
Imagem: kai muro
Por MARCELO PHINTENER*
A fábrica como prisão e a luta como método: a antecipação de um diagnóstico que só se tornou mais urgente com o tempo
Em junho de 1981, o jornal Notícias Populares – tabloide do grupo Folha de S. Paulo, muito lido pelos trabalhadores da cidade de São Paulo – publicou pela primeira vez uma coluna sindical que duraria sete anos e produziria mais de duzentos artigos.
Seu autor era Mauricio Tragtenberg, então professor da FGV, da PUC-SP e da Unicamp, doutor em ciências sociais pela USP, tradutor de Max Weber e de Jürgen Habermas, organizador de coleções sobre o pensamento anarquista e sobre o marxismo heterodoxo. Um intelectual de formação erudita e vasta. E foi exatamente esse intelectual quem escolheu, no período mais intenso de sua maturidade, sentar-se toda semana para escrever para os trabalhadores das fábricas.
A coluna chamava-se “No Batente”. O nome não era acidental: “batente” é gíria do trabalho braçal – o labor cotidiano, repetitivo, invisível para quem não o faz. Mauricio Tragtenberg não escolheu escrever sobre o batente. Escolheu escrever do batente, a partir das condições concretas de quem vende a força de trabalho. E essa posição de enunciação – não o intelectual que explica o trabalhador para si mesmo, mas o pensador que pensa com o trabalhador a partir de onde ele está – é o traço mais singular e mais duradouro da coluna.
O texto inaugural deixava o recado sem ambiguidade: “A seção dirige-se a quem está no batente e não àqueles que estão afastados da produção querendo falar em nome dos que trabalham” (TRAGTENBERG, 2011, p. 3). Numa única frase, Mauricio Tragtenberg afastava dois interlocutores: o patrão e o vanguardista. A coluna não era para nenhum dos dois. Era para quem trabalha – e, mais ainda, para quem pensa no próprio trabalho como campo de luta.
A empresa como unidade política
Para entender o que “No Batente” fazia, é preciso entender o que Mauricio Tragtenberg entendia por política. Não se tratava do jogo partidário, nem do debate parlamentar, nem das disputas eleitorais que ocupavam os jornais dos anos 1980. Para ele, a política mais concreta e mais imediata na vida da maioria das pessoas acontecia num lugar muito menos nobre: dentro da empresa.
“A empresa determina tudo”, escreveu ele em Administração, poder e ideologia: “salário, folga, férias, ritmo de trabalho; o operário participa passivamente, como força de trabalho, como função do capital” (TRAGTENBERG, 2005, p. 161). E em outra passagem: “Empresa não é só o local físico onde o trabalho excedente cresce às expensas do necessário, o palco da oposição de classes. É também o cenário da inculcação ideológica. Nesse sentido é também aparelho ideológico”.
Era dessa convicção que nascia a coluna. Se a empresa é uma unidade política – e não apenas econômica –, então analisar o que acontece no interior da fábrica, do escritório, do depósito é fazer análise política. É exatamente isso que “No Batente” fazia, semana após semana: radiografar as relações de poder no espaço de trabalho, antes que qualquer lei, partido ou sindicato chegasse a mediar essa relação.
O diagnóstico de Mauricio Tragtenberg era preciso e, para a época, pouco comum. O Brasil vivia o processo de abertura política, e boa parte das forças de esquerda investia suas energias na conquista das liberdades formais: eleições diretas, anistia, liberdade de organização sindical. Mauricio Tragtenberg não desprezava essas conquistas. Mas insistia que elas não tocavam no núcleo do problema. “Democracia na rua e ditadura na fábrica” – título de um de seus artigos mais lembrados, de março de 1985 – resumia a tese: a democracia que se conquistava nas calçadas não entrava pela porta da fábrica. Dentro dela, vigiam outras leis, outras hierarquias, outro regime.
O método – a linguagem em dia de semana
Há um traço da coluna que merece atenção porque revela muito sobre o projeto intelectual de Mauricio Tragtenberg: a linguagem. Ele foi um escritor deliberadamente claro. Não por falta de capacidade para o jargão – seu doutorado Burocracia e ideologia é um dos textos mais rigorosos da sociologia brasileira. Mas porque entendia que a obscuridade é, muitas vezes, uma forma de poder.
Antonio Candido descreveu o que chamou de “valores da oralidade” na prosa literária brasileira – a língua falada nas ruas e nas fábricas infiltrando-se na escrita. Mauricio Tragtenberg operava algo semelhante, mas com propósito político explícito. Como o personagem do conto “Famigerado”, de Guimarães Rosa, que exige saber o significado de uma palavra “em fala de pobre, linguagem em dia de semana”, Mauricio Tragtenberg traduzia para o texto a linguagem das conversas cotidianas dos trabalhadores.
