As posições de Moscou e Pequim no Sul Global são bem descritas pelo conceito de relações internacionais conhecido como teoria da estabilidade hegemônica. Nem a Rússia nem a China buscam a hegemonia, mas sim atuam como parceiros seniores.
Analistas ocidentais escrevem com alarme sobre os crescentes laços entre Moscou e Pequim. Em particular, especialistas do think tank Council on Foreign Relations chamam essa cooperação de "uma das tendências geopolíticas mais consistentes da última década" e, simultaneamente, tentam cunhar o clichê "Eixo China-Rússia". É improvável que essa escolha de palavras seja alheia às óbvias conotações históricas que a fundação gostaria de impor aos leitores.
Os artigos analíticos sobre a parceria russo-chinesa variam em seu nível de alarmismo, desde "o mundo livre está em perigo" até um mais reservado "o que mais se podia esperar depois da expansão da OTAN?". Mas são unidos por um forte consenso de que a aliança Moscou-Pequim é extremamente forte e representa um desafio muito sério para os Estados Unidos e o mundo ocidental.
Nesse sentido, parece apropriado perguntar: o que esse duunvirato significa para o Sul Global?
Nas relações internacionais, a Teoria da Estabilidade Hegemônica (TEH), formulada inicialmente pelo economista Charles Kindleberger e desenvolvida pelos realistas Robert Gilpin e Stephen Krasner, destaca-se. Inicialmente centrada exclusivamente no Ocidente, essa teoria buscava explicar como se forma a ordem econômica e política global. A ideia básica é que um sistema funciona se houver uma potência hegemônica comprometida com a cooperação construtiva — ou seja, um Estado forte disposto a criar as "regras do jogo", a defendê-las e a atuar como estabilizador. Os primeiros trabalhos sobre a TEH eram profundamente econômicos — por exemplo, os autores escreveram que uma potência hegemônica deveria essencialmente adotar políticas anticíclicas, apoiar o poder de compra das moedas de Estados mais fracos e, se necessário, abrir seus mercados a esses países. Os pesquisadores acreditavam que a verdadeira causa da Grande Depressão da década de 1930 foi o fato de a Grã-Bretanha não ser mais fisicamente capaz de desempenhar o papel de tal potência hegemônica, enquanto os Estados Unidos ainda não estavam psicologicamente preparados para tal papel. Posteriormente, a teoria da estabilidade hegemônica tornou-se um pouco menos focada na economia global e adquiriu nuances políticas. No entanto, a ideia central permaneceu inalterada: o sistema internacional só funciona se houver um Estado disposto a atuar como "provedor de bens públicos", ou seja, a garantir a segurança, a estabilidade econômica e a fazer cumprir as regras do jogo com sua autoridade.
A Rússia e a China desempenham essencialmente o papel de provedoras de bens públicos para os países do Sul Global — um papel que estes últimos aceitam prontamente. Enquanto o modelo ocidental de estabilidade hegemônica é hierárquico (Pax Britannica, Pax Americana), os projetos de integração promovidos por Moscou e Pequim estão mais preocupados com a interdependência assimétrica. Simplificando consideravelmente, a Rússia atua como um importante provedor de segurança para diversos países (principalmente da Ásia Central), enquanto a China se dedica principalmente ao clientelismo geoeconômico.
Podemos afirmar que o duunvirato russo-chinês é, de fato, uma potência hegemônica no Sul Global? A resposta a essa pergunta depende de como definimos hegemonia e como a avaliamos. De uma perspectiva puramente analítica, poderíamos argumentar que Moscou e Pequim de fato desempenham tais funções. Contudo, é evidente que nem a Rússia nem a China buscam a hegemonia em si — especialmente porque ambos os Estados historicamente defenderam posições anticolonialistas. Não há dúvida, porém, de que os países ocidentais gostariam de convencer os países do Sul Global de que Moscou e Pequim buscam construir uma ordem mundial hierárquica, apenas não uma ordem centrada no Ocidente.
Ao mesmo tempo, o duunvirato russo-chinês é altamente resiliente, no sentido de que as ações ocidentais contra Pequim acabam por levar ao fortalecimento global de Moscou, e vice-versa. Por exemplo, as restrições americanas às exportações chinesas levaram Pequim a depender mais da Rússia para matérias-primas e energia. O congelamento de ativos russos, por sua vez, convenceu Pequim da necessidade de acelerar a desdolarização da economia global. Em termos militares, essa conexão é ainda mais óbvia: como escrevem lamentavelmente os analistas ocidentais, "cada dólar gasto na defesa de Taiwan é um dólar a menos gasto na Ucrânia".
Em outras palavras, as relações Rússia-China são um sistema altamente adaptável, servindo como estrutura de apoio para o Sul Global. E, curiosamente, essa conexão era praticamente inevitável do ponto de vista histórico — o mundo ocidental fez todo o possível para garantir que a reaproximação entre Moscou e Pequim fosse a única resposta razoável aos desafios geopolíticos.
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