Escassez de petróleo – sem sinais de alívio

Imagem: Patrick Hendry


Por AMY MYERS JAFFE*
aterraeredonda.com.br/

A crise energética escancara as fragilidades da dependência dos combustíveis fósseis em um cenário bélico moderno, onde a autossuficiência por meio de fontes renováveis se torna questão de segurança nacional

A crise energética global desencadeada por duas guerras deverá agravar-se, visto que a Ucrânia golpeia a indústria de refino russa e prosseguem os ataques iranianos à produção e refino de petróleo no Oriente Médio. Além disso, a natureza da destruição e o número crescente de frentes e partes beligerantes envolvidas podem anunciar uma nova era de vulnerabilidade prolongada para os países que dependem de importações para seu abastecimento energético.

Ao longo da maior parte da história moderna, as guerras tiveram como alvo as infraestruturas de energia, incluindo poços de petróleo, refinarias, oleodutos, terminais de exportação e centrais elétricas. Contudo, as mais recentes tecnologias de armamento – drones autônomos e embarcações marítimas automatizadas – estão superando os sistemas de defesa existentes.

Os danos resultantes estão aumentando o risco de que as rotas marítimas cruciais para o transporte de petróleo em todo o mundo possam ser reduzidas ou interrompidas por longos períodos, e não apenas no Estreito de Ormuz e no Estreito de Bab el-Mandeb, na entrada sul do Mar Vermelho.

O mundo foi capaz de safar-se nos primeiros meses da guerra com o Irã, mas as tentativas iniciais de manter os mercados petrolíferos equilibrados estão se esgotando. Em primeiro lugar, houve carregamentos de petróleo do Oriente Médio que já tinham atravessado o Estreito de Ormuz antes de seu fechamento, tendo chegado a portos de todo o mundo em março e abril de 2026. Em seguida, um grupo de governos liberou reservas estratégicas de petróleo para o mercado, enquanto alguns países adotaram políticas para poupar petróleo, como a adoção do trabalho remoto.

Ao mesmo tempo, a capacidade de refino – as instalações que convertem o petróleo bruto em produtos como diesel e gasolina – ficou extremamente comprometida. O Goldman Sachs estima que, globalmente, o déficit de refino – incluindo as refinarias russas bombardeadas e os produtos que não conseguem sair do Estreito de Ormuz ou do Mar Negro – totalize 6,5 milhões de barris por dia. Agora, à medida que mais infraestruturas energéticas são destruídas, será mais difícil evitar uma crise ainda mais grave. E o inverno já não está tão distante.

A escalada da guerra

Os ataques perpetrados pelo Irã e por seus aliados, recorrendo muitas vezes a drones aéreos, causaram danos generalizados e duradouros às infraestruturas energéticas do Oriente Médio. Por exemplo, segundo o J.P. Morgan, mais de 1,2 milhão de barris por dia de capacidade de refino de petróleo em toda a região estão fora de serviço devido a danos físicos.

O conflito continua agravando-se. Por exemplo, em 27 de julho, drones supostamente lançados do sul do Iraque por militantes alinhados com os iranianos atingiram torres de processamento de petróleo bruto no importante centro de produção petrolífera saudita de AbqaiqAtaques semelhantes realizados pelo Irã em 2019 reduziram drasticamente a capacidade de produção de petróleo da Arábia Saudita.

As exportações de petróleo bruto e de produtos petrolíferos refinados da Arábia Saudita também são prejudicadas por ataques à navegação nos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb. Uma resposta militar conjunta dos EUA e da Arábia Saudita contra milícias iraquianas aumentou os receios de que a guerra pudesse espalhar-se.

E, em 30 de julho, ataques com drones a um porto egípcio no mar Mediterrâneo indicaram que outra área poderia estar vulnerável à ampliação da guerra. Desde o início da guerra, a Arábia Saudita depende do Mediterrâneo para suas exportações de petróleo, enviando 5 milhões de barris por dia através do Canal de Suez e do oleoduto SUMED do Egito.

Em sua guerra contra a Rússia, a expertise da Ucrânia com drones de longo alcance resultou no bombardeio bem-sucedido de mais de 11 grandes complexos de refino de petróleo russos, neutralizando uma parte significativa da capacidade de produção de combustível da Rússia. As estimativas variam algo entre 30% e 50%, podendo chegar a até 60% da capacidade de refino do país.

Os ataques ucranianos com drones ao sistema de refinarias russo têm como principal objetivo prejudicar o esforço de guerra de Moscou, limitando o abastecimento de combustível militar e o financiamento da guerra proveniente das exportações de produtos refinados. No entanto, imagens divulgadas online mostram motoristas russos sentados em seus carros durante horas, à espera da obtenção de alguns galões de combustível.

Os ataques também levaram a Rússia a proibir as exportações de diesel – que, antes de 2022, forneciam a metade desse combustível para a Europa.

