A intervenção dos EUA na eleição brasileira



Por EMILIANO JOSÉ*

Sob o pretexto de combater o crime organizado, a investida imperialista reedita velhas doutrinas de dominação para tutelar o pleito brasileiro e garantir a vitória do golpismo

1.

Não há nada submerso, nenhuma dissimulação: os EUA mostram-se dispostos a seguir no rumo de transformar, ou de garantir a condição de quintal desse continente denominado América Latina, ancorado, como o próprio império afirma, na Doutrina Monroe, formulada lá pelo início do século XIX. Por tal disposição, mostram-se empenhados em interferir nas eleições brasileiras, transformadas, por isso mesmo, nas mais importantes de nossa história.

Donald Trump promove essa perseguição com discursos obviamente falsos, como já ficou evidente, por exemplo, na aplicação das tarifas pedidas e acatadas pelo filho do ex-presidente condenado pela intentona golpista, quando se revelou serem os EUA superavitários na relação comercial com o Brasil.

Das tantas perseguições, acresça-se agora a articulada por ele, reunindo os governos de extrema direita na conspiração destinada a atacar a soberania brasileira, pretendendo uni-los no combate às organizações do crime organizado no Brasil.

Ao determinar a organização do chamado “Escudo das Américas”, em março deste ano, Donald Trump visava obviamente deixar no ar, nem sempre no ar, o espectro da intervenção dos EUA no continente, cuja demonstração manu militari ele havia feito com o sequestro e prisão do presidente Nicolás Maduro e da mulher dele, Cília Flores.

É como se quisesse evidenciar, com aquele atentado terrorista contra a soberania venezuelana, todo o poder discricionário concentrado no império, a não considerar mais nada quanto ao direito das nações. O combate ao crime organizado, necessário e fundamental, como o presidente Lula tem ressaltado, é papel de cada nação, sem desprezar de modo nenhum a colaboração com outros países, como o Brasil tem insistido. Tal combate, no entanto, não dá o direito de intervenção de um país sobre outro, como ficou manifestado no discurso recente do mandantário brasileiro na ONU.

Aos EUA caberiam políticas públicas capazes de retirá-lo da condição de maior consumidor de drogas do mundo. O império não tem nenhuma autoridade para falar de combate às substâncias consideradas ilícitas, até porque enfrenta uma grave, enorme crise de saúde pública relacionada aos opióides, como o fentanil. A droga tornou-se autêntica epidemia no país, especialmente em Filadélfia, Los Angeles, São Francisco e nova York. O país tem demonstrado, à saciedade, enorme incapacidade de enfrentar o problema.

2.

Para opinar, e só opinar, sobre a luta contra o crime organizado voltado à produção de drogas, deveria, primeiramente, fazer o dever de casa, e não pretender intervir em outras nações. O Brasil sabe como enfrentar o problema e nunca se esquivou de colaborações. Não aceita, no entanto, ser quintal de ninguém, como ressaltado pelo presidente Lula, insista-se, no memorável discurso dele na ONU, no dia 22 de setembro deste ano.

Sabemos, no entanto, não se tratar efetivamente de combate ao narcotráfico. Não é esta, verdadeiramente, a preocupação do império. Os EUA, e eles chegaram a dizer isso abertamente, fixaram o retorno à Doutrina Monroe como objetivo, e não escondem a pretensão de ter a América Latina como simples quintal. E nessa quadra histórica, tal pretensão infelizmente é apoiada entusiasticamente por governos de extrema direita.

Não se trata de combate às drogas. Isso é só fachada, para inglês ver. Tudo tem a ver com o domínio imperial, com a vocação imperialista, marcada, nesse momento, não só pelo reforço à dominação da América Latina, incluindo-se aí a violência inominável contra Cuba, como também a agressão ao Irã, onde já foi derrotado, e o genocídio praticado em Gaza.

O presidente Lula condenou duramente o massacre em Gaza, o crime contra Cuba, no discurso dele da ONU. Disse da luta pela paz e contra a fome. E insistiu na defesa da soberania das nações, mirando naturalmente o direito à realização de eleições livres no Brasil, sem nenhuma intervenção estrangeira, ao contrário do desejado pelo adversário Tariflávio, cuja posição é de absoluta subalternidade, sempre rastejando diante do império.

Não estamos enfrentando uma eleição normal. Recentemente, assistimos à prisão de Fernando Cerimedo, expressão de uma impressionante rede de disseminação de fake news, de intervenção dos EUA nas eleições da América Latina. Diria: até as dissimulações estão sendo desprezadas.

Se a companheira dele, Nadia Beller, a quem pretendeu assassinar, tiver razão, e ele for de fato agente da CIA, torna-se evidente a imbricação do trabalho político-cultural, destinado a modificar o pensamento das pessoas, em princípio o trabalho dos think tanks, das organizações não-governamentais vinculados direta ou indiretamente aos EUA, com os serviços de inteligência e de repressão.

Donald Trump, aliás, de alguma forma, lida bem com essa duplicidade. Pode valer-se do trabalho do pessoal de comunicação, das fazendas de bots e trolls voltadas a influenciar e fraudar eleições, conjugado com as ameaças e se for o caso com a violência. Agora, evidencia-se o cerco às eleições brasileiras, que deve prosseguir e já é excessiva e constante.

Taxações, proteção a refugiados golpistas, envio de um nome sem credenciais exigidas para ser embaixador no Brasil, suspensão de visto da embaixadora brasileira nos EUA, envio de emissários norte-americanos para questionar o processo eleitoral (presença recusada pelo governo brasileiro), reunião organizada pelo consulado norte-americano com comunicadores de extrema-direita e qualificação do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, tudo isso atendendo a pedidos da família Bolsonaro, tipicamente uma organização criminosa atuando contra o Brasil.

Não estamos enfrentando uma eleição sob um quadro de normalidade democrática: há uma evidente intervenção externa, aberta, como se tivessem os EUA o direito de arbitrar nossos caminhos, ainda na esteira da velha Doutrina Monroe. Trata-se, do nosso ponto de vista, do pessimismo da inteligência, otimismo da vontade, na esteira do pensamento de Romain Rolland, dito largamente utilizado por Antonio Gramsci.

Não deixar de utilizar a razão para conhecer as dificuldades. Nem se paralisar diante delas, ao contrário. Superá-las, valer-se da boa política, utilizar-se de nossas forças para derrotar a barbárie, representada pela extrema-direita, personificada no caso brasileiro pelo Tariflávio, a quem o próprio Estadão praticamente chamou de chefe de milícias, como verdadeiramente ele é.

A cidadania brasileira garantirá as eleições e a vitória de Lula. Tem forças para tanto, como tem sido demonstrado, com a intensa mobilização experimentada pela campanha de Lula e pelas mobilizações em todo o Brasil. Vamos vencer para que não retornemos à barbárie. Para seguir como nação capaz de atender às necessidades do nosso povo, e caminhar sempre soberana, de cabeça erguida. À vitória! É Lula de novo, com a força do povo!

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]



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