Isso não significa simplificação. Significa precisão. Um artigo sobre como ler o balanço de uma empresa começava assim: “O que se costuma chamar de balanço (ou de demonstrativos financeiros) de uma empresa é uma espécie de fotografia que mostra o que a companhia possui oficialmente de prédios, máquinas, matéria-prima etc. – e quanta riqueza foi gerada pelos trabalhadores a partir desses instrumentos num certo tempo, geralmente um ano” (TRAGTENBERG, 2011, p. 69). Não há condescendência. Há respeito – o respeito de quem acredita que o trabalhador tem plenas condições de compreender o mundo que o oprime, desde que esse mundo seja descrito com honestidade e sem ornamento desnecessário.
Em outro artigo, Mauricio Tragtenberg enfrentou diretamente o preconceito de que trabalhador não lê: “Muita gente acha, infelizmente até no meio sindical, que trabalhador quando muito deve ler ‘boletim’ de uma página só; mais do que isso, segundo essas pessoas, o trabalhador não suportaria ler. Discordamos totalmente desse ponto de vista” (TRAGTENBERG, 2011, p. 13). A coluna era, ela mesma, a refutação prática desse preconceito.
A anatomia da exploração
O núcleo analítico da coluna pode ser descrito com uma frase que Mauricio Tragtenberg usou numa aula na PUC-SP em 1996: “A administração se funda na vigilância, na punição e na gratificação. Se tirar esses três elementos, ela não se sustenta.” Esses três dispositivos – que percorrem todos os textos de “No Batente” – formam o que se poderia chamar de anatomia da exploração do trabalho.
A vigilância é o primeiro dispositivo. Em “Democracia na rua e ditadura na fábrica”, Mauricio Tragtenberg escrevia que o regime fabril é “muito parecido com a prisão: as leis e normas que vigoram na rua não se aplicam no interior da prisão ou da fábrica”. A fábrica como prisão não é metáfora retórica: é análise estrutural. O trabalhador está sob controle permanente – do ponto eletrônico, do supervisor, do ritmo da máquina, da câmera. Em 2018, a The Economist descrevia como a inteligência artificial tornaria essa vigilância “onipresente e valiosa” para os empregadores. Mauricio Tragtenberg não precisou esperar a inteligência artificial para chegar à mesma conclusão.
A punição é o segundo dispositivo. Não apenas a demissão ou a suspensão – suas formas mais visíveis –, mas todo o conjunto de mecanismos que mantém o trabalhador em vulnerabilidade permanente. Mauricio Tragtenberg documentava isso com precisão quase etnográfica: o arrocho salarial do “milagre econômico”, as jornadas abusivas, o assédio dos encarregados, a ameaça de dispensa que paira sobre qualquer tentativa de organização coletiva.
A gratificação é o terceiro e mais sutil dos dispositivos – e talvez o mais revelador da sofisticação analítica de Mauricio Tragtenberg. Bônus de produção, promoções, elogios públicos, programas de “participação” dos trabalhadores: todas essas formas de recompensa individual têm a função de fragmentar a identidade coletiva da classe trabalhadora, substituindo a solidariedade pela competição.
Num artigo de 1982, Mauricio Tragtenberg descrevia os Círculos de Controle de Qualidade (CCQs) como um mecanismo em que “a pretexto da melhoria da qualidade, através de controle da produção, controlam o trabalhador, criando um clima na empresa de pretensa ‘harmonia’ cuja função maior é desmobilizar o peão, impedindo a ação do sindicato e da comissão de fábrica em sua defesa” (TRAGTENBERG, 2011, p. 354).
O toyotismo visto de perto
A análise dos CCQs é um dos pontos mais impressionantes da coluna – porque antecipou, com mais de uma década, aquilo que as ciências sociais nomeariam toyotismo.
O modelo originado na Toyota e mundializado a partir dos anos 1980 vendeu a promessa de superação da rigidez fordista. A velha linha de montagem e o trabalhador confinado a uma única tarefa repetitiva deram lugar às equipes flexíveis, à polivalência e ao fetiche da gestão participativa. Na retórica dos manuais de administração, desenhava-se uma suposta humanização do chão de fábrica. Na dinâmica real dos conflitos sociais, a flexibilidade discursiva revelou-se o verniz de uma engrenagem ainda mais totalitária: sob o signo da autonomia, o capital sofisticou o controle, transformando o engajamento do trabalhador no motor de sua própria expropriação.
