"Contos de fadas" no regresso às aulas



Eva García [*]

As autoridades de Caracas estimam que mais de seis milhões de jovens retiraram com relutância os seus uniformes apertados, sacudiram as mochilas remendadas e desenterraram os seus livros escolares com os cantos dobrados após as férias de verão.

Mas o que os aguardava quando se dirigiram com passos pesados às 27 000 escolas do país, com uma mistura de ansiedade, emoção e talvez até repugnância a pairar nas suas mentes? Será que as autoridades teriam pintado ou reparado as suas salas de aula? Ter-lhes-iam fornecido mochilas novas e material escolar? Que delícias poderia oferecer o programa de alimentação escolar, como costumava fazer há alguns anos?

Muitos terão ficado um tanto desiludidos com o que encontraram, uma vez que as autoridades se empenham cada vez mais em cortejar o grande capital industrial estrangeiro, ao invés de financiar o investimento social.

Enquanto a infame dupla Delcy e Donald salta e grita para louvar publicamente os seus "êxitos" ao garantir investimentos vertiginosos de milhares de milhões de dólares em petróleo e gás,   minas e rede elétrica, o seu silêncio ensurdecedor sobre o setor educativo atordoa tanto professores como pais, que observam como a flexibilidade orçamental do governo deixa amplos setores da próxima geração desorientados.

Os "contos de fadas" do governo

Federação Venezuelana de Professores.

A Federação Venezuelana de Professores (FVM) — uma das maiores federações sindicais do setor, que agrupa dezenas de sindicatos mais pequenos — apresentou uma visão da situação das escolas através da sua contundente declaração na véspera do novo ano letivo.

A FVM denunciou as deficiências na infraestrutura escolar, incluindo a falta constante de água potável (uma em cada quatro escolas sofreu deficiências em 2025) e de eletricidade, bem como a ausência quase total do programa de alimentação escolar.

Outros sindicatos e sindicalistas fizeram-se eco dessas críticas. No populoso estado ocidental de Zulia, por exemplo, o sindicalista Gualberto Mas afirmou que "8 em cada 10 escolas [em Zulia] carecem de eletricidade e água corrente regular, não têm carteiras suficientes… este é um início vergonhoso do ano letivo", enquanto no estado oriental de Bolívar, 80% das escolas não se encontravam em condições adequadas, segundo o Colégio de Professores da região.

A FVM também criticou duramente os recentes comentários do ministro da Educação sobre tornar o ano letivo de 2026-27 "maravilhoso" por meio de "abraços", "felicidade" e "ler um conto" às crianças — tudo isto com o objetivo de criar uma narrativa ao estilo de "Cinderela", cheia de magia, de passagem da pobreza à riqueza e de maravilhas, num sistema que, segundo se diz, está profundamente deteriorado.

"As famílias venezuelanas não precisam de recomendações ministeriais nem de sermões sobre como ouvir ou demonstrar afeto aos seus filhos", replicou a FVM. "Os pais venezuelanos olham nos olhos dos seus filhos e deparam-se diariamente com a crua realidade de escolas desmanteladas e de um sistema educativo em ruínas. As famílias precisam da atenção do Estado".

"A realidade não é um conto de fadas... Não é a falta de abraços ou de afeto em casa que viola o direito das crianças à educação, mas sim o Estado, que cometeu uma negligência flagrante da sua obrigação constitucional e do seu compromisso para com a sociedade de garantir um sistema educativo gratuito, público, obrigatório e de qualidade". Aqui não há fadas madrinhas!

Bónus para professores de 0,015 dólares

A FVM também destacou a consternação generalizada perante o recente bónus pago aos 500 000 a 600 000 professores para dar início ao novo ano letivo. Descreveu o bónus de 12,50 bolívares (o equivalente a um cêntimo e meio de dólar americano, com o qual nem sequer se conseguiriam comprar alguns feijões mágicos) como "cinismo na sua máxima expressão".

O sindicato também criticou duramente a política de destruição salarial do governo, que — apesar das afirmações dos sete anões do Ministério da Educação — faz com que a maioria dos professores ganhe entre 0,30 e 1,50 dólares por mês de salário, com rendimentos complementados por bónus esporádicos e não universais. Os subsídios por doença, férias e despedimento, bem como outros benefícios como os subsídios de Natal e as pensões, são calculados com base em salários inferiores a $5, sem ter em conta os bónus complementares. O cabaz básico familiar para manter o lobo afastado foi estimado em US$727 em agosto.

