A Anatomia do Caos: como se fabrica a percepção política nas eleições brasileiras

Alexandre de Moraes - CRÉDITO: ROSINEI COUTINHO/STF


A anatomia do caos se completa nesse terreno. Caos não precisa ser ausência de ordem. Pode ser uma ordem difícil de enxergar por quem vive dentro dela

A batalha eleitoral já não acontece apenas nos palanques, debates ou programas de governo. Ela atravessa sistemas de recomendação, redes de influência, operações coordenadas, conteúdos sintéticos e mecanismos capazes de selecionar o que milhões de pessoas veem, repetem, temem e consideram verdadeiro. Esta investigação disseca a infraestrutura política do caos e revela como a disputa pelo poder passou também a ser uma disputa pela fabricação da percepção.

O fato não precisa ser falso

O vídeo era verdadeiro. A voz era verdadeira. Alexandre de Moraes havia pronunciado aquelas palavras. O que era falso era o acontecimento construído ao redor delas. Em setembro de 2026, imagens antigas do ministro circularam como se registrassem uma reação à crise envolvendo o Banco Master e um agradecimento a Flávio Dino. A gravação era de agosto e tratava de outro assunto. Ninguém precisou alterar o rosto de Moraes, clonar sua voz ou fabricar uma imagem. Bastou arrancar um fragmento verdadeiro de seu tempo e encaixá-lo em outra história.

Esse deslocamento expõe um dos problemas centrais das eleições contemporâneas. Durante anos, aprendemos a procurar manipulação na mentira evidente: fotografia adulterada, número inventado, frase nunca pronunciada. Tudo isso continua existindo. Só que a fabricação da percepção pode ser mais simples. Um vídeo autêntico muda de data; uma estatística correta recebe uma causalidade que não demonstra; uma declaração sobrevive ao corte enquanto desaparecem o contexto e a sequência que lhe davam sentido. O fato continua verdadeiro. O que foi reconstruído é a relação entre os fatos.

Reduzir essa disputa a uma guerra entre verdade e fake news já não basta. A realidade também pode ser matéria-prima da manipulação. Recortada, deslocada, emocionalizada e repetida, uma parte começa a ocupar o lugar do todo. A questão deixa de ser apenas quem mente e alcança algo mais difícil de enxergar: quem consegue selecionar quais pedaços da realidade serão vistos, em que ordem aparecerão e quantas vezes voltarão diante dos mesmos olhos. Fabricar percepção, nesse ponto, deixa de ser apenas um problema de conteúdo. Torna-se um problema de poder.

A máquina que organiza o visível

Na tela de um celular, quase nada chega em estado bruto. Entre um acontecimento e os olhos de quem o recebe existe uma infraestrutura que classifica, recomenda, repete e descarta. O feed não é uma fila neutra de fatos. É uma seleção contínua, refeita a cada gesto do usuário. Modelos calculam quais conteúdos têm maior chance de prender atenção, gerar interação ou prolongar a permanência na plataforma. O poder começa antes do convencimento, na disputa pelo que será visto.

Jornais, rádios e televisões sempre selecionaram a realidade, mas essa escolha era relativamente estável e reconhecível: havia uma primeira página, uma grade, um editor. Nas plataformas, a hierarquia é personalizada e móvel. Duas pessoas no mesmo país, no mesmo dia, podem atravessar sequências profundamente diferentes de acontecimentos. O que aparece dez vezes para uma talvez nunca chegue à outra.

Em 2026, William J. Brady e colegas publicaram na Nature um experimento realizado durante a eleição presidencial norte-americana de 2024. Ao comparar feeds ordenados por engajamento com feeds cronológicos, encontraram maior exposição a conteúdo político marcado por indignação moral, conflito entre grupos, emoção e toxicidade. Os participantes também passaram a perceber maior animosidade entre os campos políticos. O algoritmo não precisou mandar ninguém odiar ninguém. Bastou alterar a amostra da sociedade que aparecia diante de seus olhos.

A tecnologia encontra a psicologia social justamente nesse terreno. Ninguém mede objetivamente a frequência de tudo o que acontece ao redor. O mundo também é julgado pelo que está disponível, pelo que reaparece, pelo que ocupa espaço. Se os exemplos mais agressivos de um grupo são justamente os mais visíveis, eles podem acabar servindo como retrato do grupo inteiro. Não é preciso imaginar um engenheiro escolhendo a cada minuto quem favorecer. Sistemas de recomendação trabalham com objetivos, métricas e probabilidades. Isso não torna seus efeitos neutros.

