.
O capítulo 6 concentra as propostas, e a primeira recusa a concepção do desenvolvimento como simples difusão da técnica moderna.
“O problema de países periféricos de nosso tipo não consiste simplesmente em serem atingidos pela ‘propagação da técnica moderna’, e adotarem em consequência essa técnica; e sim de criarem as condições para isso […]. E, sobretudo, colocarem essa técnica a serviço de um objetivo de antemão determinado” (Prado Júnior, 2026, p. 156).
A técnica aparece como escolha socialmente condicionada, cuja adoção e utilização dependem das condições históricas, dos interesses e dos objetivos a que se subordina, e não como instrumento neutro. Daí a distinção fina entre o capital estrangeiro que se incorpora à economia nacional e o capital financeiro que se inverte em subsidiárias e permanece organicamente ligado ao centro de que provém (Prado Júnior, 2026, p. 157). Às vésperas da instalação da indústria automobilística e do Plano de Metas, Caio Prado adverte que uma indústria implantada por transplante de subsidiárias permaneceria isolada, como planta exótica, extensão do aparelho de vendas das matrizes (Prado Júnior, 2026, p. 159). O núcleo da proposta está na terra.
Caio Prado faz da reforma agrária a premissa do mercado interno. “A facilitação do acesso da massa da população rural brasileira à propriedade fundiária é uma das premissas essenciais, se não a essencial, da transformação econômica do campo brasileiro”, escreve, ligando o monopólio da terra ao estreitamento do consumo, à monocultura extensiva de exportação e à debilidade do mercado nacional (Prado Júnior, 2026, p. 187). A questão agrária não é setor isolado: articula propriedade, exploração do trabalho, formação do mercado interno e soberania. E o método da transição é o ponto que dá a medida do livro.
“[…] para transformarmos o sistema colonial da nossa economia em outro sistema, nacional em sua essência e que seja a oposição e negação daquele primeiro, é ainda com o mesmo sistema colonial que o realizaremos” (Prado Júnior, 2026, p. 189).
Caio Prado recusa a autossuficiência e o isolamento como utopia, e recusa a revogação do sistema colonial por decreto. A transformação se faria com os recursos do próprio sistema, deslocando aos poucos o eixo do mercado externo para o interno, para que a nova estrutura passasse a produzir para a satisfação das necessidades dos que dela participam.
Direito, Estado e os limites da transição
O capítulo 7 é a conclusão política e jurídico-institucional da tese, em que ela dialoga mais de perto com a crítica do direito. A pergunta é sobre as implicações jurídicas da reorganização proposta, e a resposta é medida.
“Fundamentalmente, não se trata de modificações substanciais de nossa estrutura jurídica, isto é, das relações de propriedade e particularmente da propriedade privada dos meios de produção em que se funda o regime atualmente em vigor no Brasil” (Prado Júnior, 2026, p. 191).
A transformação se dá dentro das relações capitalistas de produção, cujo estímulo, o mercado, seria insuficiente no Brasil. O instrumento privilegiado não é a socialização dos meios de produção, e sim a alavanca das relações financeiras internacionais. Caio Prado sustenta que qualquer modificação do sistema teria de operar por essas alavancas, “o que somente é possível […] pelo monopólio estatal do comércio exterior” (Prado Júnior, 2026, p. 195). No campo, distingue a apropriação do sobretrabalho pelo proprietário fundiário, a título de renda da terra, daquela realizada pelo capitalista. O Estado que ele imagina não substitui a iniciativa privada nem se limita ao liberalismo. As forças da transformação recebem identificação sociológica precisa, o proletariado industrial, o campesinato e uma burguesia industrial e comercial não comprometida com o imperialismo.
“As forças que realizarão essa destruição ainda são as do capitalismo, configuradas politicamente, em primeiro lugar por um proletariado industrial já francamente entrosado em relações capitalistas de produção […]; em segundo lugar, um campesinato já esboçado e que encontrará na reforma agrária o impulso de que necessita […]; e finalmente uma burguesia industrial e comercial livre de compromissos para com o imperialismo e o capital financeiro internacional” (Prado Júnior, 2026, p. 197).
Aqui se abre a tensão que considero a mais fértil do livro, e que me recuso a resolver com um rótulo. O capítulo 3 fala em subversão completa do sistema colonial e do imperialismo. O capítulo 7 preserva a propriedade privada dos meios de produção, adia o socialismo como ainda irrealizável e confia a transformação a uma frente que inclui uma burguesia nacional não comprometida com o imperialismo. Chamar isso de reformismo empobrece o diagnóstico, que é de ruptura. O rótulo de revolucionário ignora a moderação deliberada dos instrumentos, e o de etapismo desconhece que o autor recusou a periodização que opõe uma etapa feudal a uma etapa burguesa. O que há é a diferença entre horizonte estratégico e método de transição, e o preço dessa diferença aparece na determinação política da aliança. A tese identifica as classes, mas não determina qual delas exerceria a direção, por meio de quais organizações e sob que correlação de forças. A confiança numa burguesia industrial autônoma em relação ao imperialismo é a aposta mais frágil da tese, e a história posterior tratou de cobrá-la.