"Os bónus não são salários", clamava o comunicado da FVM, repetindo um slogan já muito conhecido que se ouve nos cada vez mais frequentes e amplos protestos, marchas e greves intersindicais que vêm ocorrendo há mais de três anos, nos quais a FVM sustenta que "o salário-base foi completamente destruído".

"A qualidade da educação não se alcança com retórica nem com promessas vazias", afirmava. "Constroi-se com orçamentos adequados, escolas que funcionem e professores respeitados, qualificados e bem remunerados", uma afirmação com a qual a maioria das famílias trabalhadoras venezuelanas concordaria, independentemente das suas tendências políticas ou das da FVM.

O dilema dos pais

Mas, tal como os três ursinhos que, ao regressarem a casa, descobriram que a sua aveia tinha acabado, neste conto de fadas não são só os professores que sentem a pressão.

As famílias (incluindo a minha) também estão a passar por dificuldades, e a crise que antecede o início do ano letivo obriga-as a tomar decisões difíceis, que vão além dos conflitos nas salas de aula e se estendem a quase todos os setores da sociedade.

Com uniformes escolares que custam até 150 dólares, seguros escolares de até 50 dólares e as odiadas "listas" de material escolar que as escolas exigem a cada aluno (que incluem desde canetas e lápis até produtos de limpeza e material médico básico), cujo custo total muitas vezes ultrapassa os 100 dólares, os pais esforçam-se por fazer magia com os seus salários mensais de $5, $50 ou até $200, tão modestos como os do Pequeno Polegar.

Muitos também enfrentam o dilema de onde os seus filhos devem estudar.

O outrora "maravilhoso" sistema de ensino público — que abrange cerca de 84% do número de alunos matriculados na Venezuela — oferece uma opção próxima e gratuita. Contudo, a maioria das escolas públicas nem sequer dispõe de um marcador para quadro branco ou de carteiras suficientes na sala de aula, e os explorados pais trabalhadores são obrigados a providenciar quase tudo. Estima-se que 97 000 professores (um quinto de todo o pessoal docente) tenham subido pelo tronco gigante e fugido do país em busca de melhores salários, enquanto aqueles que ficam têm muitas vezes de trabalhar noutros empregos para sobreviver. Isto deixou muitas salas de aula sem pessoal qualificado (estima-se uma escassez de 60% em ciências, de 70% em ciências sociais, de 40% em espanhol e literatura e de 80% em línguas estrangeiras). As horas letivas também são, por vezes, reduzidas a apenas duas aulas por dia, o que afeta grave e profundamente o nível académico do sistema público e deixa aos pais a tarefa de "reforçar pedagogicamente" em casa — se tiverem o tempo e os conhecimentos necessários — para preparar os seus filhos com as ferramentas mínimas de que necessitam para o futuro.

O sistema privado, incluindo as escolas católicas ou subsidiadas, já não é apenas uma opção "burguesa", apesar de as suas propinas serem cobradas em dólares americanos (entre 50 e 100 dólares ou mais por mês). Estas escolas oferecem melhores condições e têm conseguido, na sua maioria, manter professores decentes graças a salários mais elevados, o que garante níveis académicos em grande medida superiores. No entanto, a maioria também exige propinas de inscrição (até 100 dólares), contribuições "especiais" para reparações ou manutenção de infraestruturas (até 100 dólares), seguro escolar e a "lista" de material para a sala de aula, o que, no total, perfaz uma quantia considerável que até mesmo Dick Whittington[NR] teria dificuldade em pagar.

Este dilema levou muitas famílias trabalhadoras a considerar sacrifícios económicos insustentáveis a fim de dar prioridade à educação e enviar os seus filhos para escolas privadas subsidiadas, enquanto milhares de outras ficam com os seus sonhos impossíveis de concretizar, uma vez que a crise do custo de vida, somada à inflação do dólar e aos salários congelados, torna essas esperanças insustentáveis.

Para outros, esta equação sem solução revelou-se uma das principais razões por trás da sua decisão de emigrar, em busca de melhores salários, mas também de um futuro para os seus filhos.

Outros optam por não enviar os seus filhos à escola de todo. Estima-se que 1,5 milhão de crianças tenham ficado de fora das listas de matrícula em 2024, e um inquérito de 2023 revelou que, entre as razões pelas quais as crianças não frequentavam a escola, se contavam a necessidade de trabalhar (46%), a gravidez precoce (30%), as tarefas domésticas (26%) e a falta de recursos para o transporte (24%).