A infraestrutura importa tanto quanto a mensagem. Uma narrativa só convence depois de ser encontrada; o medo ganha força quando reaparece; um adversário parece maior quando seus traços mais ameaçadores ocupam continuamente o campo de visão. A disputa eleitoral começa, portanto, antes da escolha entre candidatos. Começa na disputa material pelo que uma sociedade consegue ver.

O medo chega antes do argumento

Ver muitas vezes não é o mesmo que acreditar, mas muda o terreno sobre o qual a crença se forma. Em 2023, Valentina Vellani, Sarah Zheng, Dilay Ercelik e Tali Sharot mostraram, em experimentos com informações de saúde e conhecimento geral, que uma exposição anterior podia aumentar a percepção de precisão de uma afirmação e, por essa via, sua chance de ser compartilhada. A repetição não transformava mentira em verdade. Tornava a informação familiar, e familiaridade pesa quando julgamos rapidamente aquilo que vemos.

Nas redes, essa familiaridade encontra emoção. Medo, raiva e indignação não são ruídos laterais da política; funcionam como sinais de prioridade. Aquilo que ameaça exige atenção, aquilo que revolta pede resposta e aquilo que confirma um perigo já imaginado encaixa-se com facilidade em narrativas disponíveis. Um crime pode deixar de ser apenas um crime para virar prova de que ninguém está seguro. Uma decisão judicial pode ser lida como sinal de perseguição. Uma declaração isolada, repetida no enquadramento certo, passa a representar um grupo inteiro.

O conflito também muda de escala quando é visto por esse filtro. Se os episódios mais agressivos são os que recebem maior circulação, o adversário começa a parecer mais hostil e mais onipresente do que a experiência cotidiana sugeriria. A rede não precisa inventar a divisão. Basta concentrar o olhar sobre aquilo que melhor a dramatiza.

Repetição, emoção e identidade acabam então se reforçando. A mensagem volta até perder parte do estranhamento; a emoção seleciona o que merece atenção; o pertencimento ajuda a decidir de quem desconfiar. A eleição pode começar muito antes da pergunta sobre em quem votar. Começa quando se estabilizam respostas para perguntas mais primitivas: quem deve ser temido, quem merece confiança, quem é percebido como parte do grupo e quem passa a representar ameaça. Quando esse mapa emocional já está montado, o argumento chega tarde.

Quando a propaganda aprende a conversar

Durante grande parte do século XX, propaganda política significava produzir uma mensagem e lançá-la sobre uma população. Rádio, televisão, outdoor, comício. Mesmo quando públicos diferentes recebiam discursos diferentes, a lógica era industrial: poucos emissores falando para muitos receptores. As plataformas digitais quebraram parte desse modelo ao transformar comportamento em dados e públicos em segmentos. A inteligência artificial acrescentou outra mudança. A mensagem já pode ser produzida, modificada e respondida durante a própria interação.

Em 2025, Hause Lin, Gabriela Czarnek, David Rand e uma equipe internacional testaram essa possibilidade nas eleições dos Estados Unidos, do Canadá e da Polônia. Participantes conversaram com sistemas de inteligência artificial instruídos a defender candidatos. O experimento, publicado na Nature, encontrou mudanças mensuráveis nas preferências declaradas, maiores do que os efeitos normalmente observados em anúncios políticos tradicionais em vídeo. O estudo não mediu votos depositados em urnas, e esse limite importa. Mostrou, porém, que uma máquina capaz de responder argumentos individualmente pode produzir persuasão política observável.

A mudança decisiva talvez esteja menos na fantasia de uma inteligência artificial irresistível do que na economia dessa persuasão. Os sistemas recorreram sobretudo a argumentos, fatos e evidências adaptados à conversa, alguns deles inexatos. A novidade material é poder produzir variações, responder objeções e sustentar interações persuasivas em escala por um custo muito menor. Isso não transforma cada eleitor numa fechadura para a qual os dados oferecem a chave. Persuasão continua sendo probabilística, desigual e dependente do contexto. O que mudou foi a capacidade de multiplicá-la.

A propaganda não ganhou poderes sobrenaturais. Ganhou capacidade industrial para falar como se não fosse industrial.

