América Latina: a ultradireita tem projeto?

Arte: policypress.cy

Ela governa quase toda a região. Mas, quando se volta a falar em soberania, propõe um neoliberalismo mofado e recolonial. Espera em vão por capital externo. Não mobiliza esperanças, mas rancor. É frágil, desde que surja horizonte de justiça social

Por Álvaro García Linera, em Other News | Tradução: Antonio Martins

Uma onda reacionária varre a América Latina. Com exceção do México e Brasil (as duas maiores potências da região), Uruguai e Guatemala, os demais países (Argentina, Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Equador, Paraguai, El Salvador, Honduras, Panamá, etc.) elegeram governos autoritários de extrema-direita. Isso ocorreu no segundo turno das eleições, por uma margem estreita, mas esses governos estão no poder e expressam um sentimento de ressentimento e agressividade política anti-igualitária, forte em parcelas da população.

Não estamos lidando com a direita liberal tradicional ou “republicana” que caracterizou o neoliberalismo triunfante da década de 1980. Naquela época, ele procurav ser o porta-estandarte de um destino universal e final para a humanidade, centrado no livre mercado, na globalização, no multiculturalismo e no Estado mínimo.

A extrema-direita de hoje não promete um futuro de paz mundial baseada nos mercados, mas sim uma purga apocalíptica dos ateus que se opõem às hierarquias “naturais” do empregador sobre empregado, do homem sobre mulher, da branquitude sobre todas as outras etnias do rico sobre pobre. Mais do que uma utopia, o que ela ostenta é uma “guerra santa” contra o comunismo, contra os imigrantes, contra os direitos e os bens públicos. Para a extrema-direita, não há paraíso a alcançar, apenas as brasas de um Armagedom onde purificar os desvios de uma humanidade corrompida por aspirações de igualdade.

Se, no passado, os movimentos de direita se apoiavam na superioridade de suas crenças e estabeleciam um caminho pelo qual toda a humanidade alcançaria um objetivo comum — o chamado “fim da história” —, a direita atual acredita que a conversão de apóstatas não é mais possível. Portanto, muros devem ser construídos para impedir que migrantes “invadam” seus países — como na fronteira entre o México e os Estados Unidos; civilizações devem ser “exterminadas”, como em Gaza ou no Irã; e aqueles que têm condições financeiras devem se tornar uma “espécie multiplanetária” colonizando Marte, como propõe Elon Musk. Estão convencidos de que não há mais espaço, água, combustível, riqueza ou meio ambiente suficientes no mundo para serem compartilhados por todos os seres humanos e que, portanto, todos esses recursos devem ser concentrados e preservados para o benefício de poucos, os “vencedores”, enquanto o restante dos perdedores é lançado nas chamas do inferno.

Essa extrema-direita fanática cresceu no início do século XXI, quando o neoliberalismo regional entrou em crise e a sociedade abraçou um descontentamento generalizado. Ela se fortaleceu entre as classes médias ressentida, nos locais onde governos de esquerda chegaram ao poder e promoveram processos de ascensão social para as classes trabalhadoras. E chegou ao poder nos locais onde governos progressistas não conseguiram atender às expectativas de bem-estar das classes empobrecidas.

No entanto, diferentemente do que ocorreu nos ciclos anteriores de ascensão da extrema-direita na América Latina, que duraram trinta anos, a extrema-direita atual apoia-se em um projeto social atrofiado e míope que, economicamente, contraria as tendências globais emergentes.

Nas décadas de 1940 e 1950, os movimentos progressistas continentais impulsionaram a industrialização, a nacionalização dos recursos naturais e a expansão dos direitos, coincidindo com o crescimento do Estado de bem-estar social e o aumento da intervenção estatal nas economias dos países mais influentes da economia global. O período militar autoritário que ocorreu na fase posterior desse ciclo foi alimentado pelo ressentimento das classes médias, que se sentiam igualadas pela ascensão da classe trabalhadora; Mas não alterou fundamentalmente o modelo de crescimento baseado no mercado interno e no desenvolvimentismo.

