Nos últimos dias, a relativa vantagem de Lula evaporou e o risco de derrota tornou-se um perigo real e iminente. Mas se o triunfalismo ingênuo é uma postura equivocada, o derrotismo também o é. A corrida pelo Brasil permanece em aberto. (Foto: Aaron Schwartz / Bloomberg)
A ofensiva da extrema-direita e a crise aberta no Supremo Tribunal Federal ameaçam alterar o equilíbrio de poder às vésperas das eleições brasileiras. Para derrotar o movimento de Bolsonaro, a campanha de Lula precisa retomar a iniciativa e abraçar novas demandas populares.
As eleições presidenciais brasileiras se aproximam em meio a uma tempestade perfeita: enquanto as pesquisas mostram um empate alarmante entre Lula e a extrema direita, um colapso institucional no Supremo Tribunal Federal coloca novamente em risco o sistema político. Entre manobras judiciais para garantir impunidade aos apoiadores de Bolsonaro, assédio midiático e as oscilações do governo, a crise aberta ameaça alterar definitivamente o equilíbrio de poder. O perigo de uma restauração neofascista no maior país da região torna-se cada vez mais real.
A crescente crise política tomou um rumo explosivo. A decisão de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de destituir Andrei Rodrigues do cargo de chefe da Polícia Federal constitui uma manobra subversiva a serviço de uma tentativa de golpe. Trata-se de um abuso institucional de poder: um ministro do Supremo Tribunal Federal não tem competência para nomear ou destituir o chefe da Polícia Federal, poder que compete ao Poder Executivo por meio do Ministério da Justiça.
A demissão de Rodrigues — justificada sob o pretexto de sua suposta afinidade com o também ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes — busca interferir no processo eleitoral para favorecer Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-presidente, que se consolidou como o principal candidato da extrema direita. Este não é um caso isolado: Flávio Bolsonaro vem inflamando a base da extrema direita há algum tempo com o slogan "Fora Moraes, fora Lula".
Diante disso, o pedido da Procuradoria-Geral da República (AGU) para que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) anule o afastamento de Rodrigues é inevitável e deve ser acatado. Há especulações de que Edson Fachin, presidente do tribunal, possa destituir Mendonça da relatoria que supervisiona as investigações sobre o Banco Master e o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), o que seria um passo positivo. Contudo, é improvável que Fachin encontre, dentro do próprio STF, um recurso legal capaz de deter esse ataque. A crise se agravará antes que uma solução seja encontrada.
A ofensiva da extrema-direita
A extrema-direita brasileira obteve uma vitória tática em três frentes. Primeiro, a campanha contra Alexandre de Moraes ganhou força quando Mendonça vazou mensagens entre o juiz e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e figura central em um esquema de corrupção. Esse vazamento sem precedentes e ilegal visava inocentar Flávio Bolsonaro e atacar diretamente Lula.
Em segundo lugar, a manobra serviu para revitalizar a mobilização de 7 de setembro na Avenida Paulista, em São Paulo. Com quase 30 mil manifestantes, o núcleo duro dos apoiadores de Bolsonaro demonstrou renovada força política. Embora em número inferior aos 40 mil que marcharam — defensivamente — em 2025 exigindo anistia para os condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro, ainda assim foi uma manifestação poderosa. Além dos números em qualquer momento específico, o aspecto mais marcante é a postura: hoje, esses mesmos setores mobilizados estão na ofensiva e exigem o impeachment de Moraes .
Em terceiro lugar, seu impacto na opinião pública é inegável: as pesquisas mais recentes mostram um aumento na desaprovação do governo Lula, que parece estar ultrapassando os 50%, e projetam um empate técnico virtual em um possível segundo turno.
Enquanto isso, a burguesia liberal — representada pelo controle dos principais veículos de comunicação, os jornais líderes em São Paulo e no Rio de Janeiro, e pela influência nacional da Rede Globo — uniu-se ao ataque de Mendonça contra Moraes, ciente de que isso beneficia Flávio Bolsonaro. Apesar disso, ainda seria prematuro interpretar esse alinhamento tático como apoio incondicional ao projeto neofascista.
Este setor adere à sua própria agenda: exige o fim da recessão por meio de cortes drásticos nos gastos públicos para garantir um superávit primário e reduzir a dívida pública, mesmo ao custo das profundas consequências sociais de tais medidas. Paradoxalmente, também reconhece que, sem algum grau de crescimento, o Brasil seria ingovernável. Contudo, não compartilha do compromisso de Bolsonaro com a subordinação aos Estados Unidos sob Donald Trump. Tampouco apoia o projeto político da extrema-direita de conquistar a presidência e a maioria absoluta no Senado, destituir Moraes do cargo e nomear a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal, pavimentando assim o caminho para um endurecimento do regime na forma de "poder total".
Diferentemente de 2022 (quando apoiou a candidata centrista Simone Tebet no primeiro turno e Lula, a contragosto, no segundo), a burguesia liberal parece não estar disposta a definir seu apoio agora. Seu plano parece ser mais o de pressionar Lula para melhorar sua posição de negociação para o que está por vir.
Nesse sentido, é muito provável que sua mudança de posição em favor de Mendonça sirva a outros propósitos: minar o poder que Alexandre de Moraes conquistou com seu papel no julgamento da tentativa de golpe e enterrar a investigação sobre as redes de desinformação da extrema-direita. Ao mesmo tempo, ele pretende enfraquecer Lula e manter incerto o resultado de um possível segundo turno, chantagear o governo e tentar impor, antes das eleições, um severo ajuste fiscal com compromissos públicos claros de corte de gastos públicos em pelo menos dois pontos percentuais do PIB.
Uma escolha aberta
A ideia de que a reeleição de Lula no primeiro turno estava garantida — um cálculo adotado pela direção da campanha — já era falha antes da ascensão meteórica do escritor e psiquiatra Augusto Cury, que chegou ao terceiro lugar nas pesquisas representando o partido Avante. Nos últimos dez dias, a relativa vantagem de Lula evaporou e o risco de derrota tornou-se um perigo real e iminente. Contudo, se o triunfalismo ingênuo é uma postura equivocada, o derrotismo também o é. A disputa permanece em aberto.
Neste ciclo eleitoral, o cenário político passou por diversas transformações: após um início de ano em que Flávio Bolsonaro conseguiu consolidar sua posição como principal figura da oposição — desbancando nomes como Tarcísio de Freitas —, o vazamento de seus áudios com Vorcaro, em maio, mudou tudo. Gilberto Kassab, líder do Partido da Social Democracia (PSD) e um dos principais estrategistas políticos do centro e da direita brasileira, ousou apoiar a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado, então governador de Goiás. Renan Santos, líder emergido do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato à presidência pelo novo partido de direita Missão, também entrou na disputa. Ambos tentaram explorar um espaço na direita em competição com o movimento de Bolsonaro, mas fracassaram, o que devolveu a iniciativa a Lula e desmantelou as tentativas de estabelecer alternativas de centro-direita.
Se a situação mudou radicalmente antes, pode mudar novamente. Mas, em grande medida, isso depende da reação da esquerda.
Uma crise do regime
Esta não é uma convulsão política temporária como tantas outras que ocorreram desde que Lula assumiu a presidência em 2023. Esta é uma verdadeira crise do regime. A extrema-direita está desafiando a própria estrutura institucional, combinando suas posições no Congresso e no Supremo Tribunal Federal com protestos de rua e campanhas na mídia.
Em sua essência, um fator estrutural está em jogo: a relutância das elites sociais em pôr fim definitivamente ao ciclo de golpes, oscilando entre a anistia para os insurgentes e o bloqueio de quaisquer reformas populares. A isso se somam os conflitos entre o Executivo e o Congresso, ou entre o governo Lula e o Centrão, que já haviam aberto caminho para uma espécie de "semipresidencialismo" improvisado. Essa foi a forma que a "defesa da ordem" assumiu, mesmo contra reformas democráticas moderadas e limitadas. A aliança entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal (STF) favorecia a defesa da democracia, mas a pressão reacionária é agora tão grande que ameaça alterar qualitativamente o equilíbrio de poder dentro do próprio STF.
Como se isso não bastasse, a interferência dos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral está se tornando cada vez mais evidente, como também ocorreu no Peru e na Colômbia.
Para derrotar a extrema-direita
A eleição pode ter um resultado desastroso. Ajustar a estratégia para vencer a eleição é, portanto, imprescindível. É evidente que uma tática baseada unicamente na defesa do legado do governo é insuficiente.
Erguer novas bandeiras em defesa da expansão dos direitos, do compromisso com os interesses do povo e fazer promessas não é "demagogia": deve ser uma estratégia de mobilização. Defender o fim imediato da jornada de trabalho "6x1" (seis dias de trabalho seguidos de um dia de descanso) e da semana de trabalho de 40 horas, o transporte público gratuito nas principais cidades, a regulamentação do imposto sobre grandes fortunas, a reforma agrária contra as grandes propriedades rurais, a proibição do jogo online, o fortalecimento de um Sistema Nacional de Saúde e tantas outras causas justas será vital.
Ao mesmo tempo, será necessário manter-se firme diante dos pedidos de anistia para os responsáveis pela tentativa de golpe, como sinal de que não prevalecerão. Aqueles dentro da esquerda radical que, nos últimos anos, argumentaram que a tática central deveria ser a "superação pela esquerda" do governo Lula, baseando-se em suas reais limitações e hesitações, mas subestimando o perigo da extrema direita, agora também enfrentam o desafio de lutar para impedir uma vitória de Flávio Bolsonaro. Não podemos permitir que o que aconteceu na Alemanha com as eleições da Saxônia-Anhalt aconteça no Brasil.
Historiador, ativista do PSOL (Resistência) e autor de O Martelo da História. Ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea (Sundermann, 2016).
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