Em 1982, muito antes de o toyotismo se consolidar no vocabulário acadêmico, Mauricio Tragtenberg já decifrava sua lógica molecular nas páginas do jornal Notícias Populares. Enquanto a transição democrática monopolizava os debates institucionais, ele apontava para o que se erguia da catraca para dentro: “Enquanto se desenvolve o circo eleitoral, no interior das empresas está sendo organizada a técnica de organização da produção fundada nos círculos de controle de qualidade (CCQ). Já existem círculos desse tipo em várias empresas paulistas. Sua finalidade: aumentar a produção usando sugestões do trabalhador. Nesses círculos, o trabalhador é dividido em grupos nos quais um grupo vigia o outro.”
A conclusão, na crueza irônica que o caracterizava: “O que o trabalhador ganha com isso? Em algumas empresas, uns cruzeiros a mais, em outras, uma palmadinha nas costas do chefe de relações industriais e em outras, uma medalha” (TRAGTENBERG, 2011, p. 348).
O diagnóstico é preciso: o toyotismo não liberta o trabalhador – torna-o responsável pelo controle de si mesmo e dos colegas. A vigilância deixa de vir de fora e passa a operar de dentro. E os sindicatos, filhos do fordismo que os criou como interlocutores coletivos de massas concentradas em grandes fábricas, ficam sem saber como responder a trabalhadores dispersos, “autônomos”, supostamente colaboradores.
Décadas depois, essa lógica foi levada ao limite pelas plataformas digitais. O trabalhador uberizado não tem patrão visível, horário fixo nem coletivo de turno – o algoritmo faz tudo: define o ritmo, dita as métricas, pune o desvio e gratifica a disponibilidade constante. É o toyotismo sem fábrica – ou melhor, a dissolução das paredes da fábrica por toda a malha urbana. Mauricio Tragtenberg não viveu para ver a Uber, mas descreveu o princípio que a tornaria possível: o controle totalitário da força de trabalho mascarado sob o fetiche da autonomia.
Automação, desemprego e a questão que não fecha
Outro tema que percorre a parte VII de Autonomia Operária – onde estão reunidos os artigos de “No Batente” sobre tecnologia – é a automação. Em “Desemprego e automação”, de julho de 1983, Mauricio Tragtenberg escrevia: “A preocupação dos patrões em automatizar os processos de produção é permanente. Assim, procuram diminuir os custos de mão de obra. Na crise, com o desemprego, a automação aumenta. Nas fábricas correm demissões dos trabalhadores, não se contrata ninguém e há tentativas de mudar a organização dos trabalhos; assim, fala-se em robôs, máquinas de comando numérico, centrais de usinagem, microcomputadores, círculos de controle de qualidade” (TRAGTENBERG, 2011, p. 353).
A atualidade desse diagnóstico é perturbadora. Quarenta anos depois, onde Mauricio Tragtenberg lia “robôs e microcomputadores” inscrevemos “inteligência artificial e gerenciamento algorítmico”. A lógica permanece idêntica: a inovação tecnológica, quando conduzida pelas necessidades de acumulação do capital, não visa à emancipação humana – visa à expropriação do tempo e à maximização do controle. A automação contemporânea repete o velho padrão: rebaixa o rendimento real da classe trabalhadora e transforma o desemprego tecnológico em combustível para a superexploração nas franjas do mercado de trabalho.
Mauricio Tragtenberg não era ludita. Jamais propôs a destruição das máquinas. A questão que ele levantava era mais fundamental: a automação não carrega uma neutralidade técnica intrínseca; o que determina seu impacto real sobre a vida dos trabalhadores é quem controla a tecnologia e em benefício de quem ela opera. O dilema consistia em como submetê-la ao controle e à autogestão dos próprios produtores – horizonte para o qual preferia formular perguntas cortantes a aceitar dogmas fechados. Sustentar apenas perguntas não era fraqueza analítica: era honestidade intelectual.
A auto-organização como único horizonte
Se a coluna tinha uma tese central, era esta: a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores. A máxima – que remonta à fundação da Primeira Internacional, em 1864 – é mobilizada por Mauricio Tragtenberg não como adorno retórico, mas como rigor analítico e político. Para ele, qualquer estrutura que converta a classe trabalhadora em objeto de tutela – a vanguarda partidária, a burocracia sindical ou o Estado benevolente – reproduz, inevitavelmente, a mesma racionalidade de dominação que assume combater.