A ascensão da direita neoliberal continental no final da década de 1970 e na década de 1980 caminhou lado a lado com a onda expansiva do globalismo neoliberal que varria o mundo, liderada por Reagan e Thatcher. Com pouca criatividade e muita mediocridade, a direita regional simplesmente copiou e colou o manual neoliberal emanado do Banco Mundial e do FMI.

Hoje, porém, a situação é muito diferente.

As grandes potências que impulsionam a economia mundial, como os Estados Unidos, a China e a União Europeia, aumentam as tarifas contra o livre comércio, promovem políticas industriais para criar mercados a partir do Estado, tornam-se protecionistas, transformam seus Estados em acionistas de empresas estratégicas e estabelecem metas de soberania energética ou tecnológica, em vez de se curvarem às “vantagens comparativas”. Na América Latina, porém, os governos de extrema-direita se apegam anacronicamente à nostalgia de um globalismo de livre mercado extinto.

Paradoxalmente, o único defensor ferrenho do “livre mercado” é a China “comunista”, cujo Estado controla entre 20 e 40% do PIB. Enquanto isso, a extrema-direita clama pela “abertura para o mundo”, mesmo quando o mundo ergue barreiras tarifárias para proteger o pouco que resta de suas indústrias da produtividade avassaladora das empresas chinesas. Impõe uma austeridade fiscal brutal, na esperança de que o investimento estrangeiro direto (IED) inunde o país e se torne a força motriz por trás do crescimento econômico expansivo em todos os setores.

Mas o mundo de 2026 não é o mesmo de 1995, quando o investimento estrangeiro direto experimentou um crescimento global espetacular e os países em desenvolvimento ofereciam uma alta taxa de lucro graças à privatização de empresas públicas e seus mercados cativos.

Hoje, não existem mais grandes empresas para privatizar e, pior ainda, o Investimento Estrangeiro Direto (IED), que antes era a força motriz das economias mundiais, encolheu. Tendo atingido níveis entre 4% e 5% do PIB global nas décadas de 1990 e início de 2000, desde a crise de 2008 sua importância tem diminuído constantemente. Hoje, mal chega a 1% do PIB. É claro que o investimento estrangeiro continua a fluir globalmente e dentro do continente — principalmente para o México e o Brasil, atuais bastiões progressistas —, mas agora, como percentual do PIB, mal chega a um quarto do que já foi. Além disso, é mais seletivo: indústria manufatureira em países com grandes mercados garantidos (Brasil, México). Para o restante, principalmente matérias-primas e energia. Em tempos de crise, o capital prefere refugiar-se em títulos do Tesouro dos EUA, que agora oferecem taxas de juros de 4,8% por dez anos, ou em megainvestimentos em Inteligência Artificial no mesmo país.

Na Argentina, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) atingiu 8,5% do PIB em 1999. Entre 2005 e 2015, oscilou entre 2% e 3% do PIB. Sob o governo “libertário”, caiu para 1,8% em 2024 e para 0,5% em 2025. O Banco Mundial estima que se aproximará de 1% em 2026. Os setores visados por esse investimento são hidrocarbonetos, mineração e, em menor escala, finanças. O Equador segue uma trajetória semelhante: no final do século XX, o IED atingiu 3% do PIB; em 2023 e 2024, caiu para 0,5%. E em 2025, mal se aproximou de 1%. No Peru, durante a década de 1990 e entre 2005 e 2015, o IED oscilou entre 4% e 7% do PIB. Nos últimos anos, tem variado entre 1% e 3%.

Nesses e em outros casos, o IDE perdeu a importância que outrora detinha para o crescimento e a estabilidade econômica. Além disso, trata-se de investimento em enclaves, focado na extração de matérias-primas, com lucros externalizados para os países de origem, impedindo, assim, qualquer efeito estimulante sobre o restante da economia. Essa situação assemelha-se bastante à economia de enclaves coloniais do século XVI. Por um lado, centros de alto investimento, alta rentabilidade, baixa utilização da mão de obra e baixa retenção nacional de excedentes; e, por outro, um mar de atividades manufatureiras e de serviços caracterizadas por baixa produtividade, baixos salários e alta utilização da mão de obra.

