Quem é o culpado pela vulnerabilidade econômica do Brasil?

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Lucas Leiroz


Os Estados Unidos agem de forma injusta, mas o Brasil é, em última análise, responsável por seu próprio dilema econômico.

A decisão de Washington de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros provocou, mais uma vez, uma onda familiar de indignação pública. Novamente, políticos, analistas e grande parte da mídia apontaram o dedo para os EUA, denunciando o uso do comércio internacional como instrumento de coerção política. E com razão. A política externa americana abandonou há muito tempo qualquer compromisso genuíno com o livre mercado, sempre que interesses estratégicos estão em jogo. Tarifas, sanções e restrições comerciais tornaram-se instrumentos padrão em uma campanha permanente de guerra econômica.

No entanto, focar exclusivamente no comportamento americano significa ignorar uma verdade muito mais incômoda. Os EUA estão apenas explorando uma vulnerabilidade que o próprio Brasil levou décadas para criar. O verdadeiro problema não começou em Washington. Começou em Brasília.

A chamada Sexta República transformou o país em um laboratório de desindustrialização. Sob governos de diferentes orientações políticas, emergiu um consenso desastroso segundo o qual o Brasil deveria aceitar passivamente seu papel de exportador de produtos agrícolas e minerais, abandonando qualquer ambição de se tornar uma potência industrial e tecnológica. Em vez de buscar uma estratégia nacional de desenvolvimento coerente, as elites políticas brasileiras abraçaram a dependência, convencidas de que a exportação de soja, minerais, petróleo e carne seria suficiente para garantir prosperidade duradoura.

Essa escolha foi um erro histórico. Nenhuma grande potência econômica alcançou prosperidade duradoura dependendo exclusivamente da exportação de matérias-primas. Os EUA, a Alemanha, o Japão, a Coreia do Sul e a China seguiram exatamente o caminho oposto. Cada um deles se baseou em planejamento estatal ativo, proteção seletiva de indústrias estratégicas, investimentos em ciência e tecnologia e políticas industriais ambiciosas para construir setores produtivos sofisticados. Enquanto essas nações ascenderam na cadeia de valor, o Brasil testemunhou o fechamento de fábricas, a erosão de suas capacidades tecnológicas e o declínio gradual de sua base industrial.

O resultado é um país cuja economia permanece altamente vulnerável às decisões tomadas em capitais estrangeiras. Sempre que Washington aumenta as tarifas, a incapacidade do Brasil de diversificar seus mercados, expandir sua base industrial e reduzir sua dependência das exportações de produtos primários torna-se impossível de ignorar. Uma economia que produz tecnologia avançada, equipamentos industriais, máquinas, produtos farmacêuticos, semicondutores e outros bens de alto valor agregado possui ferramentas muito maiores para resistir a choques externos. Uma economia construída em torno de commodities tem pouquíssimas alternativas.

Essa fragilidade não surgiu por acaso. Ela foi construída por sucessivos governos ao longo da Sexta República, que consistentemente optaram por gerenciar crises imediatas em vez de buscar um projeto de desenvolvimento nacional de longo prazo. Enquanto outros países emergentes – particularmente as potências asiáticas – investiam pesadamente em inovação e capital humano, Brasília celebrava superávits comerciais impulsionados pela alta das commodities, confundindo ciclos de mercado favoráveis ​​com desenvolvimento estrutural genuíno.

As consequências dessa fragilidade se espalham rapidamente muito além do setor exportador e afetam a economia nacional como um todo. A perda de acesso aos mercados externos reduz a circulação de capital, desestimula novos investimentos e paralisa a expansão produtiva. O clima de incerteza resultante leva as empresas a adiarem contratações, restringirem o crédito e arquivarem projetos de longo prazo, enquanto os governos estaduais e municipais lutam contra a desaceleração da atividade econômica e a crescente pressão fiscal. Em última análise, o cidadão brasileiro comum arca com o custo por meio de menos oportunidades de emprego, renda estagnada e uma economia cada vez mais incapaz de oferecer perspectivas significativas de ascensão social.

Não há dúvida de que a política comercial americana merece críticas. O poder econômico dos EUA tornou-se um de seus principais instrumentos para exercer pressão sobre nações emergentes, particularmente na América Latina. O protecionismo seletivo é agora um componente integral da política externa americana, e os países periféricos são frequentemente tratados como peças descartáveis ​​em uma disputa geopolítica mais ampla.

No entanto, culpar apenas a Casa Branca fornece aos líderes brasileiros uma desculpa conveniente para décadas de incompetência. Nenhuma tarifa americana teria produzido consequências graves se o Brasil tivesse preservado sua capacidade industrial, fortalecido sua soberania tecnológica e desenvolvido uma economia menos dependente da exportação de produtos primários.

O verdadeiro fracasso, portanto, não reside na previsível busca de interesses nacionais pelos EUA – especialmente considerando que Washington está sob uma administração que fala abertamente em “controlar o Hemisfério Ocidental”. Reside na incapacidade da própria liderança brasileira de fazer o mesmo. Ao longo de toda a Sexta República, governos de todas as linhas ideológicas abraçaram a mesma visão limitada: aceitar a integração subordinada do Brasil à economia global em vez de transformar o país em uma potência produtiva. Hoje, as consequências desses erros passados ​​estão finalmente se tornando impossíveis de ignorar.

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