Nesse sentido, a coluna “No Batente” foi também um instrumento de militância anticapitalista. Mauricio Tragtenberg orientava os trabalhadores – de forma combativa, sem concessões e sem perder a incisividade – a compreenderem a necessidade de gerir eles próprios suas lutas. Não bastava conhecer a exploração: era preciso que os trabalhadores percebessem que a luta autêntica é aquela que nasce de dentro, conduzida por quem a vive, sem delegação a vanguardas, sem tutela de aparatos partidários e sem a mediação burocrática que esvazia o conflito antes que ele madureça. A militância de Tragtenberg não pregava um programa – ensinava um método: o da auto-organização como condição inegociável de qualquer transformação real.
Na coluna, Mauricio Tragtenberg documentava com entusiasmo cada experiência concreta de auto-organização: as comissões de fábrica, as greves selvagens, os conselhos operários. E desmascarava com o mesmo vigor as estruturas que se pretendiam libertadoras mas atuavam como instâncias de tutela: o sindicato que negocia acordos à revelia da base, o partido que decreta a linha política sem o chão de fábrica, o intelectual que insiste em falar “em nome” da classe, confiscando-lhe a própria voz.
O historiador João Bernardo, cuja interlocução com o pensamento de Mauricio Tragtenberg é central demonstra de forma categórica que a capacidade de uma luta romper com os sistemas de organização capitalistas é determinada, fundamentalmente, pela forma das relações estabelecidas no próprio calor do combate. Se a ação coletiva edifica em seu interior dinâmicas igualitárias, ela abre caminho para a autonomia; se absorve a rigidez das estruturas vigentes, acaba por reproduzir novas burocracias.
Para Mauricio Tragtenberg, essa premissa era absoluta: a forma da luta é tão determinante quanto o seu conteúdo. Uma organização que mimetiza a hierarquia e a separação entre quem concebe e quem executa em seu próprio seio é incapaz de produzir a emancipação em seu exterior – ela apenas altera os gerentes da dominação, mantendo intacta a engrenagem profunda da expropriação.
Quarenta anos depois
A coluna No Batente foi encerrada em 1989, por “interferência de grupos de pressão empresariais e políticos”, nas palavras do próprio Mauricio Tragtenberg em seu Memorial (TRAGTENBERG, 1998, pp. 18-19). Em novembro de 1998, o autor falecia. Seus artigos foram reunidos postumamente, em 2011, no volume Autonomia Operária, pela Editora Unesp.
Lidos hoje, esses textos não envelheceram como geralmente envelhecem os documentos de época. Ao contrário: tornaram-se mais legíveis. O que Mauricio Tragtenberg descrevia como tendência em gestação – a fragmentação da classe trabalhadora, a vigilância molecular, a automação convertida em instrumento de controle – é hoje a realidade consolidada do infoproletariado. O que ele identificava como projeto – o esvaziamento dos direitos trabalhistas, a flexibilização espúria, a entrega da força de trabalho ao despotismo absoluto do mercado – foi implementado com uma eficiência que talvez surpreendesse o próprio autor.
A reforma trabalhista de 2017, a terceirização irrestrita, a pejotização compulsória e as jornadas de doze horas dos entregadores de aplicativo sem qualquer amparo civil representam o projeto dos anos 1980 em sua plena maturidade. O aspecto mais alarmante é que sua consolidação prescindiu do terror ditatorial: operou-se em pleno regime democrático, chancelada por governos eleitos.
A política não habita apenas o Parlamento. Ela foi deslocada para o campo da administração de empresas. É ali – na engenharia gerencial, nos códigos de conduta, no desenho dos algoritmos – que se legisla de fato sobre a vida da classe trabalhadora. Da catraca para dentro, a soberania pertence ao patrão. Mauricio Tragtenberg nos ensinou a ver isso com clareza. Quarenta anos depois, o que ele viu segue diante de nós.
*Marcelo Phintener é analista de dados e doutorando em filosofia política na PUC-SP.
Referências
TRAGTENBERG, Mauricio. Administração, poder e ideologia. São Paulo: Unesp, 2005.
TRAGTENBERG, Mauricio. Autonomia operária. São Paulo: Unesp, 2011.
TRAGTENBERG, Mauricio. Burocracia e ideologia. São Paulo: Unesp, 2006.
TRAGTENBERG, Mauricio. Memórias de um autodidata no Brasil. São Paulo: Escuta, 1999.
TRAGTENBERG, Mauricio. Reflexões sobre o socialismo. São Paulo: Unesp, 2008.
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