Esse cenário deprimente também se reflete nos investimentos públicos e privados nacionais em países governados pela extrema direita. Durante os anos do neoliberalismo globalista (entre 1990 e 2000), o investimento total nesses países variou entre 21% e 24% do PIB. De 2015 a 2025, o investimento flutuou entre 18% e 19% (CEPAL, 2026). A Argentina, nos últimos três anos, apresentou uma taxa de investimento de 15% a 16% do PIB (INDEC, 2026). O Equador, 18% do PIB, e assim por diante.

Em comparação, países com industrialização recente e alto crescimento econômico, como os que compõem a ASEAN, têm taxas de investimento em torno de 30% do PIB.

De modo geral, sob governos de extrema-direita, o investimento público e privado, principal motor do crescimento e da criação de riqueza, caiu em porcentagem do PIB, comparado com os dois períodos de expansão econômica (1990-2000 e 2005-2015).

Os “ajustes” nos gastos públicos, a redução de impostos para os ricos e a privatização de áreas periféricas que ainda eram estatais não representam qualquer injeção de capital na economia. São meramente formas de extração predatória de recursos públicos para depositá-los nas mãos de entidades privadas habituadas à busca de privilégios. O resultado é uma economia estruturalmente estagnada, caracterizada por altos níveis de precariedade, que não consegue gerar um processo estratégico de expansão do bem-estar nacional e, portanto, está propensa a incubar continuamente intensos ciclos de agitação social.

Ao contrário do que a extrema-direita americana ou europeia busca promover com um neoestatismo produtivista de longo prazo, a extrema-direita latino-americana atolou-se num neoliberalismo globalista mofado, com um futuro decapitado, que tende a transformar os países em protetorados coloniais das grandes potências que detêm projetos históricos.

Ora, se a extrema-direita não defende um projeto econômico capaz de capturar de forma crível a esperança social, por que, apesar de seu fracasso econômico prematuro, mantém uma base social considerável de apoio político que varia entre 20% e 40% do eleitorado?

Certamente, as decepções anteriores geradas pela incapacidade da esquerda e dos movimentos progressistas em superar a crise econômica (inflação, escassez, recessão) contribuem para a relevância contínua da direita. Mas isso não basta. Para explicar seus níveis de apoio, é necessário compreender que a extrema direita emergiu munida de duas armas: por um lado, a promessa de pôr fim a alguns dos aspectos mais significativos da crise econômica; e, por outro, a promessa de reparação moral para aqueles prejudicados pela crise.

A primeira espada está se desfazendo rápida e irreversivelmente; mas a segunda está sendo empunhada com habilidade ardente. O ódio vingativo, transformado em política de Estado contra direitos, migrantes, “esquerdistas”, comunistas, kirchneristas, petistas, povos indígenas, feministas ou qualquer aparência de igualdade social, desempenha o papel de uma expiação coletiva que dilui a ilusão de um futuro de bem-estar. Se não há futuro próspero, que ao menos haja o prazer da crueldade exercida contra aqueles considerados irremediavelmente diferentes.

Essa perversão moral da esperança dilacera o tecido social e, embora possa ser passageira, suas consequências para a coesão coletiva serão duradouras. A maneira de combatê-la não é simplesmente através da fúria invertida. Embora em tempos de crise possa ser necessário personificar os responsáveis por delitos sociais — neste caso, focando-se em uma ínfima minoria dos poderosos —, o que se exige, acima de tudo, é uma restauração ousada de uma esperança plausível, centrada em um projeto produtivo e socialmente justo, capaz de abalar os alicerces das antigas e degradadas estruturas econômicas e mentais. Porque, para que a esquerda tenha novamente uma chance de liderar a nação, não deve fazê-lo apenas tentando administrar as condições de estagnação e desastre.  



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