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Eduardo Vasco
strategic-culture.su/
Um movimento pequeno-burguês a serviço da burguesia imperialista, Trump traiu sua base: dívida de 40 trilhões de dólares, preços de energia em espiral e um atoleiro iraniano autoinfligido.
As políticas desastrosas do atual mandato de Donald Trump estão acelerando a crise no âmago do sistema capitalista mundial. O magnata sempre se caracterizou por suas críticas ao regime político americano, sua defesa do lema “América Primeiro” e, portanto, por sua declarada oposição aos principais interesses do imperialismo. Essas posições lhe renderam amplo apoio popular, não apenas da pequena burguesia com ideias conservadoras, mas também de vastos setores do proletariado – incluindo alguns que tradicionalmente se identificavam com a esquerda.
Trump, no entanto, nunca conseguiu colocar suas ideias em prática. A realidade concreta é uma força avassaladora contra a qual as intenções dos indivíduos pouco ou nada podem fazer.
Como presidente, ele oscila entre tomar decisões baseadas em sua própria visão política e adotar medidas que contradizem tudo o que antes defendia. Trump não consegue se libertar da tutela daqueles que controlam o regime americano.
A essência dessas contradições reside precisamente no caráter de classe do trumpismo. Trata-se de um movimento tipicamente pequeno-burguês. No caso dos Estados Unidos, setores da burguesia que foram duramente prejudicados pelas políticas neoliberais – e, portanto, pela concorrência desleal das maiores corporações do mundo – também devem ser considerados parte desse fenômeno pequeno-burguês. A pequena burguesia é uma classe que flutua em meio à oposição irreconciliável entre os trabalhadores e a grande burguesia imperialista. Ela não possui independência real e segue a classe que se mostra mais forte na derrota de seu antagonista.
A administração Trump deve ser analisada sob a ótica dessas contradições de classe. Como o trumpismo não é um movimento independente, ele cede às pressões de ambos os lados. Quando essas pressões se tornarem suficientemente agudas, ele se desintegrará.
Já estamos testemunhando o início dessa desintegração. A base de apoio de Trump está cada vez mais dividida. Ao servir cada vez mais aos interesses do imperialismo, Trump agrada a um segmento daqueles que o apoiaram – o setor mais rico e dominante. No entanto, numericamente falando, esse grupo é uma minoria em comparação com a massa de apoiadores de Trump, composta por pequenos empresários, profissionais autônomos, agricultores, trabalhadores urbanos e desempregados. Ao tentar preservar os lucros da burguesia imperialista, Trump inevitavelmente ataca o outro polo do trumpismo.
Em vez de alcançar uma recuperação econômica que reduzisse o desemprego, reindustrializasse o país e aumentasse os salários, a subserviência de Trump aos ditames da grande burguesia está aprofundando a crise econômica nos Estados Unidos. A dívida nacional atingiu o valor sem precedentes de US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. A crise energética continua a piorar, com os preços da gasolina subindo exponencialmente, enquanto os preços do diesel se aproximam de um recorde histórico.
Em certa medida, isso é consequência da guerra travada pelos Estados Unidos contra o Irã, vista como uma traição pelos eleitores de Trump que acreditavam em sua retórica anti-intervencionista. Nem mesmo a apreensão do petróleo venezuelano – por meio de bombardeios e do sequestro de um presidente – que reforçou ainda mais a frustração de parte do movimento MAGA, deverá salvar o mercado petrolífero americano.
A agressão contra o Irã foi um tiro no próprio pé. Trump acreditava que poderia acertar as contas com os iranianos rapidamente, mas, em vez disso, ficou preso em um atoleiro do qual ainda não conseguiu escapar. Além das consequências econômicas imediatas, houve danos evidentes à máquina de guerra imperialista e à sua dominação do Oriente Médio. Ao ceder às pressões de Israel – que, na realidade, são as pressões do imperialismo buscando proteger seu aliado mais importante no mundo, um posto avançado estratégico que controla o comércio internacional e a riqueza natural da região – Trump também destruiu o que restava de sua reputação como “nacionalista”.
Políticos e influenciadores que já se opunham à postura ambígua de seu governo em relação à guerra na Ucrânia perceberam que o ataque ao Irã para proteger Israel foi a gota d'água. Tucker Carlson, Marjorie Taylor Greene e até mesmo Charlie Kirk devem ser vistos não apenas como os extremos desse fenômeno de descontentamento, mas como representantes de uma revolta latente de proporções consideráveis contra a direção tomada pela política trumpista. Eles são apenas a face visível de um movimento com milhões de seguidores. Suas posições refletem os sentimentos de milhões de americanos desiludidos com Trump. Thomas Massie e Rand Paul, embora não tenham ido tão longe quanto Marjorie Taylor Greene, também expressam a magnitude da pressão popular sobre a liderança do trumpismo.
A opinião pública americana em relação a Israel desde o início do genocídio em Gaza é reveladora. Nunca antes o povo americano se opôs tanto ao sionismo e demonstrou tanta simpatia pela Palestina. O patrocínio e a cumplicidade do governo Biden no genocídio foram um fator importante na derrota de Kamala Harris, já que ela era vista como a continuação das políticas de Biden, tendo atuado como sua vice-presidente. Uma pesquisa de janeiro de 2025 mostrou que quase um em cada três eleitores que apoiaram Biden em 2020 se recusou a votar em Harris em 2024 devido ao apoio dela a Israel. A pesquisa não mensurou esse dado, mas é certo que vários eleitores democratas votaram em Trump como forma de protesto, acreditando que sob seu governo as coisas seriam diferentes. Isso fica evidente quando se considera que políticos democratas populares, críticos do Estado Profundo e da política imperialista, como Robert Kennedy Jr. e Tulsi Gabbard, integraram o governo Trump. A própria Gabbard também está entre os insatisfeitos com a política externa de Trump e, consequentemente, foi marginalizada dentro do governo. Kennedy ainda não enfrentou grandes conflitos públicos porque seu foco está em questões amplamente alheias à política externa.
Mesmo entre os apoiadores tradicionais de Trump, o antagonismo em relação a Israel e o apoio à Palestina têm crescido. Como a guerra em Gaza – da qual a guerra contra o Irã é uma extensão – é um dos fenômenos geopolíticos mais importantes das últimas décadas, um divisor de águas na política internacional e até mesmo na política interna de cada país, ela é sintomática das transformações que ocorrem dentro da dominação do regime capitalista. A crise no topo começa a gerar movimentos na base.
Para sermos claros: uma parcela significativa do povo americano está se movendo para a esquerda, em direção a posições de confronto direto com a burguesia e rumo a uma orientação política independente centrada nas demandas históricas dos trabalhadores. Esse fenômeno abrange tanto democratas quanto republicanos – e encontra sua maior ressonância entre os apoiadores de Trump, que, apesar de outros preconceitos, superam com mais facilidade a política identitária e a crença quase religiosa na democracia imperial e nas instituições decadentes do regime político.
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