O papel que Caio Prado atribui ao direito interessa diretamente à minha área. A ação administrativa do Estado teria caráter supletivo, mas a estruturação jurídico-legal das novas relações econômicas é constitutiva da transformação. O direito não é aqui reflexo passivo nem demiurgo da economia: é a forma em que as novas relações se organizam e se estabilizam. Há uma teoria implícita da relação entre forma jurídica e transformação que dialoga com a crítica do direito e com o debate entre reforma e ruptura. O livro termina definindo o que pretende ser:
“[…] não uma pseudociência econômica abstrata e absoluta, que seria um pobre e inútil substituto do velho direito natural, e sim uma teoria econômica que nesse momento e para o Brasil em que vivemos deverá ser a expressão de uma economia em germinação no âmago de nossa vida coletiva e que trará a libertação definitiva do nosso país e nacionalidade de seu longo passado colonial” (Prado Júnior, 2026, p. 199).
A tese está assinada em São Paulo, agosto de 1954. Lincoln Secco e Bernardo Ricupero mostraram como Caio Prado nacionalizou o marxismo ao recusar a transposição da sequência europeia e ao ler a revolução brasileira a partir do sentido da colonização (Secco, 2008; Ricupero, 2000). Diretrizes é a peça em que essa operação se faz programa econômico, e é aí que confirma a hipótese com que abri esta leitura. A ponte entre a obra histórica e A revolução brasileira existe, ainda que incompleta no ponto que mais importaria, a definição das forças sociais.
Por que ler Caio Prado em 2026?
Ler em 2026 uma tese de 1954, finalmente posta em circulação, impõe uma disciplina dupla. Evito o anacronismo que trataria Caio Prado como se ele já dispusesse das teorias formuladas depois dele, e evito o museu, a reverência que embalsama a obra. O que me interessa é o rendimento analítico de um texto que se recusa a separar economia e história. A força do livro está menos nas soluções de 1954 e mais no modo como obriga a pensar a economia brasileira como totalidade.
A dependência de produtos primários é o primeiro campo em que o diagnóstico mantém rendimento, desde que se distinga permanência estrutural de repetição literal. Em 2025, as exportações brasileiras somaram US$ 348,7 bilhões, recorde histórico, puxadas por soja, com volume recorde de 108 milhões de toneladas, café verde, com valor recorde de US$ 14,9 bilhões, e por minério de ferro e petróleo em recordes de embarque, com a China respondendo sozinha por US$ 100 bilhões da pauta (Brasil, 2026). O país que exporta commodities em volume recorde não é a feitoria colonial de Caio Prado. A estrutura que ele descreveu, a economia organizada em função da procura externa, reaparece sob formas historicamente modificadas.
Há um segundo ponto em que a análise resiste, e nele o próprio autor não reduz o mercado interno à política salarial. O mercado interno não é abstração separada das condições materiais da população trabalhadora, e sua constituição depende de distribuição de renda, salários, direitos sociais e consumo das massas. Quando Caio Prado liga a expansão do mercado interno à reforma agrária e à elevação do padrão de vida, ele afirma que não há mercado interno robusto sem alterar as relações de propriedade e a posição material das classes trabalhadoras. Essa ligação segue sendo a pergunta certa diante de qualquer projeto que prometa consumo sem tocar na estrutura que produz a desigualdade.
No terreno do capital estrangeiro, o capítulo 4 mostra a atualidade mais direta, desde que não se pressuponha que todo capital externo tenha efeitos idênticos. A distinção que Caio Prado propõe, entre o capital que se incorpora e o que permanece ligado ao centro financeiro, continua operante. Em 2025, o déficit em renda primária do Brasil, que reúne lucros, dividendos e juros remetidos ao exterior, alcançou US$ 81,3 bilhões, e o déficit em transações correntes fechou o ano em US$ 68,8 bilhões, o equivalente a 3,02% do produto interno bruto (Banco Central do Brasil, 2026). A estrutura do dreno que ele mediu na tabela de 1947 a 1952 permanece, hoje sob o vocabulário da financeirização e da desnacionalização de setores estratégicos.