O Brasil dentro da máquina

O Brasil não chegou a 2026 de repente. O ecossistema distribuído entre plataformas foi sendo construído eleitoralmente ao longo de quase uma década. Em 2018, Victor Piaia e Marcelo Alves examinaram 194.710 mensagens de 21 grupos de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp. Encontraram forte concentração das postagens em poucos participantes, circulação constante de links para YouTube e Facebook e ações centralizadas para reagir a danos à imagem do candidato e coordenar votos para sua base parlamentar. O dado decisivo era outro: o WhatsApp não funcionava como ilha. Era uma estação dentro de um circuito.

Esse circuito importa porque plataformas diferentes oferecem possibilidades diferentes de ação. Grupos de mensagens favorecem recorrência e circulação por relações de confiança. Redes abertas projetam narrativas para fora desses círculos. O vídeo comprime argumento em imagem, gesto e emoção. Influenciadores emprestam rosto, linguagem e autoridade. Uma narrativa pode nascer num espaço, ganhar escala em outro e voltar ao grupo privado carregada da impressão de que todo mundo está falando daquilo.

Nas disputas seguintes, esse trânsito ficou ainda mais visível. Conteúdos saltam de grupos fechados para redes abertas, reaparecem em vídeos, cortes, memes e transmissões, recebem novas legendas e retornam aos mesmos círculos com aparência de confirmação. Nem toda convergência significa coordenação, e coordenação localizada não prova a existência de um comando único. O que a circulação multiplataforma oferece é outra coisa: velocidade para transformar uma narrativa particular em presença recorrente.

Há ainda uma dimensão que os números de alcance quase nunca capturam. Uma mensagem encontrada numa timeline chega como conteúdo. A mesma mensagem enviada por parentes, amigos, lideranças ou integrantes de uma comunidade política chega acompanhada de confiança, pertencimento e validação. O conteúdo não circula sozinho; viaja dentro de relações sociais. Por isso a mesma frase pode produzir efeitos diferentes conforme o caminho que percorre até encontrar alguém.

Em 2026, essa infraestrutura já havia entrado no próprio desenho da governança eleitoral brasileira. As regras passaram a alcançar recomendação, impulsionamento, monetização, mensageria pública e inteligência artificial generativa. Isso não demonstra que as medidas sejam suficientes, nem prova a existência de uma operação centralizada sobre a eleição. Mostra que circulação algorítmica e conteúdo sintético deixaram de ser questões laterais e passaram a integrar formalmente o problema eleitoral.

O que amadureceu entre 2018 e 2026 não foi apenas uma técnica de propaganda. Foi um ambiente no qual mensagens privadas e redes públicas, algoritmos, vídeos, comunidades, influenciadores e sistemas generativos podem formar circuitos de visibilidade, repetição, confiança e conflito. Quando a política começa a trabalhar deliberadamente sobre atenção, percepção, emoção, identidade e comportamento, seu vocabulário se aproxima de um campo bem mais antigo: o da guerra psicológica.

Quando a política encontra a linguagem da guerra

Atenção, percepção, emoção, identidade, comportamento, vulnerabilidade cognitiva. As palavras que atravessam a política digital também ocupam hoje um lugar explícito no pensamento militar. Em janeiro de 2026, Marek Havlík e Jiří Horáček escreveram, em estudo publicado pelo NATO Defense College, que a guerra cognitiva envolve a instrumentalização da informação para explorar vulnerabilidades da cognição e interferir na percepção da realidade. A formulação é recente; a ambição, não. Propaganda, engano e operações psicológicas acompanham conflitos há séculos. O que mudou foi a capacidade técnica de alcançar grandes populações, observar respostas e recalibrar mensagens em velocidade muito maior.

A engrenagem é reconhecível: conhecer uma audiência, identificar vulnerabilidades, escolher estímulos, observar respostas e adaptar a ação seguinte. As tecnologias digitais tornaram esse ciclo mais rápido e mais barato, além de aproximar ferramentas comerciais de capacidades antes associadas a estruturas especializadas de influência. A fronteira conceitual, porém, precisa permanecer nítida.

Uma campanha eleitoral que utiliza segmentação, emoções ou persuasão não se transforma automaticamente numa operação psicológica militar. Encontrar nas redes mecanismos estudados pela guerra cognitiva também não prova a existência de um comando clandestino por trás deles. Confundir semelhança de método com identidade de operação destruiria o critério de prova que sustenta esta investigação.