Sanções, má gestão e corrupção

Tal como acontece com todos os aspetos do colapso económico venezuelano, as causas da deterioração educativa são múltiplas e reforçam-se mutuamente.

Alguns podem interpretar esta realidade das condições materiais com uma única palavra na ponta da língua:   sanções. A esses leitores diria:   sim, claro, mas não podem ser usadas para encobrir outros fracassos descarados do governo do PSUV. Onde estão as sanções contra a produção local de esferográficas e papel? Onde estão as sanções que obrigam o Estado venezuelano a destruir os salários dos professores, enquanto os funcionários continuam a roubar milhões? De que forma é que as sanções impedem o governo de desenvolver uma linha política para atrair de volta ao país os bons professores?

As sanções certamente prejudicaram a capacidade da Venezuela de importar peças de substituição essenciais para a rede elétrica ou a rede de água. Sem dúvida, paralisaram a produção petrolífera e o PIB, o que obrigou a cortes orçamentais. Isto é inegável e manifestamente criminoso.

No entanto, a corrupção governamental, a má gestão e a priorização de outras rubricas orçamentais (como a manutenção da dívida externa de 13,5 mil milhões de dólares), bem como a atual submissão total à agenda económica neoliberal de Washington, também são fatores importantes na deterioração do setor educativo.

Quantos professores poderiam ter sido melhor pagos melhor os 21 mil milhões de dólares que o ex-ministro do Petróleo Tareck El Aissami roubou ou com os 195 milhões de dólares que Alex Saab "se ofereceu" para pagar com o seu dinheiro lavado? Por que razão o governo implementa um programa chamado "A minha igreja bem equipada", mas são os pais trabalhadores que têm de comprar os cadernos e o giz para as salas de aula? Se o PIB cresceu durante 21 trimestres consecutivos e os lucros estão a aumentar, por que razão os salários estão congelados há quatro anos e meio e os bónus são tão ridiculamente baixos?

Perante esta realidade, é compreensível que o apelo do ministro para dar mais "abraços", o bónus de 0,01 dólares do governo e a clara deterioração das infraestruturas educativas — em contraste com os investimentos maciços noutros setores, o desmantelamento das sanções dos EUA e a generosa dotação orçamental para outras prioridades — tenham sido recebidos com raiva e indignação pela classe trabalhadora.

Estas medidas não farão mais do que atiçar o conflito laboral no setor da educação, que tem sido um dos mais dinâmicos nos últimos anos, levando frequentemente outros setores a sair à rua e a fazer greve em solidariedade, enquanto tentam soprar e soprar para derrubar esta casa — com novos protestos universitários previstos para 24 de setembro. Mas os protestos em massa e as marchas têm recebido a mesma resposta de sempre por parte do governo, e a política de destruição salarial deixa agora os apoiantes do governo sem lugar onde se esconderem.

Como mãe, a sensibilidade perante o desinvestimento na educação toca-me no coração, transcendendo os discursos políticos e trazendo-me boas recordações das escolas públicas da era de Chávez, equipadas com tudo o que era necessário, incluindo professores bem formados e bem remunerados. Isto não foi um conto de fadas.

Embora uma recuperação nos setores do petróleo, do gás ou da mineração venha inevitavelmente a gerar lucros rápidos para a infame dupla D&D que detém as rédeas na Venezuela, esse dinheiro ficará principalmente numa conta bancária nos EUA e levará décadas a chegar às escolas venezuelanas, se é que os quarenta ladrões o permitirão.

Isto leva-nos a questionar: o que significa isto para o futuro da Venezuela, e de onde virão os médicos, engenheiros e professores de amanhã, dado o enorme atraso educativo geracional que se está a criar?

[NR] Personagem do folclore inglês. V. en.wikipedia.org/wiki/Dick_Whittington_and_His_Cat

21/Setembro/2026

[*] Jornalista, venezuelana, evagarciaperiodista@gmail.com

Ver também:
  • Venezuela vai transferir US$ 4 mil milhões em ouro de Londres para os EUA (31 toneladas)
  • A versão em inglês encontra-se em mltoday.com/the-venezuela-flex-back-to-school-fairy-tales/.

    Este artigo encontra-se em resistir.info



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