A concentração fundiária constitui o terreno em que Caio Prado permite pensar além do que ele próprio desenvolveu. O Censo Agropecuário de 2017 registrou que os estabelecimentos com mil hectares ou mais, apenas 1% do total, concentravam 47,6% de toda a área ocupada (IBGE, 2019). A questão que ele fez da premissa do mercado interno segue de pé, agora atravessada pelo agronegócio e por uma crise socioambiental que o autor não formulou em termos ecológicos. A monocultura que ele criticou como obstáculo ao mercado interno reaparece como fronteira agrícola, desmatamento e conflito por terra. A dimensão ambiental é o principal acréscimo que uma leitura de 2026 precisa fazer, e o livro a torna pensável ao ligar propriedade, produção e destinação da riqueza.
O lugar dos trabalhadores é o que mais me interessa como historiador do trabalho. A tese da proletarização como progresso social precisa ser confrontada com o Brasil que temos. Em 2025, a taxa anual de informalidade ficou em 38,1% da população ocupada, característica que o próprio IBGE (2026) trata como estrutural do mercado de trabalho brasileiro. A informalidade, a precarização das novas formas de trabalho e a desigualdade racial que ainda organiza o acesso ao emprego desmentem a equação simples entre assalariamento e emancipação. Caio Prado via na incorporação ao trabalho assalariado uma valorização humana. Vejo aí uma promessa que a estrutura brasileira cumpriu apenas em parte.
A estratégia política divide os leitores mais do que qualquer outra dimensão do livro. Caio Prado confia a transformação a uma frente de proletariado industrial, campesinato e burguesia não comprometida com o imperialismo, preserva a propriedade privada, adia o socialismo e atribui ao Estado a função de estruturar juridicamente as novas relações. Sua fragilidade está menos na moderação dos instrumentos e mais na falta de determinação do sujeito dirigente, de sua organização e da estratégia capaz de executar o programa. A burguesia nacional autônoma em que apostou não se constituiu como força de ruptura. A tese tampouco enfrenta com profundidade suficiente a natureza de classe do Estado, nem esclarece sob que condições políticas seu aparelho poderia converter-se em instrumento de uma reorganização anticolonial, e por isso lhe atribui um papel excessivamente funcional. Essa tensão, entre a radicalidade do diagnóstico e a moderação dos meios, mantém o livro vivo como problema, e não como resposta pronta.
Por que ler Caio Prado em 2026, então? Não porque ofereça um programa aplicável ao presente, ele não oferece, e as diretrizes de 1954 pertencem ao seu tempo. Leio-o porque devolve ao leitor um pequeno conjunto de perguntas que a economia brasileira ainda não respondeu, e que nenhuma balança comercial recorde torna dispensáveis. Para quem a economia brasileira produz? Quem controla seus meios, suas técnicas e suas decisões? Quem se apropria do excedente gerado pelo trabalho? Quais necessidades sociais orientam o desenvolvimento? Quais forças poderiam transformar sua estrutura? Enquanto essas perguntas continuarem sem resposta, uma feitoria disfarçada de sociedade seguirá sendo uma descrição incômoda demais para ser tratada apenas como documento de arquivo.
Referências
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas do setor externo: nota para a imprensa, 26 de janeiro de 2026. Brasília, DF: BCB, 2026. Disponível aqui. Acesso em: 14 jul. 2026.
BARBOSA, Alexandre de Freitas; BERCOVICI, Gilberto. Caio Prado Júnior, o concurso da Faculdade de Direito e as diretrizes para a economia brasileira. In: PRADO JÚNIOR, Caio. Diretrizes para uma política econômica brasileira. São Paulo: Boitempo, 2026.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Secretaria de Comércio Exterior. Exportações brasileiras alcançam US$ 349 bi em 2025 e batem recorde histórico. Brasília, DF: MDIC, 6 jan. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 14 jul. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Agro 2017: população ocupada nos estabelecimentos agropecuários cai 8,8%. Rio de Janeiro: IBGE, 25 out. 2019. Disponível aqui. Acesso em: 14 jul. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PNAD Contínua: em 2025, taxa anual de desocupação foi de 5,6% enquanto taxa de subutilização foi 14,5%. Rio de Janeiro: IBGE, 30 jan. 2026. Disponível aqui. Acesso em: 14 jul. 2026.
PERICÁS, Luiz Bernardo. Nota da edição. In: PRADO JÚNIOR, Caio. Diretrizes para uma política econômica brasileira. São Paulo: Boitempo, 2026.
PRADO JÚNIOR, Caio. A revolução brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966.
PRADO JÚNIOR, Caio. Diretrizes para uma política econômica brasileira. Nota de Luiz Bernardo Pericás. Estudo introdutório de Alexandre de Freitas Barbosa e Gilberto Bercovici. São Paulo: Boitempo, 2026.
RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2000.
SECCO, Lincoln. Caio Prado Júnior: o sentido da revolução. São Paulo: Boitempo, 2008.

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