O problema é bem concreto. Dados comportamentais, redes de relações, sistemas de recomendação, geração automática de mensagens e monitoramento de reação já fazem parte do cotidiano comercial das plataformas. Capacidades úteis para disputar atenção e percepção não pertencem exclusivamente a forças armadas. Estão embutidas em infraestruturas privadas que intermedeiam comunicação, consumo e política.

Para países do Sul Global, essa disputa carrega uma assimetria adicional. A UNCTAD mostrou em 2025 que as cinco maiores multinacionais digitais passaram de 21% para 48% das vendas globais do setor entre 2017 e 2025, enquanto sete das dez empresas mais valiosas do mundo já eram gigantes digitais. O poder de organizar fluxos informacionais repousa sobre propriedade, capital, centros de dados, modelos e regras de distribuição concretas. Antes da batalha pelas ideias existem os meios de produção, processamento e circulação dessas ideias, e eles estão longe de ser distribuídos igualmente.

O poder de organizar a realidade

No início deste artigo havia apenas um vídeo verdadeiro colocado no tempo errado. Nenhuma tecnologia extraordinária, nenhuma máquina capaz de controlar uma mente. Bastava deslocar um acontecimento de seu contexto para alterar aquilo que ele parecia significar. Depois de algoritmos, repetição, medo, identidade, inteligência artificial, redes de influência e guerra cognitiva, aquele gesto simples ganha outra dimensão: disputar percepção não exige controlar tudo o que uma sociedade pensa. Basta conquistar algum poder sobre aquilo que ela consegue ver, sobre a frequência com que algo retorna e sobre as relações que passam a ligá-lo a fatos, personagens e emoções.

Esse poder não nasce apenas do discurso. Tem infraestrutura, proprietários, modelos de negócio e centros de decisão. Isso não significa que plataformas determinem resultados eleitorais ou que algoritmos fabriquem automaticamente eleitores. A evidência disponível não autoriza uma conclusão desse tipo. Os efeitos são desiguais e dependem do contexto. Ainda assim, definir critérios de recomendação altera distribuição; estabelecer regras de moderação muda circulação; reduzir o custo de produzir variações persuasivas modifica as condições materiais da disputa. Poder não precisa ser absoluto para produzir consequências.

A questão central ultrapassa, portanto, a tecnologia. A democracia representativa se acostumou a perguntar quem governa, quem financia, quem possui os meios de produção, quem controla instituições e quem decide sobre recursos. A sociedade algorítmica acrescentou outra pergunta: quem organiza o ambiente dentro do qual milhões de pessoas decidem o que está acontecendo?

A disputa pela percepção não substitui salário, classe, propriedade, território, interesses econômicos ou relações de força. Ela atravessa essas estruturas e interfere na maneira como chegam à experiência política, convertidas em medo, esperança, ressentimento, confiança ou adesão.

A anatomia do caos se completa nesse terreno. Caos não precisa ser ausência de ordem. Pode ser uma ordem difícil de enxergar por quem vive dentro dela: decisões contínuas de seleção, recomendação, segmentação e circulação construindo ambientes informacionais distintos para pessoas que continuam habitando a mesma sociedade. Nenhuma narrativa apaga a realidade material. Mas a realidade política nunca chega às pessoas sem mediação. Quando essa mediação passa por estruturas capazes de decidir o que aparece, o que desaparece, o que volta e o que parece estar em toda parte, disputar o poder significa também disputar as condições pelas quais uma sociedade consegue enxergar a própria realidade.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Referências:

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PIAIA, Victor; ALVES, Marcelo. Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 43, n. 3, p. 135-154, set./dez. 2020. DOI: 10.1590/1809-5844202037.

HAVLÍK, Marek; HORÁČEK, Jiří. War is a mind game: countering weaponised information. NDC Outlook 2026-01. Rome: NATO Defense College, 23 jan. 2026.

UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). Global Trade Update: Global trade endures policy changes and geoeconomic risks. Geneva: UNCTAD, jul. 2025. Documento UNCTAD/DITC/INF/2025/5.


Reynaldo Aragon
https://www.brasil247.com/blog/a-anatomia-do-caos-como-se-fabrica-a-percepcao-politica-nas-eleicoes-brasileiras/#google_vignetten é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net





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