Efeitos em cadeia, incluindo a fome

Além de bloquear os embarques de petróleo bruto, o fechamento do Estreito de Ormuz interrompeu o fluxo de cerca de 20% do abastecimento mundial de gás liquefeito de petróleo. Trata-se de um combustível para cozinhar difícil de substituir e amplamente utilizado na Índia e na China, entre outros países.

Já em abril de 2026, as pessoas da Índia enfrentavam dificuldades em encontrar e pagar o gás para cozinhar, forçando-as a pular refeições. A Índia pretende aumentar o volume de gás liquefeito de petróleo que adquire dos EUA para atenuar a escassez.

Outras pressões também estão afetando o abastecimento mundial de petróleo a partir de outras direções.

Os drones marítimos lançados pela Ucrânia no Mar Negro bloquearam, ao menos temporariamente, a maior parte das exportações de petróleo bruto do Cazaquistão, que necessita dessa via navegável para transportar seu petróleo até o Mar Mediterrâneo e para além dele.

Os separatistas houthis no Iêmen utilizaram drones aéreos para bloquear a extremidade sul do Mar Vermelho no início dos anos 2020, impedindo o acesso a uma rota alternativa fundamental para o transporte de petróleo em torno do Estreito de Ormuz. Segundo relatos, eles pretendem fazer isso novemente.

Essas tecnologias e táticas estão espalhando-se para outras regiões do mundo ricas em petróleo. Por exemplo, separatistas na Colômbia utilizaram drones para atacar equipamentos de produção de petróleo no final de julho.

Desde o início da guerra no Irã, as importações chinesas de petróleo bruto e de produtos derivados do petróleo diminuíram cerca de 3,6 milhões de barris por dia, o que corresponde aproximadamente a um terço das importações anteriores à guerra. Na verdade, as refinarias chinesas começaram a revender petróleo bruto nos mercados globais para obter receitas que compensassem a redução da atividade nas refinarias do país.

Uma explicação é que a China está recorrendo às suas reservas estratégicas de petróleo, mas também é possível que uma desaceleração econômica, combinada com a expansão em grande escala do país na utilização de combustíveis alternativos e de energias renováveis, esteja reduzindo a necessidade de importação de combustíveis derivados do petróleo. As empresas petroquímicas chinesas também estão comprando etano dos EUA para substituir os fornecimentos interrompidos provenientes do Oriente Médio.

Do lado da oferta, no Brasil, a produção da petrolífera estatal Petrobras aumentou 14% em relação aos níveis de 2025 e as refinarias estão operando em plena capacidade. Consequentemente, suas necessidades de importação diminuíram substancialmente, proporcionando algum alívio aos mercados das Américas.

A produção petrolífera venezuelana aumentou de 937.000 barris por dia em 2025 para 1,2 milhão de barris por dia em meados de 2026. A maior parte desse aumento deve-se às empresas petrolíferas que já operavam na Venezuela antes dos EUA terem destituído o ex-presidente Nicolás Maduro. Foram assinados alguns novos acordos para a compra de petróleo venezuelano, mas a onda de investimento que a administração de Donald Trump esperava ainda não se concretizou. A legislação venezuelana e a instabilidade política estão tornando as empresas cautelosas, e algumas continuam exigindo o reembolso dos montantes correspondentes a seus ativos, que foram confiscados pelo então presidente Hugo Chávez em 2009.

Riscos de inflação e vulnerabilidade a longo prazo

Por enquanto, o aumento da produção de petróleo e gás e da produção das refinarias nos Estados Unidos tem protegido os americanos de uma escassez significativa de petróleo.

Contudo, há muitas formas pelas quais essa situação pode mudar. O agravamento das perturbações no abastecimento global poderá, eventualmente, traduzir-se em preços de mercado mais elevados para uma vasta gama de bens e matérias-primas, o que faria subir as taxas de inflação nos EUA.

Em última análise, os novos métodos de guerra baseados na utilização de drones contra instalações energéticas e o transporte marítimo constituem uma grande preocupação de segurança nacional para os EUA e para todas as principais economias que dependem do transporte de energia e da importação de outros bens para sustentar suas economias.

Os países terão agora que trabalhar no sentido de garantir a segurança energética num mundo marcado por rotas marítimas globais inseguras, fenômenos meteorológicos mais extremos e conflitos geopolíticos mais extensos.

Tendo pesquisado e acompanhado a geopolítica dos mercados energéticos globais durante décadas, acredito que esses esforços se concentrarão em determinar quais as fontes de energia de que cada país dispõe dentro de suas próprias fronteiras. E, levando em consideração os limites geográficos e geológicos dos combustíveis fósseis, posso antecipar que mais países procurarão acelerar o desenvolvimento das energias renováveis, que já é bem rápido, como a eólica e a solar, para minimizar os riscos de guerras que possam interromper seu abastecimento energético.

*Amy Myers Jaffe é professora da Columbia University. Autora, entre outros livros, de Energy’s digital future: harnessing innovation for american resilience and national security (Columbia University Press).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal The conversation.


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