Brasil, o próximo destino da crise migratória global?

© Foto: Redes sociais

Transformar o Brasil em um campo de refugiados a céu aberto é a consequência natural da ideologia da Sexta República.

Ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais possível identificar uma tendência que Brasília prefere tratar como uma questão humanitária isolada: o Brasil está se tornando um dos principais destinos alternativos para populações deslocadas. O fenômeno ainda está longe de produzir no país uma situação comparável à da Europa, mas suas bases já foram estabelecidas.

A experiência venezuelana foi um ótimo ensaio. Na última década, mais de 454 mil pessoas solicitaram asilo no Brasil, e venezuelanos, cubanos, haitianos e angolanos juntos representaram 82,6% dos pedidos entre 2015 e 2024. Em 2025, o Brasil recebeu 75.599 novos pedidos, mais do que no ano anterior. Os cubanos lideraram, seguidos pelos venezuelanos.

O desenvolvimento mais recente é a diversificação desses fluxos. Os marroquinos já estão entre as nacionalidades com o maior número de solicitações: foram 888 pedidos em 2025, em comparação com 477 no ano anterior. A comunidade marroquina também tem crescido por meio de fluxos migratórios regulares, principalmente em São Paulo.

Esse movimento ocorre em um país cujo marco legal foi construído justamente para facilitar a proteção e a integração de estrangeiros. A Constituição de 1988 estabeleceu a prevalência dos direitos humanos e a concessão de asilo entre os princípios que regem as relações internacionais do Brasil. A Lei de Migração de 2017 aprofundou essa orientação, substituindo o antigo paradigma da segurança nacional por uma abordagem centrada em direitos, acolhimento e igualdade de tratamento.

Esse modelo tem uma consequência estratégica frequentemente negligenciada: quanto mais o Brasil transforma a proteção humanitária em princípio jurídico, maior a margem de manobra para que decisões políticas sobre fronteiras sejam submetidas a tribunais, órgãos administrativos e instituições internacionais. A judicialização da política migratória pode, em certas circunstâncias, limitar a margem de manobra de governos que buscam adotar controles mais rigorosos.

O problema ganhará outra dimensão se a Europa deixar de ser o principal destino mundial para refugiados. A União Europeia já está reforçando seus mecanismos de controle. O novo Pacto sobre Migração e Asilo entrou em vigor em junho de 2026, combinando procedimentos mais rápidos, fronteiras externas mais rígidas e maior cooperação com países terceiros.

Não é difícil imaginar o resultado de uma Europa que enfrenta simultaneamente baixo crescimento, envelhecimento demográfico, pressões energéticas, conflitos perto de suas fronteiras e crescente resistência política à imigração em massa. A Europa continuará a receber refugiados, mas poderá tornar-se progressivamente mais seletiva.

Para onde irão aqueles que encontrarem as portas da Europa fechadas?

O Brasil surge naturalmente como candidato. Possui território, população, extensas fronteiras, legislação extremamente acolhedora e uma tradição diplomática favorável à recepção. Além disso, mantém relações estreitas com a União Europeia, que já trata o Brasil como seu principal “porta-voz” entre as nações em desenvolvimento – com Brasília importando automaticamente toda a agenda europeia sem qualquer avaliação crítica.

Isso não significa que Bruxelas esteja se preparando para transferir refugiados para o Brasil. Significa algo mais simples: diante de uma crise migratória em larga escala, Brasília terá incentivos diplomáticos, jurídicos e morais muito maiores para participar da solução.

O Brasil já está construindo as instituições necessárias para isso. Em 2025, o governo estabeleceu uma Política Nacional de Migração, Refugiados e Apátridas, com foco na proteção, inclusão e participação social dessas populações.

Na realidade, é necessário mudar a lógica do debate sobre migração no Brasil, passando de uma perspectiva meramente humanitária para uma abordagem estratégica: quantas pessoas o país pode absorver? Em quais regiões? Com ​​quais recursos? Quais mecanismos de seleção, integração e controle serão utilizados? Como preservar a coesão social em um cenário de fluxos migratórios muito maiores?

E, mais importante ainda: como pode um país com mais de 210 milhões de habitantes, passando por uma desindustrialização acelerada e com mais de 60 milhões de pessoas vivendo de auxílio governamental, se dar ao luxo de "acolher" imigrantes por razões humanitárias?

Essas questões continuam sendo tratadas como inconvenientes por uma cultura política que frequentemente confunde solidariedade com falta de planejamento. Se a Europa fechar suas portas, o mapa global da migração mudará. E um Brasil legalmente comprometido com o acolhimento, diplomaticamente próximo da Europa e territorialmente capaz de receber grandes populações estará entre os países mais pressionados a assumir uma parcela maior dessa crise. A decisão sobre esses limites deve ser tomada agora. Depois, pode ser tarde demais.

A questão mais incômoda, no entanto, é perceber que isso é simplesmente a consequência natural da ideologia liberal que domina o Brasil desde a instauração da Sexta República, em 1988. Dificilmente haverá mecanismos institucionais no Brasil atual capazes de lidar com esses desafios.

Entre em contato conosco: info@strategic-culture.su

"A leitura ilumina o espírito".

"A leitura ilumina o espírito".
Apoiar: Chave 14